A passagem de Ano Novo estava sem graça, até que uma mulher desconhecida se sentou à mesa deles

O Ano Novo começava de forma aborrecida, até que uma mulher desconhecida se sentou à mesa deles

Rita saiu disparada do apartamento às dez horas da noite de 31 de dezembro a mãe lembrara-se de que se esquecera de comprar pão e pediu-lhe que fosse à mercearia. Na cozinha já se ouvia o assado a crepitar no forno, a mesa estava quase posta e o pai ligara a televisão para o concerto de fim de ano.

Uma véspera de Ano Novo igual a tantas outras, numa família de três sem grandes entusiasmos, mas também sem discussões. Rita tinha quinze anos e ultimamente as festas pareciam-lhe cada vez mais vazias.

No pátio, sentia-se o frio húmido da noite e o perfume das clementinas. Lá em cima, alguém punha música alta, outros riam-se nas varandas. Perto do prédio ao lado, sentada num banco sob a luz amarela do candeeiro, estava uma idosa de casaco antiquado. Sozinha.

Nas mãos tinha uma clementina já meio descascada.

Rita hesitou. Sentiu-se apertada por dentro uma pena tão aguda, que quase doía.

Boa noite, disse, sem saber bem porquê.

A idosa sobressaltou-se, levantou os olhos claros, desbotados, como fotografias antigas.

Boa noite

Está sozinha aqui? Hoje é noite de Ano Novo.

Pois é. A mulher sorriu, mas aquele sorriso era tão triste que Rita sentiu um calafrio. Fico pouco. Só apanho ar. Em casa, estou só, pelo menos aqui vejo gente.

Sozinha. No fim do ano.

Quer vir connosco? escapou-se-lhe antes que pensasse. Uns minutos. Tomar chá.

A idosa ficou imóvel.

Ora para quê? Não quero incomodar. Vocês têm o vosso serão

Que serão? sorriu Rita, sincera. Somos só os três, a comer saladas em silêncio e a ver televisão. Falo a sério. O meu nome é Rita.

Eu sou Dona Eulália, murmurou a mulher, e passou-lhe no rosto algo milagroso um fio de esperança.

***

Quando Rita abriu a porta e trouxe Dona Eulália para casa, a mãe ficou parada, a ajeitar a travessa dos enchidos.

Quem é?

É nossa vizinha, mãe. Dona Eulália. Mora aqui ao lado.

Só um bocadinho, apressou-se a explicar Dona Eulália, agarrada à velha mala. Sento-me aqui se não for incómodo

O pai veio da sala, olhou-a de lado. A mãe não sabia como reagir. E Rita sentiu, como um estalo: era isto. Era por momentos assim que a vida ganhava sentido.

Sente-se, Dona Eulália. Eu faço já chá.

No início foi estranho. Dona Eulália sentou-se na pontinha da cadeira, agarrando a chávena com ambas as mãos, como se alguém lha pudesse tirar. A mãe olhava desconfiada, o pai mastigava o pão e calava-se.

Está muito bonito, disse baixinho Dona Eulália. A árvore tão bem decorada Já não tenho árvore há uns anos. Para quê, sozinha?

Tem filhos? perguntou a mãe, num tom agudo que fez Rita torcer o nariz.

Tenho. Um filho. Mora longe. Está sempre ocupado. Eulália baixou o olhar. Liga às vezes. Mas vir não pode. O trabalho, as preocupações

Silêncio.

E netos? insistiu a mãe.

Dois. Ele divorciou-se, eram pequeninos. A ex-mulher a voz tremeu-lhe. Nunca me deixou ver os meninos. Agora já são grandes, têm a vida deles. Para quê, uma avó quase estranha?

Rita levantou-se de repente, o banco rangeu.

Mãe, podes vir à cozinha ajudar-me?

Já lá dentro, virou-se irritada:

Porquê aquelas perguntas todas?

Só queria saber

Não vês que lhe custa falar disso? Ela estava sozinha, no frio, com uma clementina! Em plena passagem de ano! Percebes?

A mãe franziu o sobrolho:

Rita, eu percebo que sintas pena, mas nós nem a conhecemos. E se

E se quê?! É só uma senhora sozinha, a quem ninguém mostra carinho! Podemos fazer algo tão simples por ela, mãe!

O olhar da mãe suavizou-se. Suspirou:

Pronto. Põe mais um prato.

***

Às onze da noite, algo mudou. Dona Eulália já não se agarrava à cadeira. Começou a contar coisas do tempo de economista num escritório velho, de como, depois do marido a ter deixado (há quinze anos!), se fechou em si mesma. Dos vizinhos, que cumprimentam mas nunca perguntam nada.

Acordo e penso: para quê tudo isto? Ponho a televisão, tomo chá. Depois saio ao café e volto. Sem falar com ninguém. O telefone não toca. Às vezes, passo uma semana sem uma chamada.

Uma semana sem uma chamada.

Rita sentiu o coração apertado.

Hoje, continuou Dona Eulália, pensei: pronto, vem aí a meia-noite, toda a gente a festejar, a rir e eu? Peguei numa clementina e vim para a rua. Para ver pessoas. Para não ficar entre quatro paredes.

O pai pigarreou. Virou a cara. A mãe levantou-se, foi ter com a idosa e pôs-lhe a mão no ombro, de mansinho.

Venha cá sempre, ouviu? Não fique sozinha. Vivemos tão perto.

Eulália soluçou suave, sem ruído. As lágrimas deslizavam pelas rugas. Rita sentiu-se a derreter, como se um rio gelado estivesse a voltar à vida.

***

Receberam o Ano Novo os quatro juntos. Quando o relógio bateu as doze badaladas, Dona Eulália apertou a mão de Rita e murmurou:

Obrigada, filha. Muito obrigada

E Rita olhava para ela e pensava: quantas pessoas estarão agora como ela, sós? Quantos telefones mudos, quantas mesas sem ninguém, quantas clementinas abandonadas?

Naquele instante, a mãe trouxe um bolo de arroz, o pai pôs fado na aparelhagem. Dona Eulália riua sério, riu como uma criançae aquele riso foi um milagre.

À uma da manhã, despediu-se.

Já vos estou a aborrecer. Amanhã têm de descansar

Dona Eulália, Rita pegou-lhe na mão. Somos amigas agora, está bem? Amanhã venha cá almoçar.

Vocês

É verdade. A mãe faz um cozido delicioso, conversamos mais um bocado. Não é, mãe?

A mãe confirmou com um aceno:

Venha às duas. Faço sopa, se gostar.

A idosa vestia o velho casaco no corredor, as lágrimas voltavam a descer mas agora eram outras. Diferentes.

Não sei como agradecer, minhas queridas

Não tem de agradecer nada Rita abraçou-a. Basta aparecer.

Quando fechou a porta, Rita encostou-se, olhos fechados.

Ritinha, disse o pai em voz baixa estiveste muito bem!

Eu só Assustei-me. De pensar que estava ali, sozinha. Que ia acordar outra vez em silêncio. Que ninguém lhe ligava. Que parecia não fazer falta a ninguém.

A mãe aproximou-se, afagou-lhe o cabelo.

Deste-lhe o mais precioso. Mostraste-lhe que não está sozinha.

***

No dia seguinte, Dona Eulália veio à hora marcada. Trouxe um álbum de fotografias e contou histórias do marido, do filho em pequeno, dos tempos em que a casa era cheia e risonha.

Depois foi voltando. Vezes e vezes sem conta.

Passou a ser parte da família. Juntos faziam filhoses, viam filmes, falavam de tudo e de nada.

A Rita via-a a transformar-se. Os olhos mais alegres, um sorriso novo, a voz leve. Passeava, cumprimentava os vizinhos, falava da minha Rita.

Até que, numa tarde, tocou o telefone.

Mãe? uma voz surpreendida. Porque não atendeste? Já tentei falar várias vezes

Ai, Gabriel, desculpa! Estive com os vizinhos, deixei o telemóvel em casa Como estás?

Rita ouvia da entrada o filho perguntar: Com que vizinhos?; ouvia Dona Eulália a contar do Ano Novo, da rapariga que a trouxe da rua, da família que a acolheu como se fosse sua.

Mãe, tenho de te ir visitar disse ele. Quero conhecer essas pessoas.

Quando Rita viu Dona Eulália nesse dia, ela chorava. Mas não de tristeza.

Ele vem, sussurrou, agarrando as mãos de Rita. O meu Gabriel vem cá.

Viu? sorriu Rita. Tudo mudou.

Foste tu, querida. Salvaste-me. Se não fosses tu…

Se não fosse ela.

Rita abraçou a idosa e pensou como são pequenos os gestos que mudam vidas. Uma chávena de chá, uma casa onde se sente calor, alguém que diz: Não está só.

Uma clementina num banco. Um minuto de atenção. E tudo se transforma.

À noite, depois de Dona Eulália se ir embora, o pai comentou:

Sabes, Rita, sempre pensei que vivíamos só para nós próprios. Trabalhar, ganhar dinheiro, comprar isto e aquilo. E afinal não é isso.

Então o que é? perguntou Rita.

O pai olhou-a:

É ver quem está ao nosso lado. Quem já nem espera ser notado. Oferecer a mão. Sem troco, sem interesse. Só porque sim. Porque é uma pessoa, e dói-lhe.

Rita acenou. Sentiu um nó na garganta, mas sorriu.

Meio ano depois, Dona Eulália já não era visita fazia parte deles. A vida dela encheu-se de luz.

Rita compreendeu finalmente: a felicidade não se faz de grandes gestos. Faz-se dos pequenos. Daqueles que ninguém vê nem espera. Quando, por acaso, paramos e pensamos: e se perguntasse como está?

Parar. Ver quem ali está. Quem já se esqueceu do que é carinho.

Lembrar-lhe: está cá por uma razão. É necessária. É importante. Às vezes, uma clementina num banco pode ser o começo de uma história. Uma história sobre sermos humanos. Uns para os outros.

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