Os Limites da Paciência

Limites da Paciência

Que cara é essa, pá? Chateaste-te com a Mafalda, foi? perguntou o Tiago, tentando animar-me enquanto olhava para o meu ar carregado. Não leves tão a peito, sabes como são as mulheres: hoje zangam-se, amanhã já te estão a ligar a dizer que não vivem sem ti!

Acabámos resmunguei seco, deixando bem claro que não queria prolongar o assunto. E não vamos falar sobre isso.

O Tiago ficou um instante de boca aberta. Os olhos quase saltaram das órbitras, tal era a surpresa. Acabaram mesmo? Não podia ser! O Tiago conhecia-me bem e não era segredo nenhum o quanto eu gostava daquela rapariga. Aquilo não era só paixão eu tratava a Mafalda como uma autêntica princesa.

O Tiago bem se lembrava de como eu mudara nos últimos tempos. Para ser sincero, ele via com alguma desconfiança o esforço que eu fazia: mal acabava o trabalho, corria ao florista para comprar um ramo enorme de rosas e ia ter com a Mafalda ao Chiado. Às sextas-feiras, era jantar à beira-rio, sábados, noite de teatro ou visita a exposições. Antes, mal podia ouvir falar destas coisas preferia estar no estádio ou de cana à mão no rio. Só que, por ela, troquei costumes, rotinas e até os amigos. Ela, acima de tudo.

Não percebo suspirou, finalmente, o Tiago, incapaz de aceitar o fim. Gastei-te a fortuna nela! Afastaste-te de todos! Chegaste a começar as obras da casa! E agora, puff?

Ele nem queria soar crítico, mas a dor de ver um amigo arrasado por amor sobrepunha-se à diplomacia.

Agora é isso mesmo retorqui, sem tirar os olhos do portátil, fingindo procurar um ficheiro qualquer para acabar com a conversa. Na verdade, limitava-me a carregar nas teclas, a cabeça cheia de pensamentos, numa tempestade que não conseguia controlar. Sabia que o Tiago só queria ajudar, mas naquele momento desejava apenas ser deixado em paz. Nem num café sossegava!

No fundo, ainda me custava aceitar que era mesmo o fim. Gostava demasiado dela e era uma daquelas pessoas que não pensa em gastos nem em transtornos quando gosta a sério. Era por isso que cada lembrança me doía mais fundo.

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Conhecemo-nos totalmente por acaso. A Mafalda saiu do trabalho e foi ao supermercado do bairro em Lisboa, queria abastecer-se para a semana. Passeava-se entre as prateleiras, pegando aqui em tomates, ali em arroz, depois no iogurte, coisas miúdas. Mas, ao chegar à caixa, a cestinha já se tinha transformado em três sacos bem fornidos. Suspirou: a pensar levar aquilo tudo de autocarro? Ia ser uma epopeia!

Tentou a sorte no telemóvel para ver se algum táxi estava disponível, mas o Bolt insistia: Sem carros livres. Tentou outra vez, nada feito.

A Mafalda pôs os sacos no chão e limpou fugitivamente o suor da testa. Olhou em redor: gente a passar, uns carregados de sacos, outros distraídos nas compras. E então reparei nela ela olhava para mim, eu já a observava há um bocado, com um sorriso cúmplice. Trazia só uma garrafa de água e uma embalagem de café. Eu não consegui fingir que não estava a ver o sufoco dela.

Precisa de boleia? arrisquei eu, avançando com naturalidade.

A Mafalda até saltou um bocadinho de susto. Era orgulhosa, habituada a safar-se sozinha.

Oh não sei é um bocado estranho respondeu, mas ao notar o peso dos sacos cedeu. Olhe, aceito. Mas aviso desde já que não tenho café para lhe dar, nem chá.

Disse aquilo com uma graça nervosa, só para aliviar a tensão.

Soltei uma gargalhada verdadeira. A voz dela era aberta, espontânea.

Fique descansada, não venho a sua casa buscar bebidas garanti, sorrindo.

Peguei nos sacos sem esforço e fomos para o carro, que até estava ali perto. Era um utilitário recente, de cor cinza. E, no caminho, já íamos a conversar como se nos conhecêssemos de longa data. Apresentei-me: Francisco. Sempre de piada pronta, ia-lhe contando episódios hilariantes do meu emprego, peripécias do trânsito em Lisboa. Ela começou um bocado tensa, mas depois largou-se num riso genuíno.

De casa ao bairro dela foram só dez minutos, mas bastou para que se criasse qualquer coisa. Ao despedir-se, vi nos olhos dela que tinha gostado.

Obrigada pela ajuda disse, a abrir a porta. Foi bom conversar consigo.

Para mim também respondi, fitando-a.

Houve um silêncio estranho. Vi que ela hesitava, depois desenhou o número dela num pedaço de papel e passou-mo.

Se algum dia quiser ligar murmurou, como quem não espera nada.

Tenho a certeza que vou ligar prometi, arrumando o papel no bolso da camisa.

E liguei mesmo, logo no dia seguinte. Convidei-a para jantar num sítio acolhedor em Belém, com fado ao vivo. Ela aceitou quase sem perceber bem porquê. E ali começou tudo.

Os nossos encontros iam-se tornando mais frequentes, cada dia parecia trazer pequenas boas surpresas: passeios à beira-Tejo, conversas até tarde, presentes simbólicos. Senti-me cada vez mais tentado a dar o passo seguinte: pensar em tê-la ao meu lado todos os dias. E se a viesse viver para minha casa? perguntava-me. Tinha espaço, seria bom chegar a casa e saber que ela estava à minha espera.

Uma noite voltámos ao mesmo restaurante do nosso primeiro encontro. A Mafalda ficou pensativa, mexendo no bolo com a colher, como se reunisse coragem.

Nunca te contei isto começou em tom baixo, os olhos fixos no prato. Não sabia se valia a pena mas

Um frio percorreu-me. Será que ela tinha marido? Senti o coração gelar, prendi a respiração.

Tenho um filho disparou ela, rápido. Chama-se Simão, tem sete anos. Gosto muito dele, nunca o vou deixar para trás.

Suspirei de alívio. Era só isso! Sorri com ternura.

Graças a Deus soltei, sentindo um alívio imenso. Cheguei a achar que tinhas alguém Um filho é ótimo! Sempre quis ter miúdos à volta. Porque não vêm os dois morar comigo? Tenho a casa grande para nós!

Falei com sinceridade, queria mesmo formar uma família. Imaginava já as noites de televisão juntos, as brincadeiras, o Simão a chamar-me pai

Mas ela não ficou tão entusiasmada. Empurrou o prato de lado e olhou-me, indecisa.

O Simão precisa de tempo para aceitar que pode ter um pai O meu ex desapareceu quando o menino era pequeno, nunca mais quis saber dele. O Simão sofreu, andava sempre atrás de mim a perguntar quando é que o pai voltava

A voz dela fraquejou. Peguei-lhe na mão, sem dizer nada, apenas para mostrar que estava ali.

Não quero que ele volte a desiludir-se acrescentou ela, de forma convicta. Se formos mesmo avançar, tem de ser a sério. Não quero que o Simão sinta que és como o outro.

Assenti e olhei-a nos olhos.

Eu compreendo, Mafalda. Não sou de desaparecer. Fazemos tudo com calma, dou-vos tempo. Quero fazer parte da vossa vida. Até acredito que vou conseguir conquistar o pequeno, se ambos estiverem preparados para isso.

Ela sorriu, primeiro sorriso verdadeiro da noite, tocado de esperança e de gratidão.

Disse-lhe aquilo com firmeza, a mostrar coragem, mas por dentro as dúvidas moíam-me. Nunca tinha tratado com miúdos daquela idade. Os meus sobrinhos ainda eram bebés, os amigos ainda não tinham filhos. Como é que se falava a sério com um puto de sete anos?

Vou-me dar bem com teu filho, vais ver! Mas… como é que ele se habitua a mim se não começamos a viver juntos?

Ela ficou a mastigar aquela ideia.

Que tal vires cá dormir algumas noites por semana? sugeriu então. Assim é menos brusco para o Simão. Quando se sentir à vontade, mudamos para tua casa. A minha mãe também mora cá connosco mas ela é discreta, acredita!

Ia-me escapando um sorriso. Só se for diferente das mães dos meus amigos, pensei. Mas depois percebi que estava enganado. A dona Conceição, mãe da Mafalda, era mesmo uma senhora respeitadora, cordata, sempre com uma palavra amiga, nunca se meteu, nunca fez pressões, nem comentava planos de casamento ou filhos. Até me deixou à vontade logo de início.

Já o Simão, esse, era outra conversa. Assim que me viu à porta, enfiou-se na casca. Não era de fazer birras ou gritar, simplesmente encostava-se à mãe e lançava-me olhares silenciosos de lado.

No começo, limitava-se a ignorar-me: fechava-se no quarto quando eu chegava, não respondia quando lhe falava, fazia questão de mostrar que eu era de fora. Mas passado pouco tempo, começou a inventar pequenas vinganças. Um dia, despejou tinta nos meus sapatos caros onde lhe foi ele arranjar aquilo? Ninguém pintava nada em casa! Outro dia, rasgou-me uma camisa de marca, a preferida para reuniões importantes. Uma vez até conseguiu entornar chá para cima do meu portátil: por sorte não ficou avariado, mas estive meia tarde a secar teclas e a tentar salvá-lo.

Cada vez que acontecia um disparate destes, a Mafalda protegida o miúdo.

Ele só está a tentar adaptar-se É difícil para ele desculpava, suspirando.

Eu tentava aguentar, puxava pela paciência. Sabia que o Simão estava confuso, que receava perder a mãe. Mas cada travessura começava a pesar e sentia-me a perder o controlo.

Foi numa noite dessas, já tarde, que explodi. Estava prestes a deitar-me quando o Simão entrou no quarto, sorriso maroto estampado nos lábios, com uma embalagem de lixívia na mão. Sem dizer palavra, virou-a para cima da cama: as almofadas, os lençóis, tudo ficou ensopado num instante.

O cheiro de cloro encheu o quarto. Fiquei paralisado, mas por dentro fervia.

Porquê, Simão? perguntei, baixinho.

Encolheu os ombros, como se tivesse partido um lápis.

Quero dormir com a mãe. Agora aqui já não dá. Vais embora!

As palavras dele acertaram-me como um murro. Fiquei a contemplar a cama destruída, sem saber o que dizer, atónito de raiva e mágoa.

Lentamente, peguei no cinto deixado na cadeira, dobrei-o na mão. Fingi que ia bater na própria palma, o estalo ecoou no silêncio.

O Simão arregalou os olhos e fugiu a correr, aos gritos, agachando-se no colo da mãe.

Mãe! Ele quer bater-me! Eu avisei!

A Mafalda abraçou-o, depois virou-se para mim com os olhos a brilhar de fúria.

Francisco! Como foste capaz? Ele é só uma criança! Foi uma brincadeira Ele só quer atenção! Nunca admitirei que lhe faças mal! Tenta só encostar-lhe um dedo que vou à polícia!

Tentei manter a calma, as mãos a tremer.

Brincadeira? E os meus sapatos? E a minha camisa? E agora isto? murmurei, ao mesmo tempo magoado e irritado.

Estás a exagerar insistia ela. Ele tem medo, precisa de amor, não de castigos!

Olhei para o Simão: nem um pingo de arrependimento, só desafio no olhar. Decidi ali mesmo que não aguentava mais.

Fui ao armário, comecei a meter as roupas na mochila, sem me preocupar em dobrar nada.

Agora a culpa é minha! lancei sem olhar para trás. Se algum dia ele pôr lixívia no teu café, não me venhas pedir ajuda!

A Mafalda apertava o filho nos braços, mas parecia perdida. Não esperava, ao fim de tudo, ver-me assim, de malas na mão.

Francisco, onde vais? E o nosso futuro?

A voz dela era quase um sussurro.

Futuro? Qual futuro, Mafalda? O teu filho faz de tudo para me correr de casa, tu desculpas-lhe tudo! Não sou capaz de mais. Ele não deixa ninguém entrar no vosso mundo e tu, tu deixas sempre passar.

O Simão, protegido pela mãe, continuava o olhar provocador. Não cedia um milímetro; sabia que tinha vencido.

A Mafalda ia dizer algo, mas engoliu as palavras. Orgulho e aquele instinto da mãe-urso toldavam-lhe o rosto, mesmo sabendo que estava a empurrar-me para fora.

Mafalda, é impossível disse eu, a voz trémula. Estou cansado de ver-te a passar-lhe todas as birras. Para ele, tudo é permitido. Para mim, nada. Ele faz da tua vida e da minha o que quer, e sempre dizes: Ele só é miúdo, tem de se compreender

Ela empalideceu, mas não recuou.

O Simão é meu filho. Vou defendê-lo sempre! O que precisas é de ter mais paciência e carinho com ele. Ele só tem medo de perder a mãe.

O que ele precisa era de disciplina! atirei, já sem filtro.

Arrependo-me logo do tom, mas já não dava para voltar atrás. Mafalda afastou-se, a chorar.

Passei por ela ao sair, dei de caras com a dona Conceição na porta da sala. Olhou-me com severidade, mas via-se que estava tão cansada quanto eu.

Percebo, rapaz murmurou, num tom resignado. Também não sei o que fazer com aquele miúdo mimado. Agora desenrasquem-se.

Fiquei uns segundos calado, quis responder, mas não consegui. Só consegui assentir, sair porta fora.

A rua parecia fria, mas nem senti. Dentro de mim ardia tudo. Sabia que era o correto ir-me embora, que não dava mais. Ainda assim, custava.

Pensava no Simão. Perdeu o pai, agora tinha medo de mim; era fácil perceber o que o confundia. Mas onde é que está a linha entre a insegurança de uma criança e o egoísmo? O miúdo não era só ciumento ou tímido fazia birra para destruir cada hipótese de termos família. E, no fim, ganhou.

Ele conseguiu o que queria pensei, atravessando a Avenida da Liberdade.

Lembrei-me do supermercado, do primeiro abraço, das noites juntos em Lisboa. Sonhara com uma família verdadeira. Afinal, tudo desabou com o tempo, desgastado por pequenas guerras e falta de cedências. Para a Mafalda, o filho estava sempre primeiro, ainda que isso significasse destruir tudo o resto. Se ao menos tivesse imposto limites

Não era para ser repeti para mim.

Era verdade. A vida não é feita só de sonhos bonitos às vezes, bate-se de frente com a realidade. E, por mais que doa, o melhor é seguir em frente.

Guardei o telemóvel. Talvez amanhã combinasse uma cerveja com o Tiago ou desse um passeio na praia para limpar a cabeça. A vida continua. Mesmo quando parece impossível.

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