A Esposa Invisível
Mariana! ouvi a voz cristalina e vi a minha amiga, sacudindo gotas do casaco vermelho vivo, afundar-se numa cadeira em frente. Desculpa, o trânsito na A5 está impossível. Já pediste?
Só um café, respondi com um sorriso cansado. Esperei por ti.
A Joana tirou o casaco, olhou para mim de alto a baixo com um ar crítico e assobiou baixinho.
Valha-me Deus, Mariana! Tu olhas-te ao espelho de manhã? O que é isso vestido? Camisola cinzenta, calças cinzentas… Estás deprimida ou queres desaparecer?
É confortável, dei de ombros. Já tenho cinquenta e dois anos, Joana, não ando para desfiles de moda.
Pois, riu-se e, distraída, pediu um galão e um pastel de nata. E o Diogo? Mais uma vez na pesca?
Assenti devagar.
Saiu sexta-feira depois do jantar. Só volta domingo, ao almoço. O normal.
O normal, imitava ela, gozando. E tu, o que é que fazes? Ficas em casa, sozinha, a ver telenovelas e a remendar meias? Mariana, diz-me: quando foi a última vez que ele te convidou para sair? Jantar fora, teatro Nem que fosse ao cinema? Vá, pensa lá bem!
Senti as bochechas a arder de vergonha.
Nós… Este verão fomos ao Alentejo, juntos.
Ao Alentejo! Joana desatou a rir. Onde passaste os dias a mondar as plantas e ele a arranjar a vedação! Um verdadeiro romance, pá. Olha, querida, a vida está a correr. Já não somos raparigas, é verdade, mas também não somos velhas ainda. E tu estás a enterrar-te viva.
Não digas parvoíces, bebi o café, que me pareceu amargo. Temos uma família normal. Vinte e oito anos juntos. Não conta para nada?
Vinte e oito anos de hábito, sim senhora, Joana cortou-me. Sabes o que eu vejo? Tornaste-te invisível. Para ele, és como o micro-ondas ou a mesa da cozinha: está lá, funciona, tudo bem. Quando foi a última vez que te disse algo bonito? Ou que perguntou como estavas?
Abri a boca para responder, mas as palavras não saíram. Era verdade. Os nossos serões passavam-se em absoluto silêncio. O Diogo com o tablet a ver vídeos de canas novas, eu a tentar fazer crochet ou enfiada numa novela. Às vezes perguntava o que havia para jantar, outras eu lembrava-lhe das contas da luz. Era isto a nossa conversa.
Acertou em cheio, Joana inclinou-se para a frente, os olhos brilhantes. Olha, conheci um fotógrafo muito engraçado, o Alexandre. Sábado tem uma exposição numa galeria na Rua Garrett. Vamos? Era bom para ti sair um pouco, mudar de ares.
Joana, eu…
Nem penses em fugir, sacudiu a mão. Vais, vestes-te como deve ser, eu ajudo-te se for preciso. Vais ver o que é sentires-te vista, falarem contigo sobre arte e não sobre canos entupidos.
Suspirei. Discutir com a Joana era inútil. E, na verdade, a ideia de sair não me parecia assim tão má. Em casa o silêncio pesava.
***
No sábado à noite, olhei-me ao espelho e quase não me reconheci. Joana tinha-me arranjado um vestido bordô, sóbrio e elegante, com um cinto a marcar a cintura. Pus um pouco de maquilhagem pela primeira vez em largos meses, arranjei o cabelo.
Olha só para ti, comentou ela, satisfeita. Achavas que tinhas virado avó, não era? Enganas-te. Estás um espanto!
A galeria era pequena, paredes brancas, teto alto. Fotografias a preto e branco de vielas antigas, rostos de desconhecidos, estações desativadas. Eram só umas trinta pessoas, com copos de vinho na mão a conversar baixinho.
Joana levou-me logo ao Alexandre, alto, cabelo já com algum branco, de camisola escura e uns jeans.
Alexandre, esta é a minha melhor amiga, Mariana, apresentou ela. Mariana, é o autor de tudo isto.
Ele virou-se, sorriu e cumprimentou-me com um aperto de mão quente e seco.
Muito prazer. Espero que goste.
Não sou conhecedora de fotografia, confessei, sentindo-me estranhamente miúda.
Não é preciso perceber de técnica, sorriu ainda mais. É preciso sentir. Venha, vou mostrar-lhe a minha favorita.
Levou-me até uma foto no canto. Uma idosa, sentada à janela, a luz desenhando no rosto as rugas que contavam histórias, os olhos fundos e carregados de tristeza.
É a minha vizinha, sussurrou Alexandre. Oitenta e três anos. Falei com ela sobre a guerra, o marido perdido, criar três filhos sozinha. Sabe o que me ficou? Nos olhos dela não havia pena. Só aquela tristeza e uma dignidade enorme.
Olhei para a fotografia e senti um nó na garganta.
É lindíssima, murmurei.
A beleza não escolhe a juventude, disse ele. Está nos caminhos vividos, nas marcas que ficam. E, sabe, nos seus olhos também há essa tristeza. Como se pensasse sempre em algo só seu.
Corei, desconcertada. Ninguém me olhava assim há anos. O Diogo só me via, não me sentia.
Deve ser o cansaço, encolhi os ombros.
De quê? perguntou ele, amigavelmente, quase como um velho amigo.
Senti as palavras saírem sem filtro.
Do mesmo todos os dias. Acordar, pequenos-almoços, limpezas. Marido a trabalhar ou na pesca. Os filhos cresceram, voaram. E eu na mesma casa a perguntar-me: onde estou eu própria? Onde está a rapariga que sonhava viajar, mudar o mundo?
Senti vergonha de tanta honestidade.
Não se desculpe, disse ele, tocando-me o braço com leveza. Isso é sinceridade. E rara, hoje. Olhe, tenho um grupo que se reúne para falar de fotografia, livros, por vezes saímos para desenhar ao ar livre. Venha quarta. Vai gostar.
Ia recusar, mas ouvi-me a dizer:
Está bem. Vou.
***
No domingo, Diogo voltou, a cheirar a rio e lenha queimada.
E então? perguntei. Correu bem?
Uns achigãs, nada mau. E tu, estás boa?
Fui a uma exposição com a Joana.
Boa. Devias sair mais. Ficas sempre enfiada em casa.
Ele falou distraído, já a abrir o frigorífico. Senti um pontada de irritação.
Diogo, e se fôssemos nós os dois jantar fora? Ou ao teatro?
Olhou para mim, espantado.
Para quê? É caro, Mariana. E estou exausto. Fica para outra vez, sim?
Outra vez. Sempre outra vez. Saí da cozinha, peguei no telemóvel e escrevi à Joana: “Dá-me a morada do clube. Lá estarei quarta.”
***
O clube reunia-se na cave de um prédio antigo, transformada num espaço acolhedor, poltronas, estantes de livros, câmaras antigas nas mesas. Eram uns quinze, todos na casa dos quarenta, cinquenta. O Alexandre recebeu-me com um sorriso caloroso.
Que bom que veio! Sente-se onde quiser.
A noite voou. Falaram de um fotógrafo francês, depois leram poesia do Eugénio de Andrade, depois conversaram só porque sim. Eu ouvia e sentia-me inesperadamente feliz. Ali ninguém falava de contas ou limpezas. Só de coisas bonitas.
No fim do encontro, Alexandre acompanhou-me ao autocarro.
Gostou?
Muito, confessei. Parecia outro mundo.
Pois, Mariana, é mesmo outro mundo. Sabe, vejo-a e percebo: passou a vida inteira a existir para os outros. Nunca para si. Quando foi a última vez que fez algo só porque queria?
Não soube responder.
Essa é a armadilha da meia-idade, disse ele. Vamos esquecendo de nós, damos tudo à família, até acordamos um dia sem saber quem somos. Mas nunca é tarde para nos reencontrarmos.
As palavras ficaram-me cravadas na alma.
Olhe, parou de andar no sábado vou fotografar uma quinta na margem sul. Quer vir? Prometo que vai gostar.
Fiquei a hesitar.
Eu… não sei…
Mariana, é só um passeio. Só isso. Tem esse direito.
Tenho.
Perfeito. Às dez no metro.
Despediu-se com um aceno. Fiquei com o coração aos pulos.
***
Na sexta à noite, Diogo preparava as coisas para a pesca.
Fico fora até domingo, disse ele. Qualquer coisa, liga-me.
E se eu for contigo?
Olhou-me, surpreendido.
Para quê? Detestas pesca. Queixas-te sempre do frio, dos mosquitos…
Podíamos estar juntos…
Estamos juntos sempre, Mariana. Aproveita para descansar e ver as tuas novelas.
Foi-se embora, deixando-me a olhar para a porta.
No sábado, preparei-me com cuidadojeans, camisola quente, casaco. Vi-me ao espelho: as bochechas coradas, olhos brilhantes. Sentia-me viva.
“É só um passeio”, repeti.
Alexandre esperava-me com dois cafés.
Pronta para a aventura?
Fomos na velha Renault dele, conversámos sobre tudo. Ele contava histórias, eu ria, sentia-me leve.
A quinta, meio em ruínas, tinha um encanto triste: colunas lascadas, um parque velho, lago escuro. Fui apanhando folhas amarelas enquanto ele fotografava.
Ponha-se ali, junto à coluna. Olhe para longe.
Tirou fotos, depois mostrou-me.
Tem um olhar fotogénico, Mariana. Essa tristeza dá-lhe uma profundidade rara.
Vi-me na fotografia: uma mulher desconhecida, com um olhar sonhador. Chocava-me reconhecer-me.
Jantámos numa tasca na aldeiaempadas e chá quente. A conversa foi-se tornando mais próxima.
Está casada há quanto tempo? Ele.
Vinte e oito anos.
E feliz?
Calei-me. O que era a felicidade?
Não sei, disse baixo. Achava que sim. Agora… nem sei o que sinto. Tenho tudo e ao mesmo tempo falta algo.
Falta-lhe sentir-se viva, sugeriu Alexandre, pousando a mão na minha. Merece ser feliz. Acredite.
Queria afastar a mão, sair dali. Não consegui. Não quis.
***
As semanas voaram num nevoeiro de encontros. Alexandre dava-me atenção, conversas, elogios. O Diogo continuava igual: trabalho, pesca, notícias. Eu cozinhava, limpava, respondia ao mínimo.
Mariana, compraste arroz?
Comprei.
Ótimo. E as minhas meias?
Como sempre, na gaveta.
Acabava nisso. Com Alexandre, sentia-me florescer.
A Joana aproveitou para gozar comigo.
Estás apaixonada!
Cala-te, corei. Somos só amigos.
Sim, sim, amigos… Mariana, nunca te vi tão feliz. E não te julgues, mereces mesmo.
Mas eu sou casada sussurrei.
E então? O teu Diogo nem repara em ti. Porque tens de sacrificar a tua felicidade?
As palavras dela assentavam em terreno preparado. Eu também já me tentava convencer: “Apenas estou a viver.”
Em novembro, Alexandre convidou-me para um festival de fotografia em Aveiro. Passaríamos lá um dia, dormiríamos em dois quartos distintos de hotel. Disse ao Diogo que ia com a Joana a uma feira outlet.
Está bem, mas não esbanjes.
No hotel, dois quartos. Estivemos o dia todo entre exposições e conferências, jantar à noite com vinho, conversas profundas.
Mariana, murmurou Alexandre, há algo em si que me toca. Uma pureza, uma tristeza que chega ao coração. Não quero apressá-la nem forçá-la, mas precisa de saber: gosto mesmo de si.
Ao chegar aos quartos, deu-me um beijo na face.
Se quiser conversar, estou mesmo ao lado.
Deitei-me, olhos no teto. Estava ali há quase trinta anos com o Diogo. E agora?
“A última vez que ele me beijou sem ser por hábito?”
“É traição. Mas também é vida. O meu último sopro de juventude.”
Às duas da manhã, saí para o corredor. Bati à porta de Alexandre. Ele abriu de imediato.
Mariana…
Cravei-lhe os olhos e entrei.
***
Na manhã seguinte, sentia-me horrível, com uma ressaca que não era do vinho. Sentei-me sozinha no quarto do hotel, cabeça entre as mãos.
“O que fui fazer?”
Na viagem de regresso, Alexandre era meigo e atencioso. O peso da culpa foi cedendo à estranha felicidade de me sentir viva.
“Estou a viver, finalmente a viver.”
Em casa, o Diogo igual a si mesmo.
Então, fizeste boa compra?
Só umas botas, nada de especial.
Óptimo. O que é o jantar?
A rotina voltou. Durante o dia, esposa do Diogo. À noite, mulher de encontros secretos com Alexandre. Ele mostrava-me sítios novos, trazia-me livros, dizia poemas baixinho.
Com o Diogo, só diálogos banais.
Temos de ver o cano da casa de campo.
Vemos na primavera.
Está bem.
Silêncio, sempre silêncio.
Joana regozijava-se.
Finalmente estás viva! Não morres nesse charco.
Eu tentava justificar-me: “O Diogo afastou-se. Ele escolheu isto. Também tenho direito.”
Mas à noite, ao lado do Diogo, desfeito em sono, sentia-me partir por dentro.
***
Chegou dezembro, frio, chuva. Eu e Alexandre víamo-nos quase toda a semana. Ele arranjou um pequeno estúdio, onde “dava cursos de Photoshop”, segundo eu dizia ao Diogo. Alexandre era carinhoso, mas por vezes as suas palavras soavam a frases ensaiadas. E percebia que não devia ser a única.
Mas já era tarde para parar.
Uma tarde, fui à farmácia comprar comprimidos para o Diogo. Quando estava a pagar, caiu-me da mala a caixa dos perfumes que Alexandre me dera. “Sonho de Luar”. Um aroma doce.
Não reparei. Só à noite, reparei o Diogo chegar mais cedo. Eu na cozinha, ouvi-o pousar a caixa sobre a mesa.
Isto é teu? perguntou baixo.
Virei-me e estremeci.
Sim… Encontrei-a na rua, inventei.
Na rua? Perfume caro
Cheirou-os.
Mariana, não sou burro, disse calmamente. Achas que não reparei em nada? Que mudaste, que andas sempre fora, que olhas para mim como se fosse um desconhecido?
Aproximei-me do fogão, sem conseguir fugir.
Diogo, eu
Quem é ele?
Ninguém Só…
Não mintas. Traíste-me, não foi?
A verdade soou na minha voz:
Sim, Diogo. Desculpa. Não queria
Não querias, mas fizeste.
Virou-se, dirigiu-se ao quarto.
Espera, Diogo, por favor. Precisamos falar
Explicar o quê? Que te deitaste com outro porque eu era distraído? Talvez seja verdade. Talvez tenha perdido o foco com o trabalho e a pesca. Talvez te tenha esquecido. Mas nunca, ouviste, nunca te traí. Porque te amava. Amo. E tu destruíste tudo.
Por favor, Diogo, fica. Vamos tentar
Não consigo agora. Vou ficar com o Hugo, preciso de tempo.
Em quinze minutos, fez a mala e foi. Não bateu com a porta. A serenidade foi gelada.
***
Andei perdida pelo apartamento. Liguei-lhe nada. Escrevi: Desculpa. Por favor, volta. Não respondeu.
Liguei ao Alexandre.
Alexandre, a voz engasgada o Diogo descobriu tudo. Foi-se embora. Não sei o que fazer.
Mariana, calma a voz dele reconfortante. Venha cá. Conversamos.
Desabafei, chorei. Ele abraçou-me, fez-me festas no cabelo.
Vai ficar tudo bem, repetia. Não dava para continuar assim. Não eras feliz. Talvez seja a chance de recomeçar.
Recomeçar? Mas como?
Agora és livre. Podes viajar, criar, ser tu própria.
E tu? Vamos ficar juntos?
Ele afastou-se, sem jeito.
Mariana, sabes que nunca te prometi nada. Eu sou um espírito livre. Vivo no momento. Tivemos momentos bonitos, mas…
Fui só uma distração?
Não digas isso. Foste importante. Mas não sou homem de compromissos. E achei que procuravas só liberdade.
Levantei-me. De repente percebi tudo. Os elogios, os encontrostudo um jogo.
Então tudo foi encenação?
Não, a sério… Só queria que fosses feliz.
Saí sem olhar para trás. Na rua, o frio e a neve misturavam-se com as lágrimas.
***
Cheguei a casa, acendi a luz, tirei o casaco e sentei-me no sofá a olhar para o vazio. Liguei à Joana.
Preciso falar contigo.
Encontrámo-nos no Café da Rita, onde tudo começara. Contei tudo. Ela sorveu o galão, impassível.
Pronto, tiveste as tuas emoções. Ao menos não secaste nesse tédio.
Olhei-a, chocada.
Joana, a minha vida desfez-se e tu
Tu é que escolheste esse caminho. Eu só te apresentei gente. És adulta.
Sempre disseste que ele não me valorizava, que devia viver para mim.
Era verdade. Ele não te valorizava. Talvez agora perceba o que perdeu. Ou não. A vida é assim.
Levantei-me.
Pensava que eras minha amiga, Joana. Mas agora percebo: tinhas inveja. Da minha família, da minha paz. Quiseste que eu fosse tão infeliz e perdida como tu.
Olha-me esta! revirou os olhos. Não dramatizes tanto.
Adeus, Joana, virei costas.
***
Passou uma semana. O Diogo não voltou. Eu ligava e escrevia-lhe; ele respondia seco: Preciso de tempo.
Senti a casa enorme e estéril. Noites inteiras sem dormir, a repassar tudo. Como cheguei àquilo. Lembrei-me do Diogo a arranjar as torneiras, a fazer-me chá quando adoecia, a plantarmos juntos uma macieira. Pequenas coisas, que me pareceram banais Agora, daria tudo para voltar atrás.
Na véspera de Ano Novo, não aguentei e fui ao prédio do Hugo, onde o Diogo se abrigava. Pedi para falar com ele.
Ele não quer ver-te, Mariana.
Por favor, cinco minutos apenas.
O Diogo apareceu. Estava envelhecido.
O que queres?
Desculpa, Diogo. Perdi a cabeça. O outro era uma ilusão, e tu eras real, eras o meu lar. Dá-me uma oportunidade.
Ele calou-se. Depois, abanou a cabeça.
Mariana, não sei se consigo. Depois de tudo Dói só de olhar. Não sei se consigo perdoar.
Eu destruí tudo.
Ficámos calados no corredor, duas pessoas que viveram quase trinta anos juntas e, de repente, eram estranhas. Ele afastou-se.
Preciso de tempo. Adeus.
Fechou a porta com cuidado.
Saí para a rua. O Natal iluminava a cidade, o mundo a festejar, mas dentro de mim o vazio era abissal.
***
Passei o Ano Novo sozinha. Liguei a televisão, servi um espumante. À meia-noite, levantei o copo.
À nova vida, sussurrei, amarga. Que ironia.
Em janeiro, a Joana ligou:
Mariana, estás escondida? Olha, conheci um tipo incrível, dá aulas de yoga. Vais gostar. Vens?
Fiquei em silêncio.
Mariana, ouves-me?
Ouço.
Então, no mesmo café, está tratado?
Fechei os olhos. Imaginei: outra tertúlia, outro homem interessante, o ciclo a repetir-se.
Não, Joana. Não vou.
Como?
Não consigo. Desculpa.
Desliguei.
Dias depois, sentei-me sozinha no Café da Rita, a olhar a rua e o frio lá fora. A Joana entrou, viu-me, sentou-se.
Cá estás, Mariana! Então, aquele tal Mário… fabuloso! Vais gostar!
Olhei-a. Por trás dos lábios pintados e da jovialidade, percebi-lhe a mesma solidão. Só que ela não reparava, ou não queria reparar.
Mariana, ouves-me?
Fitei-a, carregando no olhar tudo o que aprendi. A dor, a perda, o verdadeiro significado das escolhas.
Ouço.
Joana esperava uma resposta. Fiquei calada. Naquele silêncio estava tudo o que agora sabia: que a felicidade não se procura nos outros, que o que é valioso é fácil destruir, que viver é escolher e suportar as consequências.
E percebi, ali, sozinha no café, que a grande lição não era ter arriscado a viver mas saber lidar com o que a vida devolve, quando o preço é a ausência do que mais amámos.







