À minha sogra ofereci um presente tão surpreendente que ela até ficou maldisposta! E vai sempre tremer cada vez que olhar para ele.

Querido diário,

Hoje preciso descarregar: ofereci à minha sogra um presente capaz de deixá-la incomodada cada vez que o olhar! Aposto até que fica sem saber o que fazer não pode jogar fora, vai ter que deixar à mostra. Parece cruel, mas foi a primeira coisa que pensei depois de tantos anos aguentando a Dona Graça! Em quinze anos de casamento com o Bruno, nunca ouvi um elogio daquela mulher. Sempre tão seca, olhando-me de alto a baixo com aqueles olhos negros só o olhar já era uma incômoda conversa. Só visito a casa dela uma vez por ano, e mesmo assim por cinco minutos, como manda a tradição. A verdade é que detesto o ambiente.

Foi sobre isso que desabafei hoje com a minha melhor amiga, Filipa. Ela, claro, concordou sem pestanejar. Também não taba com a sogra, a Dona Isilda. E assim, entre queixas e risadas, começámos a tarde do nosso habitual encontro de sábado eu, ela e Leonor, nossa terceira amiga, que chegou um pouquinho depois, já a sentir o cheiro dos bolos de bacalhau que tinha feito para nos mimar. Eu sou cabeleireira e, entre um corte e outro, estava de saída para atender clientes.

Quando Filipa me perguntou qual era o meu presente para Dona Graça, contei de imediato. Senti satisfação em lembrar como entreguei o pacote, todo embrulhado em papel colorido. Fiz questão de dizer para só abrir quando eu já tivesse ido embora só para garantir que a surpresa azedasse o resto do dia da velha!

De repente, Leonor, até então calada, interrompeu o momento. E então, Catarina, achas que te sentirias melhor se ela desaparecesse da tua vida? disse, com um sorriso estranho no canto da boca. Fiquei sem resposta. A pergunta me cutucou lá no fundo e, por instinto, tentei escapar: Provavelmente. Mas logo calei, sentindo um aperto no peito.

O silêncio pairou, até que Leonor contou que agora trabalhava num lar de cuidados paliativos. Nem a Filipa, nem eu estávamos à espera. Ficámos surpresas; que escolha difícil a dela! Ambas começámos a fazer perguntas, a maior parte delas preocupadas com o salário.

Leonor olhou-me com dureza: Catarina, desculpa, mas só me apetece chamar-te de tola. A frase ecoou dentro de mim e, por segundos, perdi o chão.

Ela continuou: Tu sempre reclamas da tua sogra, dizes que ela nunca te elogiou. Mas esqueces quando precisaram de dinheiro e foi ela quem vendeu aquele apartamento na Baixa para vos ajudar a comprar o vosso T3 em Odivelas? Esqueces quem levou o teu filho ao pediatra de renome, quando ninguém mais sabia o que fazer? Ou quando te cobriste de vergonha depois da noite que dormiste na casa de um colega de escola e a tua sogra foi quem livrou a tua pele ao mentir para o Bruno dizendo que estavas com ela?

Fiquei sem argumentos. E ela ainda lembrou como sempre cheguei a casa cheia de frascos de doce de abóbora, pickles e compotas que a Dona Graça preparava com tanto carinho, porque eu, se depender, não distingo uma planta de tomate de um dente-de-leão.

O amor dela está nas ações, Catarina, não nas palavras, finalizou Leonor. Fiquei paralisada, sem chão para responder. Afinal, talvez tivesse sido injusta todos esses anos.

A conversa mudou depois disso. A Filipa mais calada que o costume, distraía-se comendo os bolos, em silêncio. Era estranho, ninguém me apoiava agora.

Tive vontade de sair dali batendo a porta, de dizer palavras duras. Mas não consegui. Comecei a pensar em Leonor, que perdeu a mãe cedo e muitas vezes ligava, esperando ouvir uma voz do outro lado, sabendo que nunca mais a ouviria. Falou como sentia falta daquele abraço, daquela atenção que dava sentido à vida, e eu ali, com a mãe e a sogra vivas, desperdiçando tudo.

Tu cortas o cabelo de toda a gente, Catarina, mas quando foi a última vez que deixaste a Dona Graça mais bonita? perguntou Leonor. Não soube responder. Nunca, reconheci. E senti vergonha.

Naquele momento, percebi quão pouco sabia da vida da Dona Graça. Sempre fui rápida a rotulá-la, a rir e a fazer piada das suas mãos grossas de tanto trabalhar ou do seu rosto enrugado. Nunca tentei saber das batalhas que enfrentou, das pessoas que perdeu, de tudo o que dedicou ao único filho que ainda tinha o Bruno, meu marido, que admiro e amo.

E é claro, ele só é assim graças à educação da mãe. Por que será que nunca reconheci isso?

O remorso apertou. Senti um nó na garganta. Leonor contou casos do lar, de filhos e pais despediando-se, histórias de dor e amor, de saudade e de pedidos atrasados. Cada palavra dela era um espelho para mim. Como pode alguém valorizar só depois de perder? Será que eu estava mesmo a viver, ou a desperdiçar a vida em mágoas infundadas?

Filipa, por sua vez, agiu. Mandou mensagem ao marido a combinar um jantar em casa com os pais dele, para verem um filme juntos até a sogra tinha que ir! Hoje vamos celebrar em família, disse ao sair apressada.

Eu, atordoada, tentei manter o dia normal. Mas o peso no peito não me deixava.

Peguei no telemóvel, cancelei todos os clientes do resto do dia e fui direta a casa da Dona Graça, sem avisar ninguém nem o Bruno, que estava sem rede. Cheguei já ao anoitecer ao bairro antigo, ao pequeno T2 recheado de cortinas floridas e plantas no parapeito, que um dia achei brega e que agora me pareceram aconchegantes.

Entrei sem bater. Na mesa, um prato fundo de bacalhau com natas, umas pataniscas e arroz de forno. O Bruno falava com o nosso filho, Lourenço, que sorvia com gosto os pastéis de carne da avó. Dona Graça, simples, de vestido azul e trança presa atrás, estava encostada à aparador, rodeada das velhas vizinhas e de um senhor idoso sorridente.

Vejam só que beleza de presente! exclamava ela, erguendo o retratoum quadro do meu rosto! A minha Catarina, esposa do meu Bruno. Tão linda, parece uma princesa. Quando olho para ela, o meu coração até canta. Agora está sempre comigo, desenhada pelo artista. Chorei de alegria quando vi, foi o melhor presente que podia receber!

Senti o rosto ferver de vergonha. Fiquei vermelha como um tomate! Afinal, o quadro que tinha escolhido, irritada, para atormentar a sogra era, para ela, um gesto de amor, um motivo de orgulho!

Ouvi-a falar de mim com carinho para todos, dizendo que nunca teve coragem de me elogiar direito, que sempre se sentiu sem jeito perto da minha beleza de boneca. Cuidava de mim em silêncio, como quem ampara filha adormecida. Senti uma dor aguda. Passei anos a julgar mal aquela mulher.

O Bruno aproximou-se: Então, não tens trabalho hoje? sussurrou, sorrindo. Cancelei tudo. Dona Graça Posso começar a chamar-lhe mãe? O nó na garganta quase não me deixou falar.

Senti vontade de cair de joelhos por perdão, como aquele filho da história que a Leonor contou. Queria pedir à vida mais tempo para acertar.

Dona Graça sorriu e abraçou-me. Vieste, filha, ainda bem. Olha a sorte que tenho. A minha querida chegou!

Ficámos todos juntos, a rir e conversar, uma casa cheia de vida. Percebi que tenho tudo: pais, marido, filho, trabalho e uma sogra incrível.

Vamos sentar-nos! Daqui a pouco faço um Dia de Beleza! Quem quiser, corto, pinto, faço tranças ou escovo! Para todas! anunciei. Era este o meu verdadeiro presente. Para todos e para mim.

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