Foi mais prático assim! O meu vizinho derrubou a vedação para usar o meu jardim.

Vivo na minha casa há mais de vinte anos, e o meu vizinho está por aqui há quase o mesmo tempo. Ele começou as obras quando eu já estava a tratar dos acabamentos interiores.

Conhecemo-nos bem, sempre mantivemos contacto e até costumávamos visitar-nos, mas nunca fomos íntimos.

Naquele inverno, por questões de saúde, fiquei algum tempo na casa da minha filha Beatriz. Só quando a primavera trouxe calor, planeei o regresso.

Voltei no fim de abril, com a neve totalmente derretida. A casa estava como a deixei, embora eu estivesse nervosa. Por isso, dediquei-me logo a cuidar do jardim da frente e da horta pequena. Pus tudo em ordem junto à entrada.

Tenho duas estufas modestas. Plantei pepinos e pimentos numa, e tomates noutra.

Nos canteiros, havia morangos, cenouras, cebola e coentros. Ao longo da vedação que me separa do vizinho, cresciam groselhas e groselheiras. Nem tudo passou despercebido: outra vez, algo me inquietou. Beatriz levou-me para Lisboa, e durante o verão ainda me mandou para um spa no Algarve por um mês, para recuperar.

Finalmente, em setembro, senti-me forte outra vez. Voltei à minha casa. Assim que entrei no quintal, reparei que a nossa cerca de madeira, que dividia o jardim do meu vizinho Manuel, estava quebrada a tal ponto que ele podia atravessar directamente para a minha horta.

Era claro como água que Manuel vinha usando as minhas estufas e canteiros. Nem sequer me telefonou a pedir autorização. O meu número ele tinha.

Fiquei profundamente incomodada, óbvio. Confrontei-o com o estrago na cerca. Ele admitiu, sem cerimónia, que assim lhe era mais cómodo visitar as estufas e os canteiros do meu lado. Expressei o meu desagrado, mas Manuel permaneceu impassível. Deixei claro que não admitia que ninguém entrasse no meu jardim sem permissão.

Pedi-lhe também que fosse ele a reparar a parte da cerca danificada, e acrescentei sem que me interessasse mesmo pelos legumes que seria justo partilhar a colheita comigo. No fundo, queria apenas dar-lhe uma lição, daquelas que não se esquecem facilmente.

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Foi mais prático assim! O meu vizinho derrubou a vedação para usar o meu jardim.
“Tenho imensos cadernos!” – Assim levava a professora do nosso filho à escola.