17 de outubro de 2024
Querido diário,
Hoje completei sessenta anos. Há cinco anos, no dia em que celebrei o meu casamento com António, eu tinha cinquenta e cinco. Ele tem agora sessenta e cinco. Não há nada de surpreendente nisso; a vida já nos ensinou que o inesperado faz parte do cotidiano. O que ainda me parece inacreditável é que este foi o primeiro casamento para ambos.
Confesso que, na juventude, nunca imaginei me casar. Quando ainda não tinha vinte anos, o rapaz que amava de paixão, o António, abandonoume. Ele partiu quando eu estava no quinto mês de gestação. Nos primeiros dias, ainda lembro de ter implorado a Deus, desejando desaparecer. Mas, de alguma forma, reuni coragem e jurei: nunca mais me entregaria a outro casamento. Não queria mais ter ao meu lado um homem que desaparecesse ao primeiro sinal de dificuldade.
Mantiveme firme. A filha cresceu, casouse, os netos chegaram, e eu, como um burro teimoso, continuei a carregar sozinha o peso da solidão. É verdade que muitos pretendentes apareceram, mas a minha determinação era inabalável: quem eu decidisse, não mudava de ideia. A solidão acabou por me transformar numa pessoa ríspida, quase irreconhecível como mulher.
Mas o destino tem seu senso de humor. Quando me aposentei, como a maioria dos aposentados, decidi dedicarme ao cultivo do pequeno quintal que herdara da família. O chalé de campo ficava a cerca de uma hora de comboio da cidade de Lisboa, e eu sempre levava um caderno de palavras cruzadas para que o tempo passasse mais rápido.
Numa manhã, na plataforma da estação de SeteRios, subiu ao comboio um casal de meiaidade, claramente casado, e um senhor baixo e enrugado, seguidos de um jovem de aparência decidida. O silêncio reinava até que ouvi a esposa, timidamente:
António, será que não vamos visitar os netos? Você é pai, afinal
O marido respondeu com um grito áspero, como se fosse um trovão:
Que isso, sua louca! Você acha que eu devo rastejar perante esses idiotas?
Em seguida, soltou um palavrão dirigido à esposa e aos filhos. O meu olhar ficou preso nele, e, por um instante, fiquei paralisada. Era o António, o mesmo que me abandonou quando eu ainda carregava seu filho. O rosto dele estava ainda mais enrugado, a voz ainda mais áspera. Ele não me reconheceu, mas percebeu o meu olhar e bradou:
O que você está fazendo, sua espertinha? Virase, senão eu vou lhe dar uma bofetada!
Fiquei imóvel, como se o sangue tivesse congelado nas veias. Foi então que o jovem ao nosso lado se levantou de golpe e colocou-se entre mim e o António:
Se continuar a menosprezar as mulheres, terá que lidar comigo. Homem que fala assim comigo não passa de um inútil. Vou te dobrar como carneiro em um chifre!
O coração disparou. O António poderia facilmente esmagar aquele rapaz, mas ele recuou, encolheu os ombros e murmurou algo desconexo. Naquele instante percebi que, na verdade, não estava diante de um herói, mas de um covarde que só ousa levantar a voz quando se trata de mulheres. E eu, graças a ele, passei a vida inteira a me sentir quebrada.
As lágrimas começavam a encher os olhos, tudo parecia passar como um filme em fastforward: trinta anos revividos em poucos minutos.
Depois de duas paragens, o António e a esposa desceram, e eu, ainda emocionada, deixei a água correr pelo rosto. Foi então que o jovem, com um sorriso tímido, disse:
Nem as lágrimas podem apagar a beleza do seu rosto.
Ele não parecia mais um menino; diante de mim estava um verdadeiro homem. Apresentouse como Filipe Barbosa, exmilitar, agora aposentado e dedicado ao jardinismo como eu.
Foi ali que, pela primeira vez em muitos anos, senti o desejo sincero de me casar novamente. Queria ser amada, ser a companheira de alguém que realmente me respeitasse.
Assim aconteceu. Filipe e eu casámos, e hoje vivemos felizes num pequeno quintal ao sul de Lisboa, rodeados pelos netos que brincam entre as rosas. A vida, como dizem os antigos, tem um jeito sábio de colocar tudo no seu devido lugar, independentemente da idade.
Aprendi, afinal, que nunca é tarde para encontrar amor verdadeiro, e que o respeito mútuo é a base de qualquer relacionamento duradouro. O coração, quando aberto, sempre encontra um caminho.







