A infância feliz de João terminou quando ele ainda tinha cinco anos. Um dia, os pais não o buscaram na creche. Todas as crianças já tinham sido recolhidas, e o menino ficou sentado à mesa, desenhando a si próprio, a mãe e o pai. A educadora observavao e, curiosamente, enxugava-lhe as bochechas repetidamente. Então aproximouse, pegouo nos braços, apertouo contra o peito e disse:
Não importa o que aconteça, João, não tenhas medo. Precisas ser forte agora. Entendes? Entendes, meu pequenino?
Quero a minha mãe respondeu o menino.
A tia e o tio vão chegar logo. Irás com eles, João. No lar deles há muitas crianças; só não chores.
Ela pressionou o rosto molhado contra o seu. Depois segurouo pela mão e conduziuo até ao carro. Quando lhe perguntaram quando o devolveriam à mãe, informaram que os pais estavam longe e não podiam vir naquele dia. João foi colocado num quarto coletivo, ao lado de outros rapazes da mesma idade. Mas os pais não chegaram nem no dia seguinte, nem no de depois. O menino ficou angustiado, chorava à noite e, por causa disso, desenvolveu febre.
Somente a tia, vestida com um casaco branco, falou seriamente com ele depois de recuperar a saúde. Contoule que os pais estavam agora bem longe, no céu, que não podiam descer, mas que estavam sempre a observaro, que todos sabiam do seu caso e que ele deveria comportarse bem e cuidar da saúde para que eles não ficassem tristes.
João não acreditou. Olhava para o céu e só via pássaros e nuvens. Decidiu procurar os pais por onde quer que estivessem. Primeiro vasculhou o pátio da creche em todas as caminhadas. Por fim encontrou um pequeno buraco atrás de um arbusto, onde as tralhas de ferro da cerca formavam uma abertura estreita. Só conseguiu enfiarse até à metade, então começou a escavar devagar; a terra era fofa, cheia de areia. Em pouco tempo, no ponto onde o espaço entre as tralhas era maior, surgiu um vão.
João passou por ele e ficou livre. Correu como um raio para longe daquele lar que os outros rapazes chamavam de orfanato. Mas não conhecia a cidade e, rapidamente, perdeuse. Precisava encontrar a sua casa, mas todas as casas lhe pareciam iguais.
De repente, ao atravessar um cruzamento, viu uma mulher que lhe recordava a mãe: vestia um vestido de bolinhas e tinha um coque de cabelos loiros.
Mãe! gritou João.
A mulher não ouviu e nem se virou. O menino agarrouse a ela e repetiu:
Mãe!
Ela então virouse, ajoelhouse e olhouo atentamente. Não era a sua mãe.
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Filomena, de vinte e dois anos, apaixonouse por Vítor e viveram como um casal perfeito. Conheceramse por acaso numa praça de Lisboa, onde o rapaz, tímido, convidoua para um baile lento. Conversaram com facilidade e, a partir daí, ele nunca mais a deixou. Casaramse três meses depois e viveram como se fossem uma só alma. Três anos depois, Filomena descobriu que não poderia ter filhos. Vítor recusouse a aceitar a situação; ela fez exames incessantes e ficou em vários sanatórios. Finalmente aceitaram que nunca teriam um filho. Vítor sugeriu que adotassem um bebé de um lar de crianças.
Mas Filomena amava tanto o marido que propôs o divórcio, pensando que, aos trinta, ainda eram jovens e que Vítor poderia encontrar outra que lhe trouxesse a felicidade. Vítor recusouse a aceitar a separação e prometeu nunca a abandonar. Para tentar salvar o casamento, Filomena inventou um plano: confessou que já não a amava e que tinha outro homem. Vítor não acreditou. Na noite seguinte ela não apareceu; ao voltar, o apartamento exalava vinho e perfume masculino. Quando Vítor a interrogou, ela respondeu que havia um amante. Vítor concordou com o divórcio.
Quando João, ainda à procura da mãe, encontrou Filomena, ela estava já há dois meses separada. Sentiase vazia, sentia falta de Vítor e se perguntava como ele estaria. O menino, ao chamála de mamã, fez o coração dela saltar.
O que aconteceu, pequenino? Perdestete? perguntou com ternura.
Procuro a minha mãe e o meu pai. Disseramme que eles estão no céu, mas eu não acredito soluçou João.
Venha comigo, moro aqui perto. Quero oferecerlhe uns pastéis de nata e um chá de frutos silvestres. Estendeulhe a mão e levaramse a casa.
Chegando lá, João devorou pastéis até ficar com a cara cheia de açúcar, enquanto Filomena lhe servia chá aromático. Contoulhe tudo o que tinha acontecido. Percebeuse que o menino não comia doces há muito tempo, pois os rapazes mais velhos costumavam tirálos dele e ainda lhe faziam piadinhas cruéis.
Filomena sentiuse com pena do menino e perguntou:
Queres que eu te leve comigo e vivamos juntos? Quando crescerás, entenderás tudo e, um dia, encontrarás os teus pais no céu. Mas ainda não chegará esse dia.
João aceitou. Filomena telefonou ao lar e informoua descoberta. Levouo pessoalmente, conversou com os educadores para que vigiassem melhor as crianças e começou a visitálo todos os dias. Não podia ficar com ele, pois tinha um apartamento e um emprego, mas era solteira e ninguém queria adotar uma criança de uma mãe solteira. Arrependiase de ter pedido o divórcio.
Então concordou com um colega de trabalho, Tiago, para um casamento fictício. Tiago tinha acabado de se divorciar, era um pouco mulherengo, mas muito competente profissionalmente e poderia fornecer a certidão de trabalho. Primeiro hesitou, depois aceitou, impondo um pagamento por todos os custos. Filomena, apesar de ainda amar Vítor, sentiuse ofendida, mas não queria ficar sozinha.
Numa tarde, ao chegar à casa de João, Filomena viu que ele trazia um hematoma sob o olho havia sido castigado pelos rapazes mais velhos por não ter contado. Os educadores, ao invés de ajudálo, tinham relatado a Filomena o incidente e avisado que o menino agora teria um futuro difícil.
No dia seguinte, Filomena aceitou o casamento com Tiago. No sábado, preparou um jantar, vestiu um vestido vermelho como Tiago havia pedido acendeu velas e esperava o convidado. Sentiase amarga e enojada, mas precisava salvar João, pois tinha prometido. O telefone tocou. Filomena levantouse, caminhou pesada até a porta e, ao abrir, deparouse com Vítor, o exmarido.
Filomena, preciso conversar. Tenho observadote o tempo todo; nunca vi ninguém entrar ou sair da tua casa.
Neste instante, o elevador abriu e Tiago saiu de lá com um ramo de flores e uma garrafa de champanhe.
Filomena, sou eu começou Vítor, ruborizado, os punhos cerrados. Ele virouse sem dizer mais nada e desceu rapidamente as escadas.
Filomena gritou, tentando alcançaro:
Vítor, espera! Não é o que parece, deixame explicar!
Mas ele entrou num bonde e desapareceu. Chorando, Filomena despediuse de Tiago e ficou à porta, com o coração dilacerado, a pensar no futuro de João.
Dois anos depois, João, agora chamado João, orgulhosamente desfilava na fila dos primeiros do ensino básico, vestindo um terno impecável, camisa branca e segurando um enorme buquê de flores para a professora. Os seus pais e a irmã mais nova, Mariana, o acompanhavam à escola. Mariana era uma criança engraçada que adorava estar nos braços do pai. A mãe de João vestia o mesmo vestido de bolinhas que ele lembrava da infância.
A família era agora composta por Filomena, Vítor e um filho adotivo, todos vivendo sob o mesmo teto. Tiago acabou por não ser o vilão que imaginavam; encontrouse com Vítor, explicoulhe tudo e o ajudou a compreender a situação. No dia seguinte, Vítor correu ao trabalho de Filomena e, ao vêla, levoua ao registo civil para oficializar a nova união e, assim, poder ficar com João legalmente.
A família continua a visitar o lar de crianças, levando presentes e guloseimas. Quando Mariana foi admitida no lar, a tomaram imediatamente.
Mamã, papá, prometo estudar bem sussurrou João, olhando para o céu. Não se zanguem comigo por ter outros pais agora. Amoos muito, mas são temporários até que eu possa reencontrar os meus.
Ele já sabia que os seus pais tinham morrido num acidente de carro; estava ao lado da sua lápide nos cemitérios de Lisboa. Aos domingos, frequentava a catequese na paróquia de Santo António e, assim, compreendeu o verdadeiro significado do céu.
Filomena, que no início recusara aceitar Vítor, acabou por casarse novamente com ele. No fim, todos viveram felizes, unidos pelo amor, pela solidariedade e pela força de quem nunca desiste.
**A lição que fica:** a coragem de procurar, a bondade de quem ajuda e a esperança de que, mesmo nas maiores perdas, a família pode ser reconstruída através do amor e da solidariedade.







