Traição Escondida sob a Máscara da Amizade

Traição sob o disfarce da amizade

Lembro-me bem daquele inverno de anos passados, quando Lisboa parecia querer mostrar toda a sua beleza invernal. A cidade estava coberta por um raro manto de neve, fenómeno pouco comum que transformava ruas e praças em autênticos postais. Os flocos suaves dançavam no ar, pousando docemente sobre telhados e varandas, enquanto o frio cortante trazia uma frescura que só quem viveu tais dias consegue recordar.

Dentro do apartamento da Leonor e do Tomás, o ambiente era completamente distinto havia uma paz quente, aconchegante, que contrastava com o cenário gelado para lá das janelas fechadas. Uma pequena luz da velha candeia espalhava um brilho dourado pelo espaço, tornando tudo ainda mais caseiro, afugentando a nostalgia típica dos dias frios.

O casal estava enroscado no velho sofá de tecido, ambos debaixo de uma manta felpuda que cheirava a lavanda do verão anterior. A televisão exibia uma comédia leve portuguesa, daquelas que servem apenas para soltar uma gargalhada ocasional e relaxar. Leonor seguia a história, sorrindo com pensamentos seus. Tomás, ao seu lado, espreitava vez por outra a janela, fascinado com a dança lenta do nevão lá fora fazia tempo que não via Lisboa assim.

Aquela tranquilidade foi subitamente interrompida pelo toque melodioso do telemóvel de Tomás. Parecia relutar em atender, não querendo estragar aquele momento calmo, mas insistiram e lá tirou o telefone do bolso. Suspirou assim que viu quem era.

O Diogo outra vez, disse ele para a esposa. Já é a terceira chamada só nesta noite.

Leonor nem desviou o olhar da televisão.

Deve estar a convidar-nos para ir à casa dele fora de Lisboa, comentou com serenidade. Ele há pouco comprou aquela casa de campo, agora quer celebrar a toda a hora. Não sei porque é que ele insiste tanto, mesmo quando dizemos que não.

Tomás aceitou a chamada.

Olá, Diogo! esforçou-se por soar animado.

Tomás, meu! Quando é que vens? Já te disse, temos que inaugurar a casa! A lareira já está acesa, a mesa posta, está tudo à espera! Anda com a Leonor, vai ser giro!

Tomás hesitou. Fixou o olhar em Leonor ela abanou a cabeça com um gesto subtil que bastou para ele perceber. Não era noite para festas, nem música alta, nem conversas soltas ou confusões. Queriam apenas a paz do seu lar, um retiro feito de detalhes pequenos que valiam mais que qualquer convite.

Com uma pausa breve, aproveitou uma ideia rápida:

Olha, Diogo, disse em voz baixa, a Leonor foi passar uns dias com a mãe, sabes como é Não me apetece ir sozinho. Um deslize, uma palavra torta de alguém, já se cria chatice Prometemos que vamos numa próxima, está bem?

Do outro lado fez-se silêncio, antes do tom do amigo se alterar ligeiramente, surpreendido.

Já foi? Quando volta?

Amanhã ao fim do dia, suspirou Tomás, pondo uma pitada de desilusão na voz. Logo agora que tínhamos tantos planos cinema, um passeio por Belém, ver as luzes na Praça do Comércio. Mas pronto, não deu. Fica para outra, sim?

A resposta de Diogo veio mais rápida, mas soou estranhamente satisfeita:

Pronto, mas quando voltar avisa. Tenho saudades de vos ver!

Claro, digo-te assim que der. Talvez no próximo fim-de-semana, se não houver imprevistos.

Desligou e repousou o telefone. Suspirou de alívio, forçando um sorriso.

Que canseira, esta insistência, murmurou, voltando-se para Leonor. Já lhe disse vezes sem conta que não me apetece ir às festas dele. Para quê? Só para ver aquilo a descambar? O Diogo nunca soube divertir-se de outra maneira Encolheu os ombros. Prefiro mil vezes estar aqui, só contigo.

Abraçou-a, sentindo finalmente o corpo a relaxar. Por fora, apenas o som esterilmente distante do vento a sacudir o vidro; por dentro, o aconchego do amor e da confiança. O filme continuava, as horas escorriam sem pressa, e Tomás sentia-se exatamente onde queria estar.

Leonor aninhou-se, rendida à batida tranquila do coração do marido, à meia-luz da candeia, ao clicar suave do relógio de parede e, sobretudo, à certeza serena daquele momento só deles.

Eu também, murmurou ela, levantando o olhar Vamos ver o resto do filme e depois deitamos-nos. Mais nada.

Tomás sorriu. Já imaginava, com satisfação, a noite a avançar devagar, a manta, o calor de ambos, a tempestade lá fora servindo de embalo ao sono. No entanto, outra chamada interrompeu essa paz. E voltou a ser do mesmo número.

Tomás franziu o sobrolho; relutante, ergueu novamente o telefone.

Diogo, já tinha dito começou, tentando manter a calma.

Desta vez, porém, a voz do amigo era diferente, com um peso estranho:

Tomás, estou agora no clube Cristal, vim com os rapazes antes de irmos para a casa de campo. E Tomás, encontrei a Leonor aqui, com outro homem. Bebem, riem-se, estão agarrados Eu não queria meter-me, mas achei que devias saber. Ela disse que estava na mãe, não foi? Claramente mentiu!

Tomás ficou petrificado. Olhou para Leonor ao seu lado e, depois, para o telefone, desconfiado de se não seria tudo um engano.

O quê? Tens a certeza? Talvez tenhas confundido com alguém

Absoluta asseverou Diogo. Está a rir-se, bastante alterada. E não lhe incomodou nada a minha presença! Se quiseres, passo-lhe o telefone.

Tomás fechou os olhos por um instante, procurando raciocinar. Que sentido fazia tudo aquilo? Ouvir outra voz, mas igual a da sua mulher, deixaria qualquer um abalado.

Força, disse, ligando o altifalante.

Ouviram o rumor da discoteca, as vozes cruzadas, a música de fundo. Uma voz feminina, clonesca de Leonor:

Sim? Quem fala? perguntou, entorpecida, como se só agora compreendesse que era para responder.

Tomás olhou para Leonor, que, ao seu lado, tinha o rosto lívido de espanto e confusão.

Leonor? És tu? É o Tomás. O que se passa?

Um gargalhar breve e o mesmo tom atrevido, já rouco pelo álcool:

Ó Tomás, deixa-me! Quero divertir-me! Já chega da tua pasmaceira. Vou aproveitar enquanto quero!

Leonor saltou do sofá, pálida, mão no peito, incapaz de processar o absurdo.

Isto não tem pés nem cabeça! murmurou, perplexa. Como é que alguém se faz passar por mim? E sabe o teu número? Mas o que é isso?

Onde estás?

Que te importa? a voz da alegada Leonor respondeu rispidamente. Sou tua mulher mas não tenho que dar satisfações. Faço o que me apetece!

A gargalhada voltou, misturada com o tilintar dos copos, até que Diogo retomou a palavra:

Ouviste, Tomás? Eu bem disse…

Tomás cortou-lhe a fala, sanguíneo, confuso, mas firme:

Basta. Amanhã trato disto. E não me ligues outra vez.

Desligou e atirou o telefone para longe. Ficou a olhar para o tecto, sentindo-se quase aliviado por Leonor estar ali mesmo, ao seu lado. Se não estivesse, talvez tivesse acreditado.

Ela, de súbito, deixou-se cair, olhos enormes de incredulidade.

Isto é surreal, murmurou. Como sabem tantos detalhes? Quem lhes passou toda esta informação?

Tomás aproximou-se, abraçando-a com força:

Mesmo que não estivesses aqui, não me enganavam, Leonor. Conheço-te. Não eras capaz disto. Alguém armou tudo só para nos separar. Vou descobrir quem foi. Nem que tenha de ir ao clube pedir imagens das câmaras.

Ela aninhou-se nele, deixando o medo diluir-se no calor da certeza que os envolvia.

Pois não fui eu, mas alguém se fez passar por mim. E para quê?

Tomás abanou os ombros, mas o olhar já não tinha dúvidas: apenas determinação. Apertou-lhe a mão, mostrando sem palavras juntos, nada os abalaria.

***********************

A manhã seguinte já ia a meio quando Leonor, sentada à mesa da cozinha com uma chávena de chá fumegante, se deparou com nova chamada de Diogo. Respirou fundo antes de atender. Queria enfrentar tudo de frente.

Olá, começou Diogo, a voz estranhamente cuidadosa. Falaste com o Tomás depois de ontem?

Leonor apertou o telefone na mão, pronta a ir até ao fim.

Sim. Discutimos. Acusou-me, duvidou de mim. Diz que lhe menti.

Do outro lado, ouviu-se um suspiro, e depois, subtilmente, um tom de triunfo.

Sabes, sempre achei que o Tomás não te merecia. Nunca te percebeu.

Ela manteve-se fria, determinada a escutar tudo.

Diz-me, Diogo. O que queres isto tudo? o tom era duro.

Leonor, eu amo-te. Sempre amei. Se quiseres deixar o Tomás, eu estarei aqui. Podes contar comigo para tudo.

Leonor ficou em silêncio, mil pensamentos a atropelarem-se na sua cabeça. Teria sido tudo uma maquilhagem premeditada só para a conquistar?

Isso é absolutamente descabido, Diogo. Amo o Tomás, e esta história toda foi uma vergonha. Não te metas mais.

Do outro lado, Diogo soou defensivo:

Eu só queria mostrar que tens a quem recorrer. O Tomás não te merece. Desde sempre que ele inventa desculpas Aposto que ainda agora prefere arranjar forma de te deixar. Quero apenas que fiques bem!

Leonor endureceu a voz gelo puro.

Em primeiro lugar, ontem estive sempre em casa. Em segundo, não nos zangámos. E em terceiro, já percebi tudo o que fizeste, Diogo. Inventaste aquela cena com alguém a imitar-me, só para nos separar!

Ouviu-se uma hesitação, depois ele explodiu:

Sim, inventei! Porque te amo! Porque o Tomás não percebe o que vales, e eu sim! Eu faria de tudo por ti!

Ela quase se riu, mas a mágoa abafou-lhe qualquer vontade de ironia.

Fazer de tudo? Isso não é amor, Diogo. Isso é manipulação e traição. Perdoar-te? Nunca.

Leonor, perdoa…

Não, Diogo. Nem perdão, nem amizade. Não voltes a ligar-me e esquece o Tomás. De hoje em diante, estares no nosso círculo acabou.

Desligou, deixou o telefone na mesa, e olhou para o nevão lá fora. Tudo silencioso e branco, um pano novo na vida.

Tomás entrou na cozinha e, ao sentir o peso do ambiente, aproximou-se.

Então? perguntou, tomado por uma inquietação contida.

Leonor virou-se para ele, suspirando:

Ele confessou tudo. Quis provocar o fim do nosso casamento porque se apaixonou por mim. Quis que acreditemos em mentiras. Não consigo imaginar tamanha falsidade.

Tomás sentou-se ao seu lado, segurando-lhe a mão, transmitindo-lhe apoio mudo.

Nunca foi um verdadeiro amigo, afinal, comentou Tomás tristemente. Sempre tive certas reservas, mas faltava-me certeza. Agora, está tudo esclarecido. Deixa-o.

Ela acenou, aproximando-se, aninhando o rosto no ombro dele.

Pelo menos agora sabemos com quem contar. E, sobretudo, quem somos juntos.

Por breves instantes, tudo ficou suspenso o aconchego dos dois, o cheiro do chá e do pão, a certeza que nunca estiveram tão unidos. Não havia dor nem raiva, só alívio pela verdade.

Olha, sorriu Leonor, já calma, pelo menos livrámo-nos das festas dele e das conversas forçadas… Se algum dia alguém perguntar, temos a desculpa perfeita.

Tomás quis rir, sentindo o peso a desaparecer.

É isso. Ficamos nós, o sofá, o chá, sem dramas.

Sem saídas, só o que nos faz bem, completou Leonor, enroscando-se melhor debaixo da manta.

Perfeito, concluiu ele, apertando-a mais.

Assim, entre o cair macio da neve lisboeta, o calor do lar e o brilho tímido do abajur, ficaram entregues um ao outro. O mundo poderia rodar lá fora, mas ali, nada os atingia só lhes restava confiança, carinho e a certeza de que, juntos, o dia seguinte traria o mesmo conforto desse instante.

*************************

A distância, noutro apartamento, Diogo olhava para uma chávena fria, os olhos perdidos em pensamentos amargos. No peito, nenhuma culpa, apenas a raiva surda de quem não consegue aceitar que perdeu tudo o amor imaginado, a amizade real.

Porque é que nada corre como quero? gritou, varrendo nervosamente a mesa.

A memória do plano ainda o assaltava: umas chamadas, uma actriz substituta a Mariana, parecida com Leonor, voz idêntica, modos aprendidos. Planeou tudo, achando que Leonor perceberia finalmente o valor dele, Diogo, e não de Tomás.

Agora só restava a derrota e um vazio maior que as ruas geladas onde nevava sem cessar.

Por que têm eles tudo, e eu nada? sussurrou, encarando a janela onde as ruas de Lisboa se vestiam de branco.

Sabia que perdera tudo amizade, esperança, credibilidade. E, em vez de remorso, sentia mágoa e inveja. O telefone, mudo sobre a mesa, já não faria ecoar a voz de Leonor. Não valia a pena insistir. Nada do que planeou servira de algo além de ruína.

Virou costas à janela, rasgou a página com os apontamentos daquela encenação disfarçada de inocência e atirou-a para o lixo. Era o fim, apesar de recusar aceitar.

O mundo, no entanto, continuava o seu percurso sereno e frio, ignorando lágrimas e raivas humanas. E enquanto do outro lado da cidade um casal se enlaçava no calor do seu lar, Diogo permanecia só, convencido de que o destino lhe fora madrasto e de que nada do que tinha planeado lhe traria o que tanto desejava.

No fim, aprendi que o amor nunca nasce da mentira e que a confiança, perdida uma vez, nunca mais volta a ser a mesma.

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Съжалявам за това, което се случи