Não quero o guião da minha mãe
Sempre achei que entre mim e a minha mãe não havia segredos. Bem, quase nenhuns.
Conversávamos sobre tudo: os meus medos de criança, as primeiras vitórias, o coração partido aos dezasseis anos.
Depois de eu casar, sentia que aquele fio de confiança só se tinha fortalecido, não quebrado.
A minha mãe gostava do meu marido. Dizia sempre que o António era homem de valor. Quando nasceu a nossa pequena Matilde, parecia que a alegria não cabia nela. Trazia sacos e mais sacos de hortaliças da aldeia, comprava montes de roupinhas, e falava para a neta como se fosse um tesouro raro.
Lembro-me de dizer ao António:
Vês? Não há mãe melhor que a minha e ele respondia com aquele sorriso tranquilo.
Mas, de repente, descobri por acaso que a melhor mãe do mundo trazia guardada dentro de si uma bomba-relógio feita de frustrações e mágoas. Fiquei atordoada.
Foi num Outono, há muitos anos. A minha mãe veio como sempre, o porta-bagagens carregado de presentes do campo cenouras, feijão-verde, maçãs, frascos de compotas.
Para que é isto tudo? suspirei, enquanto a ajudava a descarregar só estamos eu e a Matilde, o António foi para o Algarve trabalhar.
Dá aos vizinhos ou às amigas, filha desviou o assunto, enquanto dava um beijo na testa da Matilde. E depois: a minha neta tem de comer do melhor que há, tudo fresco!
Fui para a cozinha pôr água ao lume, enquanto ela levava a pequena para o quarto, a embalar-lhe o sono.
Uns dez minutos depois, fui ter com elas, mas estacionei-me no corredor. Da sala vinha a voz da minha mãe, baixa, sussurrada e… estranhamente desconhecida.
Não me estou a queixar, Lenita, mas deixa-me sem alma… Como se pode viver assim? Ele passa a vida fora, o que ganha mal chega para as despesas. E ela… só está ali sentada! Achas normal? A miúda já vai quase com dois anos, bem podia ir para a creche e ela procurar trabalho! Mas não, prefere ficar em casa a mimar a menina: A Matilde ainda é pequenina, não está preparada. Que preguiça! Ficam à minha custa, já nem recusam nada. Eu entendo, coitada. Mas isto não é vida! E pelo menos se ainda houvesse amor… Mas… O António mudou tanto, está frio, nem olha para ela. Não se queixa, claro, mas eu vejo…
As palavras dela soaram-me como chicotadas. Mal chega para as despesas. Ficam à minha custa. Frio. Senti-me diminuir. Olhei para as minhas mãos as mãos que embalavam, davam de comer, brincavam o dia inteiro com a minha filha, limpavam, faziam bonecos de plasticina… mãos de preguiçosa, aparentemente.
Na sala, a torrente continuava. Falava dos seus receios, das roupas que já não me assentavam como antes, que não queria nada de novo para a vida. Não aguentei. Afastei-me devagarinho, espécie de ladra dentro da própria casa, e fui fechar-me no quarto. Sentei-me na cama, abanei a cabeça. A Matilde dormia calmamente. O seu ressonar parecia o último vestígio do que era real no meio de tanto abalo.
O que devia fazer? Entrar e gritar, correr a minha mãe dali? O peito ficou subitamente gelado e vazio. E então fiz o que aprendi em dois anos de maternidade pus-me em modo automático. Lavei a cara, inspirei fundo, e retornei à cozinha.
A minha mãe acabou a conversa algum tempo depois. Entrou quase aliviada, como quem se liberta de um fardo.
Ai filha, estava tão entretida a conversar com a Lenita! Olha, a Matilde adormeceu enquanto eu embalava a boneca. E já viste o meu chá? Frio como tudo…
Servi-lhe chá acabado de fazer. As mãos não vacilaram.
Que assuntos tão demorados eram esses? perguntei, num tom neutro. Quarenta minutos de conversa! Alguma coisa grave aconteceu?
Ela animou-se, com aquele brilho nos olhos. O mesmo brilho que eu sempre julgara ser puro interesse pelos outros.
Sabes, a nora da Lenita, aquela a Margarida, só pensa em carros novos! E a Lenita queixa-se que o filho só lhe gasta o dinheiro, nem um telefonema recebe no Ano Novo. Perdeu-se a juventude!
No tom da minha mãe, todo feito daquele falso nervosismo doce, notei a mesma indignação e um certo gosto que antes era dirigido a mim.
O estômago revolveu-se-me pelo fingimento.
Mãe, porque é que gostas tanto de falar da vida dos outros? disse eu, mais baixo do que queria talvez ela até tenha boas razões!
O rosto da minha mãe mudou num instante. Desapareceu o sorriso, ficou um ar magoado e altivo.
Mas isso não são mexericos. É a minha amiga. Tenho dever em apoiar e ouvir! Tu não percebes nada do que é ser família.
A ironia feriu-me: Ser família…
Olhei para ela, e vi, pela primeira vez, não uma mãe, mas uma mulher estranha. Uma mulher alimentada pela necessidade da novela, da comparação, da crítica permanente, talvez descontente por eu não viver o guião que ela tinha escrito para mim.
A sua ajuda! As verduras a mais, as blusas fora de época! Não era carinho, era moeda de troca pelo direito de julgar: Ajudo, logo posso opinar.
Quis despejar-lhe tudo aquilo, mas calei-me. Não valia a pena. Acho que ela própria percebeu que mostrara demais. Saiu de lá com um ar magoado e bateu a porta. Fiquei na quietude da casa. Primeiro veio-me raiva, depois dor, por fim uma estranha consciência.
Lembrei-me da juventude dela: a lutar sozinha comigo nos braços depois do divórcio; o orgulho ao conseguir emprego num bom escritório; o maior temor dela sempre foi e o que dirão os outros?.
Ela construiu a vida à custa de esforço, status, respeito, aparências. E a minha uma casa modesta mas cheia de calor e tempo gasto com a filha, a escolha de não correr atrás de carreiras, mas apreciar a infância da Matilde era lida como uma derrota. Não dava para impressionar a D. Emília ou a Lenita. A minha mãe queria uma história de sucesso; eu ofereci-lhe apenas uma vida simples.
No dia seguinte enviei-me uma mensagem: Desculpa se ontem te magoei. Sabes que eu gosto tanto de ti.
Ouvi aquilo como eco antigo. Em tempos teria corrido para pedir desculpa e fazer as pazes. Desta vez, larguei o telemóvel em silêncio. O seguimento não como imaginava, mas como devia veio uma semana depois.
Veio ter comigo a própria Lenita, a tal amiga da minha mãe. Com alguma timidez, explicou que tinha tido de ir à Baixa tratar de uns papéis, e aproveitou para passar. Era evidente que vinha de emissária.
Ficámos a lanchar, a Matilde entretida com blocos de montar. A certa altura, enquanto eu via a menina empilhar cubos com toda a atenção do mundo, a Lenita suspirou:
Tão bom aqui… sossegado, quentinho. Quem me dera um beco sem saída assim.
Não respondi. Ela ficou tempo a olhar pela janela.
O meu filho e a nora vivem em Lisboa. Ganham bem, estão sempre apressados, entre prestações e compromissos. O meu neto vejo-o duas vezes ano. E tu estás aqui. Podes viver, desfrutar o dia. Sabes… a tua mãe… ela só tem medo.
Medo de quê? escapou-me.
De não te fazer falta. Que o esforço dela, tudo o que viveu, não sirva de nada. Seguiste outro caminho, ela vê nisso uma crítica à vida dela. Mais fácil encontrar defeitos do que reconhecer que és feliz. Os legumes… são só a ponte, a desculpa para estar na tua história, nem que seja como juíza.
Percebi no rosto dela não uma inimiga, mas uma mulher tão perdida quanto eu. Talvez já cansada de ser a companhia das tristezas alheias.
E porquê contar-me isto? sussurrei.
Para não guardares raiva. Ela só se perdeu. Tem paciência. Mas marca os teus limites, sem hesitar.
A Lenita foi-se embora. Eu entendi então: a visão da minha mãe é dela, apenas dela.
O meu mundo é o António, que quando volta da obra, nos abraça logo a mim e à Matilde e diz: Tive tantas saudades, minhas meninas
É o nosso pequeno apartamento, a prestação do banco a ser paga sem ajuda. É o meu direito de decidir quando voltar ao trabalho ou se a Matilde vai para a creche ainda pequena. É o direito de viver sem pedir licença.
Não fiz escândalos, nem expulsei a minha mãe. Antes, fui criando novos limites. Não voltei a contar-lhe nada que ela pudesse usar contra mim.
Quando ela comenta Já toda a gente voltou ao trabalho!, respondo serenamente:
Está tudo pensado, mãe, fica tranquila.
Nas compras desnecessárias, encolho os ombros: Obrigada, mas traz antes um puzzle bonito e oferece tu própria à Matilde, assim vêm as duas brincar.
Recoloco-a no papel de avó, não de juíza. É difícil. Por vezes a minha mãe magoa-se, protesta.
Mas, de vez em quando, quando estamos as três a fazer bolachas e a Matilde cobre-nos de farinha, vejo o olhar dela. E não é o olhar de juíza, mas sim de avó encantada.
Talvez esse pequeno ponte de farinha, açúcar e sorrisos nos salve.
***
Este ensinamento ficou-me para a vida inteira: as feridas mais profundas não vêm dos estranhos. São dadas por quem mais esperamos proteção. E o mais importante, depois dessas feridas: não endurecer. Curar-me com a verdade sobre mim mesma. Saber que não sou um retrato inventado por outros. Sou uma pessoa viva, que merece o direito de escolher a própria história, mesmo que imperfeita, mas autêntica.
***
O António, quando lhe contei tudo, só me apertou nos braços e disse:
E se no próximo mês fugirmos de férias? Que a nossa princesa veja, enfim, o mar! O verdadeiro! O nosso.
E nos olhos dele vi aquilo que, segundo a minha mãe, nos faltava: um bocadinho de tudo. Um autêntico oceano.







