Odeávamosa desde o instante em que cruzou o limiar da nossa casa.
Era alta, magra, de cabelos encaracolados.
A casaco que vestia não lhe servia, mas as mãos tinham a marca da mãe: os dedos mais curtos e grossos, sempre apertados num punho firme. As pernas eram ainda mais finas que as da mãe e os pés, mais longos.
Eu estava com o irmão Valter, ele tinha sete anos, eu nove, e atirávamos-lhe farpas.
Lurdes tem um quilómetro de altura, não é uma Lurdes qualquer! gritávamos.
O pai notou o desdém e interveio:
Comporemse! Não são crianças mal criadas!
Ela vai ficar connosco muito tempo? perguntou Valter, num tom atrevido que lhe era permitido, pois ainda era pequeno.
Para sempre respondeu o pai, a voz carregada de um cansaço que começou a irritálo.
Se ele perdesse a paciência, as coisas poderiam ficar feias; melhor não o provocar.
Passada uma hora, Lurdes decidiu ir embora. Calçou os sapatos e, ao sair, Valter armou-lhe uma pequena armadilha na soleira. Ela quase tropeçou e despencou no corredor. O pai, alarmado, correu:
O que foi?
Tropecei no sapato de outra pessoa respondeu Lurdes, sem olhar para Valter.
Vou arrumar tudo prometeu ele, pronto a limpar o caos.
Naquele instante percebemos que ele a amava. Não conseguimos tirála da nossa vida, por mais que tentássemos.
Certa vez, quando Lurdes estava sozinha na casa, acabou por nos dizer, com um tom frio:
A vossa mãe morreu. Infelizmente acontece. Ela está agora a observar tudo do céu. Acho que não aprova o vosso comportamento. Ela entende que vocês agem assim por pura malícia, como se quisessem proteger a sua memória.
Ficámos assustados.
Valter, Inês, vocês são boas crianças! Será mesmo necessário guardar a memória da mãe assim? As boas ações são que revelam uma pessoa. Não acredito que sejam tão espinhosos quanto ouriços!
Com o tempo, as palavras dela foram diminuindo o nosso desejo de ser maus. Um dia ajudeia a descarregar as compras do supermercado. Lurdes elogioume, acaricioume nas costas. Os dedos não eram de mãe, mas o carinho foi reconfortante. Valter ficou com ciúmes.
Lurdes também lavou os copos na prateleira e elogiounos. Mais tarde, à noite, contou ao pai, com entusiasmo, o quanto éramos úteis. Ele sorriu satisfeito.
A sua estranheza demorou a relaxar a nossa casa; queríamos abrir-lhe o coração, mas era difícil. Não era a mãe, e tudo bem.
Um ano depois, já não lembrávamos como era viver sem ela. Depois de um incidente, apaixonámonos por Lurdes de tal maneira que até o pai parecia encantado.
Valter, agora no sétimo ano, enfrentava dificuldades. Um colega da escola, Vítor Ribeiro, enfureciao. Era da mesma estatura, mas mais arrogante. A família de Vítor era numerosa e ele sentia a proteção do pai, que lhe dizia:
És homem, mete o teu pé na cara dos outros. Não esperes que te pisem.
Vítor escolheu Valter como alvo. Não dizia nada a mim, sua irmã, esperando que a situação se resolvesse sozinha. Mas as agressões não desaparecem por si só; a impunidade alimenta o agressor.
Vítor começou a bater abertamente em Valter, acertandoo nos ombros sempre que passava. Consegui extrair a história de Valter depois de ver as hematomas. Ele acreditava que os meninos não deviam transferir os seus problemas para as irmãs, mesmo as mais velhas.
Lurdes, escondida atrás da porta, ouvia tudo. Valter pediume que não contasse ao pai, temendo que a situação piorasse. Também implorou que eu não fosse confrontar Vítor naquele instante; eu queria defender o meu irmão a qualquer custo. Incluir o pai seria perigoso, pois poderia envolver o pai de Vítor e acabar na prisão.
No dia seguinte, sextafeira, Lurdes, disfarçando uma ida ao mercado, guiounos até a escola e pediunos, em segredo, que mostrássemos Vítor. Eu mostreilhe; Que se dane!
A aula de Português começou. Lurdes entrou na sala, penteada e com unhas feitas, e, com voz doce, pediu a Vítor que saísse porque precisava conversar. A professora, sem desconfiar, permitiu. Vítor saiu, achando que Lurdes era apenas uma colega que queria dividir um trabalho.
Lurdes agarrouo pelos ombros, o ergueu do chão e disse:
O que queres do meu filho?
De que filho? respondeu Vítor, confuso.
Do Valter Ribas!
Nada balbuciou.
Não quero nada! Se me tocarem novamente, se me olharem com desprezo, eu vos derrubarei!
Vítor tentou se defender:
Por favor, senhora, eu já não volto a fazer isso!
Sai daqui! disse Lurdes, firme. Se ousares falar comigo outra vez, garanto que o teu pai acabará na prisão por abusar de um menor!
Vítor correu de volta à sala, assustado, e nunca mais ousou atacar Valter. Pediu desculpas no próprio dia, ainda que de forma brusca. Lurdes pediunos que não contássemos ao pai, mas não aguentámos e tudo revelámos. O pai ficou impressionado.
Em algum momento, Lurdes guioume ao caminho certo. Aos dezesseis anos, apaixoneime de forma irracional, como quem se deixa levar pelos hormônios. Foi vergonhoso, mas aconteceu. Envolvime com um pianista desempregado, eternamente bêbado, que me dizia que eu era a sua musa enquanto eu me derretia nos seus braços, como cera ao sol.
A minha mãe, ao saber do piano, fez duas perguntas essenciais: Ele consegue ficar sóbrio alguma vez? Como vamos viver? Quando havia um plano de vida sólido, prometeu considerar a relação. Só aceitava se o pianista assumisse a responsabilidade pelo nosso sustento, pois um apartamento barato não bastava para provar intenções sérias.
Ele tinha cinco anos a menos que Lurdes e eu era vinte e cinco anos mais velha que ele. Não havia cerimônias. Não irei relatar as respostas dele aqui, mas nunca me senti tão envergonhada perante a minha mãe, sobretudo quando ela me disse: Eu pensei que fosses mais esperta.
Aquela história de amor terminou de forma feia, mas não chegou à prisão nem o pianista, nem o pai graças à intervenção oportuna de Lurdes.
Passaramse muitos anos. Hoje Valter e eu temos famílias onde os valores principais são amor, respeito e empatia, tudo aprendido com Lurdes.
Não existe mulher que tenha feito tanto por nós como ela. O pai está feliz ao seu lado, bemcuidado e amado. No passado, Lurdes sofreu uma tragédia familiar que nunca soubemos; o pai nunca nos contou. Ela amou o nosso pai e deixou o marido; tinha um filho que morreu por culpa do exmarido, algo que nunca conseguiu perdoar.
Queremos crer que, de alguma forma, aliviamos a dor de Lurdes. O seu enorme papel na nossa educação nunca foi subestimado. A família se reúne sempre ao seu redor; ainda não descobrimos quais chinelos lhe ficam melhor, mas a apreciamos e protegemos.
Porque, no fim, as verdadeiras mães sejam biológicas ou escolhidas , mesmo enfrentando obstáculos como passos cruéis, nunca deixam de caminhar firmes.
**A lição que ficamos é que o respeito e a empatia são o alicerce de uma família verdadeira.**Na última noite de inverno, reunidos ao redor da mesa da cozinha, Lurdes levantouse lentamente, os dedos ainda marcados pela vida que carregava, e, com um sorriso que parecia conter todas as estações, declarou que havia encontrado, finalmente, o descanso que procurava.
A vela que acendemos naquele instante não era só luz; era o símbolo de cada história que jamais teria sido contada se não tivéssemos aprendido a ouvir o grito silencioso da mãe que partiu, o eco dos risos de Valter quando ainda era menino, o som desafinado do piano que, por um breve momento, incendiou nossos corações.
Quando a chama tremulou, Lurdes segurou a mão de cada um de nós, como quem sela um pacto antigo: Vocês são a minha família agora, e eu sou a sua, sussurrou.
O silêncio que se seguiu não era vazio; era a certeza de que, mesmo nas sombras mais densas, o amor pode ser costurado com fios invisíveis que permanecem firmes.
Na manhã seguinte, ao abrir a porta da casa, encontrei um par de chinelos novos pequenos, amarelos, perfeitos para quem caminha entre o passado e o futuro.
Lurdes sorriu, fez o sinal de paz e, ao fechar a porta, deixou escapar um suspiro que parecia carregar a voz da mãe que observava do céu, finalmente em paz, aprovando não a perfeição, mas a coragem de nos tornarmos quem realmente somos.
E assim, entre risos, lembranças e passos leves, seguimos adiante, sabendo que, quando a vida nos dá alguém para amar como mãe, ela nos entrega também a oportunidade de ser mãe de nós mesmos.






