Calor Intenso. Catarina

Calor. Catarina

Diziam que o Rui e a Inês só casaram dois anos depois de se conhecerem.

Para chegarem à felicidade, caminharam com muita cautela, quase de mansinho, pesando cada gesto e cada palavra. Era natural. Depois das desilusões da vida, percebendo que os sentimentos às vezes enganam e o amor nem sempre chega para ficar, ambos procuraram entender que prémio afinal tinham conquistado após episódios de dor e perda. E hesitavam quanto a confiar nesse novo sentimento, nascido quando menos esperavam.

Dona Maria Helena, mãe do Rui, também mantinha o silêncio. Receava espantar a felicidade recém-encontrada do filho, que parecera renascer nos últimos tempos. Os ombros ergueram-se de novo, os olhos brilharam, e às vezes Rui preparava-se para sair com a Inês como se estivesse prestes a apresentar-se à cerimónia de casamento a qualquer minuto.

Rui apresentou Inês à mãe logo no início. Apesar de apreensiva, Maria Helena não encontrou em Inês qualquer semelhança com a antiga namorada do filho, a cismada Andreia. E a própria Inês recusou terminantemente mudar-se para casa do noivo antes do casamento.

Não, Rui. Não é preciso. A Dona Graça não ia compreender. E eu prezo a opinião dela. É uma senhora fantástica e já muito me ajudou. E tem andado adoentada. Precisa de companhia e auxílio. Vamos deixar tudo como está, para que tanta pressa?

Rui aceitou. Mas tal não foi um obstáculo à relação. Antes pelo contrário, aquele longo namoro deu oportunidade para se conhecerem profundamente.

Foi só pouco tempo antes do casamento que Inês se mudou para casa de Maria Helena. E por motivos tristes, pois Dona Graça partiu deste mundo.

Há muito que sofria do coração. Inês acompanhava-a a médicos, livrara-a das lides da casa, fazia o possível para ajudar, prolongando-lhe apenas um pouco o tempo com melhor qualidade. Um dia, chegando do trabalho, encontrou Dona Graça sentada no quintal, na sua amada cadeira de vime feita pelo neto, segurando uma carta. Só ao aproximar-se percebeu que Dona Graça já não respirava.

Inês ligou imediatamente para o INEM, mas já nada havia a fazer.

Depois, telefona ao Rui e aos filhos de Dona Graça e chora, sentada no banco do quintal, recordando os serões com a anfitriã, os passeios até ao miradouro ao anoitecer, o aroma das compotas feitas ali mesmo na cozinha minúscula do anexo, as canções sussurradas entre tachos. Lembrou-se de como aquela mulher a acolhera sem perguntas, de braços abertos, precisamente quando mais precisava e não havia mais ninguém a quem recorrer.

Obrigada… murmurava Inês, entre lágrimas, agradecendo à primeira que lhe deu a mão na hora certa, de coração aberto.

Os filhos de Dona Graça chegaram com as famílias no dia seguinte. O mais velho, depois dos afazeres inevitáveis, chamou Inês para uma conversa reservada.

A mãe queria que ficasse com uma parte da casa. Assim podia viver cá e cuidar do sítio, já que nenhum de nós pensa em mudar-se para aqui. Fique descansada, há testamento. Eu e o meu irmão concordamos: se aceitar, ficamos gratos. Se não fosse por si, a mãe teria acabado sozinha. Agradecemos-lhe muito por toda a companhia e cuidado.

Não, respondeu Inês, abanando a cabeça. Não posso nem devo. Esta casa é vossa. Se precisarem que tome conta, fá-lo-ei. Mas os herdeiros têm de ser vocês. A vossa mãe amava-vos muito!

Bem sei

Assim ficou acertado. Mais tarde, Inês arranjou inquilinos fixos para a casa, e manteve contacto com os filhos de Dona Graça, durante as férias de verão.

Foi uma das noras de Dona Graça que amparou Inês quando, meio ano depois de casar, Inês foi internada de emergência.

Gravidez ectópica. Tem de se cuidar mais! disse-lhe o médico, enquanto lhe sacudia o dedo em frente ao rosto. Ainda bem que tinha alguém consigo em casa! Podia ter acabado mal!

É minha sogra. Mas, na verdade… sim, quase como mãe.

Ótimo. Já tinha problemas de saúde antes?

Sim.

Se quer ser mãe, tem mesmo de se tratar, descobrir o motivo. Caso contrário, temo que o único caminho seja a fertilização.

Percebi…

Inês não chorou logo. As lágrimas guardou para depois. O essencial era perceber o que fazer a seguir. Queria muito ter filhos com Rui. E em determinado momento esse desejo quase foi ficando obsessivo.

Foi Maria Helena que travou aquele turbilhão.

Inês, posso falar contigo? perguntou ela certa noite, sabendo que o filho estava fora em trabalho.

A esta altura, Inês e Rui já viviam por sua conta. Mal casaram, compraram um apartamento modesto. O negócio estava a correr tão bem a Rui que Maria Helena voltou a considerar investir numa pensão familiar.

Os pais de Inês, com quem a relação já estava refeita, também quiseram ajudar, mas Rui insistiu em assumir tudo.

Inês, deixa, faz-me esse favor. Os teus pais são sempre bem-vindos, mas quero ser eu a tratar da nossa casa.

Inês entendeu e explicou ao pai, que apertou a mão ao genro com respeito.

Bem feito! A tua mãe tem por que se orgulhar de ti, rapaz!

Maria Helena aprovou a decisão, assim como o desejo do jovem casal em não adiar filhos.

Mas percebia a ansiedade mal-disfarçada de Rui e o sofrimento de Inês, ora saltando de clínica em clínica, tentando descobrir a razão dos problemas de saúde. E, preocupada com o equilíbrio de ambos, sentiu ter de intervir.

Inês, desculpa se me intrometo, mas vês que estou preocupada. Conta-me com sinceridade o que sentes, filha, o que te aflige? Reparo que tens andado triste.

Não consigo, mãe. Nada faz sentido… E se eu nunca conseguir ter filhos?! O que vou fazer…? Não posso condenar o Rui a viver a vida ao lado de alguém que não lhe dá alegria, nem propósito…

Não devias pensar assim! Tu nem imaginas o que já fizeste pelo Rui! Deste-lhe vida de novo! Os filhos são maravilhosos quando vêm, são a melhor dádiva num casal cada nascimento, cada passo, cada sorriso… Mas acredita, não é tudo. Eu também nunca te falei, mas o Rui só veio ao mundo depois de muita espera e sofrimento. Eu e o pai dele quase desistimos, a pensar que estava com ele apenas pelo desejo de descendência. Quase nos separamos. Mas depois percebi um casal é muito mais do que a hipótese de ter filhos. Muito mais! O Rui é igualzinho ao pai Estás a perceber?

Acho que sim…

Então não destruas o que vos une! Vocês deram sentido um ao outro. Cuidem-se! O amor, se o deixarem crescer, suporta tudo. Só precisam de confiar.

Como conseguiu ser mãe? Inês não conseguiu evitar perguntar.

Se soubesse… Maria Helena sorriu, entre lágrimas. Quase até sentir o primeiro pontapé do Rui pensei que estava doente, nem entendi. Já tínhamos feito as pazes com o destino, decididos a viver como pudesse ser. Foi então que a vida aprontou esta surpresa!

Quem me dera que o mesmo me acontecesse… Inês suspirou.

E já pensaste em ligar à nora da Dona Graça? Lembro-me que era excelente médica. Talvez te consiga ajudar.

Inês bateu com a mão na testa:

Como é que não me lembrei?! Vou tratar disso!

Uma semana depois, partiu para Coimbra, onde era esperada para exames.

Um ano depois nasceram gémeos.

A felicidade abriu de vez as portas da casa de Rui e Inês e ficou, sem pressa de sair.

Com o nascimento dos gémeos, decidiram ainda adotar uma menina. A decisão amadureceu lentamente, mas concretizou-se de forma inesperada: uma antiga colega de Rui, mãe recente, descobriu estar gravemente doente e trouxe essa notícia pela mão de um amigo comum, Martim.

Pobre Mariana Estamos todos a juntar dinheiro, Rui, para ir tratá-la a Lisboa. Já quase todos contribuíram.

Compreendo. Vou já fazer transferência…

O valor enviado por Rui era significativo e pouco depois a jovem mãe seguiu para a capital. Maria Helena ofereceu-se para a acompanhar, pois Mariana só tinha uma avó muito idosa e precisava de ajuda com a bebé.

Infelizmente, toda a luta foi em vão. Os médicos apenas puderam suavizar os últimos dias e dar à Mariana tempo para acautelar o futuro da filha.

Foi Maria Helena quem recebeu o pedido para acolher a menina e levou o dilema à família. Inês e Rui não hesitaram em aceitá-la.

Assim nasceu a filha deles.

A casa foi ficando pequena para tanta alegria. Os filhos cresciam, era preciso pensar num sítio maior.

E de novo, Maria Helena se intrometeu:

Rui, ainda há o dinheiro guardado para a pensão. Comprem um sítio maior para todos.

Mãe, e o teu sonho? Isso não pode ser.

O meu sonho está aqui Maria Helena beijou a neta no colo e apontou para os gémeos. O resto não importa. Nem tenho tempo para hotéis. Quero é acompanhar os netos, vê-los crescer, ajudar. A Inês até se safa bem sozinha, mas bem sei que precisas de apoio com o negócio. Trabalhem. Eu cuido das crianças. Procurem um apartamento com quartos para todos!

Encontraram. Grande, luminoso, espaçoso. A criançada corria pelos quartos, brincando ao eco; e Inês ria-se, vendo os filhos tentarem ensinar a irmã a gritar ó da casa.

Claro que compramos este! decidiu Rui, olhando para a família com alegria.

O único problema na nova vida passou a ser Catarina, a zeladora do prédio, que achava que famílias numerosas não podiam ser felizes e precisavam de vigilância. Logo ela!

Andam sempre pessoas estranhas na casa deles. Os miúdos andam descalços! Vi ontem! E a filha mais nova dorme sempre nos passeios com a mãe. Suspeito de tudo!

Se calhar estás a exagerar, Catarina. Está calor, faz bem aos miúdos brincarem sem sandálias. Os amigos vêm visitar, não fazem barulho, não há confusão. O que havemos de pensar? cochichavam as vizinhas, ouvindo os filhos de Inês contarem, felizes, como jogaram futebol no novo jardim.

Enquanto investigam, um dia algo triste acontece! Cada família parece bem vista de fora, mas quem sabe o que sucede por portas fechadas? Não confio neles! Tudo demais! Amorosa a família, os filhos bem educados, fartura em casa. Não acredito! Vou descobrir a verdade! Não pode ser tudo tão perfeito. Nunca é!

As vizinhas franziram o sobrolho, mas Catarina não recuava. Criada por uma mãe rígida, tornara-se desconfiada.

Catarina nascera numa família de funcionários públicos, onde disciplina era palavra de ordem em casa e no trabalho. Ela e os irmãos eram criados à vara curta. Passar a noite ajoelhada num canto era usual. E que sorte se escapava ao cinto ou se não lhe deitassem grão no chão! Em público, todos elogiavam a postura da família; as mangas compridas tapavam nódoas negras, as tranças da Catarina escondiam os puxões de castigo. Ninguém jamais suspeitaria que tal penteado servia para castigar.

Nem Catarina nem os irmãos alguma vez descreveram o inferno doméstico. Mas logo que puderam, saíram e cortaram ligação com os pais duros uma mãe justiceira, um pai passivo, acreditando que a mãe saberia educar. Entre os irmãos, pouco contacto ficou; a memória forçava o esquecimento da infância triste e solitária.

Catarina nunca formou família. O único homem a quem dera atenção perdeu seu lugar ao levantar a mão para o cão doente, que urinou no tapete.

Nem penses em bater-lhe! gritou Catarina, pegou no cão ao colo e saiu porta fora.

Nesse mesmo dia recolheu os pertences e foi viver para o apartamento herdado da avó, mulher também pouco doce, cuja língua afiada já a atormentara bastante enquanto cá esteve. Entre elas, pouco amor ou compaixão existiu.

Resumindo, Catarina não tinha afectos, evitava ligações, e nunca esqueceu como na infância todos viram sofrimento sem agir. Chegou a ver colegas dos irmãos faltar porque a mãe os espancara tanto que não podiam andar; mas ninguém foi investigar. Agora, tentava compensar, sem acreditar no bem das pessoas; e viu na família de Inês e Rui a oportunidade para corrigir injustiças do passado. No prédio, grandes famílias já quase não havia.

Inês, sentada no pátio, a vigiar os filhos, começou a arrumar as coisas estava na hora de voltar, a filha acordaria, os gémeos tinham de se preparar para a escola. O infantário onde os punha ainda estava em construção; por ora, ia levando-os ao centro infantil e à escolinha de futebol.

Catarina esperava-lhe à porta.

De novo os teus rapazes descalços?! Não tens como comprar-lhes calçado decente?!

Inês sorriu, sabendo que as botas desportivas dos filhos custavam mais que os ténis do Rui, e que, por ordem dele, nunca se poupava nos equipamentos dos miúdos, por causa do futebol e das lesões frequentes.

Sorris? Que graça achas a isto? São teus filhos! Não percebes? Tens de cuidar, alimentar, trazer-lhes roupa boa! E tu?!

Catarina, afogueada, aborrecia-se com o à-vontade sereno da vizinha. Não havia nem raiva nem justificação; apenas paz.

Mãe, dá água à tia Catarina!

Os gémeos ofereceram-lhe água do saco das compras e, nesse momento, Catarina sentiu-se mal. A visão escureceu, ouviu zumbidos distantes e, não fosse Inês ajudá-la, teria caído pelas escadas abaixo.

O INEM chegou rápido e Catarina foi levada ao hospital. Ao acordar, já lá estava Inês, que, após deixar os filhos com Maria Helena, foi direto ao hospital.

O que tenho? perguntou Catarina, a entoação estranha.

Calma! disse Inês, acariciando-lhe a mão, compondo-lhe a almofada. Teve um AVC. Mas os médicos conseguiram controlar o ataque. É este calor… Repouse, vai recuperar. Não chore! Vou estar consigo. Durma um pouco, precisa descansar.

Inês cumpriu. E ficou a cuidar de Catarina, sozinha no mundo e sem família, como já ouvira dos vizinhos.

Porquê? perguntou Catarina, ainda a recuperar a fala, mas Inês entendeu o sentido.

Porque é preciso. Porque está certo. Não é bom estar só. Sei-o bem.

Como?

Conheci muito bem a solidão. Companhia terrível. Mas agora, já não corre esse risco. Vai ter outra companhia.

Como?

Acha que a vou largar agora? Nem pense! Tomou conta de mim? Agora é minha vez!

Inês fingiu não ver as lágrimas. O importante era outro: nunca mais vira nos olhos de Catarina aquele ressentimento antigo. Apenas uma mulher idosa, solitária, com idade da sua mãe e sogra. E Inês sentiu pena sincera. Podia ter tido família, filhos, netos Restou-lhe apenas o respeito do prédio e o pequeno jardim de rosas que Inês nunca vira igual. Quem cultiva flores tão belas não pode ter alma escura disso Inês tinha a certeza.

Dois anos depois.

Ó Inês! Não percebo como te governas com eles! Tua filha é um anjo, mas os rapazes valha-me Deus, são umas pestes! dizia Catarina, agora no banco de jardim do parque infantil, de olho na menina de Inês e Rui.

Ui, tia Catarina, isso não é nada! Só são dois! O Martim tem quatro! E quando se juntam todos, só me apetece fugir! A mulher dele já pede aos céus que o próximo não seja rapaz.

Já sabem o sexo?

Não. É segredo! riu-se Inês. Martim diz que aceita qualquer bênção.

Jesus, que calor! suspira Catarina, pondo a mão em pala, olhando Inês. Diz-me, és feliz?

Inês pensou.

O que é preciso para felicidade? Ter família por perto? Tinha-a. Saúde? Graças a Deus, sim. Ver os filhos crescer felizes? Ao que parece, ela e Rui conseguiam. E isso bastava absolutamente, indiscutivelmente para se considerar feliz.

Sim!

Inês sorri e Catarina espanta-se de novo com o efeito daquela expressão: tudo à volta parecia suavizar, e até o calor do verão, que dominara a cidade, se tornava de repente mais leve, perfumado por uma brisa fresca.

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