PACIFICAÇÃOEle então estendeu a mão ao inimigo, oferecendo um acordo que prometia restaurar a tranquilidade ao vale devastado.

Tu, papá, já não vires mais aqui. Quando te vais, a mamã começa a chorar e não pára até à madrugada. Eu adormeço, acordo, volto a adormecer e, quando me desperto outra vez, ela ainda está a soluçar. Pergunto-lhe: «Mamá, por que choras? Por causa do papá?». Ela responde que não está a chorar, mas a assoar o nariz porque está com um catarro. Eu já sou grande o bastante para saber que esse tipo de catarro não faz chorar a voz.

O papá, Tiago, sentase à mesa de um café em Lisboa com a filha, Lurdes, e mexe a colherinha num pequeno café já frio, servido numa chávena branca minúscula. Lurdes nem sequer toca no gelado à sua frente um verdadeiro obradearte num copo de vidro, com bolinhas coloridas cobertas por um folheto verde e uma cereja, tudo regado a chocolate. Qualquer menina de seis anos ficaria tentada, mas Lurdes não cede, porque já na sextafeira passada decidiu conversar a sério com o pai.

Tiago fica calado, muito calado, e depois fala:
Então, o que vamos fazer, minha filha? Não nos vermos nunca mais? Como é que eu vou viver assim?
Lurdes enruga o narizinho, que herdou da mãe, um pouco arredondado como uma batata, pensa um instante e responde:
Não, papá. Eu também não consigo sem ti. Vamos combinar o seguinte: liga para a mamã e diz que, todas as sextasfeira, vens buscarme ao jardimdeinfância. Se quiseres café ou gelado (Lurdes lançalhe uma olhadela ao copo), podemos ficar no café. Eu contote tudo sobre a vida que tenho com a mamã.
Depois de um minuto, acrescenta:
E se quiseres ver a mamã, eu faço uma videochamada toda a semana e mostrote fotos. Que dizes?

Tiago não olha a filha com desconfiança, sorri ligeiramente e acena:
Está bem, assim vamos viver, minha filha
Lurdes suspira aliviada e começa a comer o gelado. Ainda tem mais a dizer, porque precisa de concluir o ponto principal: enquanto as bolinhas coloridas criam pequenos cachos ao redor do nariz, ela lambeos e, de repente, assume um ar sério, quase de adulta. Quase uma mulher que tem de cuidar do seu homem, ainda que ele já seja velho: a festa de aniversário do papá foi na semana passada. Lurdes fez-lhe um cartão no jardimdeinfância, pintando cuidadosamente o número grande «28». O rosto volta a ficar sério; franze as sobrancelhas e declara:
Acho que precisas de casar
E, generosa, mentiu, acrescentando:
Afinal, ainda não és tão velho
Tiago reconhece o gesto de boa vontade da filha e resmunga:
Também dirias que não é «tão» velho
Lurdes, entusiasmada, continua:
Não, não! Olha, o tio Sérgio, que já foi duas vezes à casa da mamã, até está meio careca. Aqui
E aponta para a testa, alisando os cabelos ondulados com a mão. Depois finge que percebeu, quando Tiago se endireita e a encara nos olhos, como se tivesse revelado um segredo da mamã. Então coloca as duas mãos sobre os lábios e abre os olhos bem largamente, como quem sente horror e confusão.
Tio Sérgio? Que «tio Sérgio» é esse que vem à tua casa? É o chefe da mamã? diz quase a voz alta, quase a todos no café, Tiago.
Eu, papá, não sei Lurdes se perde um pouco, surpresa com a reação. Pode ser o chefe. Ele traz doces, traz um bolo para todos nós. E Lurdes pondera se deve revelar aquele detalhe tão íntimo ao pai, que parece tão «inadequado», as flores da mamã.

Tiago cruza os dedos sobre a mesa, observaos por um longo tempo e percebe que, neste instante, está a tomar uma decisão muito importante na sua vida. Por isso, a jovem não pressiona o homem; sabe que os homens são lentos a decidir e precisam de um empurrão, e quem melhor para empurrar do que a mulher mais querida da sua vida?

Tiago permanece em silêncio, silencioso, até que finalmente respira fundo, abre a mão, levanta a cabeça e fala Se Lurdes fosse um pouco mais velha, entenderia o tom que ele usa, como o de Otelo a perguntar a Desdémona. Mas ela ainda não conhece Otelo, nem Desdémona, nem outros amantes famosos; está apenas a acumular experiência, a observar como as pessoas se alegram e se aflituam por coisas pequenas.

Então Tiago diz:
Vamos, minha filha. Já está tarde; levote a casa e aproveito para conversar com a mamã.
Lurdes não pergunta o que ele vai dizer à mamã, mas sente que é importante e termina rapidamente o gelado. Quando percebe que a decisão de Tiago é mais grave que o melhor gelado, atira a colher ao prato, desce da cadeira, limpase os lábios com a parte de trás da mão, assoa o nariz e, olhando diretamente para Tiago, declara:
Estou pronta. Vamos

Não caminham, quase correm. Tiago corre, mas segura a mão de Lurdes, que parece‐se a uma bandeira tremulando no vento, como a que o príncipe André Bolkonski empunhava na Batalha de Austerlitz. Ao entrarem no prédio, as portas do elevador fechamse lentamente, levando alguém para o andar de cima. Tiago olhaa, meio perdido; Lurdes, de baixo para cima, o encara decidida e pergunta:
E então? O que esperamos? Somos o sétimo andar, afinal.
Tiago agarra a filha nos braços e sobe as escadas a toda velocidade. Quando a mãe, Madalena, finalmente abre a porta, Tiago dispara:
Não podes fazer isto! Que tal o Sérgio? Eu amote. Temosnos, Lurdes
Sem soltar Lurdes, abraçaa também, e Lurdes envolve os dois pelos ombros, fecha os olhos, porque os adultos estão a beijarse.

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PACIFICAÇÃOEle então estendeu a mão ao inimigo, oferecendo um acordo que prometia restaurar a tranquilidade ao vale devastado.
Глашка, готова ли си за сватба?