Nina Petrovna recorda bem o dia em que teve de decidir o destino de uma criança que não era sua. Era quarta-feira, o marido chegou mais cedo do trabalho, com um semblante carregado. Sem dizer uma palavra, o Victor estendeu-lhe um envelope.

Lembro-me tão bem do dia em que tive de decidir o destino de uma criança que não era minha. Era uma quarta-feira, e o Ricardo chegou mais cedo do trabalho, com uma cara soturna. Sem dizer palavra, passou-me um envelope.
O que foi, Ricardo?
A Vera já cá não está. Sem o meu consentimento, não podem enviar o Diogo para uma instituição.
Eu já sabia, antes mesmo de nos casarmos, que o Ricardo tinha um filho. Uma história comum: apaixonou-se quando cumpria o serviço militar. Trouxe a rapariga consigo para Lisboa, alugaram um pequeno apartamento. Mas rapidamente ela fez as malas e voltou para o Norte, para casa dos pais.
Depois, mandou um telegrama: parabéns, tens um filho. O que se passou entre eles, o Ricardo nunca contou, nem fiz muitas perguntas. O passado é passado, não se deve mexer muito nisso.
Quando estava de quatro meses, a ex apareceu do nada, com o Diogo já com um ano ao colo. Veio fazer cenas, quis reatar. O Ricardo expulsou-a, ficou comigo, e eu não o culpei não fazia sentido ressentimentos acerca do que aconteceu antes de mim.
A Vera resolveu pedir a pensão de alimentos. O Ricardo pagava direitinho, ela nunca mais ligou. Só depois viemos a saber que se tinha casado duas vezes, e que não aguentou o segundo divórcio acabou por se suicidar.
Nessa altura já tínhamos dois filhos juntos: o nosso João, um pouco mais novo que o Diogo, e a pequena Luzia, recém-feita um ano. Decidimos ter a Luzia depois de comprarmos a nossa casa: era de madeira, antiga, sem grandes confortos, mas tinha quatro quartos, quintal, uma horta e uma pequena arrecadação. Depois da minúscula casa alugada, aquilo era um sonho! O João passou a primeira semana completamente electrizado, correndo pelas divisões e pelo pátio.
Cuidar do filho de outra mulher Nunca pensei nisso, confesso. Só tinha visto o Diogo uma vez, há sete anos, e não sabia nada do rapaz. Como seria ele? Que teria passado? Assustava-me. O meu João já me dava trabalho, quanto mais dois, quase da mesma idade! Iam dar-se bem? O Ricardo trabalhava demasiado, as crianças ficavam praticamente todas sob minha responsabilidade.
Tudo isto me passou pela cabeça em segundos. O Ricardo ficou ali, calado, sentado à entrada, com um semblante perdido.
O meu coração apertou imaginei se me acontecesse a mim, se um destino tão duro batesse à porta do meu João. Tudo pareceu claro:
Ricardo, claro que o miúdo vem para nossa casa, isso nem se discute. É teu filho, e para os nossos filhos ele será irmão. Se dissermos que não, como conseguiríamos viver connosco a seguir? Se cabem dois, cabem três. Havemos de conseguir, criamo-los juntos!
Um mês depois, o Diogo veio morar connosco. Era calmo, tímido, obediente. Nada tinha a ver com o João, mais traquina e destemido. Talvez tenha sido essa diferença a salvar a situação: o irmão mais velho não tentou mandar, adaptou-se bem e os dois deram-se logo. A Luzia também ajudou, sempre tão meiga e risonha, de braços abertos para o mundo inteiro.
No outono o Diogo entrou na escola primária. Corria-lhe bem, a mãe preparara-o para isso. Foi um tempo difícil financeiramente, mas o Ricardo esforçava-se e acabei também por arranjar emprego. As crianças cresceram, tornaram-se verdadeiros ajudantes em casa. Sempre tentei não separar os filhos: nunca houve distinção entre meu e teu.
Quando o Diogo entrou para a Universidade de Lisboa, fui eu quem ficou gravemente doente. Passei meses no hospital, precisei de cirurgia. Tive medo, mas nunca deixei que a tristeza me vencesse: pensava nos filhos e acreditava que tinha de recuperar por eles. Queria vê-los crescer, felizes, e algum dia abraçar os meus netos. O Ricardo, coitado, não aguentou: refugiu-se no vinho.
Com dezoito anos, o Diogo tornou-se o pilar da família. Mudou para o curso nocturno, arranjou trabalho e foi meu maior apoio. Ia quase todos os dias ao hospital, lia-me histórias, perguntava como fazer os pratos preferidos do João e da Luzia, e depois trazia-me para provar. Sempre escondeu que o João se tinha metido em sarilhos com más companhias e tinha sido acusado injustamente felizmente, tudo se resolveu com pena suspensa.
Recuperei. Mas o casamento não mais foi o mesmo: não consegui perdoar ao Ricardo o desamparo, a fraqueza daqueles meses. Ainda bem que a casa era grande passamos a viver como vizinhos. Ele tenta deixar de beber, mas volta e meia volta a cair.
Há um ano, o Diogo levou a nora para casa. A Francisca, por quem ele tinha uma paixão desde a infância na pré-escola. Estuda Psicologia e logo começou a ajudar o sogro na batalha contra o vício. A vida segue. Em breve, teremos pequeninos pelo quintal: os recém-casados descobriram que vão ter gémeos.
Todos os dias agradeço a Deus pelo meu filho mais velho. E acredito mesmo que ainda aqui estou porque um dia tive coragem de abrir o coração a um filho que não era de sangue, mas passou a sê-lo da alma.

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Nina Petrovna recorda bem o dia em que teve de decidir o destino de uma criança que não era sua. Era quarta-feira, o marido chegou mais cedo do trabalho, com um semblante carregado. Sem dizer uma palavra, o Victor estendeu-lhe um envelope.
Мамо! Ами ти пак ли?