Luís, já acabou o azeite cá em casa, e de detergente de roupa só há para mais uma rodada dizia Elisabete, parada à porta da sala com as mãos ainda húmidas, esfregando-as no avental. Temos mesmo de ir às compras, a lista já vai longa.
Luís continuava colado ao televisor, onde passava um jogo de futebol daqueles de cortar à faca, limitando-se a encolher os ombros com aborrecimento.
Bete, já sabes como isto anda respondeu sem sequer lhe lançar um olhar. Na fábrica voltaram a atrasar pagamentos. O chefe disse que este mês nem cheiro a prémio. Olha que te dei anteontem os últimos vinte euros. Vais ter de desenrascar o que falta.
Elisabete soltou um daqueles suspiros fundos, habituada à palavra desenrasca-te nos últimos meses, como se o orçamento familiar fosse elástico e aguentasse sempre mais um pouco. Voltou para a cozinha em silêncio, abriu o frigorífico, e olhou tristemente para o frasco solitário de pickles e a panela com um resto de sopa magra do dia anterior. Nada de carne decente há semanas não compravam.
Trabalhava Elisabete como enfermeira-chefe no centro de saúde municipal. O ordenado, embora certo, era modesto. Noutros tempos, quando Luís trazia um bom salário para casa, viviam remediados mas sem grandes faltas: férias no Algarve, roupa nova de vez em quando, frigorífico sempre farto. Depois, segundo Luís, começaram os cortes na fábrica. Cortaram ordenados, acabaram prémios agora Luís pouco trazia, quase só para pagar contas e a gasolina do velho Renault.
Ficara-lhe a cargo toda a despesa de supermercado e casa. Aceitava turnos extra, trabalhou fins de semana, tudo para equilibrar as contas. E Luís? Ele chegava do trabalho cansado, largava-se no sofá e reclamava da vida, sempre à espera do jantar completo e quente.
“Desenrasca-te” murmurou Elisabete a olhar para a garrafeira vazia. Já não há mais para onde puxar.
No dia seguinte, depois de sair do centro de saúde, passou como sempre no supermercado. No talho, hesitou junto à carne de porco fresca, mas acabou por pegar numa bandeja de moelas. Sai mais barato. Se se cozinharem devagarinho com natas, até se come bem. Na caixa, gastou as últimas moedas da carteira. Faltavam três dias para o adiantamento do salário, e nem um cêntimo restava.
À noite, com as moelas a estufar no lume, Elisabete limpava o pó no hall de entrada. Luís dormia já, saciado pelo jantar e duas cervejas, que dizia ter comprado com trocos que sobraram. Pegou no casaco de Luís para o por melhor no cabide, e sentiu qualquer coisa no bolso interior. Sabia que vasculhar ali não era certo, mas o hábito de ver se as roupas precisavam lavar era mais forte. O que encontrou foi um papel dobrado.
Era um talão. Não de supermercado um talão de multibanco, tirado naquela tarde. Elisabete leu e sentiu as pernas tremer.
“Saldo: 5900 euros.”
Pisca os olhos, achando que foi engano, mas não o valor era claro. E mais acima, a indicação: Depósito de vencimento: 1300 euros.
Mil e trezentos. E tinha-lhe dito que só recebera vinte. Que era o que havia.
Sentou-se de cansaço no banquinho da entrada, a cabeça a zunir. Lembrou-se das botas rotas que continuara a usar porque Luís pedira pra ela aguentar mais um pouco. Recordou como ignorava dores de dentes para não gastar dinheiro no dentista. Das sopas aguadas, das moelas e pescoços.
Aquilo não era só mágoa. Era traição. Enquanto ela cortava aqui e ali até nos pensos e no chá, ele acumulava dinheiro. Para quê? Para um carro novo? Para outra mulher? Ou só por avareza, achando que era a mulher quem tinha de alimentar a casa?
Colocou o talão de volta. Parte dela quis gritar, atirar-lhe o papel à cara, fazer um escândalo, pô-lo na rua. Mas conteve-se. Sabia que nesse caso ele só mentiria, inventaria uma desculpa, fingiria que era surpresa.
Não, tinha de agir de outro modo.
Recolheu as moelas, guardou-as num tupperware dentro da mala do trabalho.
Se não há dinheiro, não há dinheiro, pensou para si, com um leve sorriso mordaz.
No dia seguinte, saiu cedo, não preparou café nem deixou o habitual pequeno-almoço de Luís. Apenas uma nota em cima da mesa: Desculpa, acabou-se a comida, não há dinheiro. Bebe um copo de água.
No centro de saúde, andou todo o dia entre doentes em modo automático, mas a ideia soprava-lhe na cabeça. Na pausa, comeu pela primeira vez em tempos um almoço completo na cantina: frango assado, arroz, sobremesa e compota. Sentiu-se saciada, como há muito não sentia.
Quando chegou a casa ao fim da tarde, vinha de mãos leves: nada de sacos, sem compras, só os passos firmes.
Luís esperava-a na entrada, de ar carrancudo.
Então Bete, chegas tarde! Estou cheio de fome. Na cozinha não há nada, nem ovos. Foste ao supermercado?
Elisabete tirou o casaco, descalçou-se, entrou calmamente no quarto.
Não fui, Luís.
Como assim não foste? E o jantar?
Não há jantar sentando-se sem pressa no sofá, pegando num livro. Cos poucos trocos que tinha paguei a luz e o passe. Agora acabou o dinheiro. O adiantamento só vem depois de amanhã. Aguenta, como eu aguento. Isto anda em crise.
Luís arregalou os olhos.
Estás a brincar? Então e a sopa? O segundo prato? Sempre inventavas qualquer coisa!
A criatividade acabou, querido. Não se fazem omeletas sem ovos. Disseste que não havia dinheiro, não há. Já não tenho saldo para nada.
E ficou a vê-lo esbracejar, abrir armários, mexer nos sacos, tirar um resto de massa. Pelo cheiro, ela adivinhou que ia comer massa cozida sem nada. Sorriu sozinha. Nada mau para alguém com quase seis mil euros guardados.
Aquilo repetiu-se por dias: Elisabete comia bem no centro de saúde e em casa, nada. Luís, agora abertamente irritado, contestava, elevava a voz, exigia, mas ela não cedia.
Assim não! berrou ele na sexta-feira. Eu trabalho, chego aqui, e está tudo por fazer. Para que quero eu uma mulher assim?
E eu? Para que quero um marido que não põe pão na mesa, nem paga o detergente da roupa? Também trabalho, Luís. Mas parece que só eu tenho de me preocupar em alimentar a casa.
Porque és mulher! É tua obrigação!
Não, a minha obrigação é amar e cuidar, se cuidam de mim. O tempo de só dar de um lado acabou.
No sábado, Elisabete acordou com um cheiro bom ovos mexidos, chouriço, pão fresco. Na cozinha, Luís almoçava sozinho, com o seu café passado e queijo caro na mesa.
Olha, encontrei uns trocos no casaco de inverno disse, evitando o olhar. Trouxe do supermercado. Senta-te, se quiseres.
Elisabete recusou. Não tenho fome mentiu, só para ver até onde ele ia.
No fim, Luís tirou uma nota de cinquenta euros do bolso.
Olha, pedi emprestado ao Mário. Vai lá, compra um bom jantar. Isto não é vida!
Elisabete olhou-o de frente, depois à nota.
Pediste ao Mário? Vais-lhe conseguir pagar como, se na fábrica não há salários a sair?
Arranja-se! Que te importa? Compra comida.
Só para mim, Luís. E tu vai comer à casa do Mário, que é tão amigo.
Estás maluca?! O dinheiro é para os dois!
Para os dois? E quando recebeste mil e tal euros anteontem, era para quem? E aquele saldo no multibanco para quê servia? Uma fundação para maridos famintos?
Luís empalideceu. A voz ficou áspera.
Andaste a vasculhar-me os bolsos?
Não desvies o assunto, Luís. O mais nojento nem é esconderes dinheiro, mas seres capaz de comer a minha sopa paga com o meu ordenado, enquanto dizes que não há nada.
Andava a juntar! gritou, batendo na mesa. Para um carro novo! Para nós! Queria fazer-te uma surpresa!
Surpresa? Surpresa era vires-me dizer, vamos poupar juntos não fazer-me passar fome. Viveste à minha custa, e chamaste-lhe surpresa.
Eu homem preciso de dignidade, de carro a sério, não dessas misérias!
Pois, dignidade. Pena que a tua ficou na fábrica.
E deixou-lhe a nota em cima da mesa.
Fica com esse dinheiro, e compra um bilhete.
Bilhete para onde?!
Para onde quiseres. Para casa da tua mãe, para um quarto alugado, para uma vida sem mim. Não volto a viver ao lado de alguém que me trata por criada.
Luís protestou ainda, gritou, depois implorou, jurou mudar. Ela não cedeu. Pela primeira vez, via-o como realmente era: mesquinho e egoísta.
Ao fim da tarde, arrumou as coisas e partiu, batendo a porta.
Vais arrepender-te! Quem te quer a ti, já quarentona?! Vais acabar com os teus gatos!
Vai com Deus fechando-lhe a porta na cara.
Quando ficou sozinha, sentiu-se exaurida, e ao mesmo tempo aliviada. No frigorífico, apenas o recipiente com as moelas.
Ao menos, agora sei para onde vão os meus euros disse para si.
Passou-se um mês, maio já florido, e Elisabete agora entrava calmamente no supermercado. Comprou o que queria: queijo da Serra, salmão para grelhar, um vinho branco e vegetais frescos. Pagou com cartão nunca faltava dinheiro. Afinal, viver sozinha é bem mais barato: metade da luz, menos água, nada de cervejas ou cigarros.
Em casa, cozinhou o que lhe apetecia, sentou-se junto da janela com o vinho e saboreou o pôr-do-sol.
O telemóvel vibrou. Mensagem de Luís: Bete, como tens estado? Podemos conversar? Percebi tudo, não devia ter feito o que fiz. Ainda tenho o dinheiro. Queres tentar de novo?
Elisabete olhou a mensagem, lembrou-se de tudo e apagou-a sem hesitar. Bloqueou-lhe o número.
Também tive saudades disse ao seu reflexo na vidraça, com um leve sorriso. De mim mesma, da minha paz.
No dia seguinte, comprou botas novas, caríssimas, de pele suave. E reservou uma semana nos balneários termais de Chaves. Com o que sobrou da nova vida.
Percebi, afinal, que o mundo não acaba com o divórcio. Fica mais saboroso. E mais verdadeiro.






