Na ala de maternidade, disseram‑lhe que o bebê não sobreviveu. Anos depois, descobriu que o seu filho estava com a família do pai biológico.

Filipe amava Lurdes desde os tempos da escola, e eles sonhavam em casar um dia.

A mãe de Filipe, Ângela Sobrinho, coordenadora da ala de obstetrícia do Hospital de Santa Maria, jamais aprovou a escolha do filho. Sempre preferira a enfermeira Cristina, filha de uma família de médicos, e desejava que Filipe se unisse a ela a própria equipe do hospital a adorava, assim como os pacientes.

Depois de terminar o liceu, Filipe ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, enquanto Lurdes matriculouse no Instituto de Línguas de Coimbra para tornarse tradutora de inglês, tal como a mãe e a avó. Os colegas decidiram comemorar a formatura num passeio à casa de campo da família de Filipe, nos arredores de Sintra.

Passaram quase um mês inteiro naquele refúgio verdejante, relutantes em regressar à rotina. Mas as aulas iam recomeçar e os trabalhos precisavam ser preparados.

No outono, Lurdes aproximouse de Filipe e disse, com a voz trémula:

Estou grávida. Como vais reagir?

O que eu penso? Claro que te levarei nos braços até ao registo, respondeu ele, sorrindo.

Não estou só e ainda estou pesada protestou ela.

Que me assuste um desportista? Eu já lutei nas aulas de Educação Física. Para mim és leve como uma pluma brincou Filipe, aliviado.

Mas e a faculdade? indagou Lurdes.

Sim, minha querida. Vai ter de fazer um intervalo de um ano depois do parto respondeu ele, já a imaginar o futuro.

Vou passar para o ensino à distância, como a minha mãe. Ela teveme aos dezenove e conseguiu tudo. Mas, logo de cara, precisamos de acertar: depois do casamento vais mudarte para a nossa casa. Respeita a tua mãe à distância. Já faz tempo que ela não me aceita; é uma personagem difícil declarou Lurdes.

Só para te dar tranquilidade, Lurdes concordou Filipe.

Entregaram o pedido de casamento no Cartório de Lisboa e seguiram caminhos diferentes. Na casa de Lurdes, encontravamse convidados; um amigo do pai, Rui, apareceu com a esposa e o filho Alexandre, de dezasseis, que embora ainda adolescente já parecia adulto.

Em casa, Filipe contou aos pais o novo capítulo da sua vida e avisouos para começarem a preparar o casamento.

Ângela Sobrinho não gostou nada e, ao cair da noite, dirigiuse à casa dos pais de Lurdes para armar escândalo. Batia à porta insistente, mas ninguém respondeu. Na sala, a mesa estava posta, a música tocava a mesma melodia que o timbre da porta e ninguém esperava visitas. O filho Alexandre, então a tomar banho, ficou perplexo ao não ouvirem o toque. Envolveuse num toalha e abriu a porta.

Ângela, ainda atordoada, percebeu o telemóvel na mão, apertou “record” e começou a filmar o corredor, capturando Alexandre ainda envolto na toalha.

Está aqui para ver a Ana? perguntou o rapaz, sem perceber o que a mãe gravava.

Já não respondeu Ângela, descendo rapidamente as escadas.

Em casa, mostrou a gravação a Fili

pe, enfatizando o tempo que levaram a abrir a porta.

Reconheces o corredor da Lurdes? Ainda não se sabe quem é o pai da criança.

Entendi, mãe. Tinha razão. Ela não é para mim respondeu Filipe, frustrado.

Mandou uma mensagem furiosa a Lurdes, depois desligou o telemóvel. Lurdes, sem compreender, tentou contactaro, mas sem sucesso, decidiu ir até à casa dele, mesmo tarde da noite.

Ângela, esperava que Lurdes fosse buscar explicações ao filho e observavaa pela janela. Quando viu a jovem aproximarse, disparou para a porta e abriua ela própria. Sem deixar Lurdes entrar, saiu ao lance da escadaria.

E o que queres de Filipe? Ele já está a dormir. E tu, a brincar de duas caras? Continuas a flertar com outros rapazes, mentirosa! bradou, fechando a porta ao sair.

Lurdes, perplexa, desabou num degrau, chorando. Depois de algum tempo, regressou à sua casa. Na cozinha, Ana, a mãe, lava a loiça enquanto a filha, ainda em lágrimas, abraçaa.

Lurdes, o casamento está a chegar, devias estar feliz.

Mãe, já não haverá mais nada, só o fato de estar a carregar o filho dele. A mãe dele armou tudo depois de saber que pedimos casamento mostroulhe a mensagem do noivo, acusandoa de traição.

Se Filipe agir assim, vai continuar a obedecer aos pais. Deus lhe tirou-te, mas nós vamos criar a criança por nós mesmas consoloua Ana.

Depois da ruptura, Lurdes sofreu uma gravidez difícil. Foi levada de urgência à ala obstétrica, enquanto os pais trabalhavam. O parto foi sob anestesia, a única forma de salvar a vida da mãe. No pósoperatório, informarama de que o bebé era natimorto.

Com a papelada concluída, entregaram o corpo ao casal, que o sepultou. Lurdes ainda estava na maternidade e perdeu a cerimónia de casamento.

O choque fez Ângela vender o apartamento da família e mudarse da zona.

Foi o melhor, filha. Só tiveste encontros aleatórios com Filipe, e ele sempre passou com ar de superioridade disse a mãe.

Também espero, mãe, que eu o esqueça rápido respondeu Lurdes.

Oito anos depois, Lurdes trabalhava como tradutora numa pequena empresa em Oeiras. De repente, Filipe entrou no seu escritório.

Por que reapareces na minha vida? Já te esqueci há muito disse ela, fria.

Lamento, mas a tragédia trouxeme até ti respondeu ele, desesperado.

Estranho. Tem uma mãe ótima. Vai falar com ela dos teus problemas. Eu não tenho tempo para ti. Sai da minha sala mandou Lurdes, voltando ao ecrã do computador.

Lurdes, imploro que me escutes. É importante também para ti. Vou esperar no café em frente ao fim do expediente insistiu Fili

pe.

Só por curiosidade respondeu Lurdes, fechando o portátil.

Ao cair da noite, encontraramse num bar à beira do Tejo.

Desculpa, Lurdes, mas o meu filho está doente e precisa de doador.

Estás enganado, Filipe. A tua mãe tem mais recursos aqui retrucou ele.

Temos esperado, mas não há doador. Até vendi o meu apartamento. És mãe, tens mais hipóteses de ajudar o nosso filho.

É piada? O nosso filho nasceu morto. Os meus pais enterraramo exclamou Lurdes.

Ele está vivo, tem oito anos respondeu ele, pálido.

Como?

Lembraste do dia em que pedimos o casamento? lembrou Filipe.

Nunca esquecerei a tua mensagem odiosa respondeu Lurdes.

Filipe repetiu a história que a mãe lhe contou sobre o que viu naquele corredor.

Lurdes explicou quem era Alexandre; Filipe ficou pálido. Ainda a amava, mas nunca se casara. Lurdes permanecia solteira, temendo outra perda.

Filipe, fala do teu filho. O que fez a tua mãe?

Quando estabas na maternidade, a minha mãe estava lá, viute a ser levada ao bloco operatório. Ela suspeitou que eu fosse o pai. O teste confirmou, mas não quis entregarte o filho. Eu carreguei a culpa, a dor me perseguiu. Deus parece que me castigou, porque o nosso filho, Sérgio, está doente.

Vamos ao hospital. Verifiquem a compatibilidade. Se não fores compatível, terá o mesmo tipo sanguíneo que eu.

Sim, Lurdes, eu tenho o tipo O.

As mãos de Lurdes tremiam, o coração a disparar ao ver o menino no leito da clínica.

Sérgio, encontrei a tua mãe. Perdemosnos muito tempo, mas alguém ajudounos a encontrarnos disse Filipe, enquanto Lurdes permanecia sem palavras.

Mãe, esperava por ti, sempre imaginei assim. Não temos fotos tuas em casa disse o menino.

Filho, tudo vai ficar bem. Estou aqui e farei tudo para te curar chorou Lurdes, abraçando o filho.

O teste de compatibilidade deu match; Sérgio curouse. Filipe vendeu o apartamento, pagou a clínica e passou a viver com a família de Lurdes.

Lurdes, perdoame, mas precisamos casar e ter outro filho. O médico disse que irmãos são melhores doadores que os pais implorou Filipe.

Li sobre isso, Filipe, e pelo bem das crianças faço o que for preciso respondeu ela.

Casaramse, e hoje, além de Sérgio, criam dois filhos: um rapaz e uma menina, numa casa partilhada com os pais de Lurdes, em Lisboa, onde o futuro finalmente encontrou paz.

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Na ala de maternidade, disseram‑lhe que o bebê não sobreviveu. Anos depois, descobriu que o seu filho estava com a família do pai biológico.
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