Simplesmente Seguir em Frente com a Vida

Apenas seguir em frente

Beatriz, uma menina pequena e traquinas, com duas tranças desalinhadas presas com fitas encarnadas, corria pela ampla e luminosa varanda da casa de campo da família, perto de Santarém. Os seus olhos brilhavam de alegria e as faces estavam ruborizadas depois de muitas brincadeiras ao sol. Quando viu o amigo mais velho do seu irmão a sair calmamente para o jardim, Beatriz parou de repente, ofegante, e desatou a correr atrás dele.

Sem hesitar, saltou para junto do rapaz e agarrou-se à sua mão com as suas mãos pequeninas e quentes. Levantou a cabeça, fitando-o de baixo para cima, com aquela sinceridade genuína das crianças, e soltou uma gargalhada cristalina:

Nunca te vou largar! Quando crescer vou casar contigo, prometo! Mas tens de esperar por mim!

O rapaz ficou por um segundo surpreendido, de sobrancelha levantada, e depois deixou-se contagiar pelo sorriso caloroso que lhe iluminou o rosto. Olhou Beatriz com ternura e uma ponta de surpresa. Falou, num tom meio gozado, meio suave:

Eu espero, prometo.

Enquanto falava, despenteou-lhe carinhosamente as tranças, que ficaram ainda mais desarrumadas. Beatriz semicerrava os olhos, como quem quase resmunga, mas afastou logo qualquer amuo com um novo sorriso, orgulhosa da sua ousadia.

Mas, enquanto isso, continuou ele, inclinando-se até ficarem ao mesmo nível, tens de ser boa aluna e obedecer aos pais. Só assim podes ser merecedora do título de minha noiva.

A voz dele não tinha uma ponta de sermão, antes soava amiga, com aquela ternura irrepreensível dos adultos para com as crianças. Beatriz ficou uns instantes a digerir as palavras, séria, como se pesasse um assunto muito grave. Depois assentiu com toda a força, apertando ainda mais a mão do rapaz:

Está bem! Vou ser a melhor de todas!

Na varanda, o cheiro dos limoeiros misturava-se com a alegria das brincadeiras. Era um daqueles dias de verão felizes e despreocupados, onde os sonhos de criança pareciam possíveis e o mundo não tinha lados sombrios.

*************

Beatriz estava sentada no seu quarto, ausente, folheando distraidamente o manual de Matemática. O lusco-fusco do entardecer caía lá fora, e na casa pairava um silêncio estranho, só interrompido por vozes abafadas vindas da sala ao lado. A jovem, sem querer, começou a escutar a conversa: o seu irmão, António, falava ao telemóvel, e o tom dele parecia inusitadamente animado.

Assim que ouviu o nome do Miguel, o coração dela começou a bater mais depressa. Parou de respirar por um instante. O irmão falava da última saída, de um café novo, de “um sorriso dela”… Já não restavam dúvidas tratava-se de uma nova namorada do Miguel.

Beatriz levantou-se num gesto quase automático e esgueirou-se até à porta do quarto do irmão. Encostou o ouvido à madeira fria, apurando cada palavra. Sentiu o peito apertar, mas afastava mentalmente as más ideias. Se calhar é só impressão minha, repetia para si própria.

Quando António saiu finalmente do quarto e entrou no corredor, Beatriz endireitou-se num salto, como se tivesse sido apanhada a fazer algo proibido. Mas já era tarde ele já reparara nela.

O Miguel tem namorada nova? saiu-se ela, sem sequer pensar, tentando parecer descontraída, embora a voz lhe tremesse ligeiramente.

António olhou-a de cima abaixo, meneou a cabeça com um suspiro cansado. O olhar não era de zanga, mas de resignação mansa. Ele sempre percebera o fascínio da irmã pelo seu amigo, a esperança com que ela reagia sempre ao ouvir o nome dele, o tempo que passava a ver as fotos dele nas redes sociais.

Ainda andas nisso? exclamou ele, recostando-se no vão da porta. Já tens dezasseis anos, Beatriz. Está na altura de ultrapassares essa paixãozita de miúda, não achas?

Beatriz ergueu o queixo, com os olhos a faiscar de teimosia. Cruzou os braços, o corpo numa postura firme.

Nunca! quase gritou ela, fazendo com que as sardas sobressaíssem nas bochechas. Tu não percebes! Vais ver que ele vai gostar mesmo de mim. Não é uma paixão de infância, isto é mesmo verdadeiro!

Falou com uma convicção quase desafiadora; por dentro, tentava convencer-se das suas próprias palavras. Vieram-lhe à memória os olhares do Miguel, os sorrisos raros que lhe dedicava, gestos pequenos e cúmplices tudo memórias que guardava como tesouros de esperança.

O irmão ficou calado, sem saber o que dizer. Viu-lhe o brilho nos olhos e as lágrimas contidas e compreendeu: por mais que tentasse convencê-la, nada mudaria aquela certeza miúda transformada em algo muito maior.

**************

Um raio de sol entrou pelas cortinas, pintando de dourado o quarto. Beatriz voou para a sala já de manhã cedo, movida por uma onda de alegria impossível de disfarçar. O rosto dela irradiava tanta felicidade que até o ambiente parecia mais claro. Os olhos dela luziram como duas pérolas, e o sorriso era tão largo que lhe inchava as bochechas.

Sem tempo para respirar, aproximou-se do irmão, que calmamente tomava o pequeno-almoço, com o olhar preso no tablet.

Ele pediu-me em namoro! soltou Beatriz, tentando conter o entusiasmo. A voz soou como um sininho de cristal, e os dedos dela enfiaram-se nos caracóis, nervosos, controlando a emoção que lhe enchia o peito. Trouxe-me uma caixinha de madeira com o meu nome gravado para o aniversário… e disse que agora que sou maior de idade, já pode, finalmente, dizer que gosta de mim. O Miguel gosta mesmo de mim!

Quase dava pulos, dando voltas ao cabelo, tentando perceber se estava tudo perfeito. Nos olhos brilhava uma alegria tão genuína que parecia contagiar o ar.

António largou o tablet e afastou a chávena, abrindo um sorriso largo e sincero. Andava à espera deste momento, não só pela irmã, mas também pelo amigo de longa data. Nos últimos meses, o Miguel não falava de outra coisa: perguntava-lhe o que a Beatriz andava a fazer, quais as flores prediletas dela, tentava sempre arranjar desculpas para estarem juntos.

Ela é tão bonita… ouvia António o Miguel repetir, a olhar para fora, sonhador. Inteligente, simpática… Mal posso esperar até ela fazer dezoito. Tu não te importas, pois não?

António respondia sempre igual: Se ela for feliz, eu apoio, claro. Conhecia o Miguel bem, sabia que era confiável, responsável, de palavra. Agora, ao olhar para o rosto feliz da irmã, teve certezas absolutas: ela não podia ter encontrado melhor.

Parabéns, minha miúda disse António, levantando-se para a abraçar. Fico mesmo contente por vocês.

Beatriz deixou-se embalar pelo abraço, incrédula, a sentir que talvez fosse mesmo verdade e não um sonho. Tudo parecia mais bonito agora; até o gato, enrolado no peitoril a apanhar sol, fazia companhia feliz ao seu contentamento tímido.

**************

A jovem estava sentada num banco frio no corredor do hospital de Santa Maria. O ambiente era sombrio, com paredes pintadas de bege desbotado, e do exterior entrava luz pálida, como se o próprio tempo respeitasse o luto. Ela olhava fixamente para a frente, mas não via a sujidade do chão, nem os médicos apressados a passar, via apenas algo distante, inatingível.

Os dedos repousavam inertes nos joelhos, a roupa tinha-se tornado estranha, alheia ao corpo, e o cabelo outrora cuidado e arranjado caía-lhe pelos ombros, desalinhado. Era uma boneca partida imóvel, sem alma ou respiração. Na cabeça, repetiam-se as últimas lembranças: na véspera, ela e o Miguel sentados à mesa, a escolher fitas para decorar o salão do casamento, a discutir combinações com tule branco. Ele ria, brincava, prometia que tudo ia correr às mil maravilhas… E agora, o Miguel já não existia.

Tudo foi tão rápido, tão absurdo… Um condutor perdeu o controlo do carro e o choque arrastou três viaturas para uma amálgama de ferro retorcido. Ninguém sobreviveu. Nem o Miguel, nem os dois desconhecidos, nem sequer o próprio condutor. Uma fração de segundo, e o mundo partiu-se em peças irrecuperáveis.

O silêncio foi quebrado por passos. O António surgiu ao fundo do corredor, pálido, olhos inchados por tanto chorar. Sentou-se junto da irmã, ajoelhando-se para a abraçar pelos ombros, com mãos tremulas mas o esforço de parecer forte era visível.

Bea… disse ele, num sussurro quase em segredo, com medo de ferir o pouco que restava da sua sanidade. Fala comigo… Por favor.

Beatriz virou a cabeça devagar. Os olhos estavam secos, mas havia neles uma dor tão funda que o António sentiu o coração quebrar-se. Era um olhar estranho como se ela atravessasse a parede e ele não estivesse sequer ali.

Falar do quê? a voz saiu sem cor, só um hábito sem coração.

António engoliu em seco, lutando por palavras que não magoassem ainda mais.

Do que quiseres apertou-lhe os ombros, implorando por um sinal de vida. Diz-me o que sentes. Chora, Bea. Não guardes tudo dentro de ti.

Ela balançou negativamente a cabeça. Os lábios tremeram, mas não largou uma lágrima, nem um som. Olhou para as mãos, com espanto, como se estranhasse as próprias reações.

Não consigo, murmurou, encolhendo os ombros, num estranho estado de serenidade. Não tenho lágrimas e também não tenho vontade de viver.

As palavras ficaram a pairar, pesadas e negras como as nuvens que carregavam Lisboa nesses dias. António cerrou os olhos, querendo gritar de desespero, mas conteve-se. Sabia que não podia ceder agora, tinha de ser o pilar, mesmo se a própria vida lhe fugisse debaixo dos pés.

Depois desse breve diálogo, Beatriz pareceu desligar-se do mundo. Olhar vazio, rosto sem expressão, ombros caídos debaixo de um fardo insuportável. António chamava-lhe, tocava-lhe delicadamente na mão, mas não recebia resposta. Até os médicos, que vinham ver como ela estava, saíam de mãos vazias. Ela ficou sempre na mesma posição, a olhar para o nada, como se o tempo tivesse parado para ela.

Uma enfermeira sugeriu um calmante. Assim que a agulha tocou-lhe o braço, sentiu tudo entorpecer-se. O corpo tornou-se pesado, as pálpebras caíram e os pensamentos diluíram-se como tinta em água. Caiu num sono inquieto, escuro, sem descanso.

Quando acordou, não era o hospital à sua volta, mas o quarto de casa. O padrão das cortinas era morno e familiar; a estante cheia de livros e a fotografia do Miguel numa moldura em cima da mesa-de-cabeceira pareciam pertencer a outra pessoa.

Viu o irmão, António, sentado no sofá pequeno, ainda mais abatido: olheiras profundas, cara por fazer, murmurando para a mãe que, entretanto, já regressara de uma viagem de trabalho e largara tudo para estar ali. O rosto da mãe mostrava cansaço e preocupação, mas a voz soava firme:

…tenho medo por ela murmurou António, julgando que a Beatriz ainda dormia. Ela sempre viveu só para ele, nunca quis saber de mais ninguém. Agora, não sei o que será…

O tempo cura… disse a mãe, mas sem convicção. Ela própria percebia o quão frágeis soavam aquelas palavras. A filha só vivia em função do Miguel do sorriso dele, da voz, dos sonhos partilhados. Sem ele, era como se a história tivesse terminado ali. Vamos estar atentos, vamos ajudá-la concluiu, mais firme, como a querer convencer-se também.

Beatriz ouvia a conversa mas mantinha-se de olhos fechados. Dentro de si, só vazio como se lhe tivessem tirado tudo o que lhe pertencia. Fez-se de adormecida, sem coragem para dar resposta ao amor e preocupação deles.

António ainda ficou algum tempo à porta. Depois saiu em silêncio, trocando um olhar grave com a mãe. Esta ficou junto da cama, passando a mão pela mão da filha, numa tentativa de lhe transmitir alento. O quarto ficou num silêncio denso, só interrompido pelo tique-taque do relógio e a respiração entrecortada de Beatriz.

**************

Nove dias… Quarenta dias… O tempo arrastava-se, lento, como um rio de azeite. Durante dias e dias, Beatriz quase nunca saía do mesmo lugar: sentava-se no parapeito largo da janela, com os joelhos encolhidos contra o peito e os olhos perdidos no quintal.

O olhar dela parava muitas vezes no velho banco de madeira junto ao plátano. Ali, numa noite quente de setembro, o Miguel, nervoso e atrapalhado, tinha-lhe feito o pedido de casamento. Recordava tudo: o tremer das mãos dele ao pegar no anel, a frase que engasgava, o suspiro de alívio quando ela soltou um sim! antes que ele acabasse a pergunta.

Agora, o banco parecia-lhe estranho, deslocado. As árvores estavam despidas, o quintal vazio já ia sendo inverno, mas para ela, o tempo tinha parado no momento em que recebeu a notícia.

Bea, vens comer comigo? chamou a mãe, tentando soar esperançada, mas quase a medo.

A mãe aproximou-se, tocando-lhe suavemente nos ombros. Os dedos estavam frios o inverno parecia ter-se instalado também dentro dela. O olhar da mãe suplicava, mas as lágrimas eram contidas pela necessidade de parecer forte.

Não quero, respondeu Beatriz, sem desviar os olhos da janela. A voz era distante, sem emoção.

Tens de comer alguma coisa, filha. Ainda ontem mal comeste, tens de recuperar forças insistiu a mãe, num tom vacilante.

Forças para quê? apenas então Beatriz virou o rosto, ainda mais pálido do que de costume. Não devo nada a ninguém.

A mãe ficou sem palavras, paralisada. Tentou encontrar alguma frase que aliviasse o peso, mas não conseguiu e saiu, cabisbaixa.

No corredor, António esperava, triste. Pela cara dele percebeu-se logo que ouvira toda a conversa.

Falei com a médica, sussurrou a mãe, o avental torcido nas mãos. Precisamos mesmo de ajuda profissional. Sozinhos, não conseguimos.

António anuiu. Já há muito tinha essa consciência, mas agora não havia mais desculpas ou demoras. Ver a irmã naquele estado, perdida, era uma agonia. Respirou fundo, preparando-se para agir.

Vou ligar à Dra. Almeida disse, pegando no telemóvel. Ela prometeu acompanhar tudo, se fosse preciso.

A mãe apenas assentiu, de olhar preso no quarto. À janela, Beatriz continuava imóvel, tão inerte quanto o próprio parapeito.

Quando a noite caiu e a lua projectou clarão gelado sobre a madeira do chão, Beatriz saiu finalmente do parapeito. As pernas tremiam estava tão fraca de tantos dias sem comer que custava a andar. Lentamente deitou-se, enrolou-se no edredão, procurando o esquecimento do sono.

O quarto ficou escuro, só pontuado aqui e ali pelo som das vozes dos pais na sala. Beatriz fechou os olhos, querendo que o sono viesse depressa, leve, sem dor. Mas os sonhos trouxeram-lhe o Miguel.

Apareceu-lhe como sempre: sorriso aberto, a camisola cinzenta que tanto gostava. Só que, desta vez, o olhar era sério.

Beatriz, olha para ti, soava-lhe tão real, que parecia mesmo estar ali. O que é isto? Que fizeste contigo?

Ela quis responder, mas as palavras ficaram entaladas. Ele avançou:

Olha só para ti! Não te reconheces, pois não? Não podes continuar assim!

Tentou tocar-lhe, mas ele era só ar e lembrança, feito de saudade e dor.

Não consigo sem ti, murmurou ela, e finalmente sentiu lágrimas a queimarem-lhe o rosto.

Consegues, sim, respondeu o Miguel, com voz firme. Sempre foste forte. Tens de continuar. Acredita. Continua a viver.

Sentiu um calor leve na cara, como se realmente lhe acariciasse a bochecha.

Ainda te espera tanta coisa boa pela frente… Hás de ter dias felizes e dias maus, mas não pares nunca. Eu estarei sempre contigo. Olha para o céu eu estou lá, entre as estrelas. Quando precisares, chama por mim: eu ajudo-te.

Ella tentou segurá-lo, mas a imagem desvanecia-se.

Por favor, não vais embora gritou, estendendo as mãos.

Mas Miguel já era só voz:

Vive, Beatriz. Promete-me.

Acordou sobressaltada. O quarto, a cama, o luar tudo tão igual e, ao mesmo tempo, diferente. A almofada estava encharcada em lágrimas.

Num impulso, deixou escapar um grito um grito de angústia que cortou o silêncio. Passado um instante, os pais e António entraram disparados no quarto.

Beatriz, meu amor, o que tens? a mãe abraçou-a, procurando ver-lhe o rosto.

Onde te dói, Bea? Diz, implorava o António, à procura de respostas.

Mas ela não respondeu. Encolheu-se, chorou sem som, até não houver mais forças para segurar nada. A imagem do Miguel o sorriso terno, a palavra de coragem persistia, obrigando-a a escutar a promessa.

Promete-me, repetia-lhe a memória.

E, mesmo na dor, sussurrou:

Prometo… Prometo.

A mãe segurou-a no colo, balançando-a como nos tempos de menina, António lançou-lhe a mão pelo ombro não havia palavras nem consolo suficiente, mas estavam ali para ela.

E Beatriz, aninhada no ombro da mãe, tentava perceber: como se faz para viver depois de perder tanto? Como se respira, se come, se sorri? Mas, bem no fundo, começou a nascer uma luz tímida: se ele acreditava nela, se lhe pedia para seguir… Ela ia tentar.

Pelo menos, por ele.

***************

Numa dessas noites pesadas, a família estava reunida na sala. A mãe pôs o chá na mesa, mas ninguém tocou nas chávenas. Ninguém tinha fome, ninguém tinha vontade de conversa. Todos sabiam que era preciso tomar decisões.

Acho que devíamos mudar de cidade, disse António, baixo mas seguro, olhando a irmã. Para a Beatriz, tudo aqui são memórias. Cada rua é dor.

Sentada no velho cadeirão, com as pernas dobradas, Beatriz não protestou. Limitou-se a olhar a chuva cair lá fora, borrando contornos de casas, como se o próprio mundo estivesse a querer apagar-se. O rosto estava pálido, mas já não se via o vazio de antes.

Um lugar novo vai ser melhor, concordou a mãe, tocando suavemente a mão da filha. Vai custar ao princípio, mas talvez ajude.

Beatriz voltou-se devagar.

Para onde?

Tenho um amigo no Porto, explicou António. Falou-me duma oportunidade de trabalho. Chegando lá, arranjamos alojamento. Depois vê-se.

Lá vais ter universidade também acrescentou a mãe. Começamos do zero. O importante és tu, filha.

Beatriz ficou a pensar. Na memória, desfilavam imagens: andar de mãos dadas com o Miguel, os risos junto à entrada da escola, os passeios na praceta. Cada sítio carregava toda a história. E cada lembrança doía cada vez mais.

Está bem, decidiu. Vamos mudar.

As palavras custaram a sair. Tinham tanto de abandono como de esperança. Mas era, acima de tudo, uma decisão a primeira que tomava desde que tudo desabou.

Os dias seguintes foram preenchidos com caixas, malas, toneladas de saudade. Beatriz pouco participou, limitando-se a assistir enquanto a mãe e o irmão empacotavam tudo. Às vezes, pegava numa recordação do Miguel um porta-chaves, uma fotografia, um bilhete de cinema e ficava presa no tempo.

No dia em que partiram, foi à varanda. Deu uma última olhadela ao quintal. O coração doeu-lhe. Mas, desta vez, não se deixou afogar. Vou ser capaz, repetiu para si mesma. Tenho de ser.

O Porto recebeu-a com céu cinzento e ruas apressadas. O apartamento era grande, iluminado. Demorou-se à janela, a ver os prédios, as pessoas. Tudo era novo, estranho, mas justamente por isso sentiu uma pequena liberdade: neste lugar, não havia memórias apenas um recomeço à espera de ser escrito.

Os primeiros dias custaram. Beatriz acordava sem reconhecer a própria vida. Sentia falta dos velhos espaços, dos amigos. Algumas noites, ainda sonhava com o Miguel que a tranquilizava, até acordar com as faces molhadas.

A pouco e pouco, começou a notar pormenores. Os primeiros jacintos no jardim próximo. O empregado do café a lembrar-se do seu pedido, a sorrir-lhe. Passos minúsculos, que ajudavam.

Nunca esqueceu o Miguel não seria capaz. Mas percebeu: seguir em frente não era traição, mas sim cumprir aquele pedido silencioso dele.

Passou a ir às aulas, a ajudar nas tarefas de casa, a passear com António. Cada dia era um desafio, mas cada um trazia algo novo não substituindo o que perdeu, mas acrescentando.

E num fundo de alma, Beatriz sentia: ele ainda a via.

E ele estava orgulhoso dela.

Porque ela aguentava.
Porque continuava a viver.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

7 + 16 =