MINHA FILHA E MEU GENRO MORRERAM HÁ 2 ANOS – DEPOIS, UM DIA, MEUS NETOS GRITARAM: «VOVÓ, OLHE, ELES SÃO NOSSA MÃE E NOSSO PAI!»

Margarida, a minha nora, morreu há dois anos e então, num dia cualquiera, os meus netos gritaram: Avó, olha, são a nossa mãe e o nosso pai!

A avó, chamada Ana, estava à beira da praia de Cascais com Tiago e Rui quando, de repente, apontaram para um café à sombra das algas. O coração da Ana parou por um segundo quando ouviram aquelas palavras que viraram o seu mundo de cabeça para baixo. O casal que estava no café parecia exatamente os pais que tinham perdido há dois anos.

O luto muda a gente de um jeito que a gente nem imagina. Tem dias que é um aperto sordido no peito; tem outros que vem na cara, como um soco.

Naquela manhã, na minha cozinha, a olhar para uma carta anónima, sentia-me num misto de esperança e medo.

As minhas mãos tremiam ao ler de novo as palavras: Eles não foram embora de verdade.

O papel branco, tão puro, quase queimava as pontas dos dedos. Eu achava que estava a gerir o meu luto, a construir uma vida estável para os netos, Tiago e Rui, depois da perda trágica da minha filha Margarida e do seu marido Pedro. Mas aquela nota fez-me perceber que eu estava a viver num mundo à parte.

Eles tiveram o acidente há dois anos. Lembro-me ainda da dor quando Tiago e Rui me perguntavam onde estavam os pais e quando voltariam.

Levei meses a convencer as crianças de que a mãe e o pai nunca mais voltariam. Parti o coração ao dizer-lhes que teriam de aprender a viver sem eles, mas que eu estaria sempre ao lado.

Depois de todo esse esforço, receber uma carta a dizer que Margarida e Pedro ainda podiam estar vivos foi um balde de água fria.

Eles não foram realmente embora? murmurei, caindo numa cadeira da cozinha. Que tipo de brincadeira é esta?

Queria jogar a carta fora quando o telemóvel vibrou.

Era a notificação da minha companhia de cartões, a dizer que havia um gasto feito com o cartão da Margarida, que eu tinha mantido ativo só para guardar um pedaço dela comigo.

Como é que isso pode ser? balbuciei. Há dois anos que deixei esse cartão num gaveteiro. Como é que alguém o usou?

Liguei imediatamente para o serviço de apoio ao cliente do banco.

Bom dia, aqui é o António, como posso ajudar? respondeu a voz.

Olá, gostaria de confirmar a última transação do cartão da minha filha, por favor falei eu.

Pode dizer os primeiros e últimos quatro dígitos e a sua relação com a titular? perguntou o António.

Passei as informações e expliquei: Sou a mãe dela. Ela faleceu há dois anos e eu estou a gerir as contas que restaram.

Houve uma pausa e então ele respondeu, com cautela: Lamento a sua perda, senhora. Não consta nenhuma transação recente neste cartão. A que menciona foi feita com um cartão virtual associado à conta.

Um cartão virtual? Mas eu nunca criei nenhum. Como é que isso aconteceu? questionei.

Os cartões virtuais são independentes do físico e podem ficar ativos até serem desativados. Quer que eu desative o virtual?

Não, deixeo ativo por enquanto, por favor. Pode dizer-me quando foi criado?

Depois de um momento, António respondeu: Foi ativado uma semana antes da data presumida de falecimento da sua filha.

Um arrepio percorreu-me a espinha. Obrigada, António. Isto é tudo por agora.

Desliguei, o coração pesado, e liguei para a minha melhor amiga, a Elisa, para lhe contar da carta e da transação misteriosa.

É impossível exclamou a Elisa. Deve ser um engano.

Parece que alguém quer fazer-me crer que a Margarida e o Pedro ainda estão por aí, vivos. Mas porquê? Por que alguém faria isto?

O valor da compra não era grande, só 22, num café da esquina. Uma parte de mim queria ir ao café investigar, outra temia descobrir algo que não deveria saber.

Decidi ir ao café naquele fim de semana e o que aconteceu no sábado mudou tudo.

Estávamos na praia, as crianças a brincar nas ondas baixas, as risadas a ecoar na areia. Era a primeira vez em muito tempo que as ouvia tão despreocupadas.

A Elisa e eu estávamos deitadas nos nossos estei, a observar, quando Tiago gritou de repente.

Avó, olha! Apontou para o café. São a nossa mãe e o nosso pai!

O meu coração quase saiu pela boca. A uns trinta metros de nós, sentavase uma mulher com o cabelo tingido e a postura graciosa da Margarida, a inclinarse para um homem que era a cara do Pedro.

Fica aqui com os miúdos, por favor disse à Elisa, a voz a tremer. Ela, sem perguntar nada, aceitou, embora o olhar mostrasse inquietação.

Fui ao encontro do casal no café.

Levantaramse e seguiram um caminho estreito, ladeado por canteiros de rosas silvestres. Os meus passos foram quase automáticos, seguindo-os à distância.

Conversavam e riam de vez em quando. A mulher ajeitava o cabelo atrás da orelha, exatamente como a Margarida costumava fazer. O homem mancosava ligeiramente, tal como o Pedro.

Então ouvios falar.

É arriscado, mas não tínhamos escolha, Maria disse o homem.

Maria? Por que a chamam Maria?

Seguiram por um trilho de conchas que levava a um cottage cercado por videiras em flor.

Entrei no cottage, peguei o telemóvel e disquei o 112. A operadora ouviu pacientemente enquanto eu explicava a situação surreal.

Fiquei junto à cerca, a ouvir por mais pistas. Não conseguia acreditar no que estava a acontecer.

Reunindo coragem, cheguei à porta do cottage e toquei.

Houve um silêncio; depois passos aproximaramse.

A porta abriu e lá estava a minha filha. O rosto ficou pálido quando me reconheceu.

Mãe? sussurrou. Como como nos encontraste?

Antes que eu respondesse, o Pedro apareceu atrás dela. Nesse instante, as sirenes chegaram, enchendo o ar.

Como puderam? a minha voz tremia de raiva e dor. O que nos fizeram passar?

Os viaturas da PSP chegaram e dois agentes aproximaramse rapidamente.

Vamos ter de fazer algumas perguntas disse um deles, a olharnos alternadamente. Isto não é coisa que se veja todos os dias.

Margarida e Pedro, que tinham mudado os nomes para Maria e António, começaram a contar a história aos pedaços.

Não era suposto acontecer assim disse Margarida, a voz a vacilar. Estávamos desesperados, sabes? As dívidas, os cobradores não paravam de aparecer, a exigir mais e mais. Tentámos de tudo, mas nada deu certo.

António suspirou. Não queriam só o dinheiro. Ameaçavamnos e não queríamos envolver os miúdos no caos que criámos.

Margarida prosseguiu, lágrimas a escorrer pelo rosto. Pensámos que, fugindo, poderíamos dar-lhes uma vida melhor, mais estável. Abandonálos foi a coisa mais difícil que já fizemos.

Confessaram ter falsificado a morte para escapar aos credores, esperando que a polícia deixasse de os procurar e os declarasse mortos.

Explicaram que se mudaram para outra cidade, mudaram de nome e tentaram recomeçar.

Mas eu não conseguia deixar de pensar nos meus filhos admitiu Margarida. Precisava de os ver, por isso alugámos este cottage por uma semana, só para ficar perto deles.

O meu coração partia ao ouvir a história, mas a raiva ainda queimava por dentro. Não podia acreditar que não houvesse outra maneira de lidar com os credores.

Depois que confessaram tudo, mandei mensagem à Elisa para lhe dizer onde estávamos. Ela chegou de carro com Tião e Rui. As crianças saltaram do veículo, os rostos iluminados de alegria ao ver os pais.

Mãe! Pai! gritaram, correndo até eles. Sabíamos que voltariam!

Margarida os abraçou, as lágrimas a escorrer pelos olhos. Oh, meus pequeninos sentiavos tanto. Desculpem

Eu observava, murmurando para mim mesma: Mas a que preço, Margarida? O que fizeste?

A polícia deixounos conversar um pouco antes de separar os pais dos filhos. O oficial ao chefe virouse para mim, com simpatia nos olhos.

Lamento, senhora, mas eles correm risco de acusações graves. Violaram várias leis.

E os meus netos? perguntei, vendo a confusão nos rostos de Tião e Rui enquanto os pais eram levados novamente. Como vou explicar tudo isto? São só crianças.

Essa decisão cabe a si respondeu o agente, gentilmente. Mas a verdade acaba por aparecer, cedo ou tarde.

Mais tarde, aquela noite, depois de colocar as crianças na cama, fiquei só na sala. A carta anónima ainda jazia na mesa, o seu recado a ecoar de outra forma.

Pegueia de novo e li as palavras: Eles não foram realmente embora.

Ainda não sei quem enviou a carta, mas eles tinham razão.

Margarida e Pedro não partiram; escolheram partir. E, de certa forma, isso parece ainda pior do que acreditar que morreram.

Não sei se vou conseguir proteger os miúdos da tristeza murmurei na sala silenciosa, mas farei tudo o que puder para os manter seguros.

Agora, às vezes, perguntome se devia ter chamado a polícia antes. Uma parte de mim pensa que a Margarida merecia viver a vida que queria, mas outra parte acha que precisava de perceber que o que fez estava errado.

Acham que fiz bem ao chamar a polícia? O que é que teriam feito vocês no meu lugar?

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