Manuel chegou ao local do chamado. Quem abriu a porta foi um rapazinho de uns dez anos e uma menina loira um pouco mais nova.
A mãe já vem, pode entrar! A torneira da cozinha está a pingar disse o rapaz.
Manuel entrou e consertou a torneira.
O pai trataria disto, mas ele é piloto. Quase nunca está em casa explicou o miúdo.
Quando a mãe chegou, pagou a Manuel. Na saída, o rapaz acompanhou-o:
Não temos pai piloto nenhum! Isso é coisa da mãe confessou de repente.
Manuel acabava de fazer o último trabalho do dia: trocar a torneira da casa de banho de uma senhora de idade.
Já se preparava para ir para casa quando recebeu um telefonema do patrão: havia mais um serviço, ver uma torneira marota noutra cozinha.
Manuel trabalhava há meio ano numa pequena empresa de reparações canalizações, limpezas, pequenas obras, esse tipo de coisas, nada do outro mundo.
Chegou ao prédio, tocou à porta e deparou-se com um rapaz concentradíssimo de uns dez anos com uma miúda loira ao lado.
Então, não está nenhum adulto em casa? estranhou Manuel.
No trabalho recomendavam nunca entrar em casa alheia sem adultos presentes.
A mãe está mesmo a chegar, entre lá! A torneira pinga que é um filme, e mesmo depois de pôr fita cola continua na patifaria. Olhe que não somos caloteiros, temos dinheiro apressou-se o miúdo.
Lá entrou Manuel, acreditando que a mãe já vinha. Desmontou a torneira, trocou o vedante.
Olhe, a minha mesa está toda torta, uma perna abana, e o interruptor nem responde exclamou a menina.
O pai arranjava isso, mas como é piloto, passa a vida nos ares e nunca está cá para remendar nada continuou ela, nitidamente a repetir o que ouviu da mãe.
Foi então que a mãe chegou.
A mulher, nos seus trinta e tais, simpática, mas com ar cansado de quem só queria, por favor, cinco minutos de paz.
Ela estranhou a iniciativa dos filhos.
Se esperasse por ti, nunca cá vinha ninguém, sempre a adiar e a adiar justificou-se o filho todo orgulhoso.
A mãe pagou o serviço, a menina insistiu na mesa e no interruptor.
Ficou combinado para o dia seguinte. Manuel deixou o cartão.
O rapaz, já sabia Manuel, chamava-se Tomás, saiu com ele, levando o lixo.
Não há pai nenhum piloto cá em casa! A mãe inventa, julga que somos pequeninos e não percebemos nada. Se ele existisse mesmo, já cá tinha vindo, não é? E os presentes ela compra, mas diz que são do pai. Eu vi-a comprar a boneca para a Leonor na loja, e depois disse que veio pelo correio do pai desabafou Tomás tristemente.
Ora, nunca se sabe, às vezes as pessoas querem vir e não conseguem tentou animá-lo Manuel.
Tomás só olhou para ele, sem dizer mais nada.
Em casa, Manuel custava a desmontar o assunto piloto. Também ele já fora piloto. Noutros tempos…
Morava numa cidade grande; voava para fora, para outros países. Era casado com uma bela mulher que insistia para que ele largasse as nuvens.
Sim, sim, tu passeias nos céus e eu fico a mexer em fraldas? Não, obrigado!
Os sogros acabaram a emigrar para o estrangeiro, juntaram-se à família. Chamaram-nos. Manuel recusou, a mulher separou-se e foi também.
Manuel continuou nos ares, até que a saúde complicou-se e teve de se reformar.
Horas de voo tinha de sobra, carreira para contar aos netos se os houvesse.
Mudou-se então para a terra da mãe, um sítio mais pequeno. Pouco tempo depois, perdeu-a.
Tudo tão repentino, e ficou à deriva.
Nunca fora homem de copos, mas naquela altura, rodeou-se de amigos e conhecidos, perdeu-se por uns tempos. Um dia, a mãe apareceu-lhe num sonho, olhar triste, olhos cheios de mágoa
Na manhã seguinte, despachou toda a tropa fandanga de casa, arrumou a vida, fez umas pequenas obras e, de repente, sentiu-se mais sozinho que nunca.
Até que folheando um jornal local, viu um anúncio: empresa procurava pessoal para pequenos arranjos, quem tivesse carro próprio melhor.
Pensou: por que não? Ao menos ocupava-se e fazia uns trocos em euros.
O horário flexível agradava-lhe: folgas quando precisasse, ninguém a chatear.
No dia seguinte, voltou ao prédio da mãe do Tomás e da Leonor. Desta vez, ela já estava em casa.
Arranjou a perna da mesa, pôs o interruptor a funcionar, endireitou uma prateleira, alinhou as portas do armário.
Espiou a casa de banho e pasmou:
Isto sim, precisava era de uma remodelação a sério disse.
Só aceito se for o senhor a fazer ripostou a Clara, assim se chamava a dona da casa. Temos umas poupanças, deve chegar-lhe
Durante o trabalho, acabaram por se conhecer. Clara era educadora num jardim de infância.
Fique connosco para jantar, já trabalhou tanto, deve estar uma fome de leão sugeriu ela, meio envergonhada.
Os miúdos também puxaram por ele.
Manuel aceitou.
O jantar esticou-se. Os pequenos já dormiam e os dois ficaram à conversa.
Manuel contou como nunca tinha feito antes. Clara, com uma sabedoria de mulher vivida, só ouvia e olhava de lado, com um olhar que dizia tudo.
Na verdade, homem nem piloto nem de outra profissão ela nunca teve. Duas tentativas falhadas e dois filhos, três anos de diferença.
O piloto era uma invenção simpática, e um dia, explicaria aos miúdos como foi.
Quando Manuel saiu, já era quase meia-noite.
Prometeu voltar no dia seguinte ainda lhes faltava trabalho por fazer.
Na noite seguinte, Clara abriu a porta e ficou especada. Ali estava Manuel, fardado de piloto, um ramo de flores numa mão, bolo na outra.
O papá! O nosso papá-piloto voltou! gritou Leonor, correndo para os braços dele.
Voltei, só não vos reconheci de imediato já passou tanto tempo, não foi, Clara? perguntou Manuel, olhando para ela com esperança de adolescente.
Clara não tinha mesmo alternativa senão dizer que sim e disse.
E assim, a família que era de três ficou uma família completa e, veja-se, feliz.
Tomás demorou a acreditar, mas acabou por aceitar que agora tinha um pai de verdade.
Manuel adotou Tomás e Leonor, e um ano e meio depois nasceu-lhes outro rapazinho
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