Do ódio ao amor

Do ódio ao amor

António sempre teve aversão a cães. Desde aqueles tempos distantes em que, ainda miúdo gordinho e ruivo, com óculos grandes e uma mochila atulhada de livros e cadernos, fora cercado por uma matilha nos descampados atrás dos prédios da Amadora.

O chefe magro, negro, com manchas cor de caramelo no focinho fitava António nos olhos. O pequeno chorava, suplicava que o deixassem ir, atirava-lhes pedaços dos sandes de fiambre que tinha sobrado do lanche da escola, mas os cães mantinham-se firmes. Sempre que António tentava avançar, o líder erguia o lábio superior do lado direito, mostrando os caninos amarelados, enquanto rosnava, surdo e ameaçador.

A matilha manteve o rapazito cercado durante mais de duas horas. Subitamente, o chefe virou a orelha para trás, escutou algo e, sem um som, disparou numa corrida para o pequeno pinhal que ficava para lá do terreno baldio. Os outros seguiram-no, numa fila perfeita, desaparecendo entre as árvores.

António limpou as lágrimas, agarrou a mochila como se fosse escudo e correu, ofegante, em direção a casa.

Mas não chegou a tempo. O velho prédio de madeira onde morava com a família e uns poucos vizinhos já mal ardia a caldeira de gás explodira.

No incêndio perdeu o avô, o pai do pai de António, a quem sempre chamava de avôzinho.

O Avôzinho fora marinheiro, curtido por maresia e ventos do largo. Tinha barba e bigode brancos e usava-os até ao Dia de Reis, altura em que a rapava rente. Depois voltava a crescer; o avôzinho fazia dela uma curta trança, apanhava-a com um elástico colorido ou, em jeito brincalhão, punha-a atrás da orelha.

António ficou gago depois do incêndio e da experiência com os cães.

A segunda vez que o destino trocou-lhe as voltas com um cão foi já no sétimo ano. Estava mais magro, mais alto, e trocara os óculos por lentes de contacto. Saía da escola para acompanhar a rapariga mais bonita da turma, Beatriz Alvim, a casa. Beatriz era cobiçada também por Joaquim Moreno, repetente do nono ano, conhecido na escola por arruaceiro. Todos receavam Joaquim, mas António arriscava caminhar ao lado da rapariga de quem o arruaceiro gostava.

Do nada, apareceu um cão castanho-escuro, de porte forte, rosnando de forma ameaçadora ao António, empurrando-o para longe de Beatriz. O rapaz, assustado, recuava, forçado pelo cão. Só quando Beatriz virou na rua do prédio, o cão desapareceu entre os jardins vizinhos.

No dia seguinte, na aula de matemática, António recebeu um bilhete apenas com três frases:

Não me sigas. Ontem, o Joaquim queria-te bater. Desculpa.

A amizade com Beatriz não durou, e António culpou ainda mais os cães pelo rumo das suas desilusões.

O tempo passou. António concluiu uma excelente licenciatura, mais tarde abriu o seu próprio negócio e tornou-se empresário. A carreira corria-lhe bem, os contactos certos surgiram, o negócio prosperava e o dinheiro entrava: já ganhava bons euros. Também a vida familiar encontrou harmonia.

Beatriz, agora Beatriz Correia, tornou-se sua mulher, e o casal teve um filho encantador, Martim nome do avôzinho tão querido. O bebé de oito meses ainda não dizia palavra, mas sentado no carrinho sorria a todos os cães que passavam, gritando num entusiasmo meigo: Au, au!

Num domingo soalheiro, António passeava com Martim pelo Jardim da Estrela. Empurrava devagar o carrinho, conversando com o filho sobre as aves para quem tinham deixado sementes nos comedouros, e sobre os esquilos que vinham buscar nozes à mão.

Era hora de rumar a casa. À saída do jardim, António avançou em direção à passadeira, esperando pacientemente pelo verde dos semáforos. Assim que empurrou o carrinho para atravessar, uma pequena cadela, uma rafeira de pêlo dourado, apareceu de repente, ladrando com tanto desespero e saltando-lhe à frente, impossibilitando-o de avançar, que António sentiu-se sem reação.

Num instante, um carro virou a esquina em excesso de velocidade e passou a centímetros do carrinho. O veículo cruzou o relvado e foi embater contra um candeeiro. No meio do susto, dois adolescentes saíram disparados do carro, fugindo antes que alguém os apanhasse.

Atordoado, António sentiu o coração a bater-lhe tão forte no peito que julgava ser audível a todos os que passavam. Olhou em volta a cadela desaparecera. Pessoas corriam para o carro. Um senhor mais velho apoiou António pelo cotovelo:

Está tudo bem convosco? O carrinho está bem? os olhos do homem mostravam franco receio.

António acenou, sem conseguir dizer palavra. O menino nem arranhão tinha.

Já de regresso, António não recordava o caminho feito até ao prédio. Decidiu não contar o episódio a Beatriz, para quê preocupá-la sem necessidade? Mas aquela cadela de pelo dourado ficou-lhe gravada no pensamento, uma gratidão estranha a crescer dentro de si.

Nessa noite, enquanto relembrava os encontros que tivera ao longo da vida com cães, António percebeu: nunca foi medo inoculado por eles, nem ameaças; afinal, protegeram-no sempre da forma que sabiam. Beatriz reparava, curiosa, na expressão séria e distante do marido, mas calou-se, respeitando o silêncio dele.

Antes de deitar, saíram juntos para apanhar o ar fresco no pátio comum. Na ponta do jardim, à volta de um banco, juntava-se gente do prédio, em murmúrio.

E agora, o que fazemos com ele? Quem vai querer um assim?

Puxando pelo olhar, António viu uma caixa de cartão no banco. No seu interior, um pequenino cachorro. Mas o animal não tinha olhos sinal de um azar dos genes, provavelmente. As pessoas falavam baixinho.

Beatriz seguiu à frente com o carrinho. António ficou para trás, atento às vozes:

E agora, quem fica com ele assim, tão defeituoso?

Eu não seria capaz, coitadito… segredavam as vizinhas.

António chegou-se ao banco, reparando que o cachorro era de um castanho aveludado, soltando ligeiros ganidos, voltando o focinho de um lado para o outro, à procura do cheiro da mãe.

O homem ficou parado um breve instante. Depois, com decisão, tirou o cachecol do pescoço ainda fazia frio à noite, mesmo já em abril.

Pegou no cãozinho, reparando que as patas traseiras estavam também tortas. Uma vizinha atrás suspirou em tom triste; parecia conter um choro.

Com cuidado, António enrolou o pequeno animal no cachecol, como se fosse o filho recém-nascido, deitou-o gentilmente no braço, e murmurou:

Pronto, pequenino, acho que chegou a minha vez… Vamos então conhecer a nossa mãe. Ela é uma mulher bondosa, e há-de arranjar leitinho fresco para ti.

Seguiu, firme, ao encontro da mulher jovem e bonita que o esperava de sorriso ansioso junto ao carrinho, rodeada do calor de uma família e de um futuro promissor.

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