– Nem tudo corre bem para mim – respondeu Helena. – O meu padrasto está sempre a ralhar comigo.

Como te chamas, princesa? O estranho agachou-se ao lado da rapariga. Matilde! respondeu ela. E tu? Eu sou Ricardo, eu e a tua mãe vamos viver juntos. A partir de agora somos todos uma família tu, eu e a tua mãe!

Pouco depois, a minha mãe e eu mudámo-nos para a casa do Ricardo. O padrasto tinha um apartamento amplo em Lisboa com três quartos, onde fui recebida com o meu próprio cantinho. Ricardo era carinhoso, comprava-me rebuçados e brinquedos, enquanto o meu pai só telefonava quando queria discutir com a minha mãe.

Foi então que a minha mãe explicou que o meu pai já tinha outra família e se tinha mudado. Fiquei magoada, porque sempre gostei muito dele. A minha mãe podia gritar comigo ou até dar-me uma palmada, mas o meu pai nunca fazia isso. Lembro-me perfeitamente do dia em que eles se divorciaram: a minha mãe gritou, quase o quis bater, e nunca esquecerei o que ela lhe disse no final:

Não penses que foste tu o primeiro a trair-me, já tens chifres há muito tempo, pareces um veado!

Depois disso, a mãe fez as malas e fomos morar com a avó, no Porto. Eu não percebia porque é que o pai tinha chifres, ainda por cima ele era careca e nem cabelo tinha. Nunca mais se falaram.

Com o Ricardo as coisas correram bem, pelo menos até eu entrar para o primeiro ano da escola primária. Detestava a escola, fazia travessuras nos intervalos, e os meus pais eram chamados constantemente pela professora; por vezes era o Ricardo que tinha de ir, em vez da mãe. Ele era exigente quanto aos meus estudos e fazia muitas vezes os trabalhos de casa comigo.

Tu não és nada meu, não mandas em mim! dizia-lhe eu, repetindo o que ouvia da avó. Mas eu sou teu pai agora, sou eu que te dou de comer e te visto respondia-me ele.

Quando fiz dez anos, o meu verdadeiro pai voltou a Lisboa. Nessa altura já eu sabia bem o significado de ter chifres e até ouvi a mãe dizer que certamente a segunda mulher dele também lhe deu para trás, por isso ele voltou. Pediu para me ver e a mãe aceitou. Fiquei contente por o reencontrar.

Como tens passado? perguntou-me o pai. Mal respondi. O meu padrasto está sempre a implicar comigo. Ele não tem direito de te gritar, tu és minha filha! disse ele, irritado. A avó diz isso mesmo, mas ele nem liga. Exagerei, pois o Ricardo nunca chegou a gritar; só queria que o meu pai se preocupasse.

Deixa lá, eu resolvo isso prometeu o pai. Fomos juntos ao Jardim da Estrela e descobrimos que só podíamos ir em oito dos escorregas; nos outros só acompanhado de adulto, mas o pai recusou ir ao carrossel. Disse-lhe que fazia anos em breve e queria um telemóvel novo. Quando a mãe veio buscar-me, explicou-lhe que o Ricardo não me gritava, mas o pai não quis ouvir.

O meu pai é mesmo forreta! disse eu ao Ricardo. Não me comprou nada, nem um brinquedo, só um gelado. Foste tu que me levaste ao parque, és melhor que ele! Então vamos compensar isso e passamos o fim de semana no parque infantil de Belém.

Mas, infelizmente, no dia combinado, o Ricardo teve um problema no trabalho. Também ignorou as minhas dicas sobre o telemóvel novo.

Pai, o Ricardo enganou-me! Desabafei, chorando. Disse que íamos ao parque e depois disse que nem merecia passeio nem telemóvel novo.

Mentira ou não, isto fez com que o meu pai corresse à FNAC e me comprasse um telemóvel. Da outra vez, não fez caso, mas agora, por magia, o sonho realizou-se. Só que comprou-me um modelo barato, pois não havia dinheiro para um topo de gama.

Não podias ter esperado até o teu aniversário? comentou Ricardo. Eu queria era ter um cão! respondi. Isso não, rapazinha disse ele. Um cão dá trabalho e aposto que depois nem o vais querer passear!

Com estas palavras, entrei em pânico, liguei ao meu pai e comecei a fazer queixas: Pai, tira-me daqui, por favor! O Ricardo está sempre a implicar e a dar-me lições! gritei.

A discussão instalou-se entre todos. Fui mandada para a casa da avó, e pouco depois a mãe chegou lá com as nossas coisas e anunciou que ia separar-se do Ricardo. O meu pai voltou para a mulher porque afinal ela estava grávida. Agora percebi que não ia ter nem telemóvel novo nem cão, e a avó já me disse que nem um gato me deixa ter!

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– Nem tudo corre bem para mim – respondeu Helena. – O meu padrasto está sempre a ralhar comigo.
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