Regresso
Comecei a sentir-me mal logo na plataforma da estação.
Mal tive tempo de correr até ao caixote do lixo ali ao lado e lá fiquei, dobrado sobre mim mesmo, sentindo o casaco caro a sujar-se naquela superfície fria e metálica…
Oh menina, está a sentir-se mal? ouvi uma voz cheia daquele sotaque tão nosso, de província.
Vá-se embora…
Endireitei-me com esforço. À minha volta, vi passar pessoas como num filme antigo: agasalhadas em casacos grossos, arrastando malas, mochilas de supermercado, sacos de batatas.
No ar pairava o cheiro a gasóleo, tabaco barato e aquela humidade abafada e provinciana que sempre me dava dor de cabeça mal punha cá os pés. Detestava esta cidade. Detestava-a com a fúria seca e meticulosa de quem fugiu há dezasseis anos e fez tudo para esquecer o caminho de volta.
O telefone vibrou.
O meu pai.
Mariana, onde estás? Estou cá fora no carro para te ir buscar!
Eu vou de táxi, cortei eu. Não venhas ter comigo. Diz-me o nome do hospital.
A tua mãe já não está no hospital, filha. Deram-lhe alta ontem. Ficou com a tensão baixa, mas disseram que tratasse em casa. Eu vou-te buscar…
Em casa?! senti a mandíbula prender-se-me. Vocês estão a brincar comigo? Fiz esta viagem toda para nada?
Filha, não te irrites. A tua mãe morria de saudades. Até fez bolinhos para ti!
Bolinhos? Agora bolinhos?!
Desliguei.
***
A casa onde cresci parecia ainda mais pequena.
Ali parado no hall, olhei para a porta descascada, forrada a napa. A gata da vizinha já se enroscava nas minhas pernas, deixando o casaco coberto de pêlos. Cheirava a caldo verde, a gato e a qualquer coisa doce. Sempre cheirou assim. Sempre.
Entrei sem bater.
A minha mãe estava na cozinha. Pequena, cabelos grisalhos, num robe velho, a camisa de noite à mostra por baixo.
Assim que me viu, levantou logo as mãos, o rosto tão feliz que até me dei conta do quanto aquilo doía.
Mariana! Minha filha! Pensei que só viesses ao fim do dia…
Pedi-te por tudo que não mentisses, mãe. Fiquei ali, de botas calçadas. Sabes que posso perder o contrato? Passei a noite num comboio, para te visitar nos cuidados intensivos, e tu… fazes bolinhos?
A minha mãe baixou logo os braços.
Mariana, desculpa. Juro que não era para te assustar. Foi só a tensão… Não imaginas as saudades…
Isso foi mentir. Descalcei as botas e atirei-as para o canto. Pronto, onde está o teu medidor de tensão? Vamos ver isso e vou para um hotel. Não fico cá esta noite.
Filha, fica aqui…
Mãe, a sanita está a pingar, os radiadores mal aquecem, os vizinhos insultam-se tanto que as paredes tremem. Não aguento este sítio. Não aguento sequer estar aqui.
Fui sentar-me na mesa da cozinha. Em cima estava um prato de bolinhos dourados, ainda mornos. Nem olhei para eles.
Dá-me o aparelho.
A minha mãe trouxe-o, obediente: velho, manual, com a pera de borracha.
O quê? torci o nariz. Não tinhas dinheiro para um automático? Eu mandei-te dinheiro.
Guardei tudo na caderneta… Para ti. Não se sabe o dia de amanhã.
Meu Deus…
Medi-lhe a tensão. Os números saltaram no visor.
Cento e sessenta a noventa. Andas a comer sal à colher?
Só um bocadinho
Amanhã compro-te comprimidos decentes. E um aparelho novo. Agora preciso de descansar. Onde posso dormir?
A minha mãe andou de um lado para o outro, arranjando-me uma cama. Fiquei ali, olhando pela janela para os prédios gastos, e só pensava: “Que eu não fique presa aqui. Tenho de sair amanhã.”
***
Nessa noite, não preguei olho.
O sofá era pequeno, as molas espetavam-se nas costas, os vizinhos berravam, depois começaram à tareia. Ouviam-se as vozes, berros da mulher e insultos do homem.
Fiquei deitada a olhar para o teto. Nunca tinha deixado de ver aquela racha na argamassa. Em criança parecia um raio; agora só lembrava que a casa era já ruína.
De manhãzinha, já quase a dormir, sonhei que era pequena, a minha mãe comprava-me um bolo na feira, quente e cheio de açúcar em pó. E eu tão feliz!
Acordei a chorar, as lágrimas a correrem sem conseguir parar. Fui limpá-las ao lençol.
Do lado de lá já só se ouvia o tique-taque do relógio velho, aquele que a minha mãe há anos prometia deitar fora.
Mariana? ouvi a voz dela à porta. Estás acordada?
Não consigo dormir, mãe.
Tens visita.
Quem?
Uma rapariga. Diz-se Ana. Não te lembras?
Sentei-me no sofá. Ana? Que Ana?
Vesti o robe e saí.
Ali mesmo estava a Ana. Sim, a mesma Ana com quem fui para a escola. A minha melhor amiga, a quem deixei de falar sem uma palavra, quando fui para Lisboa.
Quase não mudara. O cabelo loiro preso num rabo de cavalo, as covinhas nas bochechas. Só os olhos estavam mais sombrios, com olheiras profundas.
Olá, disse Ana. A tua mãe contou-me que chegaste. Vim dar um salto. Já lá vão uns anos.
Fiquei sem jeito. Quis responder com sarcasmo ou desculpa, mas percebi que não conseguia.
Entra, disse.
Sentámo-nos na cozinha. A minha mãe, percebendo que estávamos ali a conversar, saiu para ir à vizinha. Ana agarrava a caneca com as duas mãos.
Casei-me, anunciou, tenho uma filha, a Leonor. Sete anos já. Vai para a escola.
Parabéns, disse eu.
E tu? Em Lisboa, tudo bem?
Vai-se andando.
Tens marido?
Tive.
Então?
Encolhi os ombros. Não lhe quis contar do meu casamento falhado do abandono, da solidão na casa grande, do frio nas noites. Da solidão, sempre.
Não resultou. Disse só isso.
Ela assentiu em silêncio. Depois, com doçura:
Sabes, eu perdoei-te.
A mim? estranhei.
Claro, a ti. Foste-te embora sem um adeus, sem uma chamada sequer. Éramos como irmãs, partilhávamos tudo. E num instante acabou. Chorei, depois zanguei-me. Mas entendi: a vida é assim. Tu seguiste a tua, eu a minha. Agora estamos aqui, de novo. E eu fico feliz.
Os olhos arderam-me. Olhei pela janela.
Fui estúpida. Desculpa, Ana.
Deixa lá, acontece.
Conversámos até ao entardecer. Ana contou-me do marido (trabalha numa fábrica, bebe às vezes, mas é bom homem), da filha (faz desenhos em todas as paredes), da vida por cá. E descobri que gostava de a ouvir. Mesmo.
Ouve, disse Ana antes de sair, queres vir jantar amanhã? Faço caldo verde à moda antiga. Congelinha aparece. Vamos recordar o antigamente.
Não sei…
Anda, vai ser bom. A tua mãe disse que ficas até quarta. Vamos aproveitar.
Acabei por assentir.
***
No dia seguinte fui à farmácia.
Precisava de comprar comprimidos para a minha mãe, um medidor novo, mais umas coisas. Fui andando pelo bairro e reparei: nem tudo era feio. Árvores cheias de orvalho, miúdos a puxar trenós, velhas sentadas ao sol. A vida de sempre.
Na farmácia, fila enorme. Pus-me atrás de uma senhora, casaco remendado, saco de compras bem cheio. Parecia aflita, com dificuldade a respirar.
Precisa de ajuda? perguntei.
Não faz mal, filha. O coração já vai passar quando me venderem o comprimido.
Olhei melhor para ela: estava lívida, boca azulada.
Sente-se, vá. Eu compro o que precisa. O que é?
Nitroglicerina, filha. Que Deus lhe pague.
Comprei o remédio. Entreguei-lhe. A senhora colocou-o debaixo da língua e logo respirou melhor.
Obrigada, menina. Não és de cá, pois não?
Sou, sim, respondi sem hesitar. Nasci aqui.
Saí da farmácia a sorrir.
***
Nessa noite fui jantar com Ana.
Morava numa cave de prédio velho, quinto andar sem elevador. Fui a subir as escadas e pensei: “Como deixei de ter paciência para isto?” Mas naquele dia não me incomodou.
A porta abriu. Uma miúda magrita, cabelo claro, olhos enormes.
É a tia Mariana? perguntou. A mãe mandou-me esperar por si!
A tia Mariana, sou eu sim.
Eu sou a Leonor. Venha daí. Hoje há caldo verde!
Era modesto e limpo. Mobiliário antigo, papel de parede a descolar, desenhos de criança espalhados. Cheirava a sopa e pão de centeio.
A Ana agitava-se à volta do fogão.
Oh Mariana! Entra, despe o casaco, vamos sentar-nos.
Todos à mesa. A comer caldo verde, senti-me aconchegado. A última vez que jantar soube tão bem já não lembro. Sem vaidades, nem pressas.
Desenhas-me? pedi à Leonor.
A menina olhou-me seriamente.
És bonita. Vou fazer-te um desenho.
Pegou num caderno, sentou-se a desenhar.
Eu e a Ana conversávamos à mesa, chá quente e compota de cereja.
Tens filhos? perguntou a Leonor, sempre concentrada.
Não, Leonor. Não tive essa sorte.
Porquê?
Leonor! ralhou Ana, não perguntes assim.
Não faz mal, Ana. Não calhou, Leonor. Nem todos conseguem.
Não fiques triste, disse ela, convicta. Ainda és nova. Vais ver!
Sorri.
Ela mostrou-me então o desenho. Era eu, em vestido comprido, coroa na cabeça, à volta flores.
És uma princesa triste, explicou-me. Vou desenhar um sol para ficares alegre.
Fiquei com um nó na garganta.
Vou pendurá-lo em Lisboa, no meu quarto. Prometo.
Então volta cá, está bem? pediu ela.
Vou voltar, prometo. E percebi, de verdade, que assim farei.
***
Voltei para casa tarde. A minha mãe esperava-me acordada.
Correu bem? perguntou.
Muito bem, mãe, mesmo muito.
Sentei-me ao lado dela. Peguei-lhe na mão quente, áspera, com manchas da idade.
Mãe, perdoa-me. Por tudo.
Deus me livre, filha. De quê?
Por ter tido vergonha. Da casa, da cidade, de nós. Pensei que era melhor porque fugi. Mas não sou melhor. Apenas quis escapar.
A minha mãe ficou calada, fez-me festinhas no cabelo, como em criança.
Não fugiste, Mariana. Sobreviveste. Naqueles tempos era fugir ou perder-se. Fico feliz por teres voltado. Mas não nos esqueças, filha.
Não esqueço, prometo.
***
De manhã regressei a Lisboa.
O meu pai levou-me à estação. A minha mãe, lá na plataforma, acenava de casaco velho, pequena e frágil.
Olhei pela janela e senti o coração apertar.
Volta sempre, filha. Nós não somos eternos disse o meu pai, baixinho.
Volto, pai. Prometo.
Já no comboio, sentei-me. No telemóvel, uma mensagem da Ana: “Vem sempre. A Leonor já pergunta quando volta a tia Mariana. Gostou tanto de ti!”
Sorri, guardei o telefone.
O comboio partiu, ladeando prédios desbotados, quintais, campos frios. Mas percebi que desta vez não me doía a cabeça. Nem me senti enjoado. Não tinha vontade de fechar os olhos.
Na mala, trazia o desenho da Leonor. Uma princesa, uma coroa, flores e um sol a meia. Olhei pela janela: sobre os campos nascia o sol, grande e verdadeiro.
***
Uma semana depois, mandei algum dinheiro à Ana. Só porque sim. Para a Leonor, para desenhos ou actividades. Ela recusou, mas insisti.
Meio ano depois, voltei à cidade. Sem avisar. Simplesmente comprei o bilhete e vim.
Estávamos os três eu, Ana e Leonor sentados naquela mesma cozinha, a comer caldo verde, a conversar. E pensei: Talvez isto seja mesmo felicidade. Sentirmo-nos precisos. Assim, simplesmente.
E assim ficou a minha lição: por mais longe que a gente fuja, há coisas que nunca nos largam. Voltar também é crescer.







