Pessoa Difícil

Querido diário,

Valha-me Deus, Guilherme! Como tu és uma pessoa difícil! Não podia ser mais simples, podias fazer só como eu peço, não era?

Olho-me no espelho da entrada e sei que dizem que sou bonita, mas sinto-me apenas cansada. Mesmo assim, ouço frequentemente que atraio todas as atenções nas alamedas do Parque Eduardo VII, ao lado do hotel onde estamos hospedados. Pernas longas, olhos azul-escuros e um corpo daqueles que faz virar cabeças.

Guilherme, o meu marido, não herdou essa sorte. Mais baixo do que eu, largo como um pequeno barril de vinho do Porto, braços compridos e pernas um pouco tortas, e aquela careca precoce já a espreitar. Só os olhos ressuscitam a sua aparência, intensos, vivos, inteligentes, a ver tudo de uma só vez. Por isso é que é estranho, por vezes, explicar aos outros como é que esta relação se mantém: uma mulher complicada e um homem que me decifra até a alma

Parecemos Hefaísto e Vénus, só que, ao invés do martelo, o Guilherme traz normalmente a Leonor ao colo. A nossa filha, pequenita, tem a cara e o feitio dele, impossível negar. Só me ficou a cor dos olhos e o cabelo cobre. Aquelas caracóis indomáveis! Nem vale a pena tentarjá aceitei que a Leonor seja uma mini-trovoada laranja a correr pelo hotel, deixando atrás o pai ofegante e ainda a apanhar balanço.

Rita, se tu queres tanto ir àquela visita guiada, vai tu. Eu acho que a Leonor ainda é muito pequena para essas andanças. É longe, está um calor vai acabar por chorar, fica aborrecida e tu ficas sem aproveitar nada. Sabes bem.

Então e tu? Para que é que cá estás, Guilherme? Eu vim para este hotel com o meu marido! E nem posso dar dois passos que não sou logo abordada. Isso não te faz comichão nenhuma? Não queres saber de nada?

A voz da Rita quase a atingir um registo histérico. Vejo que a Leonor só se aninha mais no colo do pai.

Que disparate, mulher! Eu morro de ciúmes! ri-se ele e passa-lhe a mão na mecha de cabelo. Mas vá, propomos outra aventura qualquer. Queres apanhar o barco ali em Belém? Ou fazer mergulho? Diz tu

Eu quero ir aos castelos! resmunga a Rita, já virada para o lado, amuada. Não querem vir, fiquem! Eu vou sozinha.

O arrufo encenado com talento. E vejo o Guilherme encolher os ombros enquanto ela desaparece para junto da piscina, esquecendo-se de nós por completo.

Mas não é novidade. Habituou-se, e eu também. Vivemos como a maioria dos casais de conhecidos e amigos: ele, homem de negócios, sempre ocupado, e eu, mulher jovem, bonita, a permitir ser amada.

Como é que fui cair na categoria dos maridos da moda, ainda hoje não percebo. Nunca tive facilidade com mulheres nem foi pela aparência. Era mesmo a forma de lidar. Com colegas, sociável quanto baste, sentido de humor no sítio, até me desenrascava. Bastava apaixonar-me que a coisa piorava. As mãos, as falas, o olhar bloqueava. Tão desconfortável, com o tempo deixei de procurar alguém. Dediquei-me ao trabalho e a visitar a mãe, Dona Inês, que vive nos arredores de Cascais, e imaginei que talvez fosse esse o meu destino.

Só de tempos a tempos, como dizia a minha mãe, “por saúde”, lá acontecia alguma aproximação, mas sem nunca passar disto.

A Dona Inês, porém, achava inadmissível: tinha de casar, de constituir família. Decidiu resolver à moda antiga.

Guilherme! Já chega de te veres feliz assim! Nunca vais casar assim tão sozinho! Há que chamar uma casamenteira!

O quê? Quase me engasguei no chá de tília em plena varanda, a olhar para o pôr-do-sol em Cascais.

Estragaste o blazer novo, filho resumiu ela, tirando-lhe importância. Tu és uma pessoa espectacular. Inteligente, bem-educado, trabalhador. Mas para quê, se ninguém vê? Só eu! E está errado. Os outros já deviam estar a invejar-te pela felicidade familiar. E eu queria embalar netos meus, e muito mais, ver-te com a tua filha ou filho ao colo. Só aí vais perceber o que é alegria de verdade. Olha à tua volta! Casas, carros, contas, isso tudo um dia vai. Só a vida, as emoções, a memória é que ficam. Compreendes?

Entendo Mas o que tem a casamenteira a ver com isso?

Tudo! Nunca vais conseguir sozinho, já vi. E eu falhei em ensinar-te a lidar com as mulheres, é verdade, agora cabe-me remediar. Como também sou naba nisto, confiaremos num profissional! Vai, pega na folha e escreve.

Escrever o quê?

Aquilo de que gostavas numa mulher! Como seria a mulher ideal. Cor dos olhos, altura, feitio

Ficámos ambos até tarde, questionando, escrevendo. Construiu-se um perfil quase impossível ou assim me pareceu. Mas Dona Inês foi pragmática. O resto, diria, ficou por conta da vida.

Apareceu a Rita. Todo o exterior coincidia com “a lista”. Mas alma e temperamento, isso só vivendo juntos se ia desvendando.

Rapidamente percebi que o nosso casamento era como um contrato. E, pelos vistos, isso era prática comum. Rita nunca quis ser dona de casa; ocupava-se da sua própria vida. Tínhamos até quartos separados, porque dizia ela que o meu ressonar era fatal para o sono dela se eu ressonava, não sei, mas fiz-lhe a vontade. E tudo por ela.

A questão dos filhos foi igual. Relutante, Rita pediu tempo, queria viajar primeiro, aproveitar enquanto era jovem e eu cedi. Corremos metade da Europa, jantámos com amigos, montámos vida juntos, e já quase nos tolerávamos um ao outro.

A chegada da Leonor acalmou as águas. Encontrava nela tudo, corria dos escritórios para casa só para brincar com ela. Só me desiludia ver que Rita como mãe, era, no máximo, sem brilho.

Amamentar? Nunca! Não me vou deitar na mesa de operações para corrigir o peito! Arranja uma ama, ou damos leite de lata. Também cresceste assim dizia, como se isso resolvesse tudo.

Ninguém a demoveu. Leonor lá se habituou à garrafa, e lá fui buscar uma ama.

Estou à beira de perder o juízo! Fechada entre quatro paredes com um bebé a berrar sem descanso! Tu tens trabalho, eu tenho nada! Queres que fique deprimida? queixava-se Rita.

A sogra, Dona Natália, ao saber que procurava ama, foi direta:

Para quê? A tua mãe dá aulas, é certo, mas eu posso cá ficar com a minha neta. Para que meter gente de fora, Guilherme?

Aceitei, sem hesitar. Foi a primeira discussão séria com Rita.

Para quê a minha mãe aqui? Para me controlar? E tu, isto parece que gozas comigo! Achava que me queria ajudar e a choraminguice voltou.

Quero ajudar-te, mas mais à Leonor. Tu pouco lhe ligas, ao menos que tenha quem lhe dê carinho.

E assim foi. Com Dona Natália, Leonor ganhou uma segunda avó. A mãe servia só para exibições efémeras à amiga de ocasião.

No entanto, o quarto da Leonor sempre esteve ao lado do meu. Brinquedos, roupinhas, tudo por ali. Crescia, foi para o ballet, para o jardim de infância privado, viajou e aprendeu a adaptar-se, sempre com quem nunca se incomodava verdadeiramente com ela.

Até àquele verão, numa viagem vulgar a Barcelona, quando começou com febre e dor de cabeça.

Lá se foi o descanso! suspirou Rita, enquanto esperávamos o médico do hotel.

O que interessa agora são férias? A tua filha está doente.

Uma constipação qualquer. Eu bem disse que lhe davas gelados demais! Sempre a mimar!

A médica viu a menina e, tal como esperava, recomendou só descanso.

Cansaço, nada demais.

Quando saíram do quarto, olhei para Rita e decidi:

Vamos voltar a Lisboa.

Mas para quê, Guilherme? A médica disse que era só repouso!

Isso não me descansa. Não devia uma criança queixar-se tanto. Arruma as tuas coisas!

De volta a casa, exames e análises ao Hospital de Santa Maria tiveram um diagnóstico incerto, mas grave. O tempo parou.

Consultas, mais exames. O estado da Leonor manteve-se. Deixei tudo para estar com ela. Rita também por lá ficava, mas até os médicos perceberam: para além do sorriso e lágrimas aos amigos, não sabia realmente detalhes da rotina, sintomas ou gostos da filha. Tudo era comigo.

Rita, afinal, não sofria. Apenas sentia-se presa. A falta de liberdade era o que mais a afligia. Não tolerava o cheiro a hospital, apesar de tudo ser privado, confortável.

Quando soube que eu ia vender a casa:

Estás louco, Guilherme?! Não tens dinheiro suficiente?

Não, já não. O tratamento da nossa filha é caro. A operação, no estrangeiro, custa uma fortuna. Tudo vai servir, casa, negócio, tudo. Quero salvar a Leonor.

E eu? Como fico eu? chorava baixinho.

Dou-te a tua liberdade. Tens carro, tens apartamento em Lisboa, o teu suficiente. Só te peço: visita a nossa filha no hospital, e acompanha-nos para o tratamento fora. Podes não querer, mas ela é tua filha, precisa de ti mesmo que aches que não.

Pela primeira vez, perco a paciência, mas nessa altura só importa a Leonor, minúscula e adormecida no hospital, ligada aos soros. A relação com Rita, se algum dia houve, resumia-se ao amor pela filha.

Chega! Lava o rosto e não assustes a Leonor! Vais fazer aquilo que for preciso, está bem? Pronto, Rita, mexe-te!

Sabe-se lá porquê, vejo-a, por instantes, crescer à frente dos meus olhos. Vi nela, de repente, um rochedo insuperável. Talvez finalmente a minha posição fosse clara

Rita foi embora para chorar para outro sítio. Fico ao lado da porta do quarto da Leonor.

Pai murmura ela, mal abro a porta.

Dona Natália, sentada ao lado dela a ler-lhe uma história, levanta-se e vem falar comigo no corredor.

Guilherme, posso continuar aqui?

Dona Natália, esta casa é sua! Obrigado por tudo. Sem si não sei o que teria sido de nós.

A culpa soluça foi minha. Não soube a Rita sempre foi tão esperta, tão boa menina. Agora, nem a reconheço. Guardei-lhe as costas, asneira minha.

Todos erramos, Dona Natália. Eu também devia ter visto mais cedo Mas será que ela não gosta mesmo da Leonor? Você foi-lhe um ótimo exemplo de mãe. Como posso eu não falhar com a Leonor agora?

Prepara bem o terreno, Guilherme É só isso. Agora temos de ser fortes diz, limpando lágrimas e retomando compostura. A Leonor ainda nos vê tristes e arma uma fita! Bem, vou deitá-la, vê lá se lhe arranjas um gelado, para ver se come alguma coisa.

Depois, a esperança. Lisboa, Barcelona, Paris. Operação, meses de reabilitação, Inês que deixa as aulas para ir connosco, avós sempre juntos. Rita acaba por ficar em Madrid, segue o seu caminho, livre. Eu, a Leonor e as avós regressamos finalmente a casa, passados dois anos. Devagar, tudo melhora.

O tempo passa. No dia em que a Leonor faz quinze anos, ela reaparece. Igual, elegante, sempre arranjada, Rita cumprimenta discretamente a mãe, acena-me de longe, e vai em direção às amigas da Leonor.

Filha

Os mesmos olhos, agora mais maduros, encaram-na.

Mãe

Rita apressa-se em discursos e explicações, mas a Leonor cala-a logo:

Calma, não agora. Depois. Às vezes, o que queremos dizer pode esperar.

Mas eu só queria

Eu sei. Agora não é hora.

Leonor, por favor

Está bem. Vem comigo então.

Entram em silêncio no meu escritório. A Leonor senta-se no parapeito da janela, afasta a cortina, e espera.

Sabes, mãe, sou igual ao pai, não sou?

Não era isso que queria dizer

Pois eu digo: sou, sim. Sabes outra coisa? Durante todos estes anos, aquele homem “difícil”, nunca disse mal de ti. Nem uma palavra. Nunca trouxe outra mulher para casa para não me magoar, nunca quis divorciar-se. Sempre me garantiu que tinha mãe, mesmo sem te veres comigo. Sabes o que isso me ensinou?

Diz-me

Ensinou-me a perdoar. Disse para nunca guardar rancor. Ainda estou a aprender, mas sou filha do pai, faço tudo até ao fim. Não preciso de ti, sabes? Tenho o pai, avós, tudo o que uma filha de verdade precisa. Não sinto falta de mãe. Só por ele aceito dar-te essa oportunidade. Podes tentar ser alguém, mãe.

O que fui eu até hoje?

O que quiseste. Bonita por fora, vazia por dentro. Uma actriz fria. Duro de ouvir? Mas não esqueço quem me embalou, quem ficou sem dormir, quem me ensinou o que importa. Tu nunca estiveste. Lembras-te do ballet? A Dona Natália fez-me o vestido, e a Dona Inês deu-me as tintas para pintar quando a pista ficou para trás! Esta tela a minha, viste? Ganhou prémio. Prova de que consegui sem ti!

Mas agora estou aqui

Porquê? O que te traz de volta?

Quero estar presente

Não consigo acreditar, mãe. Não sinto confiança. Mas pronto, mostra de que és feita, talvez com o tempo pense em perdoar. Por agora, senta-te. Daqui a pouco há bolo. Eu vou ter com os meus amigos.

Pouco antes de sair, pergunta ainda da soleira:

Então, mãe, ainda achas que sou uma pessoa difícil?

Rita nada diz, mas sorri, talvez pela primeira vez de forma sincera, com esperança. Vejo a Leonor afastar-se, os caracóis ruivos brilharem na luz, e percebo finalmente que, tal como ela mesma disse, herdou o melhor do pai. Também isso, aqui, vale ouro.

Fecho o diário. Hoje, talvez, a vida finalmente encontrou outro caminho.

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