Colegas e amigas invejavam Svetlana — ela conquistou um homem mais velho, bem-sucedido e influente. André era quinze anos mais velho do que ela e dirigia a empresa onde trabalhava.

À Inês todos no escritório e no grupo de amigas olhavam com inveja afinal, ela conquistara um homem mais velho e muito bem de vida. O António tinha mais quinze anos do que ela e era o diretor da empresa onde trabalhava.
Mal entrou para cá e já vai casar! cochichavam nas suas costas.
Deu o salto da classe baixa à alta de uma só vez…
Sem dúvida…

A verdade é que a Inês não gostava de contar a ninguém sobre o seu relacionamento com o chefe. Tinham começado a sair antes mesmo de ela se candidatar ao emprego na empresa dele. Na altura, Inês nem sabia que ele era diretor foi a uma entrevista às cegas. Mesmo assim, foi escolhida sem dificuldades, e o António jurava que não interferira. O recrutamento foi feito pela responsável dos recursos humanos, baseada somente no currículo e experiência de Inês.

Mais tarde, ela acabou por perceber tudo e pediu-lhe para manter a relação escondida. Mas segredos assim não duram: logo todos souberam da história entre o António e a Inês, e metade da empresa não falava de outra coisa, sempre a analisar a diferença de idade entre o viúvo e a jovem bonita.

Inês nunca se gabou do seu aspeto, acreditando firmemente que merecia o cargo por mérito próprio. Mas as más-línguas diziam o contrário.
Mal passaram dois anos da morte da Mariana e ele já vai casar! suspiravam.

A Mariana, primeira mulher do António, tinha sido dona da empresa antes dele e falecera num trágico acidente, deixando-lhe não só o negócio mas também uma herança considerável.

De imediato, António tornou-se o solteirão mais cobiçado da cidade, mas, de início, permaneceu reservado devido ao luto, o que só reforçou o interesse feminino.
Que fiel…
Como um cisne! diziam elas, fitando-o com romantismo.

António nunca foi um homem particularmente bonito ou charmoso, o que atraía era o saldo no banco. Mas a Inês, claro, apaixonou-se por ele por outros motivos.

Na verdade, o seu encontro não podia ter sido mais banal ele, distraído com a lista de compras, bateu-lhe com o carrinho no supermercado, rasgando-lhe as meias e estragando os sapatos de camurça… ainda a acusou de se meter à frente na fila!

Inês, sem se atrapalhar, respondeu-lhe à letra, deixando-o atrapalhado ao ponto de pagar todas as suas compras e depois correr atrás dela pelo centro comercial para pedir desculpa.
Por favor, desculpe-me… foi um dia difícil, não queria ser indelicado. Posso ajudar com os sacos? lá pediu ele.
Não, obrigada. Vim de carro, consigo sozinha respondeu.

Mas na verdade, carro não havia. Esperou que ele desistisse e foi apanhar o autocarro. Por coincidência, ou talvez não, António seguiu pela mesma estrada e avistou-a na paragem.
Entre, faço-lhe companhia e levo-a a casa.
Não, obrigada.
Não saio daqui enquanto não entrar insistiu ele, bloqueando o passeio e fazendo todos os que esperavam o autocarro tentarem convencê-la.

Inês acabou por ceder.

Conheceu então o António de verdade: sem gritos, era um homem simpático. No fundo, ela pensou que, noutras circunstâncias, poderiam ser amigos. Logo, António mostrou ter intenções mais sérias. Enamorou-se rapidamente, mesmo já tendo jurado, depois da Mariana, que mais ninguém teria o seu coração. Mas Inês era diferente nem física, nem de feitio parecida com Mariana e foi isso que o cativou. Soube onde ela vivia e passou a ir buscá-la e a esperar por ela todos os dias. A certa altura, Inês cedeu e saiu com ele. Depois, conseguiu emprego na empresa dele coincidência? Talvez.

António não ligava ao que os outros pensavam e nunca teve vergonha dos seus sentimentos por Inês. Não era de dar presentes caros, mas não lhe faltava atenção.

Inês gostava da forma como ele a olhava, gostava da casa grande no centro de Lisboa, o automóvel de topo, e a estabilidade que António prometia. Rapidamente, Inês levou as suas coisas para casa dele e conheceu a mãe, Dona Sofia.

Sofia era uma senhora calma, que obedecia ao filho. Desde o falecimento da nora, António trouxe a mãe para junto dele. Ela cozinhava, tratava da roupa, mantinha a casa em ordem. Inês não se importava nada. Não fazia questão de ser dona da casa e comia com gosto tudo o que a sogra preparava. Tudo correu bem… até António decidir pedir-lhe em casamento.

O que a incomodava era que ele continuava, mesmo viúvo, a usar a aliança de casamento.
Sinto-me ainda ligado à Mariana, confessou-lhe António.
Isto irritava Inês e pediu-lhe para tirar a aliança.
Está bem… se realmente te incomoda, tiro, acedeu, com algum desconforto.
Não quero estar com alguém que usa aliança como se ainda fosse casado, explicou Inês, e ele aceitou. Escondeu a joia e esqueceu-a durante um tempo.

Quando foi tempo do pedido, António abriu o cofre e retirou uma caixinha com um anel, certo de que ela ia delirar. A noite estava perfeita: restaurante elegante, música ao vivo, cálice de vinho e, lá no fundo, uma joia de família com diamante.

Inês quase se engasgou quando viu o anel dentro do copo.
Casa comigo? pediu António, tirando o anel da sua mão para lhe pôr no dedo. Mas ela recuou.
Não.
Não?! estranhou António.
Não quero usar esse anel.
É uma joia de família! Não fazes ideia do valor! irritou-se ele.
Pouco me interessa quanto vale. Não vou usar o que pertenceu à tua falecida mulher.
Porquê?
Dá azar, é má sorte…
Não sejas supersticiosa.
Que mais, queres que use o vestido dela? A tua mãe disse-me que ainda anda guardado por aí algures…
O vestido compra-se outro. Mas no anel não fazia sentido gastar dinheiro, é uma relíquia antiga, única! Repara no ouro, no trabalho…
Não quero nada disso usado… nem quero ver-te com a tua velha aliança. Já falámos disto.
É a tua palavra final? perguntou ele, já desconfiado.
É. Desculpa, e levantou-se. O jantar, estragado.
Talvez seja melhor fazermos uma pausa, sugeriu António.
Concordo.

Inês saiu. António não a deteve. Os músicos tocaram até ao fim, o empregado trouxe o prato principal… o anel ficou na caixa.

No trabalho, Inês evitava António. Ele estava sempre fechado no gabinete. À noite, foi para casa dos pais. Eles receberam-na bem recomendando que deixasse o António e procurasse alguém da sua idade.
Tu és linda, inteligente! Que fazes tu a perder tempo com o António? Tão mais velho, ainda por cima viúvo!

Inês não respondeu. Não sabia o que era melhor. Por um lado, António seria um bom marido… por outro, assustava-a a ligação persistente dele à Mariana.

Os dias passaram. António não telefonou, e ela afastou-se ainda mais, até meteu baixa médica. No escritório circulavam rumores de separação entre o diretor e a sua ‘estrela’. António, mal-humorado, descarregava a irritação nos trabalhadores. Nem a mãe escapou aos seus azedumes. Quando Sofia tentou falar-lhe de Inês, recebeu apenas palavras vagas e negativas.

A mãe, preocupada, quis ajudar. Resolveu então visitar a Inês.
Dona Sofia?! surpreendeu-se Inês ao abrir a porta.
Olá, minha querida. Estás melhor?
Um pouco, estive doente.
Foi por isso que decidiste sair de casa? Para não me pegares nada? perguntou, semicerrando os olhos.
Não exatamente, corou Inês.
Então volta. O meu filho está destroçado.
Não me parece… respondeu Inês.
É orgulho. Nem a mim quis contar o que se passou. Que se passa entre vocês? Sempre vos vi apaixonados…
Ele queria que eu usasse o anel antigo, o da Mariana…
Portanto, se não fosse esse anel, estariam bem?
Devia vender, comprar outro. Não suporto a ideia de um anel usado, ainda mais de alguém que já morreu… Dizem que as pedras retêm as energias das pessoas…
Compreendo-te, minha filha. Acho que, no fundo, o António não está preparado para casar. Não consegue deixar o passado, mas ama-te.
O novo constrói-se do zero, Dona Sofia. Não sobre o que já foi disse Inês. Obrigada por ter vindo. Foi bom vê-la.

Sofia despediu-se, compadecida do filho e de Inês. Tinham-se desentendido por um pormenor… mas essa ninharia era, afinal, uma raiz profunda.

A baixa terminou e Inês teve de voltar ao escritório. Não queria cruzar-se com António, que continuava sem lhe ligar. Maguada, decidiu entregar a carta de demissão e procurar emprego noutro lado.

António assinou sem protestos, nem uma palavra, só o olhar fixo e amuado.
Já tens idade para isto, mas comportas-te como uma criança, disse-lhe ao sair.
A culpa é tua. Nunca ninguém antes me recusou nada…

Inês retirou-se sem responder. Fez o correto, sentiu. No dedo do António, viu novamente a velha aliança a brilhar no momento em que ele assinava e compreendeu:
Fiz bem. Ele nunca vai libertar-se da mulher.

Saiu dali aliviada, sem qualquer dúvida de ter tomado a decisão certa. E António continuou, por muito tempo, a magoar-se por Inês não ter apreciado o presente nem aceitado casar-se com ele, esse solteirão tão cobiçado de Lisboa.

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Colegas e amigas invejavam Svetlana — ela conquistou um homem mais velho, bem-sucedido e influente. André era quinze anos mais velho do que ela e dirigia a empresa onde trabalhava.
Narodila sa dievča, ale problémová. Taká komplikovaná, že lekári ju začali presviedčať, aby podpísala zrieknutie sa.