A Senhora de Pedra

A Mulher de Pedra

Sabes, Maria Leonor foi parar ao Hospital de Santa Maria depois de a encontrarem caída, sem forças, em plena Rua da Prata, naquela chuva gelada e pegajosa de Lisboa. Veio a ambulância, dois bombeiros pegaram nela e lá foi, sentada numa cadeira de rodas porque recusou deitar-se. Quando acordou, ralhou logo com o condutor porque vinha a tresandar a tabaco, disse ao enfermeiro que era um lento e mandou o miúdo estagiário nem se atrever a tocar-lhe.

Também não era minha intenção! amuou o rapaz.

Olhe que se me faltar ao respeito, vê o que é bom! atirou Leonor, ajustando a mala de couro inglesa no colo e olhando tudo como uma inspetora disfarçada. Ficou sentada com aquela pose de rocha, os olhos grandes a fitar a sala e a testar todos à sua volta. Tinha as sobrancelhas fininhas, mas carregadas para o meio da testa, o rosto largo, pele coberta de base, que já vinha a derreter com o suor dos nervos e do pânico da injecção.

Tratem de me levar para outro sítio. Aqui está um gelo e há corrente de ar! avisou, apontando o corredor cheio de gente.

Na triagem, a administrativa arrancou-lhe os papéis das mãos do bombeiro e disse logo que agora era da responsabilidade delas os bombeiros podiam ir à vida deles.

Crise hipertensiva, perdeu os sentidos na rua Não bateu com a cabeça Agora está resumia o estagiário.

Obrigada, Rafa. Vai, agora, está a entupir o espaço despachou a enfermeira, arrepiando-se na semelhança do rapaz consigo. Devia ser filho, pensou Leonor. “Tem de se ajudar a família” passou-lhe pela cabeça.

A cabeça latejava, os braços pesavam, só queria água, os lábios uma lixa, a língua colada ao céu-da-boca.

Dêem-me um copo de água, por favor pediu ela, alto, mas sem se dirigir a ninguém em particular.

Ninguém ouviu. Em volta, um mar de vozes: famílias, macas a serem empurradas, médicos que passavam apressados, líam papéis ao correr das consultas, gritavam para as salas, enfermeiros ocupados. A Leonor sentia-se um móvel.

Quem é a Barros? Barros? perguntou uma das enfermeiras, que ela mentalmente já chamava de “as doutoras”.

Sou eu aqui! respondeu Leonor, cada vez mais sonora.

Pronto, está aqui o frasquinho, a casa de banho ali, depois sangue. E tire daí a boina, aqui não estamos na Serra da Estrela!

Só aí é que percebeu que ainda tinha posto aquela boina de pele, quase como a Vera da novela. O suor escorria-lhe, e a cabeça a arder.

Arrancou a boina, enfiou-a na mala já a abarrotar de documentos não vinha preparada para ficar, só queria que a deixassem sair dali depressa, afinal era diretora de uma empresa de alumínios das grandes, tinha duzentas janelas para aprovar.

A enfermeira largou-lhe o copo das análises ao colo.

Maria Leonor de Jesus Barros, mulher grande, robusta, sempre foi assim bebé grande, menina grande, adolescente grande. “Ai, que filha tão”, diziam sempre à mãe. “Ai, que números de sapatos espantosos!”, diziam as vendedoras quando passavam das sabrinas para os sapatos de salto.

Ao pé da mãe era uma formiga. Herdara aqueles genes do pai, um autêntico gigante, que a doença levou quando ela tinha oito anos.

Sempre foi motivo para ser posta de parte, sentia-se o Gulliver no colégio, e só no desporto encontrou o lugar dela: lançava o disco e o peso, deixou os colegas a olhar, “alguém tem de fazer estes desportos”, dizia ela. Teve lesões, claro, mas pelo menos encontrou aí sucesso. Depois apaixonou-se, mas era só curiosidade masculina, deu-se mal, ficou mais dura, enterrou a mãe, construiu-se de novo de ferro.

Começou pela Câmara, chefia de obras e manutenções, depois estudou, na reviravolta dos anos 80 abriu negócios e as microempresas estavam por todo o lado. Leonor era presença nas obras de Lisboa, sempre a desenrascar. Grande como era, confundiam-na com homem, riam-se, mas respeitavam-na. Era linha dura e pouca companhia, mas fiel à sua malta.

Maria Leonor nunca sorria muito. “Mulher de Pedra”, diziam à socapa.

Depois abriu a empresa “Vidros do Tejo”. Aprendeu, ganhou respeito no ramo dos vidros duplos. Nunca foi carinhosa, não tomava cafés com as funcionárias, mas era o pilar da equipa. Mandava-os ao médico, arranjava convites para um jantar, ralhava se ficavam até tarde, dava check-ups, oferecia cabazes de Natal mas nunca se mascarava de Bailarina com aquele porte, seria o cúmulo do ridículo.

Sabia de tudo, até o teste de gravidez da Marta, a secretária, antes de ela dizer palavra. Já estava a arranjar clínica antes de haver certeza.

Dos dramas das famílias, dos filhos a entrar ou não na faculdade, dos parentes de trás dos montes que apareciam sem avisar, Leonor sabia punha a mão, ajudava, abria portas. Era uma fortaleza. Aprendeu a proteger-se e, depois, a proteger quem era frágil, diferente, sobrevivente.

Nunca teve amigas. Era mais fácil. Assim ninguém a magoava “a torre”, diziam.

Não era tirana tinha é força de comboio. Ninguém se metesse no caminho. E havia o tal vagon, o filho, o Diogo. Tudo era por ele.

Quem não aguentava, saía. Mas não eram muitos. Com o desemprego como estava e a juventude a despontar, criou-se um núcleo duro, leal, à volta dela.

Agora, naquele instante de hospital, só pensava: que não se percam as encomendas!

Isto agora?! Tirem-me isso, não vou! atirou o frasco para o chão. Estou com crise de tensão, tenho de me deitar.

Ora, não armes confusão, ó menina! respondeu um tipo a transbordar mendicância, de ligadura na testa. Apanhou o frasco, revirou-o. Olhe que ainda faço eu por si, mas tem de me dar a boina. Não faço de graça… Gosto é de mulheres do seu calibre!

Ajude-se a si, pá. empurrou ela e foi para outra parede. O encosto da cadeira deixou marca.

Ó senhora, então?! Mal se fez obras no hospital! queixou-se uma auxiliar.

De quem é esta? perguntou outra.

Não sou de ninguém. Sou só minha. E vou-me embora. Qual o endereço desta casa? perguntou, a levantar-se com dificuldade, pronta para chamar um táxi.

Onde vai agora?! Espere pelo médico, precisa de repousar. tentou apaziguar a chefe das enfermeiras.

Já estava a ligar.

Diogo? Andreia, passa-me o teu pai! ordenou ao telemóvel. Sei que é chato, mas é importante. Estou no hospital, amanhã tenho reuniões críticas. Preciso do Diogo.

Ela não mandava, desenhava a situação: era grave, ponto, precisava. Não era de sabores.

Andreia foi de imediato buscar o marido, disse-lhe que a mãe estava hospitalizada.

Eh pá, espera dez minutos! disse ele, tirando água do corpo no duche.

E se ouviu? Ouviu, mas na verdade, se a mãe está a telefonar, é porque ainda respira e pensa portanto, pode esperar.

E Leonor pensava: o miúdo que passava horas à espera que ela chegasse um dia a casa, que ela nunca disse que amava, nunca embalou, só corrigia os cadernos e mandava repetir até à perfeição.

Nunca, mas nunca, lhe disse gosto de ti, nunca. E ele cresceu, entrou na faculdade porque ela se mexia, não precisou de trabalhar para se sustentar. Mas isso, pensava Diogo, era o mínimo. “Ela quis ter-me, que faça o trabalho todo”, resmungava. Hospital? Bah, não era grande coisa

Ouviu Andreia: Ela liga daqui a dez minutos, e desligou.

Leonor, o que se passa? perguntou Andreia.

Fica. Não digas nada e desligou. Era oficial, não era de ninguém. O filho que ligue quando quiser, a nora lá, a mascar pastilha, a temer que a sogra ficasse dependente. Ninguém. Mas até sabia bem.

Tentou levantar-se, apoiou-se à parede, a cadeira fugiu, tombou ao chão, a mala caríssima, da Tous espalhou conteúdo. A boina ficou-lhe junto à cara, como que a proteger a cabeça.

Caramba! exclamou o tipo desdentado, correndo a ajudá-la, aproveitando para sacar-lhe a carteira e o anel.

Soava-lhe a conhecido, à Leonor. Mas nem conseguiu perceber. Respirava aos arrancos, e só ouvia insistentemente, mantenha-se à direita, mantenha-se à direita

Normalmente ia de carro para a empresa. Tinha motorista, o senhor Álvaro. Sempre ali às 7:30, porta aberta, música clássica, tudo nos conformes. Era peixe na rede da Leonor: entre prémios, benesses, medicamentos para a esposa, não se ia embora. Raramente um pedido extra, mas no contrato estava tudo.

Nesse dia, Álvaro ficou bloqueado porque o camião do lixo desfez-lhe o pára-choques. Sugeria táxi, Leonor recusou, foi de metro, basicamente afastando quem estava no caminho com a sua presença impressionante.

No metro, abafado de gente, ouviu a tal voz: mantenha-se à direita E ela lá ia, entre atropelos de estudantes e pressa de quem estava a começar o dia.

No hospital, depois dos exames, das injeções, dos apitos, por fim chegou ao quarto, deitada sob um lençol castiço. No escuro, cheiro a perfume, remédios, e vá-se lá saber porquê, a bolachas torradas daquelas de infância, com baunilha.

A janela já não mostrava a Av. da Liberdade, tapada de carros, cheia de luzes como fitas de Natal.

Ah, Leonor lembrava-se daquela fita de luzes de Natal, comprada em miúda no “Armazéns do Chiado”. Naquele dia foi buscar o Diogo ao antigo infantário, já todos tinham ido embora, só o filho calado à espera.

Afinal vieram buscá-lo! Viu, não era preciso ter medo! disse a educadora.

Diogo enxugou as lágrimas rápido, a fingir que nem queria saber. Sempre a armar-se, para irritar a mãe. Nunca era ajudado a vestir, ela só olhava, calma.

O que levas aí? tentou ser curioso.

Uma beleza, filho! Uma fita de luzinhas para a árvore! Vais ver, fica a nossa árvore mesmo bonita! disse ela, de repente entusiasmada.

Ele, cheio de expectativa o caminho todo, a ver as luzes a brilharem na árvore de plástico. Mas, ligaram-na: nada. Fiasco. Ela enrolou o fio, guardou, jantou.

Vamos comer. Já chega, tenho roupa para passar foi tudo o que ela disse.

Dois dias depois consertou-se e brilhou mas Diogo já estava doente e nem contou a ninguém.

Agora, alguém, de algum lado, parecia ligar uma fita dessas entre as pessoas, alimentar corações com corrente menos a dela, queimadinha. Era preciso consertar.

Abriu-se a porta. Uma enfermeira pequenina, farda cor-de-rosa.

Não abra os olhos, eu limpo-lhe a maquilhagem disse, acariciando a pele de Leonor com algodão molhado, uma ternura de quem embala.

Que bem sabia, Senhor! Leonor pensava na mãe. Já não havia, jaz no Carregado. Ela até pagou a uns homens para pintar a campa, acertar o gradeamento. Lançou sementes de não-me-esqueças, sem saber se dava só quis que ali nascesse qualquer coisa.

É melhor não, por favor, eu lavo mais tarde protestou.

Fique quieta. Precisa descansar e ganhar forças disse a enfermeira, ajeitando o cabelo de Leonor.

Eu pago-lhe, veja na mala Está perdida, não encontro

Ia desatar a chorar.

Já tinha sido assaltada antes. Na estação do metro, alguém lhe cortou a mala e levou a carteira, com foto do filho, moedinha de recordação, lista das compras. Desta vez, parece igual: mais pelo desgosto do que pelo dinheiro.

Não importa. Descanse, vou buscar o aparelho para medir a tensão.

Veio medir-lhe. Leonor adormeceu num sono de caramelo derretido.

Entretanto, Diogo saiu da casa de banho e esqueceu-se da mãe. Andreia lembrou, tentou, mas Leonor não atendeu.

O que aconteceu, pá? Liga para o trabalho disse ela.

A minha mãe tem tudo controlado, deixou até plano de emergência para entubar. Deixa estar, Andreia

A televisão, futebol. “Bom ecrã a mãe deu”, resmungava Diogo, cerveja e amendoins.

Andreia foi ligar-lhe, nada.

Entre elas nunca houve carinho, nem discussões. Leonor era sóbria, pragmática no amor: janelas novas, obras na casa de banho, carro para o filho, inscrição no ginásio para a nora. Levava Andreia à loja, escolhia o que ela queria. Custou a habituar-se, mas depois aceitou.

Era assim que Leonor amava com ações, não palavras.

E ser mãe era dar: brinquedos, cursos, móveis novos, viagens à praia (mas ficava em Lisboa a trabalhar). Até na escola, arranjou aquecimento porque sabia a quem falar carregou maquinaria, zangou-se com canalizadores. Podia ser bruta, mas só queria dar o que nunca teve.

Quando Diogo anunciou que ia casar, Leonor ficou meio perdida. Parecia ontem que lhe comprava carros de brincar Casaram como os miúdos queriam, mas pagou restaurante, vestido da Andreia, tudo do bom.

Andreia tentou aproximar-se, mas Leonor não cultivava íntimos. Era feita de pedra, e o mundo dela era trabalho, orçamentos, fornecedores, tribunal. Não sabia, ou já não sabia, falar de sentimentos.

A Andreia ainda lhe ligou atendeu uma funcionária, explicou os horários de visitas e pediu que levasse roupa confortável, tinha frio no hospital.

Na manhã seguinte, Leonor acordou cedo no hospital. Vestiu o pijama e robe do hospital, olhou-se ao espelho e riu-se daquele cabelo todo desalinhado, maquilhagem borrada, três unhas partidas.

Chamaram por ela. Veio a enfermeira tirar sangue. Tocou o telefone do trabalho, claro. Outra vez projetos, perguntas, tudo a cair-lhe em cima. Acabou por dizer que estava doente, que fosse o adjunto resolver.

Ficou murcha, reduziu-se já não era a mulher de aço.

Deram-lhe a bata verde, vestiu-se devagar.

A enfermeira despedia-se, disse: “A sua filha ligou, vem mais tarde. É a Andreia. Não desanime, vai recuperar”.

Andreia não é minha filha, é nora. E duvido murmurou.

Ela prometeu vir. Leonor, não me conheces? Sou a Catarina. Estivemos juntas no hospital há anos, lembra-te? Depois do bebé

Um chicote estalou na memória da Leonor. Sim, a Catarina foi a única que soube do drama da gravidez indesejada, do homem que abusou da sua confiança e desapareceu. O bebé nunca nasceu. Catarina foi quem a acarinhou nessa altura, a única.

Catarina não te reconheci

Catarina, eternamente doce, falada dos netos.

E o marido? perguntou Catarina.

Nunca houve. Quis ser mãe só para mim, mas, afinal, o miúdo não precisa de mim Sempre me defendi sozinha.

Ia dizer mais, mas começaram as rondas dos médicos e Catarina teve de sair.

De manhã, as vizinhas do quarto eram sossegadas. Uma, a dona Zita, roía torradas de baunilha sem parar, por ansiedade.

Gosta de torradas, dona Zita? Só não coma sem nada, faz mal, beba chá!

Não posso, é por nervos. O meu velho está lá em baixo, AVC. Não descanso. Chá? Não, obrigada

Nada disso, vou buscar-lhe chá e foi, imponente, buscar chá à copa.

Entrou de chinelos, atravessando o refeitório, olhos postos em tudo chão gasto, equipamentos velhos, janelas (sim, ela olhava sempre para as janelas precisava de arranjar isso).

Veio com o chá para a dona Zita, que agradeceu.

É muito boa pessoa disse Zita.

Nesse momento, Andreia apareceu à porta, cheia de sacos do El Corte Inglés e do Continente, num fato de proteção azul.

Vim ver a senhora Leonor. largou as coisas ao lado da cama, Zita sorriu.

Andreia, não era preciso murmurava Leonor, atrapalhada.

Ora, faça o favor! Andreia organizava tudo: pijama, cardigan, snacks favoritos, chá, café, tudo o que sabia que Leonor gostava mas pouco dizia.

Leonor ficou a olhar, de coração a tremer. Fez-lhe bem ser vista e lembrada.

O filho ainda ligou depois, mas Leonor nem atendeu.

Andreia regressou do médico e ficou um bocado calada, rodando a aliança. Pensava num possível divórcio de Diogo, mas por agora, calava.

Durante a noite, Leonor chorou baixinho, sem saber bem porquê.

No dia seguinte, devolveram-lhe a carteira e o anel.

Aquela pessoa roubou-a. Morreu de ataque cardíaco. Chamava-se Rui Batista, explicaram.

Leonor reconheceu então: o grande atleta do clube, que em tempos lhe prometeu mundos, mas era só conversa fiada.

Ele morreu; ela ficou.

E concluiu, já não era de pedra, era viva, simplesmente tinha esquecido como respirar.

Agora tinha Catarina, Zita, Andreia, trabalho, primavera, não-me-esqueças para plantar, e aquelas mil pequenas coisas de mulher forte que só ela desenrasca, e até um netinho que vem a caminho.

Andreia, nunca esperes que ele seja perfeito, mas ama-o e diz-to. Eu nunca disse, e agora custa tanto partilhou ela. Uma mulher tem de amar alguém, senão petrifica.

Andreia acenou. Não, Leonor não era feita de pedra. Era grande e forte, sim, mas por dentro, tão sensível, frágil, carente de mimo como quando nasceu neste mundo barulhento e caóticoNo dia em que saiu do hospital, o sol da primavera estava doce, prometendo um começo de qualquer coisa. Leonor parou à porta, sentiu o ar fresco, mais leve nos ombros que julgava incapazes. Andreia esperava-a, não num abraço, mas num gesto simples: o carro estacionado perto, a porta aberta, as coisas prontas como Leonor sempre fez a vida toda, dessa vez para si.

Desceu devagar, sentindo todas as articulações, sentindo-se cada vez mais dona do próprio peso e do próprio caminho. O telefone tocou; era do escritório. Olhou para o visor e, pela primeira vez, largou-o na carteira sem atender. Andreia sorriu, cúmplice.

No jardim ao lado, crianças riam, um idoso lia o jornal, alguém plantava flores brancas. Leonor tirou da mala um pacotinho com sementes de não-me-esqueças que pedira à Catarina. Caminhou, Andreia ao lado, até um canteiro já florido. Agachou-se devagar, mas firme e foi ela própria a enterrar as sementes. As mãos, tão decididas para resolver os problemas do mundo, agora enfiavam delicadamente terra sobre esperança.

Quando acabou, ergueu-se, sentindo o rosto lavado de uma ternura esquecida. Andreia pousou-lhe a mão no braço, sem palavras. Pela primeira vez, Leonor deixou-se ficar, sem pressa, ao lado de outra mulher. Sentiu os olhos marejados mas, dessa vez, não disfarçou. Viu que a pedra que sempre fora não era jaula era só muralha antiga. E, de repente, a muralha abria uma janela.

Sorriu a medo, mas sorriu, para Andreia, para a terra, para si própria. E ali, naquele instante de luz, sentiu finalmente o coração voltar a bater fora da rocha.

Nunca é tarde, pensou. Talvez amar, afinal, também se aprenda de novo.

E, sem querer, deixou cair uma lágrima quente na terra a mais viva de todas as sementes.

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