Aguenta, minha filha! Agora fazes parte de outra família e tens de respeitar as suas regras. Casaste-te, não vieste só de visita.
Que regras, mãe? Aqui tudo é um caos! Ainda a sogra! Ela odeiame, isso é óbvio!
Já ouviu alguém dizer que as sogras têm de ser bondosas?
anda! anda! Olha que está a afogar! exclamou Dona Catarina Pacheco, no meio da cozinha, o rosto ruborizado de ira, os olhos a arder como brasa. Se o marido faz farra, a mulher tem a culpa. Que mais lhe explicar, minha filha?
A sogra estava em frenesim, a berrear contra a nora Inês como se fosse um animal selvagem. Tudo porque a jovem suspeitou o marido, seu filho **Bordalo**, de infidelidade.
Inês, uma moça frágil de olhos grandes e inocentes, encostavase à parede, tentando fazer alguma razão à mulher furiosa.
Dona Catarina, isso é insano. Ele tem família, filhos tentou justificarse Inês, mas a sogra interrompeua com um gesto brusco, como quem afasta uma mosca irritante.
Família? Ou será a tua criancinha que não nos deixa entrar? zombou a sogra, desprezandoa. O teu jeito de criar, aliás!
Que jeito, Dona Catarina? O Ícaro ainda tem apenas um ano. É ainda um bebé, protestou Inês, a voz quase sussurrada.
Bebé? fez a mulher franzir a testa. No caso dos Egorov o neto ainda é menor. E ainda se mete à mão, não ensaia nada, como este teu apontou para o quarto da criança.
Na verdade, ele é vosso neto respondeu Inês, tremendo. As crianças sentem as más intenções. Talvez por isso não se aproxime de vós.
Somos nós que somos maus? vociferou a sogra, a voz a subir a tom de grito. E tu, minha querida, como vives à custa da caridade? De quem comes? De quem gastas o dinheiro? Ingrata!
Inês já não queria mais discutir com a sua sogra escandalosa. Já tinha dito mil vezes a Bordalo que queria viver separado dos pais dele, mas o filho mimado de mãe não via necessidade alguma nisso.
Ele gostava de permanecer na casa dos pais; sentiase ali como num colo sagrado. Ia ao trabalho tranquilo, enquanto as tarefas domésticas eram resolvidas pelos avós lavar a roupa, limpar a casa, cozinhar. Não era vida, era conto de fadas!
Por outro lado, a sogra de Inês, Dona Catarina, não perdia tempo a fazer perguntas. No início, Inês tentou de tudo para ganhar o apoio da sogra.
Ajudavaa nas tarefas, consolavaa nos seus lamentos intermináveis sobre a vizinhança e o bairro. Mas, com o tempo, percebeu que era tudo em vão.
Por mais que Inês se esforçasse para ser dócil e prestável, a sogra a odiava e nem se dava ao trabalho de esconder o ódio.
Trouxeste esta fraca para a casa, como se não existissem meninas decentes confidenciava Dona Catarina a uma vizinha, enquanto Inês recolhia ao canto os brinquedos espalhados por Bordalo, ouvindo tudo.
Até foram de outra aldeia buscar a tal! As nossas avós são melhores, mais trabalhadoras, mais espertas.
Não me digas nada! concordou a vizinha, a fofoqueira Dona Manuela, que já tinha lavado as orelhas de todo o vilarejo.
Eu sei que não tens jeito, mas tu própria, Pacheco, já disseste que as mãos não são para o que queres. Não há conserto que faça.
Nem imaginas o tamanho! Não se pode confiar em ti. Ou perde, ou quebra. E o bebé esse não tem jeito.
No caso dos Egorov o neto é outra história dizia a vizinha. Calmo, inteligente. Este aqui tem só birras, parece que os genes não ajudaram.
Quando a situação ficou insuportável, Inês ligou à mãe, que vivia na aldeia vizinha de **Foz do Arelho**, e desabafou, chorando.
Aguenta, filha! Agora pertences a outra família, tem de respeitar as suas regras. Casastete, não vieste só a visitar.
Que regras, mãe? Tudo está de cabeça para baixo! Especialmente a sogra! Ela odeiame, é evidente!
Já ouviu alguém dizer que as sogras são gentis? Todos nós já passámos por isto, e tu também terás que passar. O importante é não mostrar fraqueza. Aguenta.
Sabendo que a mãe, **Dona Teresa**, não lhe daria apoio, Inês ameaçoulhe chamar o pai.
Vai ter medo do pai! exclamou a mãe. Sabes que ele tem um termo condicional. Um passo em falso e ele acaba na prisão!
Inês sabia tudo isso. Conhecia o pai, **Miguel**, que amava a única filha com todo o coração. Ele cumprira a pena condicional por um homicídio involuntário que cometera quando alguém insultou Inês na mercearia da aldeia.
Sabia também que o pai não ficaria calado se descobrisse que o filho da sogra o maltratava. Era um homem de sangue quente.
Ok, não direi nada ao pai respondeu Inês. Mas se continuarem assim, se a sogra persistir não sei o que farei.
Tudo vai se resolver, minha filha insistia a mãe, tentando acalmar a situação. Dentro de semanas não te lembrarás desta conversa.
Mesmo assim, a relação com a sogra não melhorava. Dona Catarina parecia ainda mais amarga, como se Inês fosse responsável por todas as suas desgraças. Até o marido de Inês, **António**, já cansado da situação, não suportava mais.
Por que gritas assim com a moça? tentou intervir António numa manhã em que a briga já era o ponto alto. Vai sair de nós! É o melhor!
Eu vou! gritou Dona Catarina, lançando toda a sua raiva contra António. Vou à justiça, devolvo cada euro que nos roubaram nestes anos! E levarei o filho dela para que não cresça numa família sem mérito!
Inês percebeu que a sogra falava puro disparate, mas ainda assim sentia medo. Ainda amava o marido, Bordalo.
As conversas sobre o suposto caso secreto de Bordalo com a exnamorada **Olga** nunca foram mais que fofocas de aldeia, espalhadas por velhas como Dona Catarina.
Não se sabe quanto tempo mais durariam os abusos da sogra, se não fosse a língua afiada dela. Num dia, após outra vitória sobre a nora, a sogra bragou os seus feitos à melhor amiga, a velhinha **Manuela**.
E, como sempre, acrescentava algo novo, enfeitava a história, repassava ao marido até que a história da nora incompetente chegou ao pai de Inês.
Miguel, homem robusto, quase dois metros de altura, ombros largos, não hesitou.
Pegou o machado que usava para cortar lenha, vestiu o casaco de trabalho, subiu na sua velha motocicleta **Ural**, e, sem dizer palavra à esposa, partiu para a aldeia vizinha libertar a filha do opróbrio.
Nesse instante, dentro da casa de Dona Catarina, eclodiu um verdadeiro escândalo. A jovem mãe deixou o bebé **Tiago** por um momento no sofá amarelolaranja recémadquirido para buscar fraldas frescas.
Ao voltar, viu uma mancha castanha sob o bebé. Nos olhos da sogra, aquela mancha transformouse num buraco negro pronto a engolir tudo.
Como um trovão, Dona Catarina lançouse sobre Inês, gritando a todo pulmão.
Estragaste o sofá! O meu preferido! Sabes quanto custou? Tiraria as mãos e cosiaas de volta se fosse preciso!
Eu limparei tudo, juro implorou Inês, as mãos tremendo enquanto pegava o pano.
Limpar? Está novo! Como é que vais saber? Nunca gastaste o teu próprio dinheiro!
E vós acham que tudo é de vossa conta? estourou Inês, e naquele momento ousou rebater a sogra por toda a vida a viver à sombra do marido.
Olha para ela! Basta de tanta insolência! a face de Dona Catarina empalideceu.
Agora limpa a mancha e depois vai à porta com o filho! Ficarás aqui a viver e a morderse até aprenderes a comportamento!
Inês, chorando, tentava esfregar a mancha. O pano parecia rebelde, recusandose a ceder, como se zombasse da sua impotência.
Tiago, sentindo a ansiedade da mãe, chorava a desespero, aumentando ainda mais a tensão no lar.
Dona Catarina pairava sobre Inês, despejando insultos como se fossem granizos. Não percebeu que, na porta, surgia a figura de Miguel.
Ele estava parado como um monumento, a mão segurando firmemente o cabo do machado.
Por um instante, Dona Catarina virouse, sentindo a presença de alguém. O olhar cruzou o machado.
Sabia bem que Miguel era um homem ardente, conhecia o seu passado, o termo condicional que carregava. O medo gelou o sangue de Dona Catarina.
Olá, Miguel! Eu eu estava a criar a tua filha tentava a sogra, tentando manter a postura.
Ouvi o que dizes respondeu Miguel, a voz grave, entrando na cozinha apenas de chinelos.
Levantou o machado, fez com que Dona Catarina se encolhesse, mas, em vez de desferir golpe, colocouo sobre o ombro e estendeu a mão à filha.
Vamos, Inês, não há nada aqui para ti, disse ele, conduzindoa à porta.
Espera, sogro! gritou Dona Catarina, ainda atordoada, tentando retomar o controlo. E o que direi ao meu filho?
Que o filho venha a mim, pelo amor à esposa. Falarei com ele como homem de verdade lançou Miguel um olhar frio e cortante que dizia mais que mil palavras.
Miguel levou Inês e o pequeno Tiago para fora. Bordalo demorou a chegar, temendo o encontro com o sogro. Mas acabou por vir.
Miguel conversou longamente com o genro; não gritou, não ameaçou, mas a voz firme e o machado sobre a mesa davam peso às palavras.
Bordalo prometeu viver separado da mãe de Inês, que já não interferiria na vida do casal e que protegeria a filha e o neto a qualquer custo.
Quando Miguel apertou a mão de Bordalo, o jovem sentiu que as brincadeiras com aquele homem eram perigosas e que teria de cumprir todas as promessas.
Desde então, Dona Catarina evitava Inês e o neto. Já não os cumprimentava nas ruas, nem os reconhecia.
Bordalo e Inês passaram a viver em sua própria casa, em paz e entendimento. Seja pelos conselhos do sogro ou pelo puro amor que os unia
—E assim, o céu sobre a aldeia clareou, e Inês, Bordalo e Tiago viveram finalmente em paz, longe das sombras da antiga sogra.







