Também senti que não conseguia respirar
O Manuel anunciou isto num domingo à noite, enquanto Catarina organizava em montes as camisas passadas a ferro. Ele entrou no quarto, sentou-se na ponta da cama e disse aquilo como se estivesse a avisar de uma torneira a pingar.
Catarina, não consigo respirar.
Ela não levantou os olhos. Pousou uma camisa, pegou noutra.
Porquê?
Por causa disto tudo. Da rotina. De ser todos os dias igual. Acordar, comer, sair, voltar, jantar, deitar-me. Sempre igual, num ciclo.
Catarina compôs as mangas, ajeitou o colarinho. Tinha cinquenta e um anos, Manuel cinquenta e três. Vinte e seis anos a viverem naquele apartamento da Rua das Hortas, criaram o filho Diogo, que agora já vivia noutra cidade e só telefonava em datas importantes.
E propões o quê? perguntou ela, sem emoção.
Quero sair.
Ali, ela parou. Mas não era medo. Olhou-o, como quem escuta alguém a dizer algo que já se sabia há muito.
Sair para onde?
Alugar um apartamento. Estar sozinho. Respirar.
Está bem disse Catarina, pegando em mais uma camisa.
Manuel esperava outra resposta. Inclinou-se um pouco para a frente.
Não tens nada para me dizer?
O que queres que diga? És crescido, Manuel. Queres ir, vai.
Não vais fazer uma cena?
Ela acabou de dobrar a camisa, pousou-a. Finalmente fitou-o.
Não. Só peço uma coisa.
O quê?
Não me ligues por coisas de casa. Onde está isto, como funciona aquilo, onde pus aquilo. Se sais, desenrasca-te.
Ele ficou calado.
Só isso?
Só isso.
Manuel não sabia o que fazer com aquilo. Preparara-se para lágrimas, para ouvir histórias do filho, do tempo passado, para ela lhe segurar o braço a pedir explicações. Até já ensaiara respostas na cabeça. Mas ela só passava a ferro.
Pronto, disse ele. Vou fazer a mala.
Força.
Foi até à arrecadação. Esteve lá muito tempo, a olhar as prateleiras. Depois começou a enfiar na mochila uns pares de calças, t-shirts, meias. Pegou no barbeador, carregador do telemóvel, um livro que nunca terminava. Saiu para o corredor. Nessa altura, Catarina já estava na cozinha a mexer panelas.
Estou a sair, disse ele, alto para a cozinha.
Boa sorte, respondeu ela.
A porta fechou-se. Ele ficou um momento no patamar, à espera. Nada. Nenhum passo do outro lado, nem um ruído. Só silêncio.
Premiu o botão do elevador.
***
Arranjou casa em dois dias por intermédio de um conhecido. Um T1 pequeno num bairro vizinho, quarto andar, janelas viradas para o interior do prédio. O senhorio, um homem velho de bigodes, mostrou-lhe o essencial, recebeu o dinheiro para dois meses cerca de mil e quatrocentos euros e foi-se embora. O apartamento tinha um sofá, uma mesa, duas cadeiras, um frigorífico antigo e um fogão de gás. Cortinas amarelas escuras escondiam os vidros.
Manuel pousou a mochila, sentou-se no sofá e olhou à volta.
Havia um silêncio absoluto. Ninguém de passagem na sala ao lado, ninguém com a televisão ligada, ninguém a chamá-lo para jantar. Deitou-se de costas, cruzou as mãos por trás da cabeça e pensou: é isto. Aqui está a tal liberdade.
Os dois primeiros dias ainda foram bons. Acordava e comia o que queria, ou melhor, aquilo que dava jeito comprar no supermercado ali ao lado, passava o dia de meias e não explicava nada a ninguém. À noite falava para o Joaquim, amigo antigo, que se ria e dizia: fizeste bem, pá, já ias tarde.
Ao terceiro dia só tinha meias sujas.
Olhou para a máquina de lavar, no WC minúsculo. Pequena, redonda. Abriu a tampa, espreitou. Depois voltou a fechar. Tornou a abrir. Lembrou-se de que o senhorio falara num detergente no armário debaixo do lava-louça. Encontrou lá uma caixa, leu: Para roupa colorida e branca. Deitou um pouco no compartimento, ao calhas. Escolheu um programa, carregou no botão.
A máquina começou a zumbir.
Uma hora depois abriu a tampa e tirou as meias. Saíram húmidas, quase encharcadas e com um tom cor-de-rosa estranho. Só então percebeu: tinha lavado junto uma t-shirt vermelha nova.
Pendura as meias no radiador. Só secaram no final do dia seguinte.
Ao quarto dia tentou cozinhar a sério. Comprou peito de frango, batatas, cebolas. Achou uma frigideira que já tinha visto melhores dias. Pôs óleo, aqueceu. O frango foi inteiro e colou logo ao fundo. As batatas descascou com esforço, perdeu metade nas cascas. A cebola, lágrimas nos olhos.
Acabou o prato duro por fora, cru por dentro, de cor indefinida.
Comeu metade, o resto deitou fora e pediu comida ao restaurante mais próximo.
Na semana seguinte fez contas ao gasto em refeições entregues. Quase tanto como antes gastava com Catarina a comprar comida para o mês inteiro. Resolveu portar-se melhor. Comprou comida, fez arroz de grelos. Até correu bem, ficou um pouco mais calmo.
Mas o quotidiano vinha-lhe ao pescoço por todos os lados, devagar, como uma maré cheia.
***
O momento decisivo chegou no décimo dia.
Ao tomar banho, percebeu que a água não escorria. Olhou para o chão: uma poça turva expandia-se lentamente. Fechou a torneira, esperou. A poça não sumia. Apalpou o ralo. Água parada.
Lembrou-se do sifão. Palavra familiar, Catarina dizia: tens de limpar o sifão senão a água não escoa. Ele assentia e fugia para outra sala.
Manuel agachou, espreitou sob a banheira. Uma curva, outra, um tubo branco de plástico. Tocou, rodou, saiu demasiado fácil e um jorro. Não correu, jorrou, fria e negra a água.
Saltou, escorregou, agarrou uma toalha, caiu no chão. Tentou rosquear de volta, nada parava o fluxo. A água espalhava-se, o tapete saturou-se num instante.
Correu no corredor de pés molhados à procura do telemóvel. Depois lembrou, o senhorio tinha mencionado um mecanismo de corte na torneira da cozinha. Correu, encontrou, fechou. Parou a água.
Voltou ao WC. Parecia um cenário de inundação. Tapetes, chão, tudo encharcado. Do sifão pingava.
Sentou-se no chão frio do corredor, só de cuecas, e fitou a parede.
A primeira coisa em que pensou foi em Catarina. Ou melhor, não foi pensamento, foi reflexo: telefonar à Catarina, ela ia saber o que fazer. Já com o dedo sobre o nome dela nos contactos, lembrou-se da condição: não ligar por coisas de casa.
Largou o telemóvel.
Mais tarde, ligou ao Joaquim.
Joaquim, sabes como se conserta um sifão?
Quê? vinha barulho de fundo.
O sifão do banho. Está a verter.
Eu cá? Nem ideia. Chama um canalizador. Tenho aqui o número de um bom.
O canalizador veio no dia seguinte. Olhou o sifão, mexeu ali, trocou uma junta, demorou vinte minutos. Cobrou-lhe quarenta euros. Manuel ficou a olhar para ele.
É normal isto? perguntou por fim.
É o preço, disse o canalizador. E desapareceu.
Manuel fechou a porta devagar e pensou que Catarina nunca chamava canalizador por coisas pequenas. Tratava, apertava, comprava juntas na drogaria. Ele nem sabia quando ela fazia isso.
***
Nesse entretanto, ocorreu-lhe uma ideia lógica, pensava ele.
Ligou à Rosa, amiga de tempos antigos, algo que quase foi romance há mais de vinte anos antes de conhecer Catarina. Sabia, por conhecidos, que a Rosa estava divorciada há sete anos. Cruzavam-se em aniversários, umas conversas vagas.
Olá Rosa, daqui é o Manuel Magalhães.
Manuel? A sério? surpresa, mas não desagradável. Há quantos anos!
Agora estou a viver sozinho. Pensei, talvez jantar um dia destes.
Ela hesitou um segundo.
Viver sozinho de quem?
Da minha mulher.
Separaram-se?
Estamos… em processo.
Percebo, disse, voz mais cautelosa. Pronto, vamos lá jantar.
Encontraram-se num restaurante no Chiado. Ela vinha elegante, cabelo curto, estava óptima. Pediram vinho, conversaram sobre amigos em comum, depois ela:
Então, tu? Continuas no mesmo emprego?
Trabalho nos materiais de construção, como sempre. Chefe de armazém.
Moras onde agora?
Arrendei um T1 na Rua das Figueiras.
Gosta-se lá?
Ia dizer sim, mas saiu:
Normal. A máquina de lavar centrifuga mal. E o fogão às vezes falha.
Rosa olhava-o com um ar que só depois descodificou: compaixão. Não a dos amores, mas para alguém a quem as coisas correm tortas.
Pronto, repetiu ela.
A conversa nunca reatou como devia. Trocavam histórias de filhos ele do Diogo, ela da Leonor casada. Um segundo copo, despediram-se com um abraço frio à porta.
Manuel voltou para o quarto alugado. Frigorífico vazio, supermercados já fechados, restava uma embalagem de noodles instantâneos que aqueceu na chaleira.
Nunca mais se ligaram.
***
Por volta dessa altura tentou reunir os amigos. Ligou ao Joaquim: sexta, até às oito, tenho reunião dos pais na escola da pequena, tenho de estar em casa. Ligou ao António: posso, mas levas-me de carro depois, vou com a mulher sábado à aldeia dela.
Juntaram-se num bar junto ao Largo do Rato. Beberam duas imperiais, falaram de futebol e trabalho. Então o Joaquim:
E tu, à solta, como te safas?
Normal, respondeu Manuel.
A Catarina não liga?
Não.
Joaquim e António olharam um para o outro.
Nada mesmo? confirmou António.
Nada.
Trocaram novo olhar. O Joaquim rodou a caneca.
Estranho. A minha ligava três vezes ao dia.
A Catarina não liga.
Ou é bom sinal, ou muito mau, disse António, pensativo.
Mau como?
Sinal que ela está bem sem ti.
Manuel acabou a cerveja. Não queria pensar nisso. Ou melhor, pensava nisso todos os dias, mas não queria admitir.
Às oito menos dez, Joaquim levantou-se a vestir o casaco. António também. Apertaram-lhe a mão, deram-lhe uma palmada nas costas e foram-se embora. Cada um para sua casa, sua mulher, seus sogros.
Manuel ficou sozinho, pediu outra cerveja e ficou até fechar o bar.
***
Catarina, por seu lado, ao início sentiu estranheza, mas não bem a solidão esperada. Era como ter mais espaço; alguém tinha mudado os móveis de sítio, e ela não sabia se era melhor ou pior.
No segundo dia, ligou à amiga Zélia.
Foi-se, contou Catarina.
Como assim? Para onde?
Arrendou apartamento. Diz que não respira.
Zélia suspirou.
E tu, estás bem?
Sinceramente, sim. Até estranho.
Choras?
Não. É estranho, não é?
Se calhar vem depois, comentou Zélia.
Depois ligou a Marta, amiga das antigas, conhecida desde o centro de saúde ainda jovens. Marta era menos branda.
Graças a Deus, disse Marta. Há dez anos que te dizia.
Que dizias o quê?
Que vivias como empregada, mas sem ordenado.
Oh Marta, deixa
A sério! Quando foi a última vez que fizeste algo só para ti?
Catarina pensou. Nem respondeu logo.
O ano passado, quando cortei o cabelo.
Lá está.
Na semana seguinte Marta convidou-a para ioga. Catarina recusou, depois disse sim. Foram a uma sala perto de casa, ela enfiou um fato de treino velho, descobriu que o corpo já não dobrava.
Bem-vinda ao clube, sorriu a instrutora. Todas chegam assim.
Duas semanas depois já dobrava melhor. Iam à aula três vezes por semana. Às vezes, depois, paravam num café e conversavam durante horas. Catarina não se lembrava da última vez em que ficou só a falar, sem pensar no jantar à espera de Manuel.
À noite lia. Antes os livros pousavam fechados na mesa de cabeceira quando adormecia à vigésima página. Agora lia sem pressa.
Um dia, o Diogo telefonou.
Mãe, o pai diz que está a viver sozinho.
Sim.
Como estão as coisas?
Vão andando. Para mim, honestamente, bem.
Diogo escutou.
Vocês vão divorciar-se?
Ainda não pensei nisso.
Não te sentes mal?
Sinto-me surpreendida. Mas não triste.
Diogo pausou de novo. Sempre assimilava devagar.
Pronto. Liga quando precisares.
Tu também, não só nos feriados.
***
Uma vez, Catarina parou no meio da cozinha e ficou minutos a olhar a janela.
Lava uma chávena, igual todas as manhãs, e pensou: vinte e seis anos. Muito tempo. Mais de metade da vida adulta. Tudo esteve ali, inclusive coisas boas. O primeiro apartamento que pintaram juntos, as mãos em ferida. O Diogo pequeno, com joelhos cheios de mercúrio. A ida ao Algarve há quinze anos, três dias só de riso não recordava porquê, mas o riso sim.
Isso agora só vive no passado, como fotografias no álbum.
Esperou esse sentimento passar. Passou. Não logo, uns quatro minutos.
Depois pousou a chávena para secar e vestiu-se para a ioga.
***
O surgimento do Eugénio foi mero acaso.
Veio pela Dona Amélia do 2.º andar, idosa de memória afiada e hábito de falar à porta durante meia hora. Pediu à Catarina para mudar a lâmpada, porque o filho só chegava dali a uma semana e o corredor estava às escuras. Catarina mudou, bebeu um chá com a senhora, quando chegou o filho, afinal não o esperado, mas outro que não visitava há muito.
Chamava-se Eugénio, vivia ali perto, apareceu por impulso. Tinha quarenta e oito anos, barba feita, bom casaco, olhos de quem trabalha demais.
Mãe, já estás a dar trabalho aos vizinhos! gracejou ao ver Catarina com a lâmpada.
Ela é quem se ofereceu, respondeu Dona Amélia com dignidade.
Eugénio olhou-a.
Obrigado. Eu devia ter vindo, mas não reparei.
Não foi nada, disse Catarina.
Falaram à porta uns minutos. Ele trabalhava também em construção, empresa diferente. Ela disse-se contabilista. Despediram-se.
Três dias depois, ele tocou-lhe à campainha. Trouxe compras para a mãe e, disse, uns bombons para Catarina em gratidão.
Ora, não era preciso! protestou ela, aceitando os bombons.
Posso entrar um minuto? perguntou. Queria perguntar qualquer coisa sobre o Manuel. Ouvi dizer que trabalhou logístico, tenho uma dúvida sobre fornecedores.
Catarina hesitou.
O Manuel está a morar noutro lado, mas posso dar o contacto dele.
Pronto, não o incomodo, então.
Saiu. Uma semana depois telefonou só a avisar que resolvera o problema e convidou-a para um café como vizinhos. Ela ponderou e aceitou.
Foram ao café da esquina. Conversaram de trabalho, da mãe dele, sobre o bairro mudado. Bom ouvinte, Eugénio ria com as próprias piadas antes de as terminar.
Casada há muito? perguntou a certa altura, sem pressão.
Vinte e seis anos. Ou melhor, fui durante vinte e seis. Agora, não sei.
Entendo, disse só, sem esmiuçar.
Ela valorizou isso.
Repetiram cafés. Ele nunca apressava nada, só ligava a perguntar se estava tudo bem. Catarina sentiu conforto naquela ausência de urgência. Depois de vinte e seis anos de obrigações, aquela leveza era como janela aberta num quarto abafado.
***
Manuel, por sua vez, começou a reparar em coisas novas.
Por exemplo, que não sabia esperar. Antes, a comida aparecia, as roupas limpas estavam lá, tudo se arranjava. Agora, era esperar a roupa secar, a água ferver, o canalizador chegar. Esperar a constipação passar, sozinho, a suar na cama com trinta e oito de febre e água morna de torneira.
Ou que não sabia comer em silêncio. Vinte e seis anos a jantar com companhia: primeiro o Diogo, depois sempre Catarina. Mesmo quando não se falava, o silêncio tinha presença, era de gente ao lado. Ali, aquele silêncio era só vazio.
Começou a ligar o televisor sempre que comia. Ajudava um pouco.
Na terceira semana ligou ao Diogo.
Olá, filho.
Olá, pai. Como vais?
Bem. Moro na Rua das Figueiras.
Sei, a mãe contou.
E a mãe, como está?
Diogo fez pausa maior do que o costume.
Bem. Diz que está bem.
Como assim, bem?
Literalmente. Vai à ioga, encontra-se com as amigas.
Manuel absorveu isto.
Não tem saudades?
Pai o Diogo, cauteloso ligas só para saber se a mãe sente a tua falta?
Não; só pergunto.
Ela está bem, pai. Tu também. Isso é bom.
Manuel desligou e ficou no sofá com uma sensação difícil de nomear. Não era mágoa, mas outra coisa. Como entrar numa sala e esquecer porquê.
***
No vigésimo terceiro dia cruzou-se no elevador com uma vizinha jovem, nos trinta e muitos, que conhecia de vista. Ela apresentou-se logo: Vera.
É novo aqui? perguntou.
Só temporário respondeu ele.
Separado da esposa?
Ficou surpreendido com a franqueza.
Sim.
Já acontece. Vive no terceiro? Ali morava o senhor Vítor, que cantava de madrugada.
Não, no quarto. Naquele com cortinas amarelas.
Ah, o apartamento do Sr. Lopes. Só arrenda a homens sozinhos, diz que de famílias cansou-se.
Saíram juntos. Vera vivia no rés-do-chão, trabalhava na clínica veterinária, tinha um gato e plantas na janela.
Um dia ajudou-a com sacos pesados, ela ofereceu-lhe chá. Tinha casa limpíssima, cheirava a canela. Conversavam um pouco, era agradável e inteligente. Mas Manuel percebeu: estava a pensar no caos da sua pia, pratos de dois dias.
Voltaram a cruzar-se em conversas nas caixas do correio. Não aconteceu nada e não podia acontecer ele era apenas um pensamento inacabado, algo deixado a meio.
Um dia ela perguntou:
Vai ficar muito tempo?
Não sei, respondeu honestamente.
Parece alguém ainda sem rumo.
Provavelmente sou.
Já estive assim confesou. Fiquei dois anos nesse limbo depois do divórcio. Depois percebi: para quê perder dois anos?
Aquilo ficou-lhe na cabeça.
***
Ao trigésimo primeiro dia foi ao mercado comprar flores. Não por um pedido, nem por data, mas porque olhou para as dálias brancas e pensou que Catarina sempre gostou delas e não rosas, porque as rosas são “demasiado solenes”.
Comprou um ramo grande, pagou quase vinte euros e seguiu para a Rua das Hortas.
No metro olhavam-no de vários modos: alguns sorriam, outros nada. Ia a pensar no que diria. Pensava no abrir da porta por Catarina, no sorriso dela, talvez surpresa mas contente. Afinal, vinte e seis anos.
Tocou a campainha. Reparou que havia um botão novo.
Do outro lado ouviu passos, vozes: uma feminina, dela, outra masculina, não a sua.
Ficou imóvel.
A porta abriu só num tranco de corrente, corrente que antes não havia. Catarina olhou-o de frente. Reparou no ramo. Sem emoção.
Manuel.
Catarina, vim cá.
Vejo.
Trouxe isto… ergueu discretamente as flores.
Ela observava sem raiva nem choro, sem emoção certa.
Manuel, não te vou abrir.
Porquê?
Troquei a fechadura.
Vejo isso. Mas porquê?
Atrás dela, uma sombra, silhueta masculina. Manuel não desviou os olhos.
Quem é?
Não interessa, disse calma, só constatando.
Catarina, espera. Eu compreendi tanta coisa.
O que compreendeste?
Abriu e fechou a boca, de novo.
Que foi bom contigo. Que não valorizei. Que tudo isto foi erro.
Ela escutou. Olhou-o longa.
Manuel, percebeste que te fazia bem estar comigo. Não entendeste porquê. Pensa que não sentes a minha falta, mas sim de alguém que te passa as camisas.
Isso é injusto.
Talvez. Mas é verdade.
Catarina, vinte e seis anos.
Eu sei. Foram bons anos. Mas não quero outros vinte e seis.
Dás-me uma hipótese?
Ela hesitou.
Sabes o mais curioso? Eu também comecei a respirar. Afinal, também estava a sufocar. Nunca disse.
Ficou com as dálias nas mãos.
Catarina.
Vai, Manuel. Liga ao Diogo, fala com ele. Não sobre mim, só para conversarem.
A porta fechou suave. O trinco rodou.
Manuel ficou ali. O ramo tombou na mão, quase a raspar no chão. As dálias não sabiam nada daquilo.
No corredor, silêncio absoluto. De uma porta vizinha escapava ruído de televisão.
Manuel virou-se e seguiu para o elevador.
***
Carregou no botão, o elevador chegou logo. No espelho, viu-se: homem com flores, casaco bom, ar amarrotado de quem acabou ou começou algo. Ou ambos ao mesmo tempo.
Saiu para a rua. Já noite, candeeiros acesos, gente dispersa. Caminhou para o metro, ramo ainda agarrado à mão.
Parou junto a um banco de jardim.
Uma idosa dava migalhas a pombos engordurados à sua volta.
Manuel depositou as flores junto ao banco.
Se quiser, são para si, disse.
A senhora olhou-o, olhou as flores.
Que ramo tão bonito. Não quiseram?
Não quiseram.
Acontece, e voltou aos pombos.
Manuel seguiu. A rua era a mesma, prédios iguais, a vida igual. Em algum lado Catarina fechou a porta e reconstruiu o seu serão, nova vida perfeitamente à medida.
Nalgum ponto, Diogo regressava a casa, a precisar de um telefonema sem motivo.
Nalgum T1 de cortinas amarelas, loiça acumulava-se.
Pegou no telemóvel.
***
Já no metro, Manuel olhava no vidro escuro. Nada via senão o próprio reflexo, esbatido, estranho.
Coisa curiosa, pensava, pensando em nada específico. Só uma coisa curiosa.
O comboio rolava. As estações passavam. Dentro da carruagem: jovens, velhos, apressados, outros mais calmos, sacos e livros, fixos nos seus telemóveis. Ninguém sabendo das flores, dos vinte e seis anos, da porta fechada.
Saiu na sua estação e subiu.
O frio trazia cheiro de chuva, talvez fosse neve, primeira do ano, ainda sem ousar cair.
Manuel parou, olhou para cima, contemplando o céu.
Era escuro e igual.
Seguiu para casa.
***
Nessa noite, já depois das duas, acordado a fitar o teto. O T1 igual, cortinas abafadas, só o frigorífico a zumbir. O habitual daqueles trinta e um dias.
Trouxe-lhe à mente uma recordação de oito ou dez anos antes, na casa dos pais de Catarina, numa noite de verão. Estavam na varanda, com chá, o campo atrás, silêncio bom. Catarina calada, ele calado, mas era um silêncio cheio, não precisava palavras.
Pensara: aqui é bom.
E nunca disse em voz alta.
Adormeceu sobre esse pensamento perdido.
Lá fora, começou o que parecia neve, tímida, primeira do ano.
Dentro, silêncio.
***
De manhã, pôs a chaleira ao lume e pensou que precisava de chávenas decentes. As que ali estavam tinham bordas partidas, não davam jeito.
Depois, que devia ligar ao Diogo.
Depois, tratar de trabalho, o fecho do trimestre aproximava-se e andava atrasado.
Depois, o que disse Catarina: eu também comecei a respirar, também estava a sufocar.
Nunca pensara nisso. Ou sabia, mas nunca levou a sério. Ela sempre ali, a fazer o que era preciso, e ele nunca perguntava se ela gostava, se queria. Para ele, aquela rotina era uma jaula, e nunca reparou que talvez fosse mesma jaula para ela: ela sentada ali, a passar-lhe as camisas.
A chaleira apitou.
Deitou o chá quente na chávena, mesmo lascada, sentou-se.
Lá fora nevava a valer, branco sobre o parapeito, sem derreter.
Manuel pegou no telemóvel, abriu os contactos, procurou: Diogo.
Largou.
Apanhou de novo.
Diogo, olá. É o pai. Só liguei, sem razão. Estás ocupado?
Não, respondeu do outro lado, surpreso. Olá, pai.
Estás bem?
Sim. Trabalho. Por aí já há neve?
Está a começar.
Aqui também.
Ficaram em silêncio. Bom silêncio, vivo.
Pai, e tu, estás bem?
Manuel espreitou pela janela. Neve, branca, contínua, sem saber o que pensar.
Estou a encontrar o meu caminho, disse.
Pronto, pai. Liga se for preciso.
Vou ligar, disse ele. Tu também, não só nos feriados.
Combinado, disse o filho.
Despediram-se. Manuel pousou o telemóvel, acabou o chá. O chá estava razoável.
E a neve continuava.
***
Nessa mesma altura, noutro canto da cidade, Catarina também olhava pela janela. Tinha a chávena de café à mão, o quarto quente e calmo. O Eugénio tinha saído nunca ficava para dormir, acordo silencioso entre eles: sem pressa.
Pensava no Manuel. Nem dor nem alegria, apenas aquela memória dos anos juntos. Ele à porta com flores, grande, perdido, cara de quem aprendeu alguma coisa, mas não tudo.
Já não sentia raiva. O tempo da raiva passou. Nos primeiros dias, sim, e surpreendeu-a perceber que há muito a sentia por dentro raiva silenciosa de quem nunca foi vista. De que ele se cansava da rotina, mas ela era feita pelas mãos dela. De que ele se aborrecia, mas ela nunca tinha tempo de pensar se também se aborrecia.
A raiva foi, restou algo mais tranquilo: firmeza.
Pegou no telemóvel e escreveu à Zélia: amanhã há ioga? A resposta foi pronta: estava à espera que ligasses. Sim!
Catarina sorriu e pousou a chávena.
Lá fora, também nevava.
***
Nessa noite, Manuel ligou ao senhorio a pedir mais dois meses de renda.
Pode ser respondeu o homem. Pago adiantado.
Foi à loja de utilidades. Comprou duas chávenas sem falhas. Depois pensou e comprou três.
No supermercado, comprou os ingredientes para fazer sopa: frango, cebola, cenoura, batata. Seguiu a receita no telefone. Passo quatro: sal a gosto.
Ficou a pensar o que seria “a gosto”. Prova, mete sal, prova outra vez. Demasiado, mas comeu na mesma.
Serviu-se, não na chávena, mas numa tigela, que encontrou. Sentou-se à mesa.
Havia silêncio.
Naquele silêncio, a sopa até parecia aceitável.
***
A vida seguiu, como sempre segue: sem avisar, sem explicar nada. Catarina continuou na ioga, saía com Eugénio, que era um bom homem e não apressava nada. Manuel viveu entre a Rua das Figueiras e as voltas do bairro, fazia sopa, telefonava ao filho, ocasionalmente via Joaquim e António que agora, por vezes, vinham sem mulheres e ficavam mais tempo.
Nunca chegaram a divorciar-se. Não decidiram; só faltou força de vontade, ambos cansados de decisões.
Um dia encontraram-se no supermercado, o mesmo da Rua das Hortas onde foram juntos vinte e seis anos. Manuel examinava o rótulo de um iogurte, cara de quem escolhe algo importante.
Ela aproximou-se.
Manuel.
Ele virou-se. Trocaram olhares. Estava mais magro, um ar mais atento.
Olá, Catarina.
Olá. Estás com bom aspeto.
E tu.
Pararam um instante.
Iogurte grego? perguntou ela.
Sim, estou a ver qual pego.
Este é bom, apontando para um.
Obrigado.
Pôs o iogurte no cesto. Ela pegou os seus e foi para uma caixa; ele, para outra.
Saíram quase juntos.
Então, disse ele. Até logo.
Até logo, respondeu ela.
Ela foi para a direita, ele para a esquerda.
Cada um, no seu rumo, numa Lisboa onde já não faltava ar para respirar.






