Notificação Inesperada

Notificação Inesperada

O telemóvel estava pousado, ecrã virado para baixo, em cima da mesa de cabeceira, como sempre. Leonor nem pensava em pegar nele. Só se esticou para apanhar o copo de água. Ao fazê-lo, a mão esbarrou no plástico liso, e o ecrã acendeu-se sozinho, por acaso, como por vezes se acendem coisas que era melhor permanecerem na escuridão.

Viu apenas uma frase. Só uma, numa notificação do WhatsApp.

“Também tenho saudades. Hoje foi tão bom. Tua Rita.”

Leonor não compreendeu logo. Olhou para as palavras, demorou uns segundos, como se tivessem sido escritas noutra língua, a precisar de tempo para traduzir. Depois, virou-se para o marido adormecido. António estava de lado, voltado para a parede, o ombro meio levantado, respirando fundo e de forma regular, como alguém sem remorso.

Tua Rita.

Rita. Rita Sampaio. A amiga. Aquela que, há três meses, ajudara a escolher o papel de parede do quarto do bebé. A que tomara chá naquela cozinha umas cem vezes. A mesma que, na semana passada, lhe ligou a queixar-se que não conseguia um namorado decente, que todos eram iguais, que estava farta da solidão.

Leonor pegou no copo. Bebeu água. Voltou a pousá-lo. Levantou-se da cama sem ruído, sem que o chão de madeira traísse o seu passo. Saiu para o corredor, fechou a porta do quarto, foi até à cozinha, ligou apenas a luz pequena do exaustor, não a principal, para não cegar os olhos embora talvez não fosse da luz.

Sentou-se à mesa, com o olhar vazio na bancada.

Lá fora era noite, uma noite comum e outonal, com luzes esbatidas do outro lado do largo. O bule estava ainda com a água de ontem no fogão. Não voltou a aquecê-lo. Limitou-se a ficar sentada.

“Hoje foi tão bom”.

Quando, hoje? Na quarta-feira, António chegou a casa quase às oito, disse que foi porque ficou a tratar de clientes, que jantaram juntos num restaurante. Chegou cansado, só queria dormir. Ela aquecia-lhe o jantar, que ele mal tocou. Depois viram um bocado de televisão; ele adormeceu no sofá e ela própria o cobriu. Ela. Com as próprias mãos.

Apertou os dedos na beira da mesa.

O Diogo dormia no quarto ao lado. Oito anos, sono pesado, às vezes falava enquanto sonhava, disparates sobre carros ou a escola. Amanhã teria de o levar ao treino às nove. Comprar pão. Telefonar à mãe, de quem não ouvia há quatro dias e que, de certeza, já estava a amuar.

A vida real, a simples, estava ali, naquelas coisas pequenas. Só que por baixo dela, soube agora Leonor, havia outra vida, paralela. Com outras mensagens, outros jantares, outra mulher que assinava tua.

Levantou-se, aproximou-se da janela. No parapeito, o vaso com gerânio, que nunca gostou mas regava, porque uma vizinha lho oferecera. O gerânio vivia, já com pó, teimoso.

Pensou no gerânio, tempo inteiro. Depois voltou para a mesa.

Era preciso decidir algo. Ou talvez não decidir já. Não sabia o que era mais certo. Dentro dela, tudo estava quieto, mas daquela quietude que vem antes de um estrondo. Não era choro, não era grito apenas silêncio com arestas.

Ficou assim na cozinha até às quatro da manhã, sem fazer nada. Só a observar como as luzes lá fora se apagavam, uma a uma. Só depois ligou o bule. Fez chá, nem o terminou. Lavou a chavena. Regressou ao quarto. Deitou-se ao lado do marido, sem o tocar, olhando o tecto.

António dormia.

Ouviu-lhe o respirar. Ontem, aquilo era tão natural quanto o frigorífico ou o ruído dos carros. Agora, cada inspiração parecia diferente, mais estrondosa, como se a estivesse a ouvir verdadeiramente pela primeira vez e era insuportável.

Na manhã seguinte, levantou-se mais cedo. Acordou o Diogo, deu-lhe papas que ele comeu maldisposto, desejava uma sandes com fiambre. Fez-lhe a sandes. Atou os atacadores dos ténis, pois ele não tinha jeito, e o tempo era escasso. Pegou-lhe pela mão e saíram.

Na rua fazia frio, cheirava a chão molhado e folhas. Diogo falava dos trabalhos de casa, de ontem, que a professora foi injusta, que ele acertou e ela disse que não. Leonor ouvia, respondia nos momentos certos, sabia fazê-lo, era automático. Tantos anos de prática.

Chegaram ao treino a horas. Entregou Diogo ao treinador, ficou na porta do pavilhão um instante, a vê-lo correr a rir, atirar-se para os colegas, um miúdo igual a tantos. Saiu para a rua.

Sentou-se no banco à porta, tirou o telemóvel. Procurou Rita S. nos contactos. Olhou o nome. Guardou o telefone.

Agora não.

Ainda não.

Nos primeiros dias Leonor pensou muito. Voltou atrás na memória dos últimos meses, como se folheasse fotografias velhas à procura de algo que antes escapara. Lá estavam os três, no aniversário da Rita, em maio. António ria-se de uma piada dela. Nessa altura, pensou, que sorte ter o marido que se dava também com a sua melhor amiga. Rita viera no sábado ajudar a escolher tecidos para as cortinas, conversou imenso com António na cozinha enquanto Leonor punha Diogo na cama. Sobre quê?, perguntou depois. Sobre trabalho, ela é designer, pedi dicas para o escritório. Leonor assentiu. Claro.

Claro…

Não chorava. Parecia-lhe estranho. Esperava lágrimas, mas só havia boca seca e peso no peito, uma pedra a substituir-lhe o ar. Comia, dormia, cozinhava, atendia telefonemas, António não notava nada. Atento o suficiente, como sempre, nem mais, nem menos. Perguntava pelo dia, às vezes beijava-lhe a face ao sair. Leonor oferecia-lhe a face.

No quarto dia Rita telefonou.

O telemóvel vibrou-lhe no bolso, Leonor viu o nome e bloqueou a respiração. Depois atendeu, com a voz mais normal possível.

Olá, Rita.

Nôni, onde andas? Escrevi-te na segunda, não respondeste.

O tom era normal, caloroso, só com um leve pedido de desculpa, como quem imagina ter magoado. Aquela ternura era insuportável.

Desculpa, foi uma semana confusa. O Diogo esteve meio adoentado mentiu, e até ela se surpreendeu com a facilidade.

Ai, que susto! Febre?

Nada de grave, só ranho. Está melhor.

Grandes sustos dás tu. Olha, queria saber se no sábado estão livres? Pensei juntarmo-nos, já não estamos juntos há imenso.

Leonor olhava para a parede à frente. Nela, uma foto no Algarve, há uns seis anos, antes do Diogo, os dois a rir, o vento nos cabelos. Boa foto.

Sábado acho que não vai dar disse. Mas ligo-te mais perto do fim da semana, está bem?

Está, claro. Tudo bem contigo? Estás… com uma voz estranha.

Só cansaço. Está tudo bem.

De certeza, Nôni? Qualquer coisa, liga-me, sim?

Sim, Rita. Obrigada. Beijinhos.

Desligou. Levantou-se, pegou na foto, olhou para o seu rosto risonho. Tirou-a da parede, guardou-a na gaveta da cómoda, fechou-a.

Nessa noite chorou, finalmente. Sozinha na casa de banho, com a água a correr, para abafar o som. Choro feio, de olhos inchados, garganta a doer. Não chorava pelo homem, nem porque ele não era quem pensava. Chorava por outra coisa: pelos anos, pela confiança, pela ingenuidade de acreditar tanto. Pela tolice dessa fé. Pelo Diogo, que crescia numa família onde o pai mentia e, cedo ou tarde, acabaria por perceber.

Depois lavou a cara, olhou-se ao espelho. Trinta e oito anos. Nem nova nem velha. Rosto normal, olhos vermelhos. Pensou que no trabalho, no dia seguinte, teria de sorrir.

Pensou ainda: não podia simplesmente fingir que nada era com ela. Não podia deixá-los acreditar que a vida deles podia prosseguir assim, secreta num canto, enquanto a dela, e a do filho, eram usada como fundo. Não podia.

Voltou ao quarto. António dormia. Ela deitou-se.

Era preciso pensar.

Durante as duas semanas seguintes, Leonor viveu em dois mundos. Por fora, tudo igual: cozinhava, ia trabalhar, levava Diogo ao treino, falava com António, ainda ria das piadas porque continuavam engraçadas isso não conseguia fingir. Às vezes esquecia por minutos, só vivia, e era aí que doía mais, pois significava que ainda era possível viver ao lado dele como se nada estivesse partido.

Por dentro, trabalhava. Não contratou detetives. Observava só. Reparava como António levava o telefone e ia para outro lado. O sorriso sozinho diante do ecrã, baixando rapidamente quando notava o olhar dela. As vezes que jantar com clientes voltava, sempre às quartas, e ele mal tocava no jantar dela.

Uma noite, com António no banho, apanhou-lhe o telefone. Sabia o código, nunca o mudara o ano de nascimento do Diogo. Abriu o WhatsApp. Procurou a conversa com Rita.

Leu só o suficiente, corrido, para perceber a dimensão. Bastaram cinco minutos. Começara em julho. Três meses. Enquanto pintavam o quarto, enquanto Diogo passava para o segundo ciclo, quando ela foi ao aniversário da mãe sozinha porque António alegou trabalho e claro, ela percebeu.

Pousou o telefone, foi para a cozinha. Ligou a placa. Começou a cortar cebola para sopa. Cortava em cubos, certinhos.

António saiu do duche, enrolado na toalha, espreitou à cozinha.

Sopa? Boa, já estou com fome.

Dentro de meia hora está pronta respondeu.

A voz dela era neutra. O corte da cebola, metódico. Tudo muito certo.

Nessa noite decidiu que haveria um jantar.

Não, não logo de seguida. Precisava de tempo para se preparar. Não era por vingança, nem lhe importava isso. Só queria ver, uma vez, os dois juntos ali, na sua casa, sentados à mesa, e dizer tudo o que precisava. Calmamente. Sem gritos. Aprendera que o grito só complica, só desgasta. Eles saem, contam depois um ao outro que ela é histérica.

Duas noites depois, ligou à Rita.

Rita, sobre sábado… Lembraste que falaste em virmos cá jantar?

Sim! Então está confirmado?

Pensei que podias vir jantar cá a casa. Faço qualquer coisinha boa, já não estamos juntos há muito. O António também vai estar.

Uma pequena pausa. Só um segundo.

Óptimo. A que horas?

Às sete. Vens?

Claro que sim. Queres que leve alguma coisa?

Nada, Rita. Só vem.

Desligou. Foi até à sala, António via televisão.

Convidei a Rita para sábado. Fazemos um jantar decente, há quanto tempo não estamos juntos.

António olhou para ela. Algo lhe passou no rosto, fugidio, um medo rápido.

Parece bem disse.

Também me parece respondeu Leonor. Voltou à cozinha.

Sabia que logo tratariam de se avisar um ao outro. Iam combinar manter-se normais, bancar os amigos de sempre. Isso não a assustava. Não queria fazer cenas. Diogo ia dormir à avó, ela combinou isso logo. O jantar seria calmo.

Pensou a semana toda no menu. Importava, sim. Não para impressionar, mas para manter as mãos ocupadas, os pensamentos controlados. Decidiu: frango assado com batatas e alecrim, salada de rúcula com pera (a favorita da Rita), e tarte de maçã, a sua especialidade. Mesa posta com cuidado, flores novas.

No sábado, levou o Diogo à casa da mãe pelas duas. A mãe, desconfiada, reparou-lhe na cara cansada, questionou-lhe. Leonor só disse que tinha dormido mal. Beijou Diogo, já entretido, e foi para casa.

Em casa, silêncio. António saíra cedo, disse que ia às compras. Voltou às três, com sacos trouxe vinho bom, vinho caro, Leonor percebeu a marca.

Para o jantar disse não te importas?

Boa ideia respondeu.

Notava-se-lhe uma tensão. Mexia-se mais depressa. Consultou o telemóvel duas vezes no frigorífico. Depois esforçou-se, sentou-se com o jornal (que nunca lia), fingiu interesse.

Leonor preparava tudo. Lavou o frango, temperou, cortou as batatas, fez o molho da salada. O cheiro a alecrim e alho espalhou-se, quente, reconfortante. Abriu a janela, sentiu o frio da rua e o odor a outono.

Às seis, pôs a mesa. Três pratos, três copos. Não acendeu velas seria cruel. Só uma mesa bonita, toalha lavada, flores do dia anterior.

Sete em ponto, tocaram à porta.

Rita chegou com um casaco novo azul-escuro. Cabelo arranjado. O perfume era aquele de sempre, que Leonor reconhecia de olhos fechados. Trazia bombons numa caixa bonita, mesmo quando ela dissera que não trouxesse nada.

Leonor, está tudo tão bonito, como sempre disse, a tirar o casaco. E este cheiro maravilhoso!

Entra, gosto sempre que venhas disse ela. E era sincero. Uma sinceridade amarga, mas sincera ainda assim.

António saiu do quarto. Cumprimentaram-se, beijinho na face. Como sempre. Dominavam a arte da dissimulação.

Sentaram-se à mesa.

A primeira meia hora, conversa fútil. Rita falou do novo projeto um escritório no Campo de Ourique, clientes extravagantes querem puxadores dourados. António ria, comparava com os próprios clientes. Leonor mastigava, ouvia, dizia uma ou outra coisa. Serviu vinho.

Anoitecia depressa. Acendeu a luz da mesa. Ficou tudo mais acolhedor e, por isso mesmo, mais doloroso.

Esperou até todos terem o segundo copo. Quando a conversa morreu, a Rita a servir-se de salada, Leonor falou, sem anúncios.

Quero dizer-vos algo. Os dois, escutem só.

Olharam para ela. Rita, com o garfo suspenso. António, copo a meio caminho dos lábios.

Eu sei sobre vocês. Desde julho. Li as mensagens, António. Sei tudo o que preciso.

Silêncio. Só se ouvia o tic-tac do relógio da cozinha.

Quem falou primeiro foi António. A voz, estranha, sufocada.

Leonor

Espera ela interrompeu Não estou aqui para gritar. Só precisava de dizer isto, enquanto estão os dois presentes. Eu sei. Só isso.

Olhou para Rita. Que olhava para a toalha. As faces rosadas, dedos apertando o garfo.

Rita, estiveste em minha casa umas duzentas vezes. Conheceste tudo de nós. Quando estava mal, ficaste comigo noites inteiras. Quando tive o Diogo, esperaste à porta do hospital. Não digo isto para te fazer sentir vergonha, só que saibas que não esqueci. Eu lembro-me.

Rita levantou então os olhos. Brilhavam de lágrimas.

Leonor, eu…

Não, Rita, agora não cortou ela em voz baixa.

Virou-se para António.

António, doze anos juntos. Não vou analisar já onde errámos, ou quando te achaste no direito de Não é uma conversa para hoje. Só queria sentar-me nesta mesa e dizer isto. Porque pensavam que eu não sabia. Mas eu sei. É essa a diferença.

António pousou o copo com cuidado, como se tivesse medo de o partir.

Leonor, isto não é simples… Devíamos falar disto, a sós…

Eu sei. Falamos depois. Mas não hoje.

Levantou-se, bebeu o resto do vinho.

Agora quero que acabem o frango. Ficou bom, esforcei-me. Depois podem ir-se embora, ambos. O Diogo está na casa da avó, aviso que lá dorme. Eu fico com os meus afazeres.

Ninguém se mexeu.

António olhava-a com algo indefinido, não vergonha, mais um desamparo quem esperava um escândalo e não sabia o que fazer daquele silêncio.

Rita acabou por dizer, com a voz a falhar:

Nôni, perdoa-me…

Leonor mirou-a. Quinze anos de rosto familiar. O rímel a borrar-se, o perfume escolhido por conselho dela própria, anos atrás.

Não sei, Rita disse, finalmente. Talvez um dia. Agora não.

Saiu, foi para o quarto, fechou a porta. Sentou-se na cama. Ouviu na cozinha suspiros, passos, arrastar de cadeiras. Porta da rua, uma vez. Depois outra.

Ficou em silêncio.

O cheiro a frango com alecrim, misturado com o perfume da Rita, pairava ainda pela casa. Na mesa, três pratos um deles quase intocado.

Não sabia quanto tempo passou. Voltou à cozinha, arrumou tudo. Embrulhou o frango, pôs no frigorífico. Lavou pratos. Limpou a mesa. Recolheu as migalhas.

Depois sentou-se, sozinha, na cozinha vazia.

Era assim: doze anos de vida, uma melhor amiga, tudo reduzido a mesa limpa e cheiro a sabão.

Ligou à mãe.

Mãe, podes ficar com o Diogo até domingo?

Claro que sim, filha. Ele já dorme. Aconteceu alguma coisa?

Sim. Depois conto. Não agora.

Queres vir até cá, estou acordada.

Não, mãe. Prefiro ficar sozinha. Preciso disso.

A mãe não insistiu. Sabia quando não se devia insistir.

Tens comido?

Hoje comi bem. O frango ficou bom.

Ainda bem respondeu a mãe. E aquele ainda bem doeu mais do que tudo nesse dia.

Leonor desligou e chorou. Desta vez nem foi para a casa de banho, só chorou onde estava, sem tentar esconder. Chorou muito tempo. Depois parou. Assoou-se. Lavou o rosto na pia.

Lá fora, Lisboa, luzes, novembro, um sábado como outro. António e Rita andariam por aí, sem saber ela o que diziam um ao outro e, estranhamente, já nem isso importava.

Não pensava no futuro. Não naquela noite. Bastava-lhe ter sobrevivido ao jantar, sem gritar, sem se partir, dizendo o que queria dizer.

António voltou à uma da manhã.

Ela não dormia; ouviu-lhe os passos no corredor, o barulho da água. Ouviu-o ficar à porta. Sentiu aquela pausa.

Abriu a porta do quarto, baixinho.

Não estás a dormir disse. Não perguntou, afirmou.

Não.

Sentou-se na beira da cama, do seu lado. Silêncio.

Leonor, não sei por onde começar.

Então não comeces hoje, António. Vai dormir. Amanhã falamos.

Não queres…

Agora é noite. Estou cansada. Amanhã, António.

Deitou-se. Leonor fechou os olhos. Não se tocaram. Eram dois estranhos, deitados na mesma cama por acaso ou hábito.

De manhã, Leonor levantou-se cedo. Enquanto António ainda dormia, arrumou uma pequena mala. Não ia embora para sempre, ainda não só o essencial. Documentos, cartão, roupa, a foto do Diogo na mesa de cabeceira.

Pousou a mala junto à porta.

Fez café. Esperou por António.

Ele viu a mala. Parou.

Vais-te embora?

Para casa da mãe. Fico lá com o Diogo uns dias. Precisamos de conversar, mas antes preciso de distância. Uns dias, António.

Olhou alternadamente para a mala e para ela.

Quero explicar, Leonor.

Ouço.

Silêncio. Ela pegou no café.

Não sei bem como isto aconteceu. Nunca foi planeado…

Ninguém planeia, António. Não funciona assim.

Queres divorciar-te?

A palavra caiu entre eles como pedra. Ela não desviou o olhar.

Não sei ainda. Preciso de tempo para perceber o que quero. Mas sei que não posso continuar aqui e fingir que nada mudou. Percebes?

Ele assentiu, lentamente, como quem entende mas não fica mais leve.

E o Diogo…

O Diogo está bem. Vai ficar bem. Isso é entre nós, não lhe diz respeito. Eu tomo conta.

Acabou o café. Largou a chávena. Pegou na mala.

Eu telefono.

E saiu.

Na escada cheirava a madeira velha e torradas. Desceu os seis andares em silêncio, uma, duas, três vezes os degraus, a contar como se fosse a primeira vez.

Saiu para a rua.

O ar estava húmido e frio. As folhas caídas colavam-se ao alcatrão. Um varredor com colete laranja juntava-as perto do passeio. O céu completamente cinza, nem sombra de sol, aquele novembro triste. Mas Leonor estava ali no patamar do prédio, a respirar o ar e a sentir-se, por instantes, mais leve. Só por estar ali de pé, sem se esconder.

Pensou em Diogo, que acordaria na avó, pediria panquecas, receberia panquecas e ficaria feliz. Ainda não sabia nada, e estava bem assim oito anos devia ser só para bónus e injustiças da escola. O resto, ela haveria de resolver.

Não sabia o futuro. Se haveria divórcio, se haveria outra solução, se teria forças. Se algum dia perdoaria Rita. Era mais difícil do que perdoar António: com o marido percebe-se, estas coisas acontecem, magoa mas entende-se. Com a amiga, a confidente, é diferente. Isso, demoraria a digerir.

Mas, por agora, estava sozinha na rua, mala na mão, manhã cinzenta, num bairro lisboeta onde, a dois quarteirões, o filho a esperava. Deu um passo.

Apenas caminhou.

A mãe recebeu-a sem perguntas. Abriu a porta, analisou a mala e o olhar, e percebeu tudo. Só disse:

Vai lavar a cara. Ponho o chá ao lume.

Diogo surgiu da sala em meias, cabelo em desalinho.

Mãe! O que fazes aqui? Disseste que não vinhas!

Tive saudades disse, abraçando-o forte, sentindo o cheiro a champô e sono.

Fazes cócegas! murmurou, fugindo para os desenhos animados.

Seguiu com o olhar do filho.

Foi até à cozinha, onde a mãe mexia nas chávenas. Pequena cozinha, cortinados com flores que a mãe nunca quis trocar, o frigorífico cheio de ímanes, um deles feito à mão pelo Diogo na creche, todo tosco mas amado. Aquela rotina familiar dava-lhe ganas de chorar outra vez.

Mas resistiu.

A mãe deixou-lhe o chá, sentou-se à frente.

Vais-me contar?

Conto, mãe. Mas não agora. Preciso de respirar.

Foi o António?

Foi.

A mãe assentiu. Pegou no chá. Ficaram ali, em silêncio, só ouvindo, ao longe, as gargalhadas do desenho animado e do neto.

Posso ficar cá uns tempos?

O tempo que quiseres. O teu quarto está como sempre.

E era quanto bastava.

Veio depois a vida que Leonor não sabia nomear. Não era provisória, embora parecesse. Também não era nova, mas começou a ser. Só vida, dia após dia.

Ela e António falaram várias vezes. Conversas pesadas, sem um grito, mantendo sempre a decisão de não perder o controlo, embora fosse difícil. António não sabia o que dizer, só que estava perdido, que tinha pena, que pensava no filho. Que não sabia o que era certo.

Leonor ouvia. Respondia. Não perdoava nem amaldiçoava.

Divórcio foi assunto lento, como tudo o que custa. Papelada, advogado, discussão da casa, de onde ficaria Diogo. Um cansaço sujo, feio, como todas as partilhas dolorosas. Mas atravessou.

Rita não ligou durante semanas. Depois escreveu: Estou aqui se precisares. Leonor leu e não respondeu. Não queria castigar, só não tinha resposta. Precisava de tempo, e isso não se arranja de um dia para o outro.

Num final de novembro, foi buscar o Diogo ao treino. O primeiro frio chegou a Lisboa, chuva e aquelas pingas miúdas quase neve. Diogo saiu a correr, cabeça para cima, tentando apanhar uma.

A nevar! Mãe, olha!

Leonor levantou o rosto. As gotas caíam, quase neve, rasas no ar. Uma pousou-lhe na face, derreteu logo.

Estou a ver respondeu.

Podemos fazer boneco de neve?

Quando nevar mais a sério. Isto é pouco.

Oh, mãe…

Vá, vamos, senão constipas-te.

Ele agarrou-lhe a mão, luvas com carros desenhados. Caminharam pelo bairro, neve improvisada, luz dos candeeiros a dourar tudo, Diogo a falar de bonecos de neve, de colegas da escola.

Leonor só sentia a mão dele, quente na sua.

Doía. Não passou, não devia passar tão depressa. Doze anos não desaparecem num novembro. Mas, para lá da dor, estava algo mais, difícil de nomear. Talvez ar. Autonomia. Capacidade.

Não sabia se acertara. Sabia que estava certa, não sabia era se ia custar menos. Percebeu certas decisões são corretas, mas não aliviam.

Na semana seguinte, viu um anúncio de um T2 para arrendar na Penha de França. Quarto andar, vista para o jardim. O casal senhorio, idosos, simpáticos. Entrou, ficou a escutar o silêncio das divisões. Cozinha pequena, muita luz. Da janela do quarto de Diogo, via-se o verde das árvores.

Fica com a casa? perguntou o senhor.

Fico respondeu.

Mudou-se num dia. Vizinhos da mãe ajudaram. António trouxe as coisas do Diogo, calado, deixou as caixas, deu uma volta ao apartamento.

Boa casa comentou.

É assentiu ela.

Já na saída, ele parou.

Leonor. Sinto muito.

Ela olhou para António, aquele homem que conhecera tantos anos, agora velho, normal, quase estranho.

Eu sei, António. Vai.

Ele saiu.

Fechou a porta. Encostou-se a ela. Depois foi desfazer as malas.

Diogo chegou à tarde, disparou logo para o quarto novo, admirou a vista para as árvores, disse que queria deitar-se no parapeito a espreitar para baixo porque havia gatos que ali passavam. Leonor avisou que era estreito. Ele disse que cabia, era pequeno. Ela riu-se.

Riu-se sem querer, como se algo lhe tivesse soltado o peito. Diogo olhou para ela, admirado.

Que foi?

Nada. Bora jantar. Trouxe raviolis.

Raviolis! já corria para a cozinha.

Ela acendeu a luz sobre o fogão, pôs água a ferver. Procurou o sal na nova cozinha, que cheirava a casa de outros, e a paredes com histórias antigas isso passaria, sempre passa quando se começa a cozinhar.

A água ferveu. Deitou os raviolis.

Diogo desenhava na mesa, amanhã havia trabalho de plástica e só se lembrou naquele instante.

Mãe, o boneco de neve ainda fazemos?

Logo que neve a sério, fazemos logo.

Prometes?

Prometo.

Ele assentiu, como quem regista. Voltou ao desenho.

Já caía neve de verdade em Lisboa, branca, rara. Cobria as árvores, o parapeito, o telhado do prédio em frente. A cidade ficava mais calma, tudo prata.

Leonor estava ao fogão, mexia os raviolis. Não pensava em nada. Limitava-se a mexer e a ouvir Diogo murmurar diante dos desenhos, espreitava a neve a cair.

O que viria depois, não sabia.

Sabia apenas que, amanhã, acordaria cedo, prepararia o Diogo para a escola, passaria pela mercearia para comprar pão, ligaria à mãe, que não ouvia há três dias. À noite, talvez arrumasse mais uma caixa da entrada. Ou não, não fazia mal, ali ficavam.

Ia doer, sabia. Às vezes vinha à noite, às vezes de dia, sem aviso. A memória servia recortes, um cheiro a perfume, uma voz familiar, um momento sincero que existiu e não se apaga. Isso não ia passar depressa. Nem esperava que passasse.

Mas os raviolis estavam prontos. Diogo já a olhava com fome.

Já vai! disse ela.

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