Papéis de Rebuçados

És mesmo um embrulho, Egorzinho! Se te apanhasse nos meus tempos, bem que te dava uma valente sova, mas agora já ninguém o faz e está fora de tempo! Chegaste a esta idade e foste incapaz de ganhar juízo!

A Dona Simona cuspiu para o chão, mesmo à frente do vizinho, e com dificuldade, apoiada na perna dorida, lá foi à sua vida. Cumprira o seu papel, esperava agora que a consciência dele, se a tivesse, o ensinasse a viver. As pessoas não lhe deram juízo, quem sabe se o destino se mete ao barulho?

Só visto! Querer meter a própria mãe num lar da Santa Casa! Onde é que já se viu tal coisa?! Sim, é verdade que a Cláudia agora está de cama, mas ele é o filho ou será algum desconhecido? Dá um nó no estômago! Se eu pudesse ainda, nem hesitava, levava a amiga para minha casa. Agora, enfim

Tenho pena da Terezinha. É boa rapariga, claro, mas também não é burra de carga. Aguenta tanto às costas Ficou na aldeia e nem sequer foi estudar quando a mãe adoeceu. Bem, a verdade é que chegou a ir, mas voltou pouco depois. Não conseguiu abandonar a mãe e a avó. Ajudava, sabia bem que para mim, Simona, já era impossível andar atrás da filha. Nem de mim me governava. Desde que parti a perna, há dois anos, fiquei mesmo mal. Se antes arrastava-me, agora mal me mexo.

A minha filha mais nova queria levar-me para o Porto, mas recusei. Para onde? O apartamento é tão pequeno, mal cabe lá a família. O genro é boa pessoa, mas falta-lhe pulso. Faz e faz pela vida, mas pouco rende. Têm dois filhos, custa muito criá-los. E eu, hoje, já não sou ajuda nenhuma. Antes era, cuidava da quinta, dava uma mão aos filhos, mas agora? Uma sombra do que fui A Tereza até se zanga, mas não vale a pena negar: a saúde foi-se e, cada vez mais, as forças fogem. Só para levantar da cama de manhã custa um mundo. Fico ali quieta, olho para o tecto, penso, e junto-me toda, como se recolhesse brasas na pá. Em montinho! Pronto! Levantei-me! Caminho!

Ainda bem que a Terezinha, a neta, é leve como um cabritinho. Antes de eu acordar realmente, ela já fez tudo em casa, tratou da mãe e saiu a correr para o trabalho. Rápida como sempre, desde pequena.

A minha filha mais velha, mãe da Tereza, veio tarde. Já tinha perdido a esperança de ser mãe.

O primeiro marido nunca me perdoou. Deixou-me. Sofri, sim, mas não tanto. Notei que nunca me amou de verdade. Eu ardia, ele

Eu, em nova, era uma beleza. A mais bonita da zona, os rapazes atrás de mim desde a escola. Mas sempre me mantive reservada. Esperei pelo verdadeiro amor, mas não aparecia. O tempo foi passando, deixei de olhar em volta, a minha mãe sempre a ralhar.

Vais ficar para tia!

E eu sem vontade de casar com quem não gostava

Um dia, veio de Lisboa um rapaz, filho de gente de outra freguesia. Não percebia bem porque não voltou para casa dos pais depois da tropa, mas ninguém sabia ao certo. Eu não o conhecia. E bastou olhar para ele uma vez fiquei logo perdida! O nome dele era Alexandre.

Não esperou muito. Assim que me viu, mandou logo os pais falar com os meus. A minha mãe ficou toda feliz. Fizemos casamento grande e animado. Nem dei conta dos cochichos logo ali à mesa. Só percebi que algo ia mal quando a sogra veio ter comigo e me levou pela mão para fora.

Vi logo a mulher com lenço preto assim que entrei no quintal. Quando a sogra me empurrou para a frente, mostrou-me um carrinho ao pé daquela mulher e eu senti logo um aperto no peito. Percebia-se tudo.

O Alexandre contou-me depois que deixou uma namorada antes da tropa, mas nunca acreditou que o filho fosse dele. Nem a própria família. Só depois, a mãe dele foi a casa da ex-namorada. Encontrou o puto, mesmo a cara do Alexandre. Mas já era tarde: outro casamento marcado

A mulher, que teve o filho dele, nunca lhe perdoou. Nem soube que a mãe tinha ido ao casamento dele com a criança disseram-lhe que era para visitar uma tia.

Porquê? perguntei, a mão sobre o carrinho, olhando os olhos cansados daquela mulher.

Para saberes bem com quem casaste.

De que servia aquele saber? Amava o marido. O passado era o passado. Quem é perfeito?

Nunca proibi Alexandre de ver o filho, mas nunca mostrou vontade. Cedo percebi que era pessoa egoísta, só ele importava.

Nenhuma falha lhe apontava. Bom trabalhador, a casa com tudo, mas faltava sempre a felicidade.

Durante mais de quinze anos juntos, nunca aqueci ao marido. Era como se fosse sombra. Esperava ter filhos, convencia-me que era só uma fase. Quando me disse, quase casualmente, que eu mais parecia um pedaço de madeira porque não conseguia engravidar, percebi que a minha vida era um trilho vazio. Anda para a frente ou fica parado, nada muda.

Acabámos depressa, de tal modo que nem todos repararam logo.

Alexandre foi-se embora quase logo, deixou-me a casa.

Não me guardes rancor. Ambos errámos, mas tinha eu que responder.

Não o perdoei, mas pesava menos. Que se há-de fazer? Beleza deu-me Deus, mas felicidade não chegou.

Dois anos vivi sozinha. Ergui a cabeça, ignorei as bocas da aldeia. Logo agora, divorciada? E o mundo não acabou.

Mas doía. Queria entrar em casa e ouvir uma voz, qualquer uma

Com o Nicolau, não foi imediato. Observei muito. Ambos maduros. E ele forasteiro. Vivia sozinho, arranjou a velha casa do avô, fez uma horta, nunca pedia, só ajudava. Calmo. Gentil. Vinha sempre com um presentinho, arranjava algo, sempre útil.

Nem esperava mais. Ao menos não envelhecia sozinha.

Do novo casamento nada esperava. Mas o destino ainda me assustou, deu-me finalmente aquilo que nunca pensei.

Com a primeira filha, nem percebi que estava grávida até aos cinco meses. Os meus ciclos sempre doidos. E nem senti dificuldades. Foi a Cláudia, vizinha, que notou alguma coisa.

Estás de esperanças, Simona!?

Qual quê! Sempre fui estéril

A minha avó dizia que nem sempre é culpa da mulher. Vai ao médico à cidade, pode ser que a sorte mude!

Voltei do Porto outra mulher. Pelas ruas da aldeia, todos olhavam: brilhava! Como o sol! Felicidade estampada. Logo veio uma, depois outra filha, e nunca mais me senti envergonhada.

Amava as minhas meninas, tinham sempre laço e vestidas de domingo, mesmo em dia de semana. Não lhes bati nunca. Se sujavam ou rasgavam, eu ensinava a lavar as meias, coser com agulha.

Nicolau morreu quando a mais nova casou. Foi ao Porto visitá-la, nunca mais voltou: acidente de carro. Quase morri de tanta dor, não fossem os filhos. Um ano depois, a minha filha mais velha deu-me a Terezinha. Rejuvenesci.

A neta viveu sempre comigo na aldeia. Filha mais nova ficou longe, só vinha nas férias. Mas Terezinha, cá estava, igualzinha a mim, mas com carácter mais duro. Teimosa, se decide, esquece!

Nas notas eu festejava, mas quando começou a tornar-se mulher, chorei. Enamorou-se, sem juízo, e logo do vizinho, Jorge. Ele mais velho cinco anos. Já homem feito, ela mal dezasseis. Nem lhe ligava. Estava apaixonado por outra.

A Lucinda, por quem ele suspirava, era bem vistosa. Não era a mais bela, mas sabia ter presença, melhor vestida da aldeia, graças ao pai. Mas Lucinda não era dada a afectos. Só ligava quando lhe apetecia.

Noivo a sério nunca teve. Chegava a sair com um rapaz da terra ao lado, metido a rico, só por lazer. Uma noite saíram de mota e desapareceram até de madrugada. Lucinda voltou toda amassada, vestido rasgado. Só eu, Simona, vi. Nessa noite não dormi e fui cedo à horta; vi Lucinda a passar pelo quintal, direito ao casebre dela, nem olhou para mim.

Uma semana depois, toda a aldeia sussurrou: casamento à pressa. Jorge, todo feliz, mas Cláudia não.

Simona, isto não é boa coisa. Como é que lhe digo? Ele nem vai ouvir. Se a Lucinda fez alguma coisa, foi por desespero. E não sou eu quem a julga. Mas lamento por ele, que é tão apaixonado

Ouvi e calei. Não contei nada do que sabia. Em casa, também se vivia drama: Tereza parecia fora de si, ora chorava dias inteiros, ora ficava deitada a carpir sem barulho.

Tentei tudo: implorar, ofereci tudo só para ir para o Porto, ficar com a tia, estudar, casar lá, esquecer Jorge. Percebia que, mesmo contando o que vira, não valeria de nada amor não se explica.

Tereza não ouvia nem a mim nem à mãe. O pai já falecido e mais ninguém lhe dava ordens.

Esperou até ao casamento, a única da aldeia com lágrimas secas. Ficou ali calada, depois saiu. A mãe notou logo, correu atrás dela, temendo o pior.

Mas Tereza surpreendeu: fez a mala, abraçou-nos e partiu para o Porto. Chorámos, mas só nos restava esperar.

O tempo cura tudo. Ou assim era de supor. Tereza mal tinha assentado na cidade, a mãe adoeceu gravemente e nunca mais saiu do hospital pelo próprio pé.

De novo fez a mala e regressou. Como deixar a avó Simona sozinha, incapaz de tratar de uma acamada?

O único receio era cruzar-se com Jorge e a mulher, mas, por sorte, partiram logo para longe depois do casamento.

Tereza arrumou as coisas, pôs ordem na casa, organizou tudo para cuidar da mãe e decidiu ir trabalhar para a quinta. Não havia profissão, sem diploma, quem lhe pegava? O trabalho era pouco, só o campo chamava.

Mas nunca teve medo do esforço, sempre gostou de animais. Para completar, comprou galinhas e cabras. A vida seguiu.

Ajudava também Cláudia, mulher doente de saudades do filho, que estava longe, raramente escrevia. Só mandava transferências em euros, às vezes perguntava como estavam. De Lucinda sabia-se pouco: teve dois filhos com Jorge, um rapaz, uma rapariga, mas a avó nunca viu os netos. Ou Lucinda não queria voltar à terra, ou Jorge não melhorava de vida. Ele agora era camionista, sempre fora. Cláudia percebia, pelas entrelinhas das cartas, como lhe ia mal.

Talvez a preocupação pelo filho deitasse Cláudia abaixo, mas a doença agravou-se. Tereza tudo fez: hospital de distrito, visitas, muito choro silencioso. Os médicos não eram otimistas.

Simona escreveu logo a Jorge, mas nem sinal dele. Ou perdeu-se carta, ou ele não ligou. Mandou outra, nada. Disse à Tereza:

Desistiu, pelos vistos. Quem canta de noite é a coruja do costume Ah, embrulho do caraças! E eu que o tinha por gente de valor!

Avó! Calma! Sempre me disseste para não julgar sem saber. Mesmo depois, é melhor termos o coração limpo. O resto, cada um que se entenda.

Eu já pouco percebo. Nunca imaginei ver o Jorge tratar assim a mãe, tão querido era ele, tanto amor tinha Para onde foi tudo?

E por que lhe chamas “embrulho”?

Coisa de infância Mais um motivo para não acreditar que ele fazia isto.

Conta!

Ele era pequeno, aí seis ou sete anos. Na altura, as crianças colecionavam embrulhos de rebuçados. Era coisa rara, rebuçados só em festas e da melhor qualidade quase nunca. Os que tinham, guardavam como tesouro. Às vezes, trocavam por coisas boas.

A Cláudia tinha duas galinhas especialmente bonitas, brancas, uma coroa de penas. O marido arranjou-as, ela adorava-as, queria criar mais iguais. Um dia, o amigo do Jorge veio visitá-lo com o cão, trazido da cidade, cão caçador, dizem. O animal era peste, quando entrou no quintal da Cláudia, num instante matou as galinhas.

Avó! Nem acredito

Pois, minha Tereza. A Cláudia chorou que se fartou! Nem abriu a boca ao filho, mas não falou a ninguém por dias. O que fez o Jorge? Deu toda a sua coleção de embrulhos ao amigo que ia muito à cidade, pediu-lhe para o levar à capital. Juntou moedas, o dinheiro que poupava para a bicicleta e trouxe à mãe outra galinha igual.

Que bem feito!

Claro! A Cláudia andava que nem podia de feliz. Não foi pela galinha, foi pelo filho lhe mostrar que cresceu. Agora, diz-me: para onde foi tudo isso? Que filho é esse que nem aparece com a mãe doente? Não tem cabimento

Simona perdeu a palavra quando, uma semana depois de ter Cláudia em casa, Tereza organizou tudo com a enfermeira para a transportar, dado o urgente que era.

Foi então que Jorge voltou, sem aviso. Tereza já se tinha habituado a cuidar das duas doentes. Primeiro a mãe, depois Cláudia. Forças não lhe faltavam. Simona resmungava, queria que a neta descansasse, mas não dava. Não largava a doente, ainda para mais não sendo estranha. Mãe de Jorge

Tereza estava a acabar de lavar o chão da casa da Cláudia quando ouviu correrias. Um menino entrou de rompante, sujando tudo de novo. Olhou bem Tereza e perguntou:

És a minha mamã?

Tão simples e inocente, que ela até ficou estática com o pano na mão.

É vizinha, Jorge entrou, segurando a filha, e cumprimentou Tereza. Desculpa aparecer assim, tão tarde. O Max esteve internado e não podia deixar a pequena. E a Milucha ficou comigo.

E a Lucinda? escapou-se-lhe.

Para quê perguntar por vidas que não eram suas?

Acabou tudo. Foi-se com outro. Estou sozinho.

Sozinho, não, tens os filhos. Tereza sentiu-se, de repente, à vontade diante daquele homem robusto, em nada o rapazito que lhe arrancava o laço pelos arames da cerca. Nem ela era a menina tímida de antes. Mudaram muito.

Pois já não sou quem era, nem tu, Tereza.

Mais um dia, e Cláudia anunciou à Simona, que fora visitá-la, que queria pedir ao filho para a pôr num lar.

Simona revoltou-se de tal maneira que até se esqueceu da bengala. Saiu para o pátio, chamou Jorge, cuspiu-lhe nos pés e foi para casa. Nem queria ouvi-lo, nem à Tereza deixou falar.

Não há desculpa! Que gente será aquela que deixa a mãe num lar como se fosse lixo? chorou.

Tereza, de avental, a meio das lides, meteu-se nos sapatos e foi a correr ao quintal de Jorge.

Jorge! Onde estás? abriu a porta e ficou no limiar, descabelada, furiosa e linda como uma trovoada primaveril. Que ideia é essa, hein? Não vou deixar a tua mãe no lar! Nem penses! Vai-te! Nós cá arranjamo-nos, cuido das duas se for preciso! Metemos outra cama no quarto da mãe, fica tudo tratado! És mesmo um embrulho E eu que

De repente, calou-se ao ver Cláudia a rir de lágrimas na cara e Jorge a sorrir.

Ai Terezinha, já chega. Ele não fazia tal coisa. Disse eu que não queria dar trabalho ao filho. Falei à Simona e ela foi-se logo!

Eu fico cá, Tereza, como ia eu deixar a mãe?

Ah é? Então e a mala feita?

Tenho de ir a casa, tratar do trabalho, buscar coisas, despedir-me. Os miúdos ficam contigo, já estou combinado com a enfermeira, ela vigia a mãe.

Então, Tereza mostrou quem era.

Foi ter com Jorge, olhou-o nos olhos e declarou:

Os miúdos ficam aqui. Eu cuido. E espero por ti. Ouviste?

Ouvi ele olhava-a como se visse outra pessoa. Como é que nunca te tinha visto assim?

Arranja uns óculos na cidade! Não vá escapar-te algo mais Pegou ao colo a pequena, pendurada nela. Vamos ver a avó Simona? Pôs a massa dos pastéis a levedar. Gostam? Que bom!

Anos depois, Jorge sairia de casa levando primeiro Cláudia, depois Simona.

Vamos, minhas mães! Com calma, comprei estas cadeiras no Porto! Sentam-se, apanham ar, isto sim, é vida!

Com todo o cuidado, Jorge ajeitou a mãe no cadeirão, depois ouviu os mais pequenos.

Acordou a malta nova! Terezinha ainda não chegou. Vou lá ver.

A Tereza chega cedo?

Tem exame. Disse que ficava entre as primeiras, para vir já. Não tarda está cá.

O carro estaciona à porta. Os gémeos, sentados na cerejeira, a apanhar fruto para a compota, saltam a correr.

Mamã! Chegaste!

Tereza, agora mulher decidida, aberta em sorrisos, apanha nos braços as suas crianças e pisca o olho ao marido:

Consegui cinco!

Isso já se sabia! Jorge ri e entra em casa.

Os gémeos, com juízo, até têm, mas esperar é coisa que nunca toleraram. Isso herdaram dele.

Uns verdadeiros embrulhos!

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