CircunstânciasEla percebeu que as circunstâncias que a cercavam eram, na verdade, o reflexo de escolhas que ainda não havia feito.

A vida seguia seu ritmo habitual: criar o filho, levantar a casa, estar ao lado da esposa que amava. Albina, desde cedo, escolheu-me entre todos os rapazes, fui eu quem lhe conquistou o coração. Quando o Miguel regressou do serviço militar, casámonos. Não tardou muito para que nascesse o nosso menino, Artur. Quando o garoto cresceu, Albina começou a desejar uma menina.

Miguel, vamos terminar a construção da casa dizia ela e, assim, ter uma filha. Assim teremos um lar, um verdadeiro recanto familiar.

Eu apenas sorri e assentia. Já estava pronto para ser pai novamente, se fosse amanhã. Muitas vezes, carregando Artur nos ombros, percorria a aldeia de Lameiro, cumprimentando cada vizinho que cruzava o caminho.

Mas um inverno chegou. A neve cobriu as estradas e um temporal de vento levantouse. Albina ficava à janela, esperando o meu retorno, mas eu nunca apareci. No trabalho ocorreu um acidente fatal e eu perdi a vida.

O tempo sara diziam os vizinhos. Não és a única. Chora, mas os anos passarão e encontrarás alguém de novo.

Albina ouvia em silêncio, mas as lágrimas já não corriam, e isso a magoava ainda mais. Um ano se passou. As dificuldades apertavam até as famílias mais sólidas. No vilarejo o pagamento dos salários atrasavase por meses. Só quem tinha uma quinta e não temia o labor pesava menos.

Albina sentiu o peso desse tempo de modo intenso. O filho foi à escola; precisava de roupa, sapatos e mantimentos. Para isso, era preciso cultivar o hortelão inteiro, garantindo que no outono houvesse o que vender na feira de Vila Nova.

Trabalhava no campo até altas horas. As mãos endureceram, o sorriso desapareceu e a alma parecia endurecer.

Agarra o balde, Sê! gritava ela ao filho, quando ele tentava fugir para se encontrar com os amigos. Já fizeste a lição?

Sê, em silêncio, carregava o balde, mas na cabeça lembrava dos tempos bons ao lado do pai, quando a mãe era alegre e carinhosa.

À noite Albina chorava, culpandose por ser tão dura com o filho. De manhã, porém, tornavase novamente severa e rígida.

Num sábado, chegaram as amigas Benedita e Lurdes. Antes, Albina quase não tinha amigas porque eu preenchia todas as suas necessidades de companhia. Agora, as duas, divorciadas e cheias de vida, apareciam para o chá, embora o chá fosse apenas pretexto.

A manhã começou como sempre. Albina levantouse sem olhar no espelho, sabendo que o rosto estaria marcado. Alimentou o porquinho, espalhou milho às galinhas, encheu a bacia de louça suja e mandou Sê lavarse e correr para a escola.

Ao fim do dia não esperava visitas, mas sabia que algum convidado frequente poderia aparecer. Recebia essas promessas com indiferença: se viesse, bemvindos; se não viesse, nada a perder. Os homens, ao ver o filho, trocavam algumas palavras e partiam, como quem diz: mulher com tralha.

Olha, Benedita, assim vais afogar todos os homens ria Lurdes. Difícil agradarte. Será que a cama é a culpada? Precisas de um sofá novo?

Já vou comprar o sofá suspirou Albina. Mas com que dinheiro? Se for um probleminha, fica comigo.

Não te zangues. Melhor ainda põe a mesa, recebe o convidado.

Benedita às vezes irritava Albina, mas ela ainda assim colocava na mesa os picles salgados. Ao ver a foto de casamento, suspirou pesado:

Desculpa, Miguel. Sem ti é difícil.

Todos são iguais respondeu Benedita, como se lesse a mente de Albina. Vamos, Albina, por nós! Somos as melhores!

Na manhã seguinte Albina, suspirando, limpou os restos da mesa e saiu para o trabalho.

Visitoua Nina, tia do meu falecido marido.

O que fazes, Albina? Não te reconheço desde que o Miguel se foi disse ela. E essas amigas só te atrapalham.

O que me dizes, tia Nina, que sabes de moral? Pensas que sou um fracasso? Tenho casa, tenho quinta, o filho estuda, corrijo as lições Albina calouse ao lembrar que há mais de uma semana não lia o caderno de Sê nem o seu diário. Recentemente, encontrara a professoracoordenadora, que a convidara à escola para conversar.

Sem saber o que dizer, Albina começou a empilhar a louça suja na bacia.

Antes eras outra prosseguiu Nina. Bonita, trabalhadora, bondosa Deixa essas festas bobas.

Não estou a festejar rebateu Albina. Só converso com as amigas para me distrair. Tenho direito a um pouco de descanso depois de tanto trabalho, não?

Claro que sim concordou Nina, suspirando.

Então deixa de me dar lições. E, por favor, não se meta nos meus assuntos. A porta está aberta disse Albina, virandose para a cozinha.

Nina, puxando o lenço mais apertado, saiu silenciosa.

Albina suspirou e franziuse como quem sente dor. Sentiase mal, pesada, como se algo a puxasse para trás. Correu ao alpendre e encontrou a tia na soleira.

Nina, espere, doulhe umas cenouras, este ano tenho muita colheita.

Não precisa, minha filha acenou Nina, descendo do alpendre.

Por favor, é de coração insistiu Albina.

Nina, experiente, reconhecia o gesto como um pedido de perdão silencioso. Mesmo sem palavras, o olhar e a voz de Albina pediam clemência. Nina parou.

Aqui está o saco disse Albina, derramando generosamente as cenouras. Levoas ou ajudo?

Levo, Albina respondeu Nina, agradecendo e a encaminhando para casa. Seu coração apertavase ao sentir a tristeza de Albina.

Ao entardecer de sextafeira, Albina recolheu cebolas e cenouras para levar ao mercado.

Se ao menos surgir um centavo, porque o meu dinheiro não vejo nem as orelhas pensou, ao arrumar as sacolas.

Onde vais com essas bolsas? perguntou curiosa a vizinha Zóia, espiando na bolsa.

Ao mercado, levo os legumes respondeu Albina.

Arrastouse até ao ponto de autocarro, onde já aguardavam o avô Manuel e a avó Glória, que também iam para a cidade. Mas o autocarro não chegava.

Que azar, será que outra vez ficou avariado? resmungou a avó.

O senhor Manuel xingava o autocarro e toda a frota. Quando percebeu que o veículo não viria, decidiuse por voltar a pé, tentando outro meio.

Albina ficou à espera. Não queria carregar de volta as sacolas, então resolveu apanhar um carro que passasse.

Primeiro passou um Citroën, depois um Ravon, mas todos estavam cheios. Finalmente, apareceu um velho Chevrolet. Albina fitou o habitáculo, procurando vagas, mas o condutor já havia fechado a porta antes que ela levantasse a mão.

Era um homem ligeiramente mais velho que eu, desconhecido. Albina soube que era de Vila Real, pois nunca o tinha visto antes. Olhouo e depois as sacolas.

O autocarro não vai hoje, avariouse. Vou para a cidade, posso levarte.

Se for assim, levame suspirou Albina.

Concordo sorriu o homem, saiu do carro, e, embora magro e baixo, levantou a sacola pesada como se não fosse nada.

Podes levarme até ao mercado? perguntou Albina.

Posso.

Pagote disse ela.

Durante o percurso, Albina tirou o espelho e pintou os lábios. Do banco de trás podia observar o condutor.

Chamome Albina quebrou o silêncio.

Eu sou Joaquim Soares.

Ah, tão jovem e já com sobrenome? Chefe? Ou quê?

Na verdade, sou diretor de obras e proprietário de um pequeno porto, brincou Joaquim. Na prática, sou encarregado de construção.

Levantoua ao mercado e ajudoua a descarregar as sacolas, cobrando apenas metade da quantia.

O resto amanhã à noite. Eu volto pelo mesmo caminho prometeu.

Que generoso sorriu Albina. Finalmente tive sorte.

Joaquim conduziua de volta ao fim da tarde.

Entra, toma um chá, Joaquim Soares.

Pode chamarme Joaquim respondeu ele, rindo.

Albina começou a pôr a mesa. Senho, que estava a entrar na cozinha, exclamou:

Não fiques aí parado! Vai para o quarto. Fizeste a lição?

Quase murmurou o garoto.

Então termina! ordenou Albina.

Joaquim, sentado ao lado do fogão, cruzou as pernas e, sorrindo, dirigiuse ao menino:

Vamos conhecernos. Eu sou Joaquim Soares, e tu?

Sê respondeu o menino.

Artur, certo?

Sim.

Como estão as lições? Difíceis?

Matemática é um pesadelo, não consigo entender confessou.

Então vamos ver Joaquim fez o gesto para que Sê mostrasse o caderno.

Em meia hora, o menino, satisfeito por ter ajuda, foi dormir.

Arruma tudo disse Joaquim, apontando a mesa eu só vou beber chá.

Se estás ao volante, só chá concordou Albina.

Mesmo se não estiveres ao volante, só chá. E ainda compota, gelatina, sumo completou ele.

Albina, desconfiada, serviu água quente com um saquinho de chá ao lado de um prato de batatas.

Já me sinto cansada declarou Joaquim, levantandose. Hesitou, depois acrescentou: Gostei muito de ti, Albina. Posso passar na sextafeira?

Albina sorriu levemente, pois era exatamente o que esperava.

Vem então.

Não sou casado respondeu ele, embora Albina nem lhe tivesse perguntado.

Vai esquecerme dentro de uma semana pensou Albina, sem esperanças de continuidade.

Mas, ao fim do dia, quando Benedita e Lurdes apareceram, Albina despediuas antes da hora. Em sua cabeça girava: E se ele realmente vier?

Não, Albina, isso é injusto protestou Lurdes. Vamos ao clube!

Eu não tenho nada para correr ao clube!

E daí? Vamos ao cinema!

Não, meninas, vão sozinhas. Eu tenho que limpar aqui.

Albina não conseguiu terminar a limpeza. Joaquim chegou antes do esperado, entrou no quintal e Albina conduziuo à casa. Ainda havia vestígios do jantar na mesa, mas ele fingiu não notar nada.

Vou esquentar a sopa, que esfriou explicou Albina.

Joaquim conversou um pouco com Sê, ajudouo na matemática e explicou o que são cavalosvapor nos carros. Quando o menino foi dormir, Albina sentiuse levemente animada, com vontade de brincar e conversar.

Joaquim se levantou, aproximouse, pôs as mãos nos ombros dela e feza levantar. Em seguida, abraçoua firmemente pela cintura. Albina ficou boquiaberta, quase sem ar.

Fico aqui até de manhã disse ele simplesmente.

Quem te manda? perguntou Albina, recuperando o fôlego. Sabia que ele ficaria, então as palavras pareciam desnecessárias.

Na manhã seguinte, enquanto Albina preparava ovos mexidos, Joaquim pegou baldes e foi encher água.

Podemos levar à banheira? perguntou ele.

Leva respondeu Albina, indiferente, pois nunca antes pedia ajuda a ninguém, acreditando que tais gestos não teriam continuação.

Depois do pequenoalmoco, ao terminar o chá, Joaquim sussurrou:

Sabes, Albina, se quiseres ficar comigo, essas bebidas que deixaste na mesa ontem não podem ficar.

Albina ficou parada, a colher de chá ainda na mão.

É uma condição? disparou, mais surpresa que indignação.

Sim, não suporto esse cheiro. E, na verdade, eu sou normal, tu também percebeste.

Ele sorriu e acrescentou:

Então, vem à noite à banheira?

Albina sentiuse tentada a protestar, a expulsar Joaquim, mas algo a impediu. De repente, concordou.

Vem então respondeu brevemente.

Mais tarde, Benedita apareceu.

Ouviram que desperdiçaste tudo, Albina? É verdade?

É, Benedita. Já não há nada.

Por que enlouqueceste? Como pudeste transformar uma boa ação em algo ruim!

Que boa ação? É um desastre. Vai, Benedita, agora não tenho tempo para ti cortou Albina.

Lavou o chão, trocou a roupa de cama, que agora exalava frescor, pois ainda a havia lavado e deixado ao sol. No fogão esperava o tradicional caldo de feijão, mas decidiu preparar algo diferente, mais saboroso. Pensando que não teria tempo para os pastéis, fez massa e fritou panquecas. Sê as levava discretamente da mesa, bebendo sumo.

O tempo passou. Albina ainda conseguiu ir à sauna, e o céu escurecia. Mas Joaquim não apareceu.

Três anos a esperar o prometido resmungou Albina. Acreditei, tola. Sei que todos são iguais, exceto o meu Miguel. Será que, ao derramar tudo, foi em vão?

Sorriu ao lembrarse disso. Olhou a cozinha iluminada, cheia de aromas, e sentiu paz.

Não foi em vão afirmou firme. Chega.

Virouse para o filho:

Não esperes, Sê, o tio Joaquim não vem. Vamos rever as lições, que deixaste a estudar de lado.

De repente, ouviu o motor fora da janela. Joaquim entrou, carregando uma pequena mala de viagem. Tiroua salsichas, conservas, biscoitos, manteiga.

Um amigo da zona trouxe, às vezes ajuda explicou. Para ti e Artur.

Albina, apoiando o queixo, observAlbina, apoiando o queixo, observava Joaquim distribuir a comida, sentindose finalmente reconfortada ao perceber que, apesar de tudo, ainda havia espaço para a esperança em sua casa.

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CircunstânciasEla percebeu que as circunstâncias que a cercavam eram, na verdade, o reflexo de escolhas que ainda não havia feito.
Susedka si myslela, že moja úroda je spoločná, ale rýchlo som ju odnaučila od lenivých manierov – Ako som naučila „svokru“ spoza pletiva, že na slovenskej záhrade darmožráčstvo neprejde!