Carta Escrita por Mim Próprio

Carta a mim próprio

O envelope era laranja. De um brilho vivo, quase desajeitado como uma tangerina no meio da neblina de janeiro. Estava lá, no meio das contas da EDP e dos folhetos de promoções do Pingo Doce, e Filipa tirou-o por último da caixa do correio.

Na frente a sua letra. O seu endereço. O seu nome: Filipa Margarida Correia.

Virou o envelope. O remetente era igual. E o nome também.

Fiquei parado no hall do prédio, no primeiro andar, com um saco do Continente na mão esquerda, sem perceber. Quem raio podia pregar uma destas? Confirmei a letra. O t comprido, o r com laço em baixo só eu escrevia assim. Desde o liceu. Desde aquele dia em que a professora de Português, Dona Madalena, me deu um quatro e disse: Correia, escreve como gente grande. Isso é um elogio, atenção.

Nunca mais mudei o traço. Vinte e cinco anos depois, o t ainda esticado, o r sempre enrolado.

Subi ao terceiro andar, abri a porta e larguei o saco na mesa da cozinha. O envelope ficou ao lado.

O meu T1 era minúsculo, já me habituei. Vista para nascente, em Benfica, tudo cozinha-sala-junto. No hall, um cabide para o sobretudo, uma prateleira para os sapatos, e o espelho, onde todas as manhãs me vejo e penso: Suficiente. Dá para ir trabalhar. Não bonito, não descansado só pronto para funcionar. Chega.

Todas as tardes, as paredes ficam douradas com a luz do pôr do sol, densa como mel a derreter. Era o único bónus do apartamento, tirando o autocarro à porta. Às seis, a luz subia a parede, tocava na estante, na caneca de chá frio do pequeno-almoço, na foto da mãe numa moldura de madeira.

Sentei-me. Esfreguei os ombros. Vieram outra vez para cima sempre prontos, como se esperasse um encontrão. Estava tão enraizado em mim, depois de anos de reuniões no escritório e chamadas tensas do chefe. O corpo antecipava problemas antes que eu percebesse.

Olhei o envelope.

Laranja. Papel firme. Nem uma dobra parecia vir de mãos cuidadosas. Toquei no meu nome com o dedo.

Não era piada. Conhecia melhor a minha letra que o meu próprio rosto.

Com calma, descolei a tirinha no topo e espreitei dentro. Um papel vulgar, folha A4 branca, e mais qualquer coisa. Plana, brilhante.

Tirei a folha, abri-a.

Olá. És tu. Tu em março de dois mil e vinte e cinco. Tens trinta e sete, estás na cozinha às duas da manhã, e sentes-te de rastos. Quarto dia sem dormir. Achas que não vais aguentar. O emprego. Tu mesmo. Lisboa que parece esmagar-te por todos os lados.

Escrevo-te porque alguém tem de o fazer. A amiga liga amanhã, a mãe depois. Agora são duas da manhã, não há ninguém. Só tu.

É isto o que tenho a dizer.

Pediste para te lembrar: conseguiste naquele tempo, vais conseguir de novo.

Ama-te. Mereces.

Se lês isto, passou um ano. Aguentaste. Valeu a pena.

Pousei a folha.

Um aperto na garganta, não de choro de reconhecimento. Era eu. Cada palavra. O tom, um erro na vírgula depois de agora, até o hábito de começar parágrafo com é isto.

Mas não me lembrava de nada.

Não recordava escrever aquilo. Nem o envelope laranja, nem a escolha do papel. Um ano inteiro sem memória disso.

E vi a fotografia.

Tinha caído do envelope quando retirei a carta, pousou na mesa, lado brilhante para baixo. Virei.

Na foto, uma mulher de cara cinzenta, olheiras fundas, lábios secos, apertados. O cabelo preso num carapuço torto uma mecha solta a cair pela face. A camisola larga, a mesma que deitei fora no verão passado.

Conhecia aquela camisola. E aquela cara.

Era eu mesma. Do ano anterior. Filipa de março.

No fundo da fotografia, numa letra pequena: Ficaste mais forte. Olha para mim vês de onde vieste.

Pousei a foto ao lado da carta. O sol pôs-se direito à mesa, abraço dourado no brilho da fotografia. O rosto aqueceu na luz mas não pareceu mais feliz.

E lembrei-me.

***

Março de dois mil e vinte e cinco. Duas da manhã. A mesma cozinha, a mesma mesa, só que com o portátil aberto e o ecrã a fazer os olhos arder.

Sentava-me de t-shirt e calças de pijama, descalço, com os pés frios, percorrendo páginas. Não redes sociais. Não notícias. Procurava algo sem nome. Talvez sinal. Talvez motivo para me levantar.

Naquele março, três dias sem sair da cama. Não era preguiça. Era um peso sem nome, cola, cimento no peito, que ninguém tirava.

O divórcio tinha sido há três anos. O João saiu em vinte e três com uma colega, uma tal de Teresa, que ria alto e perguntava pouco. Não chorei. Empacotei as coisas dele, deixei à porta: Leva. Levou.

Depois disso, ano e meio a trabalhar sem parar. Fins-de-semana, noites. Compras e tabelas até cair para o lado. Gestor de compras numa construtora chamada LisComplete ou seja, chamadas das oito da manhã, folhas de Excel à noite, reuniões com o chefe, Barroso: O mercado caiu. Temos de cortar. Quem não aguenta, culpa própria.

Fui aguentando. A segurar, sem reclamar.

No outono vinte e quatro, o corpo disse basta. O sono desapareceu. Depois, o apetite. Depois, ficar em casa tornou-se regra. Em janeiro só dormia com a televisão ligada, comia uma vez ao dia e as conversas com a mãe eram esforço.

Mãe sentia-o. Dona Helena Correia ligava todas as noites: Filipa, já comeste?. Sempre respondia: Já, mãe, sopa. Nem sopa fazia desde novembro.

Naquela noite março vinte e cinco escrevi no Google: carta para o futuro. Nem sei porquê. Vi num anúncio qualquer. O primeiro link era de um site chamado Cápsula do Tempo. Dava para escrever uma carta, escolher data de um mês a dez anos e mandar entregar. Papel verdadeiro, envelope real, correios de verdade.

Escolhi envelope laranja. Porque de cinza já bastava a vida. Escrevi à mão, tirei foto, enviei tudo pelo site. Tirei uma selfie à mesa, só à luz do portátil. Ficou no anexo. Paguei seis euros. Escolhi doze meses.

E fechei o portátil. Fui dormir. Esqueci-me ao longo do ano.

Depois daquele março, a vida começou, devagar, a andar. Não bonito. Aos arrancos, como elevador velho. Mas andou.

Em abril marquei psicóloga. Primeira vez. Senhora de cabelo curto, consultório em Santos, cinquenta minutos semanais. À terceira consulta desatei a chorar, vinte minutos sem parar. À sexta, ri pela primeira vez em meses.

Em junho fui promovido. Gestor sénior. O Barroso veio dizer: Correia, é o único que não se queixa e faz. Sabia que notei?. Assenti, voltei ao computador, ombros encolheram-se mais. Alegria e medo, juntos.

No outono aliviou. Voltei a fazer sopa. Ao domingo ia ao Jardim da Estrela, com livro e termus. Comecei a ligar à mãe primeiro, e não a esperar pela chamada.

Esqueci da carta. Como se esquece do seguro no fundo da gaveta: sabemos que lá está, mas não pensamos.

Até hoje.

Estava sentado à mesa, com carta numa mão e fotografia na outra, a olhar para aquele rosto de um ano atrás. Cinzento. Com olheiras pesadas. Aquela camisola que já deitei fora.

A voz de dentro a tal, resmungona, como grão na engrenagem murmurou: E então? Continuas na mesma. Nada mudou.

***

Essa voz está comigo há muito. Nem sei quando começou talvez após o divórcio, ou até antes. Não grita, não insulta. Fala baixo, ponderado, até cuidadoso. E dói mais assim.

Foi sorte aquela promoção. O Barroso não tinha mais ninguém.

Achas que te safas? Olha para ti. Ombros sempre em cima, dormes mal, pequeno-almoço é só café e ansiedade.

Também vais ser despedido. Em abril. Ou maio. É esperar.

Eu ouvia. Não por acreditar, mas porque nunca aprendi a não ouvir. Essa voz era parte do meu corpo, como o gesto de suspender os ombros, como o laço no r.

No dia seguinte dia dezanove de março levantei-me às seis. Duche, café, rímel. Tudo igual.

O escritório da LisComplete, junto ao Campo Pequeno, sexto andar, trinta secretárias um silêncio estranho há semanas. Não o silêncio do trabalho. Um silêncio atento, de espera. Em fevereiro houve despedimentos. Primeira vaga foram cinco, da logística. Agora toda a gente à espera da segunda.

Entrei. A Gabriela, da receção, sorriu-me breve, tensa. Também à espera.

Sentei-me, pendurei o saco da marmita, liguei o computador. Palavra-passe data de aniversário da mãe à primeira. 114 e-mails por abrir. Comecei. Fornecedor de Leiria a pedir mais prazo. O armazém a queixar-se da falta de ferro. A contabilidade queria reconciliações até sexta. Dia normal de trabalho. Se não fosse o silêncio.

Às onze, o Barroso marcou reunião.

Entra, baixo, compacto, sempre tic-tic na tampa da caneta. Senta-se. Olhos pela sala, dezoito pessoas.

Sintético, pessoal diz ele. A Fátima do projeto vai sair. Diz que é dela, mas vocês sabem…

Fátima Costa. Vinte e nove anos, projetos, três anos ali. Conhecia-a só de olá, mas era a Fátima dos bolos de noz deixados na copa com bilhete: Sirvam-se!. Foi ela que uma vez, na ceia de Natal, me confidenciou que tinha pânico de ser despedida. Tenho crédito à habitação e a gata. A gata não a podem despedir.

E mais uma coisa o Barroso tamborilou. Em abril há mais cortes. Vê-se no fim do trimestre.

Fiquei com as costas direitas, ombros erguidos, dedos entrelaçados debaixo da mesa. E a voz interior murmurou: Estás a ver? Disse-te. Até abril ainda ficas.

Saí, encostei-me à parede, junto ao bebedouro. Fechei os olhos três segundos.

Na cabeça, dois ecos. Um, baixo: Aguentaste aguentas de novo. Do envelope laranja, do março um ano atrás.

O outro, mais alto: Coincidência. Só um papel pago a seis euros. Não te enganes. À Fátima não a enganaram, vai para casa fazer currículo com a gata.

Abri os olhos, bebi água, voltei ao ecrã. Continuei. Era o que eu sabia fazer trabalhar. Mas seria isso suficiente?

Ao fim da tarde, estava à mesa, prato de arroz e bifes de frango, quando a mãe ligou.

Filipa, olá a voz da minha mãe, quente, rouca da mudança de tempo. Como é que estás?

Bem, mãe. Trabalho e pronto.

Já comeste?

Estou a comer agora. Arroz.

Boa.

Pausa. Sei que a mãe pressente tudo. Fez trinta anos de biblioteca infantil, ouviu muitas crianças caladas. Usou esse dom comigo também.

O teu tom está apertado silêncio.

Estou só cansado, mãe.

Já no ano passado disseste cansado, mãe, e estiveste três dias sem sair de casa.

Fechei os olhos.

Agora é mesmo cansaço. Não é como antes.

Sabes: estou sempre aqui. Se precisares, vou no sábado. Levo sopa, da verdadeira.

Sorri, primeiro sorriso do dia.

Obrigado, mãe. Por agora não precisas.

Conversámos dez minutos: a tensão dela, a vizinha cá do prédio que adotou um gato e ele mia noites inteiras, a primavera que já se sente no Alentejo e ela mandou-me fotos das flores, Vê só, a primavera chegou e tu aí fechado em Lisboa, escreveu. E sorri de ponta de lábios. Era tudo normal e isso alivia.

A mãe nunca pressionou. Não perguntava já tens namorada? ou quando vêm os netos?. Trabalhou trinta anos entre livros sabe que o silêncio faz bem. Fica perto. Dois telefones e duzentos quilómetros.

Deixei o telefone. Arrumei o prato. Olhei de novo para a carta aberta.

Ficaste mais forte. Olha para mim vês de onde vieste.

Peguei na foto. Olhei bem. Era a Filipa, os olhos pedem socorro mas já não sabem a quem.

Às nove telefonou a Sofia.

A Sofia foi minha colega de turma e há mais de vinte anos, amiga fiel. A voz sempre igual: grave, doce, com gargalhada escondida mesmo nos dias maus.

Correia! Conta tudo.

O que é que te hei de contar?

Tudo. Sei pelo Pedro da contabilidade que aí está difícil. Vão despedir, não é?

Suspirei.

Pois, mais uma saiu hoje. E o Barroso falou em nova ronda em abril.

E tu?

Por enquanto estou. Mas por enquanto diz tudo.

Filipa, lembras-te de me telefonares há um ano, de madrugada? Disseste-me que não tinhas saída. Que era o fim. Lembras-te?

Recordei, meio traço, como por água. Deu três e pouco, Sofia atendeu ao segundo toque.

Lembro.

E então? Aguentaste. Cá estás. A trabalhar. Subiste na empresa. Fazes arroz e conversas comigo. Não é fim. Isso é vida.

Fiquei calado.

Ouves-me?

Ouço.

Então pára de te enterrares.

A Sofia continuou do emprego dela (vendia cozinhas e detestava clientes que mudavam o projeto à última hora), do gato, Nicolau, que já arranhou todos os sofás, que talvez sábado bebêssemos vinho juntos.

Ouvia-a e pensava: ela disse o mesmo que a carta. Quase as mesmas palavras. Como se a Filipa de antes, a mãe e a amiga combinassem repetir: estás cá, sobreviveras, chega de te maltratar.

Desliguei. Eram dez da noite.

A casa entregue ao silêncio. Não pesado, só normal. Frigorífico em ronco. Lá em baixo passou um elétrico. No andar de baixo alguém ria, voz fina, quase um canto.

Fui à casa de banho. Acendi a luz. Olhei o espelho.

O meu rosto. Trinta e oito anos, cabelo castanho-escuro, até aos ombros, levemente ondulado. Pele, nem cinzenta nem pálida: normal, com cor de chá quente ao fim de tarde. É verdade, as sombras por baixo dos olhos estão lá, mas menos fundas. Sinais de quem se levanta às seis.

Voltei à cozinha. Trouxe a foto. Fui à casa de banho, e pus a imagem ao lado do espelho.

Duas caras.

Uma no espelho. Quente, viva, um pouco cansada.

Outra na foto. Cinzenta, de lábios secos, olhos a pedir ajuda.

Um ano entre elas.

E a voz a tal, habitual quis dizer: Não significa nada. O retrato engana. A luz era má. Só isto

Interrompi. Pela primeira vez em anos, em voz alta:

Não.

Disse ao espelho. E a mulher do espelho olhava-me com calma, composta, surpresa.

Não, repeti. Já não sou essa. Sou outra. Vê levantei a foto. Era assim. Agora sou assim.

A voz ficou em silêncio.

Fiquei naquela casa de banho, descalço, de calças de fato-treino, t-shirt velha e foto na mão. Olhei para mim sem julgamento.

Não chega ou não chega. Não será que aguento?. Não e se isto se desmorona?.

Apenas olhei.

E vi. Não uma pessoa perfeita, não uma heroína, não uma mulher forte, como nas revistas. Alguém comum. Vivo. Com olhos cansados e uma madeixa rebelde. Mãos que assinaram, num ano, centenas de faturas e nunca tremeram. Ombros que sobem, mas mantêm-se. Não caíram. Não cederam.

***

Nessa noite, fiquei acordado até às duas. Não por aflição mas a pensar.

Na cama, no escuro, revia o ano. Não eventos, só o sentir. O dia em que fiz pequeno-almoço e comi tudo, só. Caminhei até ao parque e sentei num banco ao sol, vinte minutos, só a aquecer o rosto. Ri numa sessão de psicologia, de mim próprio, de pedir desculpa por ocupar o tempo da terapeuta.

Coisas pequenas. Mas foi assim que se fez o ano.

E a voz insistia: Isso não conta. Vida de toda a gente. Não é vitória.

E perguntei-me: e se mente? Não por mal. Não sabe fazer diferente. Como quem sempre viveu num quarto sem janelas e acha que o sol não existe. Porque nunca viu.

Levantei-me. Voltei à cozinha. Acendi a luz de secretária.

O envelope laranja à minha frente. Virei para o lado limpo. Peguei na caneta azul, a do trabalho.

E comecei a escrever.

Olá. És outra vez tu. Março de dois mil e vinte e seis. Tens trinta e oito. No emprego, incerteza; na vida, turvo. Mas aguentas.

Sabes, há um ano escrevi-te uma carta. Escrevi da escuridão. Daquela em que as paredes somem e parece que não há saída.

Hoje recebi essa carta. E sabes, não me reconheci na foto. Não de imediato. Três segundos até perceber que aquela mulher cinzenta era eu.

Três segundos são um ano inteiro.

Agora escrevo do calor, não da dor. Porque se lês isto, passou mais um ano. Voltaste a aguentar.

Ama-te. Mereces.

Tua Filipa, março vinte e seis.

P.S. Se os ombros estão à espera do mundo, baixa-os. Agora. Assim mesmo. Boa.

Dobrei a folha. Meti no envelope laranja, o mesmo que de manhã tirei da caixa do correio. Escrevi o meu endereço.

Liguei o portátil. Abri a Cápsula do Tempo. Tratei da entrega para março de vinte e sete. Carreguei o scan. Depois, tirei uma selfie à mesa, à luz da lâmpada.

Desta vez, o rosto no ecrã era diferente. Não cinzento, não apagado. Normal. Um pouco cansado, sombras ligeiras mas vivo. Os lábios, serenos.

Carreguei a foto. Paguei. Fechei o portátil.

Fui até à janela.

Lisboa, noite funda, cheia de luz. Os candeeiros, os carros a passar, janelas acesas noutras casas. Silêncio. Março, oito graus, vento leve.

De pé, descalço no soalho frio, senti os ombros aqueles que, todo o dia, se encolhiam a baixar sem esforço.

E a voz interior murmurou qualquer coisa.

Já não ouvi.

Olhei a cidade, a pensar em quem, dentro de um ano, receberia aquele envelope laranja. Teria mais doze meses de história. Talvez outro emprego. Talvez o mesmo. Talvez mudasse de casa, ou não. Talvez alguém a amasse, ou não. Não importava.

Importava que dentro do envelope estaria a fotografia e a frase: Olha para mim. De onde vieste.

E ela, daqui a ano, ia olhar. Ia ver.

Sorri. Desliguei a luz. Deitei-me.

Lá fora, a noite de março, fresca, com cheiro a pedra molhada.

Na casa, silêncio.

Na mesa, o envelope laranja, recém cheio.

***

De manhã, acordei às sete. Sem despertador. A luz vinha do nascente branca, quase prateada. Não a laranja do costume. Era outra. Nova.

Levantei-me. Fui à cozinha. Pus a chaleira ao lume.

O envelope estava lá. Ao lado, a fotografia e a carta.

Não reli. Não analisei o rosto. Só alinhei tudo no canto, direito, como coisas para guardar.

Depois, do armário alto, tirei uma moldura pequena, dez por quinze, comprada para uma foto de férias nunca usada. Meti a foto antiga lá dentro. Pus na estante, junto dos livros.

A cara cinzenta. As olheiras. O cabelo fugidio. A camisola usada.

Não para recordar a tristeza. Para nunca esquecer o caminho.

A chaleira apitou. Enchi a caneca. Fui para a janela.

Vi-me no reflexo fundo do céu matinal. Sem maquilhagem, roupa de casa, chá quente nas mãos.

A voz interior, muda.

Acabei o chá. Vesti-me. Peguei na mala. Saí.

À porta, parei. Confirmei ombros.

Lá em baixo. Soltos. Sem tensão. Simplesmente meus.

Fechei a porta e fui trabalhar.

Na mesa da cozinha, o envelope laranja. Com carta nova. E foto nova. Pronto a mandar.

Dentro de um ano, vai chegar. Vou abrir. Vou olhar o que sou hoje. E pode ser que, de novo, não me reconheça. Porque um ano muda tudo.

Ou quase tudo.

A letra ficará igual. O t comprido, o r com laço. Do liceu, de sempre.

E dentro do envelope estará a frase a central, única: Aguentaste antes aguentas agora.

Mas desta vez, escrita não na sombra.

Deste lado da luz.

Hoje percebo: o caminho faz-se de regressos, sim, mas sobretudo de recomeços. E ser amável comigo, ano após ano, é o melhor presente que me posso dar.

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