Filha, devo esperar por ti no domingo? perguntei com voz aveludada à minha filha, Margarida.
Claro que sim, mãe respondeu ela, num tom tão habitual quanto improvável.
Preparei-me, então, para a chegada dos meus filhos. Queria surpreendê-los com algo delicioso. Limpei a casa de alto a baixo, organizei tudo com precisão. Pus a toalha bordada, alinhei os talheres, enchi os copos de vinho do Dão. Só faltava esperar. O relógio da parede, com os azulejos em tons de azul, espreguiçava-se pelo tempo e nenhum sinal deles. Um pressentimento estranho cresceu-me no peito será que havia acontecido alguma coisa? Queria oferecer aos meus meninos algum dinheiro, uns bons euros, para lhes ajudar a comprar o carro novo com que tanto sonhavam.
Peguei no telefone de disco e marquei o número da Margarida. Do outro lado, ouvi a voz dela, sonolenta e distante, como se falasse baixinho numa noite de nevoeiro em Aveiro:
Oh mãe, esqueci-me completamente que íamos aí
Estás a dizer-me que estes dois dias de preparativos foram em vão? E hoje é o meu aniversário
Mãe, amanhã vamos de certeza. Andei tão ocupada, nem dei pelo tempo a passar. Não fiques triste.
Fechei os olhos, desliguei o telefone e senti uma tristeza funda, como uma maré preta no porto de Lisboa. Deitei fora tudo o que tinha preparado, cada travessa de bacalhau, cada fatia de pão caseiro. Depois, arrumei uma maleta, peguei os euros destinados aos filhos, e fui até um balneário no Algarve.
Aquele verão desenrolou-se como uma fita mágica. Certa tarde, no jardim, um senhor de ar distinto aproximou-se e convidou-me para tomar café: chamava-se Filipe, ex-juiz, contava histórias como quem lança cartas sobre uma mesa de feltro. E eu, entre goles de bica, contei-lhe da minha vida, de netos correndo na praia, de silêncios em manhãs de domingo.
Entre nós, a paixão emergiu, náufraga e segura como barcaça no Tejo. Antes de partirmos, Filipe propôs:
Tenho um T2 em Cascais e uma reforma confortável. Podemos ir ao cinema, aos jardins, passear junto ao rio Queres viver comigo?
Fiquei suspensa. E os filhos? E os netos?
Eles têm as próprias vidas, amor murmurou Filipe, como se soletrasse um antigo provérbio alentejano. Virão visitar-nos.
Nesse instante, o eco do esquecimento da minha filha voltou e aceitei, sem medo.
Uma semana depois, regressei a casa. Na porta, um papel gritava por uma mulher desaparecida. Custava-me ler, as letras dançavam como sardinhas na Feira de Santo António.
Estão à tua procura, não estão? riu-se Filipe.
Deve ser a Margarida suspirei.
Não sabia da tua viagem?
Não, ninguém sabia.
De súbito, Margarida surgiu nas escadas, esvoaçante como se saísse de um sonho.
Mãe, onde estiveste? Procurámo-nos em todo o lado!
Fui de férias. Também preciso de cuidar de mim e dos meus silêncios. Este é o Filipe. Vamos viver juntos.
Não percebo, mãe
Não te preocupes. Não há nada de errado comigo. Não queres a minha felicidade?
Quero, claro.
Pronto. Anda cá, trago umas lembranças algarvias para ti. Terias coragem de mudar de rumo tão de repente, Margarida?







