A Felicidade Está nos Pequenos Detalhes

A felicidade está nos pequenos detalhes

Hoje foi o dia do reencontro dos antigos alunos do Instituto Superior de Cultura, celebrado no conhecido restaurante Solar do Castelo, em Lisboa. Há dez anos, cada um de nós estava ansioso, diploma na mão, cheio de planos e incertezas sobre o futuro. Agora, a excitação era outra: encontrar amigos de outros tempos, espreitar mudanças, partilhar trajetórias. Uns vieram de cidades vizinhas Valença, Aveiro, Évora outros trouxeram companheiros e filhos, uns compareceram sozinhos, mas de sorriso aberto, prontos para mergulhar nas memórias da juventude.

No camarim reservado aos convidados, Madalena, minha melhor amiga, ajudava a Mafalda a compor-se. Prendia com delicadeza o último botão do vestido azul-claro de chiffon, certificando-se de que tudo assentava bem. O vestido realçava-lhe as formas suaves, brilhando discretamente à luz do fim de tarde.

Para te ser sincera, Mafalda, surpreende-me que vás mesmo comentou a Madalena, franzindo um pouco o sobrolho. Não guardas as melhores recordações daquele tempo, pois não? Só o Gonçalo e o seu eterno assédio seriam razão bastante para desistires Aposto que ele não falta!

Mafalda ajeitou distraída uma madeixa castanha que lhe caía sobre os olhos e sorriu, com um misto de expectativa e nostalgia. Via-se-lhe nos olhos a vontade de rever todos, recordar a leveza dos tempos de estudante, saber do presente de cada um. Quanto ao Gonçalo… bem, depois de tantos anos, a paixão adolescente dele devia ser apenas isso, uma história antiga. Até imagino que ele, no fundo, preferisse remexer pouco no passado.

Porque não iria? respondeu, sentindo a superfície macia do vestido entre os dedos, um gesto que sempre a acalmava. Quero mesmo ver como estamos todos. E o Duarte não me deu descanso, ficou super curioso para conhecer este meu grupo de outros tempos.

A Madalena suspirou, agarrou os sapatos de salto médio adornados com pequenas pérolas e lançou-me um olhar avaliador.

Tu tens o Duarte, é verdade! Que sorte a tua é mesmo ouro puro.

A Mafalda riu, calçou os sapatos com cuidado e sentiu-se respirar fundo na confiança de quem assume a própria história.

Ele é bom, sim, disse-me, calma, olhando a amiga e ama-me, de verdade.

Bora lá então, que se nos atrasamos, perdemos as melhores histórias!

Enquanto nos aproximávamos da sala, fomos sendo abraçados por memórias vivas: rostos, piadas, gestos. O nervoso miudinho era o mesmo que sentira nos ensaios, e pela mente passavam-me imagens: alguém que virou encenador de renome, um empreendedor de artes, colegas casados, com filhos, e outros ainda tão como dantes o brincalhão da turma, a tímida do bloco de notas.

Vi a Sofia junto à mesa junto ao espelho antigo dourado. Chamou-me rindo, num vestido de tons alegres que parecia mudar de cor à medida que saltitava até mim.

Bem, finalmente! exclamou apertando-me num abraço. A festa começou, nem imaginas o que já se passou, isto hoje está animadíssimo!

Sem me largar, fez sinal em direção à porta:

Olha quem chegou

Virei-me e vi o Gonçalo. Entrou como se lhe pertencesse o salão. O fato preto, perfeito, parecia feito à medida, a postura era de quem tem mundo. No pulso cintilava-lhe um relógio suíço e ao lado caminhava-lhe uma loura alta, de vestido fulgurante, decote insinuado, um daqueles do Chiado de costureiro reputado.

O Gonçalo avaliou discretamente quem estava, e deteve-se em mim com um esgar que misturava saudade, vaidade e alguma inquietação. Sorriu de leve antes de caminhar na minha direção.

Mafalda cumprimentou, a voz tranquila, mas os olhos inquietos, como se tivesse ensaiado um discurso e o quisesse disfarçar. Que bom ver-te.

Olá, Gonçalo sorri-lhe, sincera, apesar do remoinho de sentimentos que me inquietou no peito. Igualmente. Estás bem?

Esboçou um sorriso mais irónico, ajeitando o casaco, mostrando sem pudor o bordado das iniciais na lapela.

Sim, está tudo ótimo, repetiu com um tom firme trabalho numa multinacional, a minha mulher é manequim, vivemos no centro da cidade Enfim, o que se pode querer mais?

A companheira limitou-se a levantar uma sobrancelha, pousando em mim um olhar que avaliava, como quem decide o valor de um quadro numa galeria. Não era hostil, mas tinha aquela segurança fria de quem se habituou a estar acima dos demais.

Fico contente por ti respondi, recusando alinhar no jogo de comparações. Desejo-te tudo de bom.

O Gonçalo semicerrava os olhos, tentando perceber nas minhas palavras se dizia mesmo o que sentia ou se preferia esconder outro sentimento qualquer.

E tu? Continuas a dar aulas de música?

Sim, e gosto muito. Os miúdos são fantásticos, o ambiente é bom. Acabámos há pouco de apresentar O Quebra-Nozes muito trabalho, muita dedicação, meses a preparar tudo. Perfeito, mesmo com sacrifícios, porque vê-los no palco, cheios de alma, não tem preço.

Ao ouvir-me, notou-se uma breve hesitação no Gonçalo, como se não esperasse esta honestidade despreocupada da minha parte.

E o teu marido, o Duarte, não é? finalmente perguntou, o nome dito com hesitação, como se quisesse saboreá-lo e não gostasse do gosto. Continua treinador?

Continua, claro. Treina crianças na escola do bairro. Os pequenitos adoram-no, imitam-no em tudo. Ele tem-lhes uma paciência infinita, nunca levanta a voz mesmo quando fazem asneiras.

Disse-o de peito aberto, com aquele orgulho sereno de quem tem o que quer, sem precisar de impressionar. Ele, por sua vez, franziu o sobrolho, a tentar compreender como se pode ser tão feliz com tão pouco.

É uma vida discreta, imagino não deve ser fácil viver só do ordenado de professor

Senti uma pontada, não de vergonha ou ressentimento, mas de desagrado pelo julgamento. Sorri, porém daquele sorriso que nos aquece a todos à volta.

Somos felizes, Gonçalo. O Duarte é o melhor homem que conheço. Apoia-me em tudo, está lá sempre, mesmo nos meus dias maus. Lembras-te de eu gostar de lírios-do-vale? Todos os anos, assim que aparecem, ele encontra sempre e traz-me um ramalhete. E faz-me pequeno-almoço ao domingo, biscoitos, omeletes, torradas, tudo do que eu gosto. Cuida de mim quando estou doente, faz-me chá de limão com mel e lê-me poesia.

O Gonçalo ficou mudo. Parecia esperar outro tipo de resposta, algo que confirmasse a sua ideia de que eu é que tinha razão. Mas não lhe dei esse prazer.

Não te arrependes? perguntou por fim, num sussurro.

Olhei-o nos olhos e abanei a cabeça.

Não, nunca me arrependi. Gosto assim da minha vida.

Não precisei de lhe dizer que todas as noites o Duarte me espera à porta, que a nossa casa, pequenina, é feita de gargalhadas e afetos, e que são os pequenos gestos diários que tornam a nossa história especial. Bastou-me olhá-lo, com a serenidade da felicidade genuína.

O Gonçalo ia dizer qualquer coisa mas, nesse instante, aproximou-se o Duarte. Camisa clara, calças de ganga, sem artifícios, sorriso simples, olhos bondosos.

Desculpem interromper, mas posso roubar a minha mulher por um bocadinho? disse, abraçando-me pela cintura.

O Gonçalo fechou a mão, sentiu uma turbulência interior, mas conteve-se.

Força, murmurou.

O Duarte levou-me até uma mesa junto à janela. Pegou na minha mão, fê-lo com a naturalidade de quem vive assim todos os dias seguro, presente.

O Gonçalo ficou estático a ver-nos afastar. Lá fora, entre o tilintar dos copos e o cheiro a vinho do Douro, sentiu uma ponta de vazio. Tinha o que tradicionalmente se chama sucesso: fato feito por medida, uma mulher linda ao lado, reconhecimento social, dinheiro que não faltava. Mas tudo lhe pareceu subitamente disperso, como a embalagem sem presente.

Como foi possível perder a oportunidade de ser feliz daquela forma simples? A música, as conversas e os risos enchiam o restaurante, mas a cabeça dele só queria saber de respostas que não existiam.

Enquanto isso, o reencontro foi correndo: recordações das noites a estudar, de peças improvisadas, de sandes e chá na esplanada perto do instituto. Havia entusiasmo a partilhar novidades, mostrar filhos em fotografias, falar de viagens a Marrocos, ao Gerês, dos novos projetos.

O Gonçalo tentava conversar, mas os olhos fugiam sempre para a Mafalda e o Duarte. Via-os a dançar devagar, sorrindo baixinho um ao outro. O riso dela era claro, melodioso. E ele não conseguia deixar de pensar: podia ter dado tudo a ela viagens, luxo, fama. Porque escolhera ela alguém tão comum?

Voltou a questionar-se mil vezes. Talvez ela não percebesse o quanto ele gostava dela Tal vez achasse o Duarte mais acessível Mas, no fundo, reconhecia que a resposta era outra: havia valores, pequenas certezas, que não se compram nem se conquistam a pulso.

Quando a noite terminou, fui testemunha silenciosa do jeito como o Duarte lhe ajeitou o cachecol, do modo como a Mafalda encostou a cabeça ao ombro dele, sem vergonha de mostrar o afeto. Pequenos gestos, que me ficaram gravados e ao Gonçalo, creio que também.

No fim, vimo-nos ao espelho, cada qual com o seu reflexo. O do Gonçalo mostrava um homem bem vestido, mas com sombras tristes nos olhos.

A Mafalda e o Duarte caminharam de mão dada pelas ruas de Lisboa, sob as luzes amareladas dos candeeiros, amparados pelo cheiro a jacarandá e o zumbido tranquilo da noite de maio.

Estás bem? perguntou-lhe o Duarte, seguro, mas doce.

Estou. Aliás, acho que estou melhor do que nunca.

Naquele momento, entendi finalmente: a felicidade é mesmo feita das coisas pequenas, dos detalhes e dos amores diários. De quem nos conhece os gostos, de quem se lembra do ramo de lírios ou do chá de limão. De quem, ao fim do dia, nos sorri simplesmente porque está connosco. Não são promessas, nem presentes caros, nem lugares exóticos.

Ao chegar a casa, olhei para o espelho do corredor. Vi roupas caras, vi a minha imagem tal como aprendera a projetá-la. Mas não vi paz. Peguei numa antiga fotografia da prateleira. Lá estávamos todos: eu, com a postura que julgava ideal; ela com aquele sorriso que nunca me coube. Perguntei-me de novo o porquê. A resposta é simples só que eu demorei uma década a compreendê-la.

A felicidade nunca esteve naquilo que eu podia ostentar. Perdi o essencial a tentar ter o que todos invejariam. O que fica, no fim, são os detalhes miúdos, o calor dos que nos amam pelos gestos, pelos silêncios, pelo coração verdadeiro.

É isso que aprendi hoje. E creio que, a partir de agora, é este o caminho que quero procurar.

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