A mãe apertava-a contra si, beijava-a e pensava: «Afinal, a quem é que ela se parece?» E suspirava. Os conhecidos ficavam intrigados e faziam a mesma pergunta. Será que algum amigo encheu a cabeça do marido, ou talvez a sogra desconfiou de algo, ou foi o próprio Vítor que começou a duvidar da fidelidade da mulher? Certa noite, ele chegou a casa do trabalho carrancudo.

Olha, deixa-me contar-te uma história que aconteceu com uma amiga de uma amiga cá em Lisboa, numa daquelas famílias meio tradicionais, sabes? A mãe, a Dona Helena, era daquelas que vivia para as filhas, e estava sempre a pensar a quem é que a pequena Beatriz saíra parecida. Beijava-a, abraçava-a e pensava: Será que ela vai puxar mais ao meu lado, ou sai mesmo ao pai?, suspirava a pensar nisso.

Toda a gente reparava e ficava na dúvida também. Um dia, o Miguel, o marido dela, veio do trabalho com um ar aborrecido. Eram fases complicadas a Beatriz estava quase a fazer três anos, acabava de deixar as fraldas e já a Helena se sentia a mergulhar noutra aventura, com outra gravidez.

De um licença de maternidade para a outra a Helena confidenciava: A Beatriz ainda é pequenina, pede colo a toda a hora! Como é que vou carregar com ela e com esta barriga? E depois olhava para o futuro de quatro, só com ele a trabalhar. Talvez devêssemos esperar mais um pouco pelo segundo, arriscou, logo com medo da reação do Miguel.

E ele, sério: Não penses nisso, Helena. Desculpa estar assim, mas vamos dar conta do recado. Arranjo mais um bico nos fins-de-semana, desenrascamo-nos. E ainda se riu: Se for rapariga, há roupa que sobra da Beatriz, nem precisamos de carrinho novo! Vão ser amigas, ainda por cima tão próximas de idade… Se for rapaz, trato eu do pedido para mais espaço aqui no prédio!, animava-a.

Ficou decidido. A verdade é que a Helena mimava mesmo muito a Beatriz, era a menina dos seus olhos, a primeira filha tão esperada. Sempre que podia, pegava-a ao colo, cheirava-lhe o cabelo, mesmo quando a barriga já se notava.

A Helena, num segredo só dela, às vezes pensava se ia aguentar, se não seria capaz de perder a segunda criança, tão cedo depois da primeira. Sentia-se um bocadinho culpada por sentir isso, mas nem a ela própria contava.

Mas pronto, a natureza quis de outra forma e, na data, nasceu outra menina na família Soares. Quando lha puseram nos braços pela primeira vez para amamentar, a Helena ficou intrigada: a bebé tinha penugem dourada na cabeça, um contraste enorme, porque tanto ela como o Miguel eram absolutamente morenos.

Bem, com a Beatriz foi ao contrário, nasceu de cabelo preto e só clareou depois, pensou. Se calhar, esta com o tempo escurece.

A verdade é que a recém-nascida era de uma brancura impressionante, com uns olhos azulados que só mesmo nos filmes! E o nome, escolhido rapidamente numa onda de felicidade: Marília. Um nome tipicamente português, pouco visto achavam graça às duas com a mesma inicial, como se isso as unisse de um modo especial.

Só que ninguém percebia como naquela casa tinha nascido uma filha tão diferente. A Marília era diferente da irmã, dos pais, de toda a família. E à medida que crescia, cada vez era mais clara, com um ar doce e um olhar sereno, enquanto a Beatriz era mais traquinas, morenaça.

A diferença era tão evidente, que até os vizinhos do prédio comentavam: Saiu a quem, Helena? E lá suspendiam a conversa de café, a tentar adivinhar.

Começaram as birras cá em casa. O Miguel andava estranho, parecia que lhe tinham posto minhocas na cabeça. Lembrava-se que, antes de casarem, havia um colega loiro que andara atrás da Helena. Começava a duvidar teria ela feito alguma asneira?

Se não era traição, talvez tivessem trocado os bebés no hospital, como já se ouviu falar.

A Helena chorava e jurava-lhe: Nunca te traí! A Marília é nossa, ninguém trocou nada. Mas ele não acreditava. O clima tornou-se insuportável, discussões todos os dias, já se falava em separação. Ela começou a fazer as malas por pouco não saiu de casa. Foi aí que o Miguel percebeu o disparate. Ainda a tempo, pediu-lhe para ficar, mas avisou: ia fazer testes de paternidade.

A Helena chorou ainda mais: Então, se não confias em mim, nem vou ficar! Faz também à Beatriz, já agora! Ou achas que fui capaz de te enganar duas vezes? Talvez seja melhor cada um seguir a sua vida.

O Miguel lá recolheu amostras das miúdas, levou ao laboratório. De tanto perguntar, quase enlouqueceu a técnica de análises garantia-lhe que não havia enganos nem trocas possíveis.

As miúdas, claro, ouviram as discussões todas. A Marília, com quatro anos, já percebia que havia chatices por causa dela. E um dia, a Beatriz disse-lhe de caras:

Nós não somos irmãs. Tu não és como eu, só trazes problemas!

A Marília chorou tanto, inconsolável nos braços da mãe. E a Beatriz, magoada e desconfiada, pensava que se um dia a irmã desaparecesse, os pais iam fazer as pazes.

Um dia, enquanto a mãe foi à mercearia e o pai estava no café, a Beatriz vestiu a irmã e levou-a para longe de casa, para ver se se livrava dela de vez. A Helena, em pânico, correu o bairro, o Miguel largou o emprego e ajudou. Já era noite quando a polícia encontrou as meninas: uma senhora ligou porque ouviu uma criança a chorar junto a uma paragem de autocarro.

Foram ambos levadas para casa, e naquele dia ninguém ralhou estavam só aliviados por as terem de volta.

Depois vieram os resultados do laboratório: as duas eram filhas legítimas do Miguel. Explicaram-lhe que, às vezes, genes de outras gerações saltam à vista de surpresa, e foi o que aconteceu ali.

A calma foi voltando lá a casa, mas a Marília nunca se sentiu realmente parte da família. A Beatriz nunca a aceitou dizia-lhe coisas más, chamava-a à atenção até pelas roupas: Eu uso sempre coisas novas, tu só ficas com as minhas velhas porque não és de cá, dizia.

A Marília sofria em silêncio. A mãe, sem querer, punha sempre a Beatriz em primeiro plano. Vê a tua irmã, tão comportada, dizia, e a Marília ficava ainda mais sozinha, a pensar que não valia a pena queixar-se.

Ela passou a esconder-se num canto do quarto, fechava os olhos, imaginando que, se não visse nada, ninguém podia vê-la também. Era a forma dela fugir daquele olhar duro da mãe e da língua ferina da irmã.

Quando a Beatriz saiu da escola secundária, nem quis saber de faculdade, arranjou logo namorado num dos bailes populares de Santo António, e pouco depois casou. O rapaz já tinha casa própria, trabalhava com o pai a vender carros usados no Alentejo.

A Marília, por sua vez, cresceu sempre a ouvir: A tua irmã tem outro andamento, olha lá! Até um dia, no décimo primeiro ano, conhecer um rapaz que finalmente a fez sentir-se especial. Acabou por engravidar, e o namorado, assustado, acabou por contar aos pais.

A mãe do rapaz apareceu em casa da Helena, a pedir que a Marília fizesse um aborto. Mas o pai, Miguel, surpreendeu as mulheres e tomou as dores da filha mais nova: Deixem-na ter o miúdo. Ela já passou muita coisa, é nossa responsabilidade ajudá-la, quer vocês gostem, quer não.

O rapaz foi estudar para o Porto e nunca mais deu notícias, enquanto a Marília ficou a estudar em casa, em regime especial. Mesmo assim, acabou os exames com ajuda de uma professora de Inglês bondosa.

Mas pouco depois, a vida trocou-lhe as voltas: o Miguel, exausto de tanto trabalhar e das preocupações, adormeceu no sofá e não voltou a acordar morreu de repente de ataque cardíaco.

A Marília, com o choque, entrou em trabalho de parto prematuro nessa mesma noite. Quando voltou para casa com o pequeno Simão, a mãe estava devastada pela morte do Miguel, e deixou escapar: Foste tu que me fizeste perder o teu pai desde que nasceste só me dás problemas! Mas, curiosamente, adorava o neto, um loirinho de olhos azuis igualzinho à mãe.

Agora ninguém vai querer casar contigo, filha, lamentava. Que se lixe. Se nem o meu pai acreditava em mim de início, achas que algum estranho vai gostar do meu filho?, dizia a Marília.

O Simão foi crescendo, era um miúdo calmo e inteligente. Quando tinha cinco anos, a vida das duas voltou a cruzar-se com a da Beatriz. Ela, que nunca tinha conseguido engravidar, via o marido a afastar-se, pressionado pelos pais a procurar outra mulher para lhe dar netos. Não querendo voltar para a casa da mãe agora tão cheia da irmã que detestava birras antigas reacenderam-se.

A Beatriz tentava arranjar maneira de despachar a Marília e o filho, arranjando-lhe um homem. Tinha lá em casa um informático que vinha arranjar o computador e pensou logo em apresentá-lo à irmã com sorte ele apaixona-se por ela e eu fico com a casa para mim!

Armou um encontro num café. Disse à Marília para ir bem vestida, que um filho precisa de um pai, como quem não quer a coisa. Achava que a irmã ia meter água, que o informático só tinha olhos para ela, Beatriz, e nem ligaria à Marília.

A Marília lá foi ao café, sem saber bem o que esperar, de cabelo bem penteado mas sem maquilhagem. O informático o Diogo era simpático, meio distraído, só se metia com o telemóvel. Quando percebeu o embuste, ficou meio baralhado, mas convidou-a para um café.

Acabaram por conversar, e ele achou-lhe graça acabaram a passear a pé e, já à porta do prédio, pediu-lhe o número. Queria conhecê-la melhor, disse.

Só lhe ligou passados uns dias, porque tinha muito trabalho, mas a Marília decidiu dar-lhe uma hipótese. Numa próxima saída, ela foi contando partes da sua vida, as dores, as dúvidas todas. Ele ouvia-a com respeito, e até ajudou uma velhota a pagar as compras na mercearia e alimentou um rafeiro abandonado à porta do café.

Não me tratas por pena, pois não?, perguntou-lhe a Marília. De maneira nenhuma. Acho-te mesmo especial. Comigo, os mais frágeis não se sentem sozinhos, ajudo porque posso, não é caridade, é humanidade.

Mais tarde, contou isto à Beatriz, que reagiu mal. Esse tipo nem é nada de especial, não sei o que vês nele Mas a verdade é que o Diogo gostava mesmo da Marília.

Houve mais dramas: a mãe sofreu um AVC em casa, a Beatriz ficou em pânico, mas por sorte chamaram a ambulância a tempo. Dois meses depois, a Marília casou com o Diogo e foi viver com ele, levando o pequeno Simão. Ia visitar a mãe todos os dias ao bairro, mas à Beatriz perdeu-lhe o rasto ela foi para o Algarve à procura do seu destino.

No fundo, sabes, pensa-se sempre que as crianças não reparam nos dramas dos pais mas ouvem tudo. Fazem as suas próprias conclusões, copiam o que veem. E aquelas coisas pequenas, como o ciúme entre irmãs ou a competição por atenção, podem deixar cicatrizes para a vida.

A relação entre irmãs é tramada, há sempre aquela luta invisível pelo afeto dos pais ou pela sorte no amor. Muitas vezes quem tenta fazer mal acaba por ficar pior. E, como dizia sempre a professora da Marília: Os filhos podem não ouvir o que dizemos, mas nunca se enganam a copiar aquilo que fazemos.

E olha, para crescer saudável, uma filha precisa de ouvir palavras que a façam sentir única, amada e protegida. Tudo o resto deixa marcas profundas para o futuro.

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A mãe apertava-a contra si, beijava-a e pensava: «Afinal, a quem é que ela se parece?» E suspirava. Os conhecidos ficavam intrigados e faziam a mesma pergunta. Será que algum amigo encheu a cabeça do marido, ou talvez a sogra desconfiou de algo, ou foi o próprio Vítor que começou a duvidar da fidelidade da mulher? Certa noite, ele chegou a casa do trabalho carrancudo.
Tenho 26 anos e a minha esposa diz que tenho um problema que não quero admitir.