A toalha é branca, a vida é cinzenta
O caldo verde saiu mesmo bem. Leonor tinha certeza disto, porque provou três vezes enquanto cozinhava, e ficou satisfeita em todas. As couves vieram frescas da feira, a chouriça de boa qualidade ficou a apurar na panela quase duas horas, e só acrescentou o alho no fim, como devia ser. Na mesa estavam duas velas, a toalha de linho branca, aquela que guardava para ocasiões especiais. Quinze anos de casamento. Afinal, é especial.
Lá fora, o entardecer chegava cedo e húmido. Outubro em Coimbra era sempre assim: cinzento, a cheirar a folhas podres e a escape dos autocarros. Leonor alinhou o garfo do lado direito do prato, ajeitou a ponta da toalha, embora estivesse já perfeitamente esticada. Depois ficou parada, a meio da cozinha, ouvindo apenas o tique-taque do relógio pendurado acima do frigorífico.
Vítor chegou às oito e meia. Ela ouviu o barulho da chave, o saco a cair no chão, o clique do interruptor.
Então, o que é que há para jantar? espreitou para a cozinha sem tirar a gabardina, já com o nariz vermelho do frio.
Vai lá lavar as mãos e senta-te. Leonor sorriu com suavidade. Caldo verde, frango assado, fiz também uma salada.
Vítor tirou o casaco ali mesmo, pendurou-o no encosto de uma cadeira. Olhou em volta.
As velas para quê?
Então, Vítor, hoje é o nosso aniversário.
Ele não disse nada, foi lavar as mãos depressa e sentou-se. Leonor serviu-lhe o caldo verde e pôs o prato à frente dele. O azeite também era da feira, caseiro. Deitou-lhe uma colherada por cima, como ele gostava.
Vítor cheirou a sopa, provou.
Meio azedo comentou.
Leonor sentou-se à frente.
Achas? Eu achei normal.
A minha mãe faz diferente. Fica não sei, mais forte, com sabor verdadeiro. O dela é mesmo bom.
Leonor pegou na colher.
Come enquanto está quente.
Estou a comer. Vítor rodou o prato. Para que é que puseste a toalha branca? Vais acabar toda manchada.
Não vou, tem calma.
Pois, logo se vê A minha mãe põe sempre uma bordô nestas ocasiões. É mais prática. E fica bonita, também.
Leonor olhou para as velas. A chama tremia ligeiramente cada vez que Vítor se mexia.
Vítor, disse tranquila fazemos hoje quinze anos de casados.
Eu sei…
Não disseste nada quando entraste…
Ele olhou para ela, surpreendido, quase magoado.
O que querias que dissesse? Parabéns? Nós estamos juntos todos os dias, não é como um aniversário de verdade.
Não sei, quinze anos é…
São quinze anos, interrompeu. Olha, onde está o frango?
Leonor levantou-se, foi buscar o frango ao forno. Douradinho, com ervas, como ele gostava.
Secaste o frango soltou assim que cortou uma posta.
Acabei de o tirar do forno.
Ficaste tempo demais. A minha mãe cobre sempre com papel de alumínio, assim não seca. Fica bem melhor.
Leonor serviu-se. Mastigava devagar. Lá fora, um carro passava e a luz pelos estores riscava o teto da sala.
Foste ver a tua mãe hoje? arriscou ela.
Passei lá a sair do trabalho. Porquê?
Por nada. Estava só a perguntar.
Ele voltou ao tema da toalha.
Não devias ter posto a branca, Leonor. Não te preocupes tanto com isto. A minha mãe tem sempre tudo a condizer: loiça, toalhas, até o pão corta fininho. Tu apontou para o pão cortaste tipo broa.
Leonor pousou o garfo com suavidade, ao lado do prato.
Por dentro, algo se apertou e libertou, como um punho que fecha e abre.
Vítor, disse sem alterar o tom, até a ela própria surpreendeu, percebes o que acabaste de fazer?
Ele olhou para ela com irritação de quem é interrompido enquanto come.
O quê? Só disse que na minha mãe fica melhor. Não é ofensa.
Entraste por aquela porta, não disseste nada. Criticaste o jantar, a toalha, o pão, até o frango. Eu passei três horas aqui.
E depois? Queres palmas? É o teu papel.
Silêncio.
O meu papel repetiu ela, sentindo o sabor amargo da palavra.
Sim, estás em casa, cozinhas. Eu trabalho, trago dinheiro. É simples.
E quinze anos, são também só circunstância?
Leonor, queres poesia? A minha mãe sempre disse: menos romantismo, mais ordem. Aí sim, a família anda para a frente.
A chama da vela vacilou, como se tivesse ouvido.
Leonor levantou-se, levou o prato ao lava-loiça. Ficou a olhar a rua, os telhados húmidos, as luzes amarelas das janelas na noite, e a árvore já quase desfolhada no jardim.
Depois virou-se.
Vítor, faz as tuas malas.
Ele ergueu a cabeça.
Hein?
Faz as tuas malas, e vai-te embora, por favor.
Olhou-a como se ouvisse uma língua estranha. Depois riu-se, aquele riso entre tosse e desdém.
A sério?
A sério.
Por causa da sopa?
Não é por causa da sopa.
Então? Por ter falado da minha mãe? Que disparate, Leonor.
Não tem graça.
Ficaste magoada? ergueu-se, cruzando os braços. Olha, desculpa, vá lá. Senta-te, vem comer.
Não, Vítor.
Ela estava calma, sem raiva nem lágrimas. Talvez ele esperasse uma discussão, gritos, portas a bater. Qualquer coisa. Só não aquela tranquilidade.
Não estás a brincar, pois não?
Não.
Silêncio. Apenas o relógio e as velas.
Por causa de uma conversa…
Não foi apenas uma, Vítor. Foram quinze anos da mesma conversa. Vai, pega no que precisares, o resto recolhes depois.
Ele ficou um minuto parado, depois virou costas, saiu para o quarto. Leonor ouviu o barulho do armário, do saco de viagem. Ficou na cozinha, olhando para as velas, que agora ardiam serenas.
Quando Vítor saiu, mala na mão, parou à porta e olhou a mesa: a toalha branca, o caldo verde, o pão cortado grosso.
Vais arrepender-te disse.
Talvez respondeu Leonor. Adeus, Vítor.
A porta fechou-se. Ela ficou a ouvir os passos a perderem-se nas escadas.
Apagou as velas, porque já não fazia sentido mantê-las acesas, lavou a loiça, guardou o caldo verde no frigorífico. Não tinha fome.
O apartamento cheirava a cebola refogada, e um pouco a humidade. Outubro, com as janelas do prédio sempre abertas e os aquecedores ainda apagados.
Foi-se deitar antes das onze. Custou a adormecer, ficou a olhar o teto, ouvindo a televisão dos vizinhos e só pensava: não está a chorar. Que estranho.
***
Dona Amélia abriu a porta antes de Vítor tocar de novo. Era sempre assim, parecia adivinhar, pronta do outro lado.
Ó filhinho! exclamou, vendo o saco. Santo Deus, o que aconteceu?
Mandou-me embora disse ele secamente.
Quem, aquela? Dona Amélia recuou para o deixar passar. Eu bem dizia, Vítor! Anda, anda, fiz sopa de batata com frango, como tu gostas.
Ele descalçou-se, foi direito à cozinha. Cheirava a comida e a casa de pessoa idosa: um pouco a naftalina, um pouco a xarope, por cima tudo o cheiro da cozinha.
A mãe não calava um segundo, mexendo nas panelas.
Sempre te disse, nunca foi mulher para ti. Fria, Vítor, fria. Sabes, mulher fria não tem filhos, natureza sabe o que faz. Anda, vê o pão como cortei.
O pão estava cortado fininho, como régua. Vítor lembrou-se de Leonor, sempre a cortar à moda dela, pedaços grossos.
Ó mãe, deixe…
O quê? Eu só digo a verdade! Quinze anos a penar e para quê? Nem filhos, nem casa em ordem. Anda, prova a sopa.
A sopa era boa, forte, como prometido. Vítor comeu calado.
Foram dias em piloto automático. Ia trabalhar, voltava, jantava com a mãe, assistia televisão. Dona Amélia preparava tudo com entusiasmo; tirava bifes do frigorífico de manhã, dizia: Tens de comer melhor. Estás todo cinzento.
Ao terceiro dia, ela própria arrumou-lhe o saco enquanto ele estava fora.
Essa camisa já não uses, está amarrotada. avisou ao jantar. Eu passo-te a azul, fica-te melhor.
Gosto da cinzenta disse ele.
Mas a azul é melhor. Eu percebo destas coisas.
Ele não insistiu. Terminou os bifes, bebeu chá e ouviu a mãe falar da vizinha do quarto andar que vai para a vida, está feliz, e Vítor adivinhava o recado sobre Leonor, mas bloqueava o ouvido.
Uma semana depois, a mãe decretou que os sapatos dele estavam rotos e que ao sábado iriam juntos comprar.
Estão bons, mãe.
Eu vejo tudo. A sola já salta.
Não salta.
Salta. Vamos no sábado, e pronto.
No sábado lá foram. Ela escolheu demoradamente, experimentando nele pares que lhe agradavam. Vítor queria uns pretos, simples. Ela impôs uns castanhos, com fivela decorativa.
Ficam-te tão bem.
Não gosto destes.
Ai filho, não sejas criança. Estes é que são.
A funcionária olhava os sapatos, distante. Vítor viu-se ao espelho, homem de meia-idade de sapatos castanhos com fivela, sem expressão nenhuma.
Levou os castanhos.
À noite, a mãe sentava-se em frente dele, relembrando como o criou sozinha, como tudo tinha sido difícil, e como Leonor não valorizava nada disto. Ele acenava com a cabeça.
Pensava às vezes na toalha branca. Nas velas. Não entendia para que era aquela cerimónia toda. Quinze anos, afinal, são só quinze.
E ainda pensava no estranho: ela não chorou, não levantou a voz. Ficou à janela, tranquila, e pediu-lhe para sair. Nunca tinha visto aquilo nela. Esperava tudo menos aquela calma.
Ao fim de um mês, a mãe planeava-lhe a semana. Terça vais ao médico, marquei para ti, Quinta passamos na tia Rosa, Sexta não atrases, vou fazer bolo.
Vítor nesse dia atrasou-se. Ligou a mãe e ela falou o caminho inteiro no autocarro. O bolo estava pronto, era mesmo saboroso. Tudo era sempre saboroso, mas um peso persistente no peito teimava em não desaparecer.
***
As três primeiras semanas, Leonor andou como sonâmbula.
Ia ao trabalho, jantava qualquer coisa simples, enfiava-se na cama. As noites custavam, fazia-lhe impressão o silêncio, que primeiro assustou, depois tornou-se só silêncio.
A amiga Olívia ligava dia sim, dia não: Leonor, como estás? Vens cá? Ela respondia que estava bem. Olívia veio logo no primeiro sábado, trouxe vinho e bolachas, e ficaram até às tantas na cozinha, Leonor a desabafar sobre as velas, a sopa, a mãe perfeita, e Olívia só dizia, baixo: Que tristeza, e isso aliviava, um bocadinho.
Fizeste bem concluiu Olívia, ao fim da noite. Mesmo muito bem, Leonor.
Tenho medo confessou Leonor.
Passa. Vais ver.
Depois, ficou sozinha na sala, olhando as cortinas pesadas azul-escuras. Vítor escolhera-as, oito anos antes. Masculinas, tapam bem a luz, prático. E estavam ali, imutáveis. Com um impulso, Leonor tirou-as no dia seguinte.
Levou-lhe quase uma hora e meia a tirar tudo, o varão era pesado e ela subiu à mesa. Guardou as cortinas, arrumou-as no armário. O quarto mudou, acolheu uma luz cinzenta e fria do outono, mas era melhor do que o breu.
Mudou de sítio o sofá, pedindo ao seu vizinho, senhor António, já velhote, para ajudar. Agora, o sofá apanhava luz. Era estranho, mas bom.
Dormia melhor à segunda semana. Não era perfeito, mas pelo menos já não ficava noite fora a olhar o teto.
No trabalho, continuava tudo igual. Leonor era a contabilista de sempre, meticulosa, de confiança. Nunca se atrasava, mantinha a papelada impecável. Colegas respeitavam-na, sobretudo a chefe de contabilidade, Dona Irene, baixinha, rigorosa, eternamente com brincos de pérola. Não falava da vida, mas via-se que apreciava Leonor.
No fim de outubro, Dona Irene chamou-a ao gabinete.
Leonor, foi direito ao assunto para o ano vou para o Porto, viver com a minha filha. O diretor quer-te a ti para chefe de contabilidade.
Leonor piscou, sem dizer nada.
A mim?
Sim, a ti. Já decidi há meses. Aceita.
Leonor, no autocarro, pensava nisso. Chefe de contabilidade. Mais responsabilidade, outro ritmo. Sempre temera tal cargo. Lembrou-se do que Vítor dissera em tempos: Queres carreira para quê? Eu é que trago dinheiro. E ela, na altura, não contestou.
Agora, via os candeeiros passarem na janela. Porquê não aceitar, então?
Novembro foi mês de pequenas mudanças. Pintou a parede do quarto num amarelo pálido, trocou as cortinas por umas de linho, claras; comprou um abajur alaranjado, quente, que acendia nas noites frias. Coisas pequenas, mas o apartamento ia-se tornando dela.
Comprou vasinhos de gerânios, pôs no parapeito. O cheiro fresco combinava tão bem com o linho das cortinas e as paredes amarelas.
Os assuntos legais com Vítor trataram-se pelos advogados, sem conflitos. O apartamento ficou para ela, ele não fez caso. Andava sossegado, talvez farto, talvez a mãe o acalmasse.
Em dezembro aceitou a promoção. Dona Irene apertou-lhe a mão.
Parabéns, Leonor. E, pela primeira vez, sorriu abertamente.
O ano novo foi passado na casa da Olívia, em festa, miúdos e cães por todo o lado, salada russa às tigeladas. Havia alegria e alguma nostalgia própria daquela altura em que se olha para trás. Leonor brindou à janela, com um copo de espumante, viu o fogo no céu e pensou: passou mais um ano, estou viva, talvez até melhor do que nunca.
***
Vítor não dava volta ao tempo.
A mãe decidiu levá-lo ao médico. Marcou-lhe o clínico, o cardiologista, o gastrenterologista. Não estás com bom ar, Vítor. Ele foi pelo favor. Médicos diziam para a idade está ótimo, mas Dona Amélia torcia o nariz, sempre à espera que houvesse motivo para preocupação.
No trabalho, Vítor tornou-se mais rabugento. Colegas notavam. O colega Pedro, companheiro de cigarros no pátio, um dia sondou:
Estás estranho, pá.
Nada.
Coisas lá em casa?
Não.
Pedro deu duas passas e foi-se. Vítor ficou a olhar o pátio sujo, neve pisada, manchas de óleo. Nem lhe apetecia voltar ao trabalho, nem à casa da mãe, a lado nenhum.
Onde queria, ele?
Não sabia.
Todos os dias, a mãe tinha jantar, conselho e plano feito: o que vestir, onde ir, a que horas chegar. Se se atrasava, ligava. Se não atendia, insistia. Depois mensagem: Estou preocupada, onde andas?
Em fevereiro, demorou-se no Pedro: viram futebol, beberam umas imperiais, conversa de homens. Chegou quase às onze.
A mãe esperava-o na cozinha às escuras. Quando acendeu a luz, olhou de tal modo, que ele encolheu.
Onde estavas?
Avisei, mãe.
Disseste só chego tarde. Isso não é avisar. Fiquei preocupada, subiu-me a tensão.
Mãe…
Come, deixei-te jantar. Pousou à frente dele pratos aquecidos. E não desligues o telemóvel, liguei três vezes.
Não desliguei, mãe, estava a ver o jogo.
Futebol… como se dissesse palavrão.
Vítor mastigava e olhava a mesa, a arranjar desculpas sobre tudo: o atraso, a camisa, a chamada, porque não comeu, porquê comeu aquilo.
A memória voltava-lhe: A mãe é quem sabe. Outrora sentia orgulho em dizer isso. Agora, era desconforto.
Em março, tentou arrendar um quarto. Viu anúncios, achou um barato, perto do emprego. Contou à mãe.
Ela chorou.
Baixinho, sem escândalo, só disse: Então estás mal aqui comigo. Sou um estorvo. Compreendo, Vítor.
Não arrendou o quarto.
À noite, sonhava por vezes com Leonor. Não em cenas românticas. Simples: ela a mexer na cozinha ou a andarem de carro. Imagens comuns. Acordava e olhava o teto, sem nada para observar além do reboco.
Pensava: o que estará a fazer? Como estará?
De imediato corrigia-se: já deve ter alguém.
Isto irritava-o.
***
Fevereiro foi luminoso. O frio era cortante, mas quando Leonor caminhava para a paragem, o sol fustigava-lhe os olhos. Pensou que precisava mesmo de uns óculos de sol e comprou uns rosa, com armação fina. Experimentou na loja e soltou uma gargalhada, surpreendida, contente.
No emprego, as novas funções exigiam mais, mas ela conseguia. Algumas vezes ficava até tarde, papeis e relatórios, conversas rápidas com o diretor, senhor João Marques homem de poucas palavras, muito rigoroso. Ele parecia satisfeito. Sentia-se valorizada.
A auxiliar mais nova, Daniela, olhava Leonor com um respeito silencioso, de vez em quando pousava-lhe um café na secretária, sem pedir. Leonor agradecia e Daniela sorria, corando.
Em março, Olívia insistiu em levá-la ao aniversário de uma amiga, Matilde. Leonor não queria: muita gente estranha, barulho, socializar… Olívia insistiu: Anda, vai ser giro.
Matilde era daquelas pessoas abertas, ri muito, tem dois gatos e um ficus gigante na sala. Havia uma dúzia de convidados. Leonor ficou colada à Olívia meia hora, depois perdeu a timidez a falar com uma professora de matemática, ficaram a noite toda a discutir livros.
Alexandre estava à frente. Só deu por ele perto do fim. Era daqueles discretos: baixo, cabelo a ficar branco, camisola cinzenta. Falava pouco, ouvia muito. Sorria às vezes, por graça.
No fim, estavam lado a lado junto à janela, cada um com uma chávena de chá. Uma pergunta, uma resposta, conversaram naturalmente. Era engenheiro, trabalhava num projeto de reabilitação de prédios antigos, viúvo há quatro anos disse-o simples, sem dor, quem já fez as pazes com o passado.
Conheces a Matilde há muito? perguntou Leonor.
Pelo ex-marido dela. Ele foi embora, ficámos amigos. Sorveu o chá. E tu, pela Olívia?
Desde a universidade.
É bom ter amigas assim disse ele.
É, sim.
Trocaram números de telefone, sem expectativa. Três dias depois ele convidou-a para um café. Leonor aceitou.
Encontraram-se numa esplanada pequena. Falaram duas horas. Ela contou do divórcio, ele ouviu sem interromper, sem conselhos, sem crítica. Depois falou um pouco da sua vida. Saíram, estava frio e soube-lhes bem. Alexandre perguntou se podia voltar a ligar. Leonor disse que sim.
Depois veio um passeio à beira-rio. Depois cinema. Depois, numa noite de abril, ele convidou-a para jantar.
***
Alexandre morava no quinto andar de um prédio de pedra antiga. Leonor subiu, agarrada a uma garrafa de vinho, pensava: vai ser a casa típica de um solteirão, vou fingir que não faz diferença. Nervosa como quem teme ser julgada.
Tocou à campainha.
Da porta veio um cheiro subtil a maçã, doce, com traço de canela.
Entre, sorriu Alexandre. Fui adiantando, pus um bolo a assar. Espero que goste de tarte de maçã.
Adoro.
A casa era simples, sem aquele ar de decoração de catálogo, mas cheia de vida: livros, ferramentas misturados na prateleira do hall, jornal na mesa da cozinha. Gente.
Na cozinha, Leonor ajudou a fazer salada, ela cortava tomate, ele queijo. Às vezes falavam, outras estavam calados, sem peso.
Sentiu-se à espera do costume: alguém reclamar, preferir pepino, ou outro molho, um olhar de desagrado à mesa montada mas Alexandre nada disse, apenas serviu o vinho, olhou à volta e a ela.
Obrigado por teres vindo disse.
Só isso. Simples.
Leonor baixou os olhos ao prato e percebeu, de súbito, uma leveza nova: como ter algo suspenso há muito e, finalmente, poder pousar.
Lá fora era noite de abril, luzes de poste acesas, na janela via-se um ramo mover-se, já com folhas minúsculas. O bolo assava devagar, e o cheiro espalhava-se.
Conversaram até tarde: infância, desejos, como queria ser professora mas escolheu economia, os projetos de reabilitação de Alexandre. O que é curativo, restaurar o que esteve destruído.
Quando Leonor se foi embora, Alexandre acompanhou-a à porta.
Gosto de te conhecer disse.
No regresso, pensou mais na simplicidade do jantar do que na companhia. Impressionava-a, afinal, poder estar com alguém, jantar sem esperar uma crítica, sair e sentir-se melhor.
***
O verão foi tranquilo.
Leonor e Alexandre viam-se com frequência mas sem pressa. Iam juntos à feira ao sábado, ela comprava ervas e natas, ele peixe fresco. Cozinhar a dois era diferente, agradável, sem tensão nem cobranças.
Em julho, acabou por dormir lá. Era tarde, não havia pressas para voltar. De manhã ele fez-lhe café na cama, sem teatrinhos. Apenas levou e sentou-se ao lado.
Vais trabalhar hoje? perguntou.
Só à tarde.
Queres ir à feira de manhã? Dizem que já há cerejas.
Leonor segurou o café com ambas as mãos. Lá fora, uma manhã azul de verão, cheiro fresco nos lençóis, andorinhas às risadas. Quase lhe vieram lágrimas, mas agora eram de outra coisa: aquela sensação inusitada de estar verdadeiramente bem.
Quero disse.
No outono, Alexandre convidou-a a viver com ele. Sem cerimónias nem flores, apenas sugeriu, enquanto lavavam loiça:
Leonor, e se viesses para cá? Acho que fazias cá falta. Há espaço, e eu gostava.
Preciso pensar.
Claro. Pensa à vontade.
Pensou duas semanas, disse sim.
Em novembro mudou-se. Arrendou o seu apartamento, não vendeu. Levou livros, gerânios, abajur, cortinas de linho. Alexandre deslocou uma estante para os livros dela. Arrumaram tudo juntos, os ensaios dele e os romances dela misturados, resultava bem.
Em dezembro casaram pelo registo civil, discretamente, só Olívia e o amigo João estavam presentes. Jantaram os quatro num restaurante acolhedor, entre brincadeiras e gargalhadas, e Olívia chorou, mas de alegria.
Em janeiro, Leonor descobriu que estava grávida.
Ficou em silêncio na casa de banho, o teste na mão, talvez dez minutos sentada, imóvel.
Tinha quarenta e três anos. Sempre achou que não teria filhos. Nem ela nem Vítor alguma vez quiseram, ou talvez nunca falaram a sério do assunto, e o tempo passou. Médicos nunca lhe proibiram, mas já pusera na cabeça: não era para ela.
E, no entanto.
Alexandre estava a trabalhar no gabinete. Ela foi ter com ele. Ele olhou-a, pressentiu algo.
O que foi?
Ela deu-lhe o teste. Ele olhou, demorou o seu tempo, levantou-se e abraçou-a, sem palavras.
Depois, apenas disse:
É ótimo, Leonor. Muito bom.
Ela encostou-se ao ombro dele e, finalmente, chorou. Mas agora, sem medo, chorou mesmo. Ele não estranhou nem mandou parar, só a abraçou e murmurava: Está tudo bem. Tudo.
***
Chegou nova primavera, de novo cafeteria, de novo passeio à beira-Mondego, agora lentamente, que o ventre já pesava, e Alexandre segurava-lhe o braço.
Seis meses. Todos sabiam. O senhor João, diretor, disse: Parabéns, Dra. Leonor. O seu lugar está à espera, descanse. Daniela agora olhava-a diferente, com aquele respeito especial que só as mulheres certas inspiram.
A casa, agora chamada de a nossa, enchia-se de vida nova: berço por montar, candeeiro em forma de lua, pilha de roupas minúsculas no gavetão. Às vezes Leonor abria a gaveta só para tocar nas coisas. Eram reais, sólidas.
Pela manhã, bebia chá à janela e via a relva a nascer no pátio, cheiro fresco de maçã da vizinha, que tinha um pomar pequenino. Era doce e sereno.
Mas, às vezes, à noite, depois de Alexandre adormecer, Leonor, ainda desperta, sentia pontapés suaves do bebé. Pensava no passado. Sem dor, nem saudade doída, mais como quem revê uma fotografia antiga: aquela vida, aquelas pessoas. Tinha pena de certas coisas talvez dos quinze anos que passaram sem darem o que podiam. Ou talvez da rapariga que foi, tão esforçada a fazer caldo verde, a pôr a toalha branca.
Não sabia nada de Vítor. Olívia contou que o vira no supermercado, parecia envelhecido. Leonor assentiu, sem comentário. Não lhe queria mal. Agora ele era outra história, já não dela.
***
Na casa da mãe, Vítor estava sentado na cozinha.
Lá fora era abril, mas aqui parecia inverno eterno: cortinas pesadas a tapar a luz, tudo igual pelos anos fora, aquele cheiro a hospital, sopa e tempo.
Dona Amélia mexia o tacho, sempre a falar.
Estás com mau aspeto, Vítor. Devias ir ao Dr. Álvaro, não a esses do centro de saúde que não percebem nada. Já liguei, marquei cardiologista no centro número sete, nem argumentes.
Mãe, estou bem.
Tu não sabes ver isso, homem nenhum sabe. O teu pai dizia o mesmo, e olha
Vítor olhava a mesa.
A toalha era de xadrez azul e branca. Prática, não mancha. A mãe tinha razão.
Ela serviu-lhe o prato.
Come antes que arrefeça. Fiz sopa de trigo, com carne, como tu gostas.
Gosto, mãe.
Começou a comer. Era boa sopa, a mãe sabia fazer.
Vítor disse ela, sentando-se com chá pensaste no que te falei da Ludovina?
Vítor levantou os olhos.
Não.
Devias. Mulher de respeito, viúva, casa própria. Mostrou interesse em ti.
Mãe…
Que foi? Tens quarenta e cinco anos, Vítor. Um homem não deve estar sem mulher, não faz sentido.
Tenho mulher, saiu-lhe, sem dar por isso.
A mãe olhou-o, surpreendida.
Onde?
Pronto… não propriamente. Quero dizer, não preciso da Ludovina. Eu orientarei.
Como, se ficas aqui a olhar o vazio? Eu vejo tudo, filho. Ainda pensas na tal da Leonor. Para quê? Ela expulsou-te. Mulheres como ela, sabes o que se diz
Mãe cortou, com firmeza na voz. Ela calou-se.
Silêncio. O relógio batia. Lá fora, um pássaro chilreava com voz de primavera.
Come, senão arrefece recomeçou ela ninguém te trata como a tua mãe, Vítor.
Vítor olhava o prato.
Era boa sopa. Isso nunca se podia negar.
Mastigava e pensava naquele outro outubro, a toalha branca, o caldo, as críticas, a mãe é que sabe. Achava então que tudo era sobre a toalha. Hoje, talvez começasse a perceber que não era.
Estava preso. O pensamento veio-lhe com força prisioneiro, mas nunca de Leonor. Não era ela a fazer muros, não era ela a construir. Ela cedia, cedia sempre. A prisão era dele, e veio da infância, do colo da mãe, depois para o casamento, e agora de volta.
Está bom? perguntou ela.
Está, mãe.
Vês? Sem mim não fazias nada.
Ele não respondeu.
O passarinho lá fora cantava mais alto. A primavera insistia à porta, pelas frestas espreitava um raio de luz fútil de abril.
Vítor encolheu-se sobre o prato e terminou a sopa.
***
Nessa noite de abril, Leonor estava na varanda do novo lar, e via o pôr do sol. A barriga já pesava, mas precisava sentir o ar fresco. Lá em baixo, cheiro de terra molhada, brotava da juventude que só a primavera oferece.
Alexandre falava ao telefone na cozinha, voz serena. Na mesa, duas canecas e o abajur laranja o que ela trouxera.
Pousou a mão sobre a barriga. O bebé mexeu devagarinho.
Olá, murmurou Leonor em paz.
Tinha medo, sim. Tinha amor, tinha esperança, tinha silêncio, mas um silêncio honesto, sem fingimento. Era só isto: pôr do sol de abril, cheiro de terra a começar, luz quente, uma vida nova a crescer. Não havia promessas nem festas nem garantias, apenas a certeza de que recomeçar é possível, e de que a verdadeira felicidade exige coragem para deixar ir o que nos impede de ser quem somos.
Ficou um bocadinho. Depois entrou em casa.







