Olívia, abre a porta à visita disse a minha irmã, empurrando a mala com o pé para dentro do hall.
Sábado, já passava do meio-dia, eu Olívia estava no sofá, deixava-me ficar a pensar no nada, quando tocaram à campainha.
Duas vezes. Depois mais três. E depois, prolongadamente, sem largar.
O António, sem desviar os olhos do televisor, comentou com aquela voz lenta de quem não quer saber:
Deve ser alguém com muita vontade.
Abri a porta e lá estava ela: a minha irmã mais nova, Mariana. Trazia duas malas enormes, uma mala de ombro e aquele ar satisfeito de quem tomou uma decisão importante.
Olívia, olá! Prepara-te para receber visitas disse, empurrando a primeira mala para o hall com um jeito quase profissional, como se tivesse feito aquilo a vida toda.
Deixei-a passar, quase por reflexo. Quarenta anos de irmandade não são brincadeira o corpo antecipa-se ao pensamento.
Vais ficar quanto tempo? perguntei, fitando a segunda mala.
A Mariana tirou o casaco, pendurou no cabide claro, no que já estava ocupado pelo meu e lançou aquele olhar de quem inspeciona obras.
Vim para ficar, Olívia. Estou de mudança. Vocês têm um T3, são só dois… Uma divisão a mais é desperdício, não achas? Achei melhor vir.
Fiquei a olhar para ela. Achou ela.
Na sala, o António subiu discretamente o volume da televisão.
Mariana, espera lá… Estás a falar a sério?
Muito a sério, já a ver os quartos e a abrir portas. Olha, esta serve. Tem luz, dá para o jardim. E é sossegada.
Era o quarto de hóspedes o dos caixotes com roupas dos outros dias, da máquina de costura, do velho sofá.
Mariana… segui-a até à porta. Nem sequer falámos disto.
Mas havia motivo para falar? Somos família, Olívia. Família partilha tudo. Sempre foi o que a mãe dizia.
Pensei logo que a mãe era melhor nem puxar à conversa naquele instante.
Do lado, a televisão recitava o boletim meteorológico, e o António parecia determinado a absorvê-lo nos pormenores.
A Mariana já abria a mala, acomodava-se como se voltasse a casa que sempre fora dela.
Primeiro moveu a cama Não suporto a cabeceira à janela, Olívia, faz-me mal à cervical! depois encostou a máquina de costura ao canto. Para que é que a queres aqui? Ainda costuras? Não? Então, pronto. Eu só a via encostar os móveis, mordendo a língua.
Ao fim do dia, já estavam na entrada umas chinelas de pelo, fofas, com pompons, daquelas que só se veem nos feirantes do Mercado da Ribeira. Ao lado delas, os sapatos discretos que uso para ir à missa pareciam os de uma bibliotecária ao pé de um urso de circo.
Ao jantar, o António comia calado, fitando a sopa como se procurasse sinais do futuro.
Está bom o caldo verde, disse ele.
É caldo verde, não tem nada que saber. António, vocês têm ventoinha cá em casa? O quarto está abafado.
O António ergueu o olhar, primeiro para a Mariana, depois para mim.
Vamos procurar, murmurou.
Dei um suspiro tão fundo que me soou dos pés.
No terceiro dia, a Mariana virou-se para o frigorífico.
Mas não foi olhar apenas. Fez um inventário. Como se estudasse uma nova espécie.
Olívia, tens o leite a passar do prazo.
Eu sei, ainda não deitei fora.
E para que queres três manteigas? Estorvam…
Mariana, o frigorífico é meu.
E daí? Não sou estranha.
Dizia esta frase como se desbloqueasse todas as situações. Aparecia-me dezenas de vezes por dia e tentava sempre não responder aquilo que me vinha à cabeça: Neste assunto, Mariana, és sim uma estranha. Mas calava.
A Mariana sentia-se cada vez mais em casa.
Sabia quando o António ia para o grupo de carpintaria, quando voltava. Sabia a hora do meu telefilme e, nessa altura, lá vinha ela com uma chávena de chá para conversar: sobre a vida, os vizinhos (os meus, que ela já fazia dela), o tempo, bastava-lhe começar. Sobre política então, não se calava nunca.
Eu ouvia, acenava, espreitava a protagonista sofrer no ecrã e pensava que a minha novela não era menos dramática.
De manhã, levantava-se antes de todos.
Sempre pensei que a Mariana fosse notívaga. Afinal, madrugadora, e cheia de energia. Seis horas e já tinia loiça e a frigideira chiava. E ela:
António, queres ovos mexidos? Olívia, com ou sem tomate? Achei aqui queijo duro, ralei, não se vai deitar fora!
O António vinha à cozinha com cara de quem foi acordado e já não sabe protestar. Sentava-se. Comia. Agradecia.
Eu ficava à porta, de robe, a olhar.
Ela serve o pequeno-almoço ao meu marido. Na minha casa.
E aí percebi: havia dentro de mim uma peça que tinha acabado de encaixar.
Sentei-me com o café no parapeito da janela e liguei à minha filha.
Beatriz, estás ocupada?
Não, mãe. Porquê?
Vem ter cá a casa. Preciso de falar.
A Beatriz chegou ao almoço de domingo, trouxe bolo, abraçou-me, sentou-se e pediu-me baixo:
Conta, mãe.
Desabafei tudo. As malas. As chinelas com pompom. A máquina de costura encostada. O queijo duro, os ovos mexidos matinais.
A Beatriz ouvia, apenas franzia a testa uma, duas vezes, parecia quase tocar o cabelo.
Mãe. Ela paga por estar cá? Pela comida, pela luz?
Diz que sim, que paga a despesa da comida.
Diz… ou paga mesmo?
Fiquei calada.
Diz.
A Beatriz olhou para o corredor, onde se escondia o quarto de hóspedes.
Nessa altura, a Mariana surgiu. Viu a Beatriz, abriu um sorriso sincero de quem não guarda nada.
Beatriz! Que bom teres vindo! Olívia, onde guardas o açúcar? Já não há na taça.
No armário, respondi.
Posso tirar?
Tira.
Ela pegou. Mexeu no café, provou, assentiu consigo própria.
A Beatriz fitava-a com uma calma de quem já decidiu tudo antes da conversa.
Tia Mariana, vendeste a tua casa, não foi?
Pausa.
Curta, mas ficou tudo dito.
Quem te contou isso? pousou a chávena.
A tia Amélia. Ligou ontem e mencionou.
A Mariana olhou-me. Eu olhei pela janela.
E então? Vendi, sim. Tenho dinheiro, estou só a ver o mercado. Agora não dá jeito comprar. Fico um tempo, junto mais, logo se vê.
Um tempo… quanto tempo?
Um ano, talvez dois. Depende.
Desviei os olhos da janela.
Mariana, disse, e a minha voz saiu baixa mas firme Recebeste o dinheiro da casa e vieste instalar-te cá para não gastares, é isso?
Olívia, para quê esse tom…
É isso ou não?
Somos irmãs! atirou a última chave-mestra.
Mas, desta vez, já não servia.
A Beatriz vai ficar aqui no quarto dos hóspedes, com a família. Convidei-os. Mudam-se para a semana.
Mariana ficou a mirar a Beatriz. A minha filha bebericava o chá, com aquela segurança de quem tem o jogo na mão.
Quando é que decidiste isso? tentou ela.
Agora.
Mentira: a Beatriz tinha a vida dela, não ia mudar nada. Mas olhei para a Mariana com uma certeza que nunca tive.
Mariana esteve calada um pouco. Depois levantou-se, ajeitou o roupão.
Pronto, está bem.
E recolheu-se ao quarto.
Foram dois dias de arrumações, sem pressas. Ouviam-se sacos, cabides, a cama a ser posta no sítio antigo… Eu não entrei. O António também não.
Na quarta-feira de manhã, Mariana apareceu com as duas malas. Parou na porta da cozinha.
Vou para casa da Tamara. Já me andava a convidar.
Está bem, respondi.
Liga-me de vez em quando.
Ligo, garanti.
Ela pegou na mala.
Olívia, disse-me de costas. Mudaste.
Pensei um segundo.
Mudou quem precisava, respondi.
Ela fechou a porta.
Fiquei um bocado no corredor. Olhei para o cabide, onde já não estava o casaco dela. No chão, já não havia chinelas de pompom. Senti a casa mais leve.
Fui ao quarto de hóspedes. Abri a janela.
Pus a máquina de costura no lugar antigo, encostada à janela, onde sempre pertenceu.
À noite, a Beatriz ligou-me:
Então, já foi?
Já.
E agora?
Pensei.
Agora estou bem, disse, sincero. Muito bem.
Lá fora escurecia. O António baralhava a loiça na cozinha e poucas coisas me soaram tão reconfortantes. Aprendi que, afinal, até no meio da família, é preciso saber pôr limites e isso, às vezes, é o maior gesto de carinho.







