Pai de Domingo

O Pai de Domingo

De domingo a domingo, Manuel apenas sobrevivia. Seis dias vazios, depois um dia de vida. E até esse dia era todo dividido em chamadas e horários, estabelecidos pela ex-mulher, Sílvia, dois anos antes. Das dez às seis. Nada de atrasos, nada de fast-food, nada de presentes só porque sim. Porque ele, Manuel, era apenas uma função. O pai de domingo.

A filha, Beatriz, esperava-o à porta do prédio com o rosto fechado, como uma porteira de regime. No olhar dela lia-se: Chegaste dois minutos atrasado ou Hoje, como combinado, vamos ao cinema.

Iam ao cinema, ao jardim, a um café. Falavam sobre a escola, sobre filmes, sobre os amigos dela. Nunca sobre Sílvia. Nunca sobre o que vinha depois das seis da tarde, quando ele a levava de volta a casa e Beatriz, sem olhar para trás, caminhava para o elevador, para a mãe e para o novo marido dela, António.

António era o verdadeiro pai. Vivia com elas. Ajudava com os trabalhos da escola. Aos fins de semana levava-a à quinta dele. Beatriz tinha com ele piadas partilhadas, fotografias juntos nas redes sociais. Manuel via essas fotos em segredo, à noite, e sentia-se como se estivesse a roubar a vida de outro homem.

Tentava concentrar em oito horas toda a ternura paterna acumulada numa semana. Saía-lhe estranho, forçado.

Perguntava, atrapalhado:

Precisas de alguma coisa?

Beatriz encolhia os ombros:

Tenho tudo.

E esse tenho tudo doía mais que qualquer mágoa. Era como dizer: tenho casa, tenho família. Tu só fazes figura de extra.

***

Tudo desabou numa terça-feira.

Ligou-lhe Sílvia. O tom dela, normalmente firme e seguro, estava exausto, muito ténue.

Manuel É da Beatriz. Suspeitam que tem um tumor. Maligno. Precisa de uma operação complicada. Cara.

O mundo ficou reduzido a uma pequena mancha no auscultador. Depois Sílvia recompôs-se e falou de dinheiro. Disse que ela e António tinham algum de lado, mas não chegava. Iam vender o carro. Andavam à procura de soluções. Não pediu. Apenas informou. Como se fossem sócios na desgraça.

Manuel largou tudo. Correu para o hospital. Viu Beatriz, tão pequenina e assustada no pijama de internamento. O coração despedaçou-se-lhe.

Sentado ao lado dela, António segurava-lhe a mão e dizia-lhe algo, baixinho. Beatriz mantinha os olhos presos ao padrasto, buscando refúgio naquele olhar.

Manuel ficou à porta, a sentir-se supérfluo. O pai de domingo, fora de lugar num dia da semana.

Pai sorriu Beatriz, fraquinha.

Esse pai soou como boia de salvação. Manuel avançou, mas só conseguiu afagar-lhe o cabelo, atrapalhado:

Vai correr tudo bem, princesa.

Palavras gastas, automáticas

Sílvia estava no corredor, encostada à janela. Lançou um olhar de lado:

O dinheiro se puderes.

Ele podia.

Tinha uma única coisa valiosa: uma guitarra Fado de coleção, de 1972.

Sonho de juventude, comprada a muito custo.

Vendeu-a por metade do preço. Só queria rapidez. Transferiu o dinheiro para Sílvia, anonimamente. Não queria agradecimentos. Não queria que Beatriz achasse que o amor se paga em euros. Que pensasse que fora António a resolver tudo. António tinha direito a ser o herói. Manuel, não. Era só o seu dever.

***

A cirurgia ficou marcada para quinta. Na véspera, Manuel foi ao hospital, incapaz de descansar em casa.

No quarto estava Sílvia. António tinha saído para tratar de assuntos. Beatriz repousava de olhos fechados, mas não dormia.

Mãe sussurrou ela , pede àquele médico que veio esta manhã que não conte anedotas. Não têm graça nenhuma.

Está bem respondeu Sílvia.

E pede ao pai António para não me ler coisas de negócios. É uma seca.

Peço-lhe.

Manuel ficou atrás da cortina, sem coragem de entrar. Ouviu Beatriz calar-se e depois murmurar ainda mais baixo:

E pede ao meu pai para vir sentar-se comigo. Só estar. E que leia, como dantes. O Hobbit.

Manuel ficou imóvel. O coração batia-lhe na garganta.

Como dantes

***

Foi antes do divórcio. Lia-lhe à noite, mudando as vozes dos anões e dos elfos.

Sílvia saiu para o corredor, viu-o e apontou para o quarto:

Vai. Só não te demores. Ela precisa de descansar.

Ele entrou, sentou-se ao lado da cama. Beatriz abriu os olhos.

Olá, pai.

Olá, minha querida. O Hobbit?

Sim.

Manuel não tinha o livro consigo. Encontrou o texto no telemóvel. Começou a ler.

Baixo, monótono, saltando palavras, trocando frases. Não mudava de voz. Só lia. Os olhos ficavam húmidos, as letras dançavam. Sentia como a mão dela ia ficando mais leve na sua.

Leu, talvez uma hora. Talvez duas. Até não ter voz. Até sentir que ela adormecera. Ia tirar a mão, devagarinho, mas Beatriz apertou-a ainda mais, no sono.

E então, olhando para o rosto sereno e cansado da filha, Manuel permitiu-se o que nunca fizera. Inclinou-se e, quase sem voz, sussurrou para as quatro paredes do quarto:

Perdoa-me, filha. Por tudo. Amo-te tanto. Não desistas. Por mim. Pelo teu pai de domingo.

Não sabia se ela ouvira. Esperava que não.

***

A operação durou muito. Manuel ficou no corredor, frente a frente com Sílvia e António. Eles, juntos. Ele, sozinho.

Mas dessa vez a solidão era outra. Estava cheia de silêncio lido e do calor suave da mão da filha.

Quando os médicos vieram anunciar que tudo correra bem, que o tumor era benigno, Sílvia deixou-se desabar sobre o ombro de António.

Manuel levantou-se, afastou-se para junto da janela. Cerrou os punhos para não gritar de alívio.

***

Beatriz melhorou. Passada uma semana mudaram-na para um quarto normal.

António, como pai de verdade, andava atrás dos médicos, resolvia as burocracias.

Manuel ia lá todos os dias, ao fim da tarde. Lia. Ficava em silêncio. Às vezes, apenas viam uma série juntos.

Certa vez, quando já se ia despedir, Beatriz deteve-o.

Pai.

Diz, filha.

Eu sei que foste tu. O dinheiro A mãe não disse, mas eu ouvi-os discutir. Ele queria vender a parte dele na empresa, e a mãe gritava que não podia, que tu já tinhas dado tudo, que vendeste a guitarra.

Ele não respondeu.

Porquê? perguntou ela. Nós já não somos tua família

Vocês são tudo o que eu tenho interrompeu Manuel , isso não se discute.

Beatriz olhou-o demoradamente. Depois, estendeu-lhe a mão. Na palma trazia um marcador de cartão, velho e gasto. Com letras de criança lia-se: Para o Melhor Pai, da Beatriz.

Fizera-o há sete anos atrás

Encontrei-o num livro quando fui a casa no fim-de-semana. Fica com ele. Para não perderes mais páginas

Ele pegou no marcador. O cartão ainda vinha quente da mão dela.

Pai continuou Beatriz, agora com voz firme, de adulta , tu não és só de domingo. És para sempre. Percebes?

Não conseguiu responder. Só acenou com a cabeça, segurando o marcador apertado.

Depois saiu depressa para o corredor. Porque homens, até os de domingo, não choram à frente das filhas

Apenas enlouquecem de felicidade e dor, perdidos naquele cartão feito passado que era, afinal, o mais presente de todos.

***

No domingo seguinte, Manuel chegou não às dez, mas às nove. E ficou até muito depois das seis.

Ficaram os dois à janela, em silêncio, a ver Lisboa adormecida. Sem horários, sem planos.

Só porque ele era o pai da Beatriz.

Para sempre.

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