— Luz, acho que… esbarrei num gato… — resmunguei ao telefone.

15 de junho de 2026 Diário

És? respondeu Lurdes, com a voz tão vazia quanto a madrugada.

Como assim és? O que devo fazer?
Sai do carro, olha se ainda está vivo.

A porta se abriu devagar. O pátio estava deserto, o ar da noite carregava um cheiro metálico, quase o perfume da própria ansiedade. Abri o portão sem descer do carro e, inclinado, olhei por debaixo do capô. Lá estava ele: um pequeno bando cinzento, tremendo, mas com os olhos ainda abertos.

Está vivo, Lurdes. Está o que faço agora?
O quê? Leva-o à clínica. Já vais nessa direção. Mas vem logo, rápido!

Peguei o gato com cuidado não se mexeu, apenas jazia, ofegante. Coloqueio no banco de trás, dentro de uma caixa de sapatos que estava no chão, e parti.

A clínica fica a uns trinta minutos, normalmente. Mas naquele dia o tempo parecia ter enlentecido, como se aqueles trinta minutos fossem eternidades.

No portamalas, já jazia um cão. Um viralatim velho, atropelado por um comboio. Os meus primos da casa de férias pediramme que o levasse ao veterinário só dói menos, não o deixem sofrer, disseram. Era um cão sem dono, mas nos compadecíamos. Entrei na clínica quase que por instinto.

E agora, ainda o gato.

Acelerava pela estrada, como se estivesse possuído, só que na cabeça só circulava:

Que dia é este? Que vida é esta?

Na clínica, surpreendentemente, não havia fila. Entrei com a caixa como se fosse levar minha esposa à maternidade o médico a recebeu de imediato e encaminhoua para a sala de exames.

O que tem com ele? Como está? bati à porta, quase a gritar.
Vamos fazer um raioX agora assentiu a assistente. Parece que não há nada grave, mas precisamos confirmar.

Quinze minutos depois, a eternidade parecia ter se instalado. O relógio parecia brincar comigo, parando de girar. Caminhei em círculos, fitando o teto, as janelas, os cartazes de gatos British Shorthair e Maine Coon

Dentro de mim, algo borbulhava: não era só preocupação, era vergonha, culpa. Não tinha percebido o quanto havia sido precipitado. O pequeno ser, indefeso, entrara na rua num segundo que eu ainda estava a pensar em onde ficava a entrada da clínica. Um instante. Um clique que mudou o rumo de tudo e eu, com a garganta apertada, implorava: Por favor, viva. Deixame consertar isso.

O médico saiu.

Precisamos operálo

Nesse momento lembreime do cão ainda lá no portamalas!

Voltei correndo. Tudo em silêncio. Não chorava, não se mexia. Apertei o botão o portamala se abriu lentamente.

Do escuro, dois olhos assustados me encararam. O animal ainda respirava.

Olá disse baixinho. Não se zangue já vamos descobrir o que fazer.

Corri de volta à clínica. Apresseime ao médico uma mulher de olhar severo, expressão rígida.

Ainda tem outro cão no portamala. O comboio o atingiu, as patas traseiras
Já nos chamaram para a eutanásia disseram que não há esperança.

Fiquei mudo. Não consegui terminar a frase. Seu rosto permaneceu impassível. Levouse um casaco, colocouo sobre o próprio sobretudo e saiu comigo.

Abrimos o portamala. Ela olhou para o cão, depois para mim. Os olhos dela atravessaram tudo como um raioX.

Está louca? Quem disse que tem de ser eutanásia? Sim, as patas não vão cicatrizar, mas ele pode viver. Já trouxemos casos assim. Tragao.

Acenei. Não me opus. O médico garantiu: Ele vai viver. Isso foi suficiente.

Cheguei a casa ao entardecer. Lurdes virouse surpreendida do fogão:

O que se passa, João?

Fui ao quarto, peguei um velho álbum onde guardava notas escondidas entre as páginas. Um sonho. Uma motocicleta. Tudo ficou distante.

João?! O que há?
Eles vão viver! gritei. Ambos!
Quem? Perdidíssimo!
Vou explicar!

Mantivemos os dois. O gato recebeu o nome Margarida, o cão, Rui. Passámos juntos por infusões, noites sem sono, reabilitação.

Lurdes então apenas disse:

Se já estão conosco, vamos resolver.

E resolveu. Alimentou Margarida com carinho, acariciou Rui. Chorámos quando Margarida deu os primeiros passos. Rimos ao ver Rui, em cadeira de rodas, a percorrer o quintal a toda velocidade.

Cinco anos se passaram. Eles não são mais animais de estimação; são família.

Hoje, ao chegar, o aroma de biscoitos recémsaídos recebeume. Lurdes abraçoume por trás, apertado, tremendo.

O que aconteceu? perguntei.
Vamos prosperar sussurrou, colocando a mão sobre o ventre.

No começo não entendi. Depois percebi.

Tenho quarenta anos. Ela tem trintaesete. Tentámos muito. Quase desistimos. Mas um dia, uma senhora estranha advertiunos:

Terão três filhos. Dois, dádivas da natureza. Um um dom divino para a bondade, a paciência. O caminho será difícil, mas a luz será clara.

Margarida dorme, encolhida, ao lado do coelho de pelúcia, na soleira da janela. Rui, já idoso, aproximase, encostase na minha perna e suspira profundamente.

Eu não acreditava então. Agora acredito.

Aprendi que, quando dizemos sim à vida, ela responde com sim. E isso me ensinou a não fugir das responsabilidades que a própria compaixão nos impõe.

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— Luz, acho que… esbarrei num gato… — resmunguei ao telefone.
«Quando a América te leva aos bocados e a tua terra esquece o teu abraço: a traição do regresso de emigrante»