A minha filha decidiu que era hora de ser adulta e foi viver com o namorado. Duas semanas depois, encontrei a Ana à porta de casa com as malas na mão

Numa noite, regressei a casa e fui apanhada completamente de surpresa. A minha filha estava a fazer as malas: roupa, produtos de beleza, algumas coisas dela. Perguntei-lhe para onde ia.
Afinal, a minha Leonor, já com dezoito anos, tinha decidido, do nada, que era adulta. A reação foi tão inesperada que até me saiu um grito de surpresa. E a Leonor respondeu-me:
Mãe, vou sair de casa, vou morar com o Simão.
Sair de casa? Quem é esse rapaz? Não tencionas apresentá-lo à família? E vais viver de quê? Ele tem trabalho? Achas mesmo que não estás a apressar-te demasiado? perguntei-lhe. Vais viver com que dinheiro? Tens tudo pensado?
Ó mãe, deixa-te disso. Já estamos no século XXI. Eu cresci, agora faço a minha vida! respondeu-me a Leonor, cheia de certezas.
Não disse mais nada. Senti um aperto percebi que não tinha poder para impedir nada. Fiquei a ver a Leonor a guardar os electrodomésticos, a fazer as malas em silêncio. Pensei comigo: pronto, adeus à varinha mágica, mesmo que nunca a usasse. Ela acabou de se arrumar e saiu. Da janela, vi um rapaz novo, devia ser o tal Simão, a ajudá-la a meter as coisas no carro. Se achou que estava pronta para a vida adulta, pois que o viva. O que irá sair daqui, não sei. No dia seguinte, troquei as fechaduras. Nunca se sabe o que a Leonor e as ideias do novo namorado são capazes de fazer.
Passaram-se alguns dias. Nem uma mensagem da Leonor. Nunca pensei que se lançasse assim, tão depressa, nesta aventura de ser adulta. De repente, toca o telefone. Era ela:
Mãe, podes pagar a propina da faculdade?
Doeu-me ouvir aquilo. Liguei só porque precisava de dinheiro e nem perguntou como eu estava.
Não, Leonor. És uma mulher independente, não me quero meter na tua vida.
Muito bem, mãe. Obrigada! respondeu, aborrecida, e desligou o telefone.
Era isso que queria, não era? Que aprenda a verdade do que é ser adulta.
Decidi transformar o quarto dela em escritório. Já não vive comigo, não faz sentido ficar à espera. Procurei logo uma secretária jeitosa, umas cadeiras novas. Deixei a cama, claro. Talvez um dia repense a decisão e queira voltar.
Duas semanas se passaram. Num dia, ao regressar do trabalho, dou com a Leonor à porta, cheia de malas, com ar bem mais abatido.
Filha, porque não me avisaste que vinhas?
Tive vergonha, mãe. Não ficas contente por me ver? perguntou, com os olhos marejados.
Claro que sim, filha. Que perguntas são essas? Entra, vamos conversar em casa.
Entrámos. Começou logo a arrumar as coisas no antigo quarto. Faltava o mini processador que tanto usava. Afinal, ficou em casa da mãe do Simão. Ela exigiu ficar com ele como pagamento pela estadia e alimentação. Só então descobri: o Simão tem trinta anos. Quando a Leonor percebeu que eu não pagaria mais nada, pediu-lhe ajuda a ele. Mas ele não se responsabilizou por nada do que ela precisava.
No fundo, o que me intriga mesmo é: o que terá passado pela cabeça do Simão, ao levar a minha filha, desempregada, para casa dos pais?

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

three × 5 =

A minha filha decidiu que era hora de ser adulta e foi viver com o namorado. Duas semanas depois, encontrei a Ana à porta de casa com as malas na mão
Depois de anos sendo a filha conveniente, um jantar em família fez-me sentir descartável. A minha …