** Diário de Joaquim 12 de outubro de 2024 **
Por que não abre a porta? perguntei, irritado.
Não quero! Nem vou abrir. Os convidados têm de avisar antes de aparecer, e ainda não devem vasculhar gavetas, frigoríficos ou guardaroupas. respondi, firme.
Tu estás a dizer que não vais abrir? insistiu Lurdes, a minha namorada, que acabou de chegar ao apartamento. Mas é a minha mãe! Ela acabou de chegar!
Então recebea, mas não no meu lar.
Lurdes riu, lembrandose de Vânia, a amiga que sempre se dava bem com a minha mãe.
Se eu começar a listar tudo o que a minha ex era melhor que tu, vamos acabar a rir de nervoso, dissea, esfregando a mesa da cozinha.
Não tenho muita confiança em mim, confessou ela, a voz trêmula. Se você e Vânia se davam tão bem, por que acabou por terminar?
Vítor virouse, ferido, e fitou o balcão.
Sabes bem como foi
Eu sei. Então deixa de me contar histórias da tua Vânia, cortou Lurdes. Caso contrário, serei a tua próxima ex.
Lurdes já estava pronta para medidas drásticas.
Conheci Vítor há quase um ano, numa festa de colegas. Ele trazia consigo Vânia, uma conhecida, embora não fosse muito próxima. Depois, Vânia desapareceu da nossa rede social.
Certa noite, Vítor, meio bêbado, contoume que se separara de Vânia depois de a apanhar a traindo. Até derramou uma lágrima.
Naquele momento, acheia uma cena comovente: um homem que não tem medo de mostrar os sentimentos, que valoriza o amor. Algo clicou em mim; queria consolálo.
Percebi que o que eu sentia era, na verdade, um instinto materno, não um interesse romântico. Ainda assim, isso foi suficiente para que surgisse algo entre nós.
Tudo começou bem. Ele encontravame depois do trabalho, levavame a casa, enviava mensagens carinhosas todos os dias, perguntava se eu estava aquecida. Eu sentiame cercada de cuidados.
A primeira preocupação surgiu quando Vânia me escreveu.
Olá, Lurdes. Ouvi dizer que estás a sair com o Vítor. Não é da minha conta, mas tem cuidado contigo. Ele tem um dueto muito apertado com a mãe.
Anotei, mas pensei que fossem coisas pequenas. O amor supera obstáculos. Se ele teve problemas com uma mulher, não significa que terá com outra.
Olá. Acho que vamos resolver isto sozinhos. Obrigada pelo aviso, respondi.
Não queria prolongar a conversa. Senti que seria feio para Vítor.
Mas Vítor nem se importava com o meu conforto.
Quando a mãe dele, Margarida Pereira, apareceu inesperadamente na nossa porta, Lurdes reagiu quase com calma. Talvez não percebêssemos o quão incômodo era. Margarida, claro, queria conhecer a pessoa com quem o filho vivia.
Lurdes mandou Vítor encontrarse com a mãe, vestiuse às pressas, amarrou o cabelo num rabo de cavalo e, ainda sonolenta, saiu para receber a futura sogra. Já estava a bisbilhotar as gavetas do balcão da sala.
Ah, tudo desordenado, disse Margarida com um sorriso indulgente. Depois vão acabar por ter meias sem par. Lurdes, agora vamos tomar o pequenoalmoço e eu mostrote como dobrar a roupa para que nada se perca.
E esse olá foi substituído por bom dia. Dizer que Lurdes ficou perdida seria subestimar. Ver alguém desconhecida mexerse à vontade nos meus pertences era, para mim, falta de educação.
Responder à grosseria com mais grosseria no início de uma relação parecia errado, então sofri em silêncio.
Oh, minha filha, com esses olhos de panda! continuou Margarida, compassiva. Precisas de máscaras de pepino. Ou melhor ainda, fazes um exame de rins. Tenho uma amiga
Lurdes sorriu, assentiu e fingiu interesse pelos doentes que nunca tinha conhecido. Na verdade, desejava apenas voltar a dormir; eram oito da manhã e eu tinha decidido ficar acordada até tarde, acreditando que dormiria mais depois.
O dia de Margarida alongouse até à noite. Recebi críticas e conselhos preciosos sobre regar as plantas, limpar a casa e lustrar colheres. Consegui praticar um pouco. Sentiame como um limão espremido. Vítor, durante tudo isso, nem tentou ajudar nem sugeriu à mãe que precisávamos de um descanso.
A tua mãe é sempre tão ativa? perguntei a Vítor antes de dormir.
Ele não se opunha a famílias grandes nem a laços estreitos, mas eu precisava de algum espaço.
Sim, é isso. E daí? respondeu despreocupado. A Vânia e eu vivíamos na casa dela; era aconchegante. Agora está sozinha e entediada.
Espero que não vamos acabar a viver três juntos, suspirei.
Qual é o problema? Não gostas da minha mãe? retrucou Vítor, irritado. Ela era amiga da Vânia; tudo corria bem.
Fiquei calada. Vânia era oito anos mais nova que eu e gostava de puxar conversa com todo o mundo. Claro que eram amigas.
Provavelmente ela sabia o nome de todas as amigas de Margarida, os diagnósticos delas, planava a roupa da cama e cozinhava tortas segundo as receitas da sogra.
Mas eu não assinava esse felizes para sempre. Já tinha experiência de vida e acreditava que quanto menos interferência externa nos relacionamentos, melhor. Vítor, porém, tinha outra opinião.
A minha mãe é super sociável. Consegue conversar com qualquer pessoa.
Só que nem todo mundo vai gostar disso, eu queria dizer, mas guardeime.
Depois, Margarida reapareceu no dia seguinte, já de manhã, para inspecionar o frigorífico.
Ovos de galinha? Eu só dou ovos de codorniz ao Vítor, são mais nutritivos para os homens, declarou com ar de autoridade. As prateleiras não estão muito limpas Vocês vão comer tudo isso. Lurdes, lavaas!
Na verdade eu não venho comer direto da prateleira, pensei.
Depois limpo, Margarida, prometo. Hoje queríamos relaxar. É fim de semana, afinal
Vítor, aliás, dormia profundamente enquanto eu era forçada a entreter a mãe dele.
Exatamente! Fim de semana é dia de limpar e cozinhar, afirmou a senhora sem pestanejar. Pega a esponja e o pano. Na próxima semana te ensino a fazer um bolo de carne que o Vítor adora. Vai lamber os dedos!
Fiquei imóvel, cruzando os braços no peito. Não era possível seguir instruções alheias por dois dias consecutivos.
Margarida Pereira, talvez possa anotar o meu número? Assim avisa antes de aparecer. Temos planos para o próximo fim de semana.
Ligar? Não consigo mais ir à casa do filho? ela franziu o rosto.
Claro que pode. Só que o teu filho agora vive com a namorada. Seria ótimo se todos respeitassem as necessidades um do outro.
Não tivemos esses problemas com a Vânia, acrescentou Margarida, sorrindo de canto.
Ah, a mãe do meu ex também não aparecia de madrugada, interrompi eu. E trazia pastéis de nata deliciosos. Quer o receita?
A expressão de Margarida mudou; o cenho franziuse e brilhou um lampejo de ira.
Lurdes, pensa bem. Na nossa família, o cuco da noite não altera o dia.
Ela saiu, mas a sensação de desconforto permaneceu. Não sabia o que fazer. Vítor não parecia perceber; a mãe dele tratava a nossa casa como se fosse a dela. E, como uma sombra constante, pairava a lembrança de Vânia.
As sarrabulhas da Vânia eram melhores A mãe dela ensinava, Vítor soltou, sem querer, durante o jantar.
Então deixa que ela te ensine; assim também cozinhas para mim.
Suspeitava que Margarida estivesse manipulando o filho, mas não queria discutir isso. Queria eliminar esse assunto da minha vida.
O mês seguinte passou tranquilo, sem visitas, mas logo tudo se repetiu. Recebi outra chamada inesperada. Desta vez, decidi categoricamente não abrir.
Era errado? Talvez. Mas será que era correto abrir a porta sem aviso após um aviso tão claro?
Cerca de cinco minutos depois, Vítor apareceu no corredor, ainda sonolento e irritado.
Por que não abres a porta?
Não quero! Nem vou! Os convidados têm de avisar antes de aparecer e não devem fuçar nas minhas gavetas, no frigorífico ou nos armários.
Não vais abrir? Mas é a minha mãe! Ela veio a mim!
Então recebe-a! Mas não na minha casa.
O alvoroço foi tão alto que os vizinhos ouviram. Vítor acusoume de rejeitar a mãe, e, por extensão, a ele próprio. Margarida gritou do outro lado, exigindo ser deixada entrar, ligando para o telemóvel.
No fim, impus um ultimato.
Basta! Ou tu sai agora, explicas à tua mãe o que significa hóspede e a mandas embora, ou terminamos!
Vítor escolheu a segunda opção.
Não fiquei triste. Nem chegamos a despedirnos formalmente. Talvez fosse melhor assim. Não queria viver com alguém cuja história incluía uma exnamorada e uma mãe intrometida.
Alguns meses depois, soube que Vítor tinha uma nova paixão. Uma amiga em comum, da mesma equipa de trabalho, contoume:
Ela foi para a casa dele e da mãe, mas já quer fugir. Pedete para a apresentares.
Ah, por quê?
Se acreditarmos na mãe do Vítor, és a mulher ideal: bonita, com carácter e boa cozinheira.
Estamos a falar da mãe do Vítor e de mim?
Bem, parece que quem deixa a família de Vítor pode ser feliz.
Desde então, escuto os rumores, mas mantenho a cabeça fria. Não acredito cegamente a tudo que dizem, embora nem ignore tudo.
Passei a ser cauteloso com homens que constantemente revivem exnamoradas e são demasiado apegados às mães. Um machista assim nunca terá uma relação saudável; a mãe sempre será prioridade. Talvez isso seja certo, mas só dentro de limites razoáveis.
**Lição que aprendi:**É essencial traçar fronteiras claras entre a vida a dois e as interferências externas; só assim o amor pode respirar livremente.







