No recôndito ano de 1943, numa aldeia portuguesa, ela usava o luto pelo marido combatente com tanta elegância que todas as vizinhas morriam de inveja. O seu novo pretendente parecia bom demais para ser verdade, e todos aguardavam o momento em que a verdadeira face se revelasse. Contudo, a máscara caiu não dele, mas da filha adulta do casal, quando ela tentou recuperar aquilo que…

Diário de Mariazinha Pinto, Vila da Azenha, 1943

A minha vida aqui, neste recanto esquecido do Alentejo, sempre foi como as madrugadas frias e as tardes mansas: tudo se passa devagar, num compasso de sol e sombra entre as oliveiras antigas. Confesso neste caderno será pecado? que uso a minha viuvez com uma dignidade tamanha, que até as vizinhas não resistem ao ciúme disfarçado nos cochichos pela praça. O Tiago, que agora me faz companhia ao serão, parece bom demais para ser verdade. Toda a gente espera ver a máscara cair e caiu, sim, mas não da face dele, e sim da nossa filha Teresa, quando tentou agarrar de novo aquilo que já não era dela

Cresci com o nome Mariazinha, filha de pequenos lavradores, aprendendo cedo que nesta aldeia todos conhecem o que se passa até atrás das cortinas. Casei aos dezoito com António Pinto do moinho ao largo, toda a gente sabia da cerimónia simples e das promessas solenes. Logo vieram as meninas: Teresa e Laurinda, a diferença de apenas um ano.

Mas a vida debaixo do mesmo tecto nunca se fez de alegrias fáceis. A garrafa tornou-se casa frequente do António. Fosse eu outra, teria saído, talvez. Mas aqui, mulher que abandona, por muito que sofra, cai em desgraça. A vergonha Deixar o marido porque bebe? espantada seria a aldeia, como se cada família não tivesse a sua cruz. Sempre levei a minha dor em silêncio, como me ensinaram as mulheres da minha linhagem. Tratava do quintal, da casa, das filhas, sem sequer uma palavra de amargura sobre o pai delas sair, mesmo quando o cheiro da aguardente tardava a sair dos lençóis. Escondia os dentes cerrados na almofada, e deixava o choro dissolver-se no escuro, enquanto ouvia as raparigas a dormirem no outro quarto.

A guerra foi como uma tempestade a varrer tudo. 1941 levou o António para África, soldado forçado. Toda a aldeia chorou homens e pais, lágrimas à vista. Mas a minha revolta foi diferente, uma secura por dentro; já fazia de mãe, de pai, de tudo. Quando vieram as notícias do fim a tal carta gelada do Estado, entregue pela Clara dos Correios , chorei uma noite e só. Depois, voltei à rotina: acender o lume, tratar dos animais, levar a Teresa à escola, calar a dor que já era parte de mim.

A vizinha, Dona Silvina, não resistia a comentar:
Tu, Mariazinha, vives o luto com uma paz que até parece que nunca o amaste
Eu só sorria, olhando para o campo deserto:
O que adianta mostrar a tristeza? Os filhos têm fome, a casa tem telhado para cair, e o inverno não espera. A dor não se mede em lágrimas públicas.

Fui levando tudo: trabalho no posto dos correios, a cuidar dos rumores e das dores do povo, cartas de soldados, encomendas de volta da guerra. Do silêncio cresceram sussurros viam-me como a viúva que agora atraía pretendentes de respeito, que até as raparigas de idade casadoira se benziam de inveja.

O Manuel do Carvalhal não te tira os olhos, dizia a Silvina, sentando-se no muro dos correios. Só aqui para mandar tantas cartas e pacotes Não percebes, Mariazinha?
Eu encolhia os ombros, com um sorriso trocista, atando os jornais.
Mas ela insistia:
Isto é sério. Os homens bons são poucos
Prefiro ser só. Já tive a minha dose respondia-lhe, com voz mais cansada do que amarga.

Outras vizinhas ainda tentaram empurrar-me para um ou outro viúvo, mas sempre recusei. Não era orgulho, era apenas não querer ter um homem por pretexto, só por conveniência ou solidão. O pouco que eu precisava fazia eu, ou algum vizinho fazia em troca de uns escudos. Esta liberdade, mesmo com sabor a fel, era preferível ao conforto de uma relação desnecessária.

Vieram os anos calmos. Teresa e Laurinda cresceram, aplicadas nos estudos e nos biscates do campo e da casa. Acostumaram-se ao meu afeto discreto, escondido em mantas quentes, camas bem feitas e num olhar sério, sim, mas justo.

E assim foi que apareceu o Tiago. Veio do Montijo, para ajudar uma velha tia e resolver uns serviços. Pedi-lhe que me arranjasse o alpendre, que ameaçava cair de podre. Esperava mais um daqueles homens que se ofendem com ordens, mas ele, nada disso:
Diga lá, Dona Mariazinha, que isto fica um brinquinho.
Nem contestei. Fiquei ali a ver, embaraçada por aquele jeito desembaraçado, uma simpatia sem arrogância, e um cumprimento que me deixou corada.

Começámos a conversar com chá quente na mão e pão acabado de cozer. Falávamos da vida, da chuva, das podas da oliveira, dos preços da batata lá na praça. E ele, nada de lamúrias ou exigências só um riso claro e um respeito quase antigo.

Deixe estar o dinheiro, oferece um chá e estamos quites, sorria.
Aceitei, esquecendo por instantes a rigidez que a vida me tinha imposto.

Rapidamente ganhou amizade com as miúdas: a Laurinda não parava de perguntar sobre o cão que ele tivera em pequeno, a Teresa partilhou com ele a delícia de colecionar folhas do outono caídas no largo. O Tiago foi ficando; a pouco e pouco, toda a casa sorriu mais até eu me via, por vezes, a trautear baixinho, serenada por uma alegria que julgava esquecida.

No dia em que a tia dele morreu, voltou para o funeral. E depois, olhando-me nos olhos, disse:
Ou vais tu comigo para o Montijo, ou venho eu ficar aqui. Não aguento este ir e vir sem sossego.

Ponderámos muito. Ele contou-me que a mulher o tinha trocado enquanto estava na guerra, que ficou sozinho e sem filhos. Decidimos que o melhor era ele mudar-se para cá, já que o nosso lavrador precisava de um motorista novo, e, assim, ele arranjou trabalho com o camião do leite do povo.

Florescia em mim uma felicidade tardia, um calor estranho e novo, que me suavizou o coração. Quando a Teresa decidiu estudar enfermagem em Lisboa, quis segurá-la, mas o Tiago deu-me força para confiar.

No verão seguinte, a Teresa voltou mudada. Chorou ao entrar em casa:
Mãe, estou de esperanças
Por instinto, ia desatar a ralhar, mas o Tiago apertou-me o braço, e sentou-se ao lado dela, com uma ternura que nunca esqueço:
Não penses nisso, minha querida. Não há vergonha nalgum; cá estaremos. Quem é o pai?
Ela só soluçava:
Não quer saber
Acabou por nascer uma menininha, a Joana nunca o Tiago lhe chamou senão «meu Joãozinho», porque sempre dissera que queria neto rapaz mas ninguém se incomodou com isso, e em pouco tempo a casa toda a tratava por esse diminutivo carinhoso.

A Teresa tirou o ano de licença, depois voltou para terminar o curso em Lisboa, deixando a pequena connosco. Fui mudando: onde antes só havia preocupação com o trabalho e a ordem, passei a rir, a brincar até a Laurinda se admirava:
Mãe, eras assim connosco?
Não, filha. Só agora descobri o que é ser mãe a sério, graças a esta noite chega ao peito. Também por causa do Tiago, que me faz sentir jovem outra vez.

Os anos soaram rápidos. A Joana tornou-se no coração da nossa família, com a casa sempre cheia do cheiro do pão quente e das maçãs do quintal. A Teresa a correr atrás do seu novo marido e dos gémeos tentou levá-la para Lisboa, para a ajudar nas lidas. Mas pela primeira vez, reuni coragem para responder:
Aqui, na aldeia, a Joana é feliz. Aqui é o lar dela. Cá não falta quem cuide do que é nosso.

E assim ficou: a pequena Joana, o Tiago e eu, a Laurinda sempre por perto. E, com o tempo, fui entendendo que as nossas raízes não estão onde nascemos, mas onde o coração se sente em casa. Como disse o Tiago, deitado sob a figueira, ao meu lado:
Não troco isto por nada. Muitos chamam a vila de fim do mundo; eu chamo de lar. As raízes crescem onde alguém nos está à espera, ainda que não saiba.

Hoje, vejo-os envelhecer, os meus companheiros, e percebo: o verdadeiro legado que deixo à Joana não é a terra nem a casa, mas a força que brota do amor que se constrói, da paciência, do perdão. Onde quer que ela vá, saberá que o seu alicerce está neste chão, nesta família feita de sorrisos conquistados, braços abertos e raízes que o tempo só torna mais fortes.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

three × one =

No recôndito ano de 1943, numa aldeia portuguesa, ela usava o luto pelo marido combatente com tanta elegância que todas as vizinhas morriam de inveja. O seu novo pretendente parecia bom demais para ser verdade, e todos aguardavam o momento em que a verdadeira face se revelasse. Contudo, a máscara caiu não dele, mas da filha adulta do casal, quando ela tentou recuperar aquilo que…
Красива житейска равносметка… толкова е вълнуващо, че думите не стигат