Era o inverno de 1950 e o vento cortante do Alentejo perfurava até os ossos. Numa cabana escura, com paredes de taipa e cheiro de terra húmida, a jovem de apenas dezessete primaveras ofegava, agarrada ao lençol enquanto as contrações a sacudiam. Estava só, exceto pela parteira, uma senhora de mãos ásperas e coração já marcado pelas perdas.
Quando, enfim, o grito agudo de um recémnascido rasgou o silêncio, a moça Guilhermina sentiu o espírito retornar ao corpo.
É uma menina formosa disse a parteira, envolvendoa em um cobertor e colocandoa sobre o peito de Guilhermina.
Guilhermina abraçoua com torpeza, o corpo ainda trêmulo e manchado de sangue, mas nos olhos já cintilava a ternura de mãe pela primeira vez. Olhou para a criança com a certeza de que nada nem ninguém a separaria daquela criatura.
A ilusão durou apenas alguns segundos.
A porta bateu com estrondo, e sua mãe, dona Leonor, entrou como uma ventania. Vestida de luto embora ninguém tivesse morrido e com o semblante carregado de desdém.
Dáme a menina! exigiu, arrancandoa dos braços da filha.
Não, mãe! Deixame! gritou Guilhermina, tentando erguerse, quase sem forças.
Calate! interrompeu Leonor, com voz tão fria quanto geada. Nasceu defeituosa. Tem aquele aquele mal dos mongólicos. Não vai sobreviver. Não vale a pena.
A jovem berrou, chorou, implorou ao céu. Mas a mãe não cedeu. Envolveu a bebê com mais força, saiu da casa e ferrou a porta com um portão que soou como tiro no peito de Guilhermina.
Aquela noite ficou com os braços vazios, gritando um nome que jamais chegou a pronunciar.
Os anos foram passando. Na aldeia, todos acreditavam que a filha tinha morrido ao nascer; assim mandara a mãe. Guilhermina, obrigada ao silêncio, aprendeu a viver com um sorriso de fachada, enquanto o coração apodrececia por dentro.
Partiu de casa aos vinte e cinco, sem olhar para trás. Não conseguia perdoar. Não conseguia esquecer. E nem consigo curar.
O tempo escorria como folhas secas ao vento. Tornouse professora do ensino básico, vivia só, sem marido nem filhos. No íntimo, sentia que uma parte dela ainda jazia naquela sala sombria.
Até que, numa tarde de primavera, regressou à aldeia. Sua mãe já havia falecido e, com ela, talvez, o último elo daquela corrente que a aprisionava.
Caminhava pela praça central, a mesma onde brincara quando era menina. O aroma do pão recémsairado da padaria misturavase ao perfume das flores murchas. Guilhermina estava prestes a sentarse num banco quando ouviu: um riso infantil, puro, cristalino, como um sussurro do passado.
Virouse.
E então a viu.
Uma menina de cerca de nove anos jogava com uma boneca de trapo. Trança solta, vestido floral remendado na barra e olhos amendoados que reluziam com uma doçura estranha, uma luz que mexeu algo profundo dentro de Guilhermina.
O coração martelou contra o peito.
Aproximouse devagar, as pernas a tremer.
Olá, minha linda como te chamas? perguntou, a voz partida.
A menina a fitou, sem medo, curiosa.
Chamome Eulália respondeu, sorrindo.
Guilhermina sentiu o mundo parar. Eulália. Era o nome que havia pensado para a filha, o nome que engolira ao longo de tantos anos.
As pernas fraquejaram.
Nesse instante, uma mulher idosa rosto curtido, mãos de quem levanta pão aproximouse da criança e seguroua pelo ombro.
A conhece? indagou a senhora, cautelosa.
Eu via e pareceume familiar balbuciou Guilhermina.
A mulher baixou o olhar, desconfortável.
Vive comigo desde bebé. Uma senhora entregouame, disse que a mãe não a queria, que tinha que escondêla. Nunca soube a história completa
Guilhermina sentiu a alma a escorregar pela boca.
Isso não é verdade! Eu amavaa! Arrebataramme! gritou, incapaz de conter o pranto.
A padeira recuou um passo, surpresa.
A menina, porém, a observou em silêncio. Aproximouse ainda mais.
És a minha mãe? perguntou, simples, como só as crianças sabem ser.
Guilhermina caiu de joelhos, desabando em lágrimas.
Sim, meu amor eu sou a tua mãe. Perdoame por não te ter procurado antes. Por não te ter encontrado.
A pequena abraçoua sem dizer nada. Seu corpinho era quente, real, seu.
Naquele dia, Guilhermina soube que a vida ainda oferece segundas oportunidades. Não importava o escândalo, o olhar da aldeia ou os anos perdidos. Recuperara a filha.
E, daquela vez, ninguém jamais lhe tiraria novamente.






