Extra

Apêndices

– Oh, Amália, mas ela tem apêndice! Ou isso já não te incomoda? A Carminda encostou-se à vedação do quintal e sorriu com um ar maroto, a olhar para a vizinha. Não havia melhor coisa para o teu filho? Que rapaz direito, bonito, trabalhador E raparigas, por cá, não faltam! Mas olha tu, foi escolher logo aquela

Amália soltou um suspiro. Nem para si própria gostava de admitir que não ficava feliz com a escolha do filho. E ouvir aquilo da boca da amiga de língua afiada era duas vezes mais doloroso.

Oh Carminda, mas para nós, os miúdos são uma alegria, está a perceber? Porque é que ela é má, diz lá tu? Rapariga nova, bonita, de bons princípios E sei do que falo! E se tem filho qual é o problema? Não foi fora do casamento, foi com o marido, que Deus lhe fale. E que ficou viúva tão jovem, olha, a vida é o que é. Criamos, educamos, e será mais um neto para mim. Não tens mais nada interessante sobre que falar, é?

Amália apertou os lábios e espantou o gato malhado da Carminda, que vinha pelo muro na direção do seu quintal.

Habitua-se a isto! Já me levou três pintos, Carminda. Cuida do teu dito cujo, senão largo o Fidalgo e depois não me venhas pedir contas.

Ai, que medo! Carminda puxou o gorducho do seu gato para longe do muro. Quem vai correr quem, ainda quero ver! Se não fosse tão bom ratoneiro, já o tinha despachado. Mas olha, são os instintos, que queres?

Que fique com os instintos em casa!

Olha, Amália, sabes o que me esqueci? Os frascos! O doce já quase fervia

E tu aqui à conversa, enquanto outros mexem o tacho!

A Olinda resolveu, descansem. Vieram ontem comigo das couves.

Mas a rapariga está quase a rebentar de grávida!

Pois, por isso mesmo, estão todas no quintal, e ela a dar conta do doce. Não consegue estar quieta. Não é nora, é ouro!

Então, porque é que na cara elogias e por trás refilas?

Exactamente para haver respeito, minha rica! Aprende, quando fores sogra: se fores muito meiga, montam-te em cima!

Cada um sabe de si! Amália acenou com a mão. Ficas com os frascos ou não precisas deles? Já chega de conversa, o trabalho chama.

Mal Carminda foi embora, fui para a cozinha preparar massa. O meu filho vem amanhã, e trás a noiva para a apresentarmos. Noiva Parei, olhei através da janela, as mãos enterradas na farinha. O que virá aí?

À Ana não a conhecia realmente. Só ouvia falar, e vi-a de relance duas vezes quando fui visitar a minha irmã à aldeia vizinha. Nada de especial, uma rapariga como tantas outras. Alta, loura, olhos grandes. A fazer par com o meu Diogo. Rapariga… já mulher feita, viúva jovem, com um menino pequeno, uns três anos talvez. A vida não foi nada meiga para a Ana; órfã de nova, criada pelos avós, puseram-na na vida. Mal teve tempo de se alegrar com o filho, ficou viúva num acidente. E ficou a miúda com um filho ao colo Dói, mesmo que diga o contrário.

A verdade é que preferia compadecer-me dela à distância. Queria o melhor para o meu filho. Desde que fiquei viúva, o Diogo foi tudo para mim: era apoio, força, sentido. Sempre fui agradecida por o ter ao meu lado, mas ao mesmo tempo preocupada homem feito já, e ainda sem família própria, esperando por um tal amor maior. Agora, finalmente, anuncia-me que encontrou a Ana. Corri logo à irmã, para saber o que pensar, mas a Lídia, como sempre, calou-me com a autoridade de mais velha.

Que é esse alvoroço, Amália?

Tudo bem, mas que pessoa é aquela? Se a trás, depois como vai ser?

Vai levar para a casa do avô, que lhe deixei já em testamento. Aquilo precisa de obras, claro, mas terreno não falta. Vão levantar casa.

A minha cabeça já rodava, a pensar: o Diogo vai sair de casa. Mesmo sendo perto, e com autocarro, já não é igual não entra a horas, não está sempre presente para ajudar, a vida faz-se noutra casa. E eu? Só nas festas e nos dias grandes.

Pareces desiludida! Lídia, mais calma, sentou-se perto de mim. Tens de deixá-lo ir, Amália. Ele cresceu. Chegou a vez dele formar família, mesmo que tenhas medo. E se não for flores? Se correr mal?… E ainda com criança

Olha, Amália, de todas as mulheres da aldeia, não conheço ninguém mais íntegra que a Ana.

E não assusta, Lídia? Parece perfeita demais.

Nunca estás satisfeita! Se fosse torta era pior? Pensa no que é mais importante. Que não dês passo na vida do teu filho que um dia te irás arrepender.

O quê?

Se não aceitas a Ana, perdes o Diogo. Vi aquele rapaz a olhar para ela, a amar.

Essas palavras eram pontas dentro do peito, uma inquietação que me tirava o sono. Mas endireitei costas, abracei a tarefa. Tinha de recebê-los bem, sem gestos frios, sem deixar ver desconforto. O tempo diria, enfim.

Fiz empadinhas pequenas, como o meu Ivan gostava, só de um trago: Como sementes, Amália, quantas comas, sempre sabe a pouco! E beijava-me as mãos. Fartei-me de saudades.

A noite foi um arfar de ansiedade. Mal amanhaceu, pus-me ao trabalho.

A Ana chegou de mão dada com o Diogo; o pequeno Salvador, curioso, explorava tudo. O grande cão preso não ladrava, o gato da vizinha passeava no muro. Disse-lhe para ir brincar abri o portão, fechei o Fidalgo, respirei fundo.

Olhei para Ana: magrinha, pálida, um ar de quem já viveu muito. E aquele miúdo? Vivo, risonho. Deu-me uma ternura. Mostrei-lhe um pintainho, ela ficou derretida; o Salvador, com medo de pegar, apenas fez festas. Um bom menino, pensei. E reparei que aquela aflição dentro do peito já se encostava ao canto. Não saía, mas já não apertava tanto.

Falámos da boda, eles entreolhavam-se tímidos; a Ana preferia tudo em silêncio, que a felicidade gosta de sossego. Mas o Diogo queria convívio, festa. Fui-lhe explicando o valor dos gestos, dos afectos, de receber com gratidão o que a vida dá.

No dia do casamento, cada tema dava pala para conversa da paróquia, mas ninguém resmungava alta voz quando me via com ar carrancudo.

Viveram quase um ano cá em casa. Já não me lembrava do peito apertado, nem de reservas. Via como Ana cuidava do Diogo, e sei que tinha de baixar a guarda, confiar. Claro que, às vezes, lá me escapava um reparo, mas a Ana, sempre serena, nunca tomava a peito: amenizava, ajudava, nunca batia o pé.

Um dia, a Carminda, a lançar provocações, disse-lhe:

Só te calas, Nani! Um dia explodes e ninguém vos aguenta nesta casa!

E é melhor, Carminda? Mãe e filho desavindos? Não, obrigada!

Orgulhosa és tu, Ana!

Gosto de pensar por mim. Os bons conselhos ficam melhor contigo, Carminda, respondeu, meio a brincar.

Logo a vizinhança arranjava mais uma história para pôr a correr.

Quando o Diogo finalmente acabou a casa nova, mudaram-se. Mal sentiram aviso de que vinha outro bebé, Ana foi ao médico.

Está grávida? interrogou-se, surpreendida.

E vê-se tão admirada porquê? O bebé não é desejado?

Claro que é muito esperado! Só me assusta porque desta vez é tudo diferente No primeiro correu tudo tão bem

É só cuidado, uns tempos de repouso, mas o mais certo é ficarem ótimos.

Fui no mesmo dia ajudar com o Salvador. Ao abrir-me a porta, Ana assustou-se.

Que tens, rapariga?

O seu rosto vinha tão sério, pensei que vinha zangada comigo

Lembrei-me logo de manhã, da Carminda:

Não chega vir com apêndice, agora ainda é carunchosa? Quem é que ela vai parir, Amália? Aproveita antes que seja tarde

E tu és pessoa, Carminda? Que mal te fez a Ana para falares assim?

Ai, já estás a levar a peito Pronto, era brincadeira!

Sai furiosa, mas entrei em casa da Ana com cara leve.

Não penses nisso, rapariga. Esquecimentos, desavenças no autocarro, cada um tem a sua vida

Ajuda-me a reunir coisas, não tenho cabeça para o hospital.

Vai, que é o melhor. Eu fico com o Salvador e vai correr bem.

Foram dias longos; Ana ia melhorando e os médicos, otimistas: Fica mais uns dias, depois vai para casa, desde que tenha ajuda.

Pois claro, minha sogra é um espanto!

Raro ouvirmos tal elogio, respondeu o médico simpático.

Enquanto isso, eu, ansiosa, corria a aldeia atrás do Salvador. Deixei-o no quintal, fui cozinhar, e nem vi quando saiu. Só reparei porque não estava na areia a brincar.

Para onde foste, menino?!

Saí em pantufas, o portão escancarado, rua vazia. Só mais tarde soube que o barulho na rua atraiu-o. Uns rapazes mais velhos apertavam uma corda num cachorrinho, e o Salvador foi de imediato tentar defender o animal.

Soltem! Está-lhe a doer! esforçou-se por abrir a cancela.

Os rapazes riam e nem notavam o seu desespero. Quando por fim uma mulher zangada os pôs a fugir, o Salvador ficou ali, sozinho e perdido.

Dás-lhe também, menino?

Não! Ele é pequeno, sofre!

A mulher seguiu o seu caminho. O Salvador procurou a orientação da mãe: Se te perderes, fica quieto no mesmo sítio. Assim é mais fácil que te encontrem. Achou um banco junto a um portão e lá ficou, à espera, cachorrinho ao colo.

Quando o Diogo chegou a casa, viu logo o portão aberto.

Fica aqui, Ana, vou ver se estão na loja.

A vizinha contou-lhe que anda à toa:

O Salvador sumiu-se! Não sei como!

Mas procuraste onde?

Aqui à volta. Não ia longe!

Vamos lá, eu procuro mais longe. Não digas nada à Ana, está muito sensível.

Corri a aldeia até o encontrar, enroscado no banco, o cãozinho ao colo. O Diogo pegou neles e trouxe-os para casa.

Casa sem cão não é casa, menino, vamos ver no que este cachorrão se faz!

Levantou-me um peso do peito.

Não contei logo tudo à Ana; o miúdo nem mencionou nada. Só se riram, depois, a dar banho ao cachorro, ambos ensopados.

Tinha saudades!

Eu mais!

A irmã do Salvador nasceu à hora marcada. Uma menina, chorona, Galinha, em honra da avó. Quase chorei de alegria. Agora, sempre que posso, vou à aldeia, levo comida, dou uma mão: não há mágoas entre mim e Ana. Antes pelo contrário, ela diz-me:

Podia acontecer-me o mesmo. O Salva olha pelos animais melhor que ninguém. É terno, bondoso.

Isso é o que importa!

Ajudava sem me impor. Quando me abraçavam o Salvador de braços bem abertos, a Ana num sorriso, a pequena aninhada ao meu colo percebo que estou onde devo.

Vais outra vez para o pé da tua neta? Carminda atirava como quem resmunga.

Dos meus netos, Carminda. Tenho dois.

Dois?!

Sim, dois. Mesmo que para ti só conte um, para mim são iguais. Ambos netos, ambos do coração.

Ah, o segredo para seres amada conta lá!

Carminda, amor é mão dupla. Para seres amada, tens de aprender a amar sem reservas. Por isso, os meus filhos e netos adoram-me. E tu?

Eu? Respeito não me falta.

Mas amor sabe melhor, não sabes tu? sorri-lhe, piscando o olho, apressada em não perder o autocarro, onde me esperavam os meus.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

3 + twelve =

Extra
Dois anos se passaram desde aquele dia e agora encontrei-a de novo: uma mulher linda caminhava à minha frente na rua e, ao vê-la, o meu coração parou. Reconheci nela a minha ex, Mónica, aquela que fazia todos os homens virarem a cabeça. Depois do casamento, já não reconhecia a minha esposa; tornou-se numa daquelas mulheres de cabelo oleoso e t-shirts largas, que já não usava vestidos elegantes nem lingerie requintada. Após o casamento, a minha mulher só usava ‘sacos’ em casa — t-shirts enormes. Esqueceu-se de cuidar de si, já não fazia as unhas, não se maquilhava, muito menos praticava exercício, e a barriga depois da gravidez nunca desapareceu, tal como a celulite… Nestes dois anos juntos, ela transformou-se completamente, engordou cada vez mais e os ‘sacos’ em que se vestia eram cada vez maiores. Se eu lhe sugeria olhar-se ao espelho, ficava ofendida e calava-se. Apercebi-me de que estava apaixonado pela Mónica antes do casamento, mas agora vivia com uma mulher completamente diferente. A antiga Mónica era divertida, bonita, todos os meus amigos me invejavam e perguntavam como consegui conquistá-la. Após todas aquelas mudanças, percebi que já não me atraía nem inspirava, apenas sentia tristeza. A última vez que a vi, usava uma t-shirt cinzenta manchada de leite, uns calções largos que mostravam a celulite, as pernas por depilar, um coque despenteado e o cabelo todo desalinhado. O rosto estava sempre triste, com grandes olheiras. Nessa noite, disse-lhe que já não conseguia estar com ela; só me despertava tristeza e pena, não amor. Passaram-se dois anos e voltei a encontrá-la. Uma mulher linda atravessou a rua e o meu coração parou — reconheci a antiga Mónica, aquela que todos olhavam. Vestia um belo vestido, tinha o cabelo solto e encaracolado, estava mais magra… deixou de ser um patinho feio para voltar a ser uma rainha. Uma rainha que criou os nossos dois filhos. Foi só então que percebi que a minha mulher, simplesmente, não tinha antes tempo nem energia para cuidar de si. Dedicava-se totalmente ao lar e a criar os nossos filhos. Eu deixei de me interessar por ela, não fazia ideia da energia que ela gastava e não percebia porque não cuidava de si própria. Quando ficava sozinho com os gémeos, em duas horas ficava exausto. Ela aguentava todo o dia, ainda limpava, cozinhava e passava tempo comigo. É claro que no meio disto tudo, não tinha tempo para as unhas ou para o ginásio. Eu é que devia ter percebido que o corpo precisava de recuperar do parto — não de exigir que ela fosse logo treinar. E nunca íamos a lado nenhum para ela usar jóias ou vestidos bonitos… em casa não fazia sentido. Fui eu que não lhe dei espaço para mostrar o seu lado mais bonito. Dois anos depois, consegui ver a nossa relação de fora e percebi: foi ela que carregou toda a família às costas. Nunca se queixou, sempre me recebeu com um sorriso quando chegava a casa. Criou o nosso lar — e só agora dei valor a isso. Bastava eu ajudá-la mais, para ela ter tempo para si mesma. Fui um verdadeiro parvo por perder um tesouro sem o perceber. Achei que estava certo, mas não quis saber da vida dela ou dos meus filhos — e destruí tudo. Agora olho para ela e queria voltar atrás, mas não sei se alguma vez conseguirá perdoar-me. Vou tentar reconquistá-la, ou pelo menos restabelecer a comunicação, pois já perdi dois anos do crescimento dos meus filhos… Hoje a minha ex tem muitos admiradores, mas não deixa ninguém aproximar-se. Acho que fui eu quem mais a magoou. E agora não sei lidar com esta vergonha e culpa depois de perceber tudo isto…