Mãe, já volto. Vinte minutos, no máximo dizia Tiago na porta da ala, tentando sorrir, mas os lábios tremiam.
Só não demores respondeu Lurdes, reclinada de lado, agarrada ao cobertor o médico disse que à noite vai entrar a perfusão.
Ele assentiu, jogou a jaqueta nos ombros e saiu. Lá fora fazia frio e o vento soprava forte. Outubro no Porto nunca poupa os transeuntes chuva, vento, poças que pareciam espelhos da própria alma do outono português: céu baixo, gente taciturna, tudo à espera de algum fim.
Tiago apressouse até o ponto de autocarro, sentindo que o tempo lhe escapava. Não era o autocarro que lhe faltava, mas a vida que corria ao longe, tudo que deslizava sem parar.
Três semanas antes, os médicos tinham dito que a mãe estava na fase final. Ele não chorou. Apenas sentouse num banco junto ao necrotério por algum motivo os pés o levaram até ali e ficou lá até o escurecer.
Então, vai partir logo? indagou o colega de cama, um velho de pescoço fino e olhos que pareciam carregar uma espera infinita.
Estou à espera do filho respondeu Lurdes, esboçando um sorriso ele prometeu chegar à noite.
Vem com frequência?
Todos os dias. Mas fico a pensar será que não o estou a prender? A vida dele também tem espaço.
O velho tossiu e murmurou:
Não és tu quem o prende, é ele que não se larga. Enquanto não o fizer não partirás.
Lurdes virouse para a janela. Lá fora a chuva caía incessante. Estranhamente, ela lembrava quando ainda amava a chuva. Na juventude, parecia romântico: sentar na cozinha com um chá quente e ouvir as gotas batendo na soleira.
Agora, a chuva apenas turvava a vista.
Tiago adentrou o velho Parque da Cidade, onde quando criança ele e a mãe deslizavam em trenós. Próximo ao terceiro pinheiro da entrada, ela lhe dizia um dia:
Sabes, filho, não importa o que faças. O essencial é que alguém, depois de ti, sorria. Mesmo que seja só uma pessoa.
Ele não compreendeu então. Agora entendia tudo demais.
O telemóvel vibrou: Mãe: Não te apresses, estou bem. Ele sorriu automaticamente ultimamente ela enviava sempre não te apresses, talvez para que ele não ficasse inquieto.
A ala ficou silenciosa. O velho adormeceu, a enfermeira saiu.
Lurdes ficou a olhar o teto e, de repente, ouviu música. De algum corredor distante, ecoava uma canção antiga do Canto da Saudade Chuva de Outubro. Sorriu. Meu Deus, ainda aqui, pensou, fechando os olhos.
Então, alguém sentou ao seu lado. Calmo, como se fosse o próprio vento.
Não temas disse a voz já está tudo resolvido.
Ela não abriu os olhos. Apenas suspirou e sussurrou:
Só não deixes que ele chore.
Tiago voltou após quarenta minutos. Os médicos já tinham deixado a ala, a enfermeira permanecia à porta, os olhos ainda vermelhos.
Ele entendeu sem palavras.
Posso? perguntou em voz baixa.
Sim respondeu a enfermeira, assentindo mas só por um instante.
Sentouse ao lado. A mãe jazia serena, quase a sorrir. Sobre a mesinha pousava o telemóvel, a tela a piscar mensagem não enviada:
Tiago, não esperes milagres. Seja tu o milagre.
Ele fitou a tela até que a dor lhe doeu nos olhos. Então notou: na janela, onde as gotas deslizavam formando linhas finas, surgira um pequeno coração como se alguém o tivesse pintado com o dedo de dentro.
Sorriu a primeira vez em muitos dias.
Passouse um ano. Tiago permanecia à entrada da ala pediátrica oncológica, carregando um termo de café e uma cesta de frutas.
É voluntário? perguntou a guardiã.
Sim respondeu ele, sorrindo só quero que alguém volte a sorrir.
E quando, no corredor, um miúdo calvo correu até ele gritando:
Tio, olha, estou a melhorar!
Tiago percebeu os milagres ainda existem.
Só que, por vezes, chegam através de nós.







