Lisboa, 6 de março
Hoje acordei cedo, como de costume, com uma brisa fresca que atravessava a janela do meu quarto aqui na aldeia. A rotina tranquila do campo sempre me trouxe paz, entre regar as hortas, cuidar das galinhas e arrumar a casa. No entanto, há tempos que essa tranquilidade se esvaiu, substituída por preocupações constantes com a família do meu filho, que vive na cidade. O meu neto, Tomás, sempre foi um rapaz educado e calmo. Tinha boas notas na escola, mas acabou por não seguir estudos superiores, preferindo trabalhar numa fábrica de conservas em Setúbal. Casou-se jovem, nasceu-lhe um filho, mas a vida de Tomás mudou para pior quando se deixou levar pelo vício do álcool.
Começou a andar com más companhias, numa espiral de escolhas que só traziam discussões e desunião à família. O seu casamento estava por um fio. Na esperança de ajudar, convidei-o para vir viver comigo. Pensei que um novo ambiente e o apoio da família poderiam fazer-lhe bem, além de me ajudarem com a solidão que se instala na velhice e, talvez, nas lides da casa e do quintal.
Nos primeiros tempos, senti que resultara. Tomás parecia mais calmo, até a esposa veio com o filho para cá e todos colaboravam nos trabalhos do campo. Por uns momentos, acreditei que tudo podia melhorar. Contudo, depois de um mês, o Tomás regressou aos velhos hábitos. Não tardou muito até a mulher pegar no menino e ir-se embora. Tomás não pareceu abalado; em vez disso, encontrou nova companhia, alguém que partilhava dos mesmos interesses e ambos passaram a viver cá em casa, sem darem atenção aos meus sentimentos.
Os problemas financeiros começaram a pesar. Os credores batiam à porta a cobrar dívidas e o Tomás até chegou ao ponto de pedir dinheiro aos meus amigos do café, o que me envergonhou profundamente. Mesmo assim, ainda achou modo de me convencer a passar-lhe a casa para o nome dele, e agora vivo com medo de um dia ser posta fora daquilo que sempre foi meu. Tomás e o novo parceiro limitam-se a viver às minhas custas, sem vontade de ajudar ou colaborar.
Hoje, cansada e triste, desabafei em voz alta: “Se existe inferno no outro mundo, não o receio, pois já o vivi nesta vida.” E parece que os dois agora querem montar um negócio próprio e foram pedir um empréstimo ao bancomais uma dívida, mais um risco. Se algo correr mal, temo que acabemos todos, sem teto, na rua, enfrentando as consequências das decisões que eles tomaram.
Ponho estes pensamentos no papel à noite, na esperança de, ao escrever, aliviar o peito apertado e encontrar alguma lucidez no meio da confusão em que esta casa se transformou.







