Armadilha de Ciúmes
Diário da Leonor
Sentei-me na cama, distraída, a deslizar o dedo no feed do Instagram. É estranho como às vezes consigo esquecer o mundo lá fora quando pego no telemóvel, quase como um casulo. Nessa altura entrou a minha irmã mais velha, e mal pôs um pé no quarto, soltei, sem sequer lhe olhar nos olhos:
Sofia, preciso de um telemóvel novo.
Nem parecia que estava a pedir alguma coisa, tão natural me soou a exigência. A Sofia, que andava a arrumar as roupas espalhadas pelo quarto (ela estava a tratar das malas para partir em breve), lançou-me só um olhar de relance e respondeu calma:
Pede à mãe.
Franzi o sobrolho e levantei finalmente o olhar do ecrã. Senti o coração a acelerar de leve, irritada:
Ela não me vai dar dinheiro. Diz que eu quero sempre mais do que é razoável.
A Sofia dobrou a camisola pela última vez e colocou tudo cuidadosamente na mala. Depois, endireitou-se e olhou para mim. Não havia zanga nos olhos dela, mas uma resolução tranquila, quase cansaço.
Talvez tenha razão. Se queres mesmo alguma coisa, trabalha para isso. Eu não vou estar sempre cá.
Senti essas palavras como um murro. O peito apertou-se e levantei-me de rompante, escandalizada.
Só tenho dezanove anos, Sofia! E estou a estudar! O tom subiu sem eu querer. Porque é que agora também tenho de trabalhar? Sempre me ajudaram, sempre esteve tudo bem assim!
A Sofia suspirou, mas não quis discutir. Limitou-se a lembrar-me, olhando-me de frente:
E eu caso daqui a um mês. Preciso de muito dinheiro para a boda. Devias era ficar contente por mim olha que vou ter uma nova vida.
Pegou na mala, dirigiu-se à porta e saiu antes que eu ripostasse, fechando a porta com um estrondo, como só ela fazia. Fiquei sozinha, as palavras dela a ecoarem no silêncio do meu quarto. Senti-me incompreendida, mas também algo ansiosa. Eu sabia que a vida fora deste porto seguro era dura mas nunca quis pensar nisso verdadeiramente.
Continuei sentada na cama, a apertar aquele velho telemóvel entre as mãos. O orgulho não me deixava acalmar. Murmurei, quase só para mim própria:
Vamos ver se isto fica assim
Sorri, mas era um sorriso de quem tem tudo controlado. Encostei-me à almofada e, olhando o tecto, sussurrei baixinho:
Enquanto precisares de mim, Sofia, continuas perto de mim. Nem que eu tenha de mexer uns cordelinhos…
Já delineava mentalmente alguns planos difusos, mas teimosos. O mundo sempre girou à minha volta, desde pequena. Era a alegria inesperada lá de casa, a menina tão aguardada depois de anos a tentar nunca faltou mimo, presentes, nem atenção. Sempre ouvi menina dos pais ou milagre cá de casa, e a verdade é que bastava pedir para ter qualquer coisa.
Fui-me habituando a essa facilidade. A Sofia tornara-se minha cúmplice, quase minha assistente pessoal: fazia trabalhos de casa por mim, tirava dúvidas antes dos testes, ajudou-me a entrar para a universidade sem que eu sequer sentisse que tinha de lutar para isso. Para ela, era amor de irmã; para mim, era só mais uma confirmação da ordem natural das coisas.
O dinheiro também nunca lhe faltava. A mãe transferia uma mesada suficiente para tudo, e quando queria ainda mais, bastava ligar à Sofia. Ela nunca recusava: desfazia-se das suas economias para me safar, sem nunca exigir devolução. Assim foi… até chegar o Lourenço.
O Lourenço não era nada como os outros rapazes que eu via a minha irmã namorar. Tinha graça, era inteligente, com princípios rígidos e falava sempre com convicção. Para a Sofia, era o verdadeiro príncipe do imaginário: protetor, carinhoso, sempre pronto a ajudar. Via-se que ela era verdadeiramente feliz com ele.
Só que, como todas as histórias felizes, havia um senão o Lourenço era ciumento. Não fazia cenas, nem punha a Sofia sob vigilância, mas notava-se na maneira como perguntava por onde ela andava, nas inflexões do tom de voz, até nos gestos. Ela tentava ignorar, tentando convencer-se de que era só sinal de amor, de apego, algo que passaria.
E a vida seguia. Já tinham marcado a data, reservado o restaurante, enviado os convites. A minha irmã mergulhada nos preparativos: provas de vestido, reuniões com o catering, mil detalhes da cerimónia. Todos os dias havia novidades, motivos para sorrir.
Mal sabia ela que o mais difícil ainda estava para vir…
***
Antes de decidir telefonar, andei às voltas com o velhíssimo telemóvel. Disquei o número do Lourenço. O noivo da minha irmã, o homem que ultimamente a fazia irradiar de felicidade. Mas agora o sentimentalismo não vinha ao caso: eu sabia o que queria.
Respirei fundo, tentei dar leveza à voz:
Olá, Lourenço, daqui a Leonor. Olha, eu sei que a Sofia anda cheia de coisas, mas tenho tantas saudades dela Nem a vi esta semana.
Ele hesitou, surpreendido:
Ela não está contigo?
Sorri por dentro apanhado.
Como te digo, não lhe ponho a vista em cima há uma semana. Porquê? Havia de estar?
Porque ela passa aqui noites sim, noites não, e diz-me que vai dormir a tua casa! O tom dele endureceu.
Ai! fiz-me surpreendida, dramatizei. Que estranho Olha, depois falamos, sim? Beijinhos!
Desliguei antes que ele tornasse a puxar conversa. Senti a adrenalina nas mãos a tremer. O meu plano estava em marcha.
Quase via na minha mente o Lourenço a franzir a testa, a suspirar fundo. E logo atrás, viria a torrente de perguntas, a pressão sobre a Sofia. Não acreditaria em explicações. E, mais tarde ou mais cedo, acabaria por a mandar fora de casa.
E a Sofia, para onde viria com as malas na mão, depois de ser posta na rua? Para minha casa. Claro.
Na minha imaginação, via-a chegar à porta: triste, perdida, de mala na mão. Eu ia recebê-la com chá, consolar, dar colo. Ser a boa irmã que sempre fui e quando ela precisasse pra valer de mim, sugeriria, calmamente, o tal telemóvel novo
Sentei-me direita, já a pensar na próxima jogada. Era só esperar que tudo se desenrolasse como eu queria. Não tinha dúvidas: ia conseguir…
***
A Sofia voltou a casa particularmente bem-disposta naquele dia. De manhã acertara tudo com a pasteleira sobre o bolo da boda, trouxe umas bolas de Berlim para partilhar com o Lourenço e ia sonhando com a prova de doces. Os pensamentos voavam até que, mal abriu a porta, ficou de alma gelada.
À entrada, duas malas dela cuidadosamente alinhadas. O rosto do Lourenço, carregado, tenso, os olhos raiados de zanga.
O que é isto? Para quê fizeste as malas? tentou a minha irmã perceber.
Há apenas duas horas planearam a boda juntos! Mas ele limitou-se a responder seco:
Vais sair aqui de casa. E empurrou uma mala para a parede.
Mas porquê? O que se passa? Só fui ter com a Leonor
Não estavas com ela, rosnou, a apertar os punhos. A Leonor ligou-me hoje. Disse que não vê a irmã há mais de uma semana e tem saudades. Então, onde tens dormido tu?
Viu-se o mundo fugir-lhe debaixo dos pés. Tentou perceber seria um mal-entendido? Uma brincadeira de mau gosto? O olhar duro do Lourenço, implacável, eliminou qualquer réstia de esperança. Nem uma palavra da parte dela, ele não quis ouvir. Só a porta a bater, só as viagens para fora do lar, só a solidão de quem não teve hipótese de se explicar.
Com as malas na mão, chorando em silêncio, a Sofia saiu para o corredor. As lágrimas corriam quentes. O futuro ruiu num instante: quase um ano juntos, planos, sonhos, longos serões a dois tudo desabou. O pior? Não lhe dera sequer espaço para contar a sua versão dos factos.
Ligou-me, ainda com voz entrecortada:
Falaste com o Lourenço? foi tudo o que conseguiu dizer.
Para quê, Sofia? Para meter conversa com o teu noivo nas tuas costas? disse-lhe eu, num tom que, agora sei, era demasiado leve, quase satisfeito demais. Havia na minha voz uma alegria contida e ela deve tê-la sentido. Não te preocupes, eu não te deixo ficar.
A Sofia desligou sem responder. Fiquei a olhar o telemóvel e, pela primeira vez, não soube o que pensar. Custa-me admitir, mas havia uma ponta de culpa.
Ela foi para um hotel. Agora moro eu na casa arrendada, ela não quis pôr lá os pés
***
No dia seguinte, a Sofia chegou ao escritório de olhos inchados, mas mascarados à pressa com base. Entrou no gabinete da directora, a Dona Joana.
Sofia, que se passa contigo, filha? Estás tão em baixo a chefe, preocupada.
Dona Joana, preciso de entregar a minha demissão, respondeu, a voz trémula mas decidida.
A chefe recostou-se na cadeira e não se apressou. Não és de tomar decisões a quente. Estás de cabeça perdida, nota-se. E eu não quero perder uma colaboradora dedicada só porque tiveste um problema pessoal.
A Sofia ia abrir a boca, mas a Dona Joana travou-a com o gesto. Tenho uma proposta: abriram vagas no escritório do Porto, com salário maior e ótimas perspectivas. Arranjamos um apartamento para ti, no início. Pensa nisso. Dá-te nova vida e novas oportunidades.
A minha irmã ficou a pensar Porto, uma página em branco. Talvez o que precisava.
Mas Dona Joana, eu vou precisar de licença de maternidade em breve. Descobri há dias, ainda não contei a ninguém
Houve um silêncio. Mas a chefe sorriu:
Parabéns, Sofia! Isso é uma bênção. Arranja-se tudo, claro que sim. Depois voltas com coragem renovada. Não te preocupes: guardamos o teu lugar cá.
Sofia sentiu um alívio imenso alguém ainda acreditava nela.
Aceitou. À noite, no quarto do hotel, diante do portátil, confirmou a compra do bilhete para o Porto. Não teria de dar satisfações a ninguém. O Lourenço nem soube da gravidez e, honestamente, já nem fazia sentido dizer-lhe. O bebé precisava era de paz.
Olhou pela janela amanhã ia ser o dia zero. Nova cidade, vida nova, sem mágoas nem traumas, só futuro.
***
Três anos depois. O Lourenço manteve-se firme no início, obstinado, certo de que a Sofia se arrependeria e voltaria para ele, submissa e arrependida. Imaginava o reencontro, o perdão, tudo voltaria a ser como antes. Mas os meses passaram e ela não aparecia. Nem uma mensagem, nem um telefonema.
Soube, por acaso, através de um amigo comum:
Foi para o Porto, agora trabalha numa excelente empresa, subiu de posição contou-lhe o amigo, sem dar importância.
O Lourenço fez de conta que não ligava, mas por dentro sentiu tudo tremer. Ela não voltaria, nunca. E já não precisava dele.
Nesses meses, eu a Leonor aparecia lá em casa: despenteada, aborrecida, sempre a pedir ajuda. Dá-me o número da Sofia! Agora nem me atende, bloqueou-me em todo o lado. Estou sozinha nesta cidade
O Lourenço olhava para mim e só então reparava como tinha sido cego. As minhas exigências soavam-lhe ocas, artificiais. Acabou por perceber que tinha sido eu a armar toda aquela situação.
Sabes que mais? disse-me por fim, já sem paciência Chegou a tua vez de descalçares os teus sapatos sozinha.
Fiquei furiosa, bati com a porta e saí. Ele ficou à entrada, sentindo aquela estranha paz de quem finalmente percebeu a verdade.
Meses mais tarde, uma deslocação de trabalho obrigou-o a ir ao Porto. Tinha reuniões, depois do almoço decidiu dar uma volta pelo Jardim das Virtudes. O outono enchia as ruas de folhas douradas; o ar era fresco, tinha uma liberdade boa.
Passeava pensativo, a meditar acerca das voltas da vida, quando os viu: uma pequena família. A mãe lançava folhas ao ar com a filha, uma menina loira de olhos enormes. O pai sorria, com ar protetor. Neles, via o que nunca mais teria. A mãe virou-se e reconheceu-a: Sofia.
Ela estava mais bonita e segura. Outra serenidade, outra luz no rosto, aquela paz tranquila de quem foi realmente amada. Papá, mamã, filha um novo começo.
A Sofia sorriu, chamou a menina, fez-lhe uma festa na boina. Ao lado, o marido apoiou-lhe afetuosamente a mão no ombro.
O Lourenço parou a olhar, sentiu uma dor suave mas resignada. Esta família era o que ele podia ter tido, mas desperdiçou por orgulho.
Teve ímpetos de ir ter com ela, pedir desculpa, dizer perdoa-me. Mas para quê? Para roubar-lhe, outra vez, a paz? Não. Aquela era a felicidade dela, e isso, no seu íntimo, era tudo o que restava desejar.
Ficou a vê-los afastarem-se pelo jardim, depois voltou sozinho, determinado a começar, enfim, uma nova história para si também.
Que ela seja feliz. Mesmo sem mimFiquei ali, parada, observando o jardim a partir de longe, enquanto a brisa do fim da tarde me despenteava o cabelo. Por algum motivo, o sol parecia bater mais forte naquele instante dourando as árvores, aquecendo a pele, mesmo através do frio miudinho de novembro.
Olhei para o ecrã do meu telemóvel o mesmo, velho, com o vidro rachado. Ri sozinha, um riso pequeno e um pouco triste. Durante muito tempo, tinha acreditado que bastava mexer uns cordelinhos, fazer um telefonema, manipular as pessoas certas para conseguir tudo o que queria. Tinha crescido convencida de que merecia ser o centro do universo. Mas, ali, de frente para aquela família improvável e feliz, percebia que, afinal, nada era tão simples, e nunca tinha sido.
Dei por mim a pensar em todas as vezes que a Sofia me consolou, me ajudou quando eu não merecia, todas as ocasiões em que fui egoísta. E agora ela estava ali: longe, mas inteira; ferida, mas renascida. Senti saudades, uma vontadezinha de pedir perdão, de dizer Sofia, obrigada por nunca me virares as costas.
Ajustei a mochila ao ombro e continuei pelo caminho. Talvez, pensei, ainda fosse tempo de começar de novo aprender a ser suficiente, a desejar coisas bonitas sem as arrancar a ninguém.
Atrás de mim, a Sofia deu uma última gargalhada, e a sua filha correu-lhe para os braços. Houve um instante de silêncio cheio de ternura e eu soube, finalmente, o verdadeiro sentido de largar.
Segui em frente, sentindo que, por mais voltas que a vida desse, era altura de crescer. E, quem sabe, um dia, ser digna não só do perdão da minha irmã, mas de um lugar em que a felicidade viesse, serena, por mérito próprio.
Enquanto o sol desaparecia atrás das árvores do jardim, pela primeira vez em muito tempo, senti no peito uma esperança tranquila. E deixei-me ir, sem remorsos, acolhendo o que viesse, porque descobrir, afinal, era também uma dádiva.







