– Alô… Vasco – Não, não sou o Vasco. Sou a Helena… – Helena? Quem é você? … – Senhora, quem é a senhora? Sou a namorada do Vasco. Precisa de algo? … O marido não está, está atrasado no trabalho… Senti-me tonta, notei manchas vermelhas no chão. O ventre doía muito, eu me contorcia… Sentia que o bebé estava prestes a nascer.

Lembro-me, há já cinco invernos, de como o meu marido, Vasco, partia todos os anos em busca de um sustento melhor. Primeiramente trabalhou com caminhões na Luxemburgo, depois fez reparações nas fábricas da França. Era o dinheiro que o levava longe. Tínhamos dois filhos, Tiago e Rui, e desejávamos dar-lhes um futuro digno. Sabíamos, como muitos de nós, que aqui em Portugal dificilmente conquistaríamos algo maior.

Felizmente, o Vasco conseguiu enviarnos, uma vez por mês, pacotes com mantimentos: conservas, arroz, azeite, doces. Também transferia o dinheiro para a minha conta, para que eu fosse guardálo à taxa de juros do banco. Com o tempo, juntámos uma quantia razoável e consegui comprar ao filho mais velho um apartamento.

Parecia que tudo corria bem, até alguns meses atrás, quando senti algo estranho no meu corpo. A primeira ideia foi a menopausa, mas não era isso. Ganhei peso, dormia o dia inteiro, comia compulsivamente e o humor mudava abruptamente. A internet dizia que poderia estar grávida. Grávida aos quarentaecinco?, pensei. Fiz o teste e, na tira, apareceram duas linhas vermelhas claramente marcadas.

Não queria contar nada nem aos filhos, nem às noras. Para que serviria? Para que me ridicularizassem? Para que me dissessem que a mãe, na velhice, tinha perdido a cabeça? Decidi esconder a gravidez. O inverno se aproximava; vestia casacos pesados e, debaixo do sobretudo, ninguém via a barriga.

Mas, ao mesmo tempo, não queria ter aquele bebé. Alguns diriam que não tenho coração. Mas eu já tinha cinquenta anos, não era mais jovem. Tenho filhos e netos aos quais quero dedicar tempo, não ficar a mudar fraldas. Além disso, não tínhamos recursos para sustentar uma terceira criança. Vasco teria de regressar ao estrangeiro outra vez, e eu não podia ficar sem ele.

Os médicos advertiramme que já era tarde demais para uma cirurgia segura, e que poderia ser perigoso para a minha saúde. Por algum tempo procurei convencerme de que tudo ficaria bem. Talvez Vasco se alegrasse ao saber que teríamos outro filho? Decidi então ligar-lhe pelo Skype para partilhar a notícia, mas só ativei o microfone.

Alô, Vasc

Não é o Vasco. É a Maria.

Maria? Quem é?

Senhora, quem é a senhora? Sou a esposa do Vasco. Quer dizer alguma coisa? Ele não está aqui, ainda está no trabalho.

Desliguei a chamada e chorei amargamente. Fiquei a pensar que o marido poderia trairme em qualquer parte e com quem fosse. Quis imediatamente escrever a declaração de divórcio, jogar fora todas as coisas de Vasco e nunca mais o ver.

Mas ainda havia uma esperança: crer que o querido regressaria à família ao saber do bebé. Sabia que, em fevereiro, ele teria de vir, pois era o aniversário dos filhos e lhe tinham concedido licença. Sonhei que passeávamos três juntos no parque, com Vasco segurando a mão da nossa filha e eu a outra.

No dia 14 de fevereiro, Dia de São Valentim, Vasco chegou. Preparei um jantar romântico, espalhei velas, pus música tudo para criar um ambiente sereno.

Vasco, tenho uma surpresa para ti. Estou grávida. Dizem que será uma menina.

Ele, vermelho de ira, atirou pratos ao chão e bateu o punho na mesa:

Enquanto eu lá fora garanto o pão, tu andas a saltar de homem em homem? E ainda queres pendurarme na garganta como um saco de ferro?

Vasco, deixame explicar

Sai da minha vista! empurroume com tal força que o ventre bateu num canto afiado da mesa e caí.

Vasco saiu da casa, pegou a mala e bateu a porta com violência. Eu, atordoada, vi manchas vermelhas no chão. O peito doía, o abdómen apertava; mal consegui alcançar o telefone e chamar a ambulância. Sentia que o bebé ia nascer a qualquer instante.

Quando os médicos chegaram, já segurava a nossa filha nos braços. A menina dormia tranquila, não chorava, parecia estar a sonhar.

Então, mãe, vai viajar connosco?

Não. Levem a criança, não a quero.

Como assim?

Levem! Digo! Esta menina destruiu a minha família! Talvez alguém a ame, mas eu não. Basta, levem, não quero vêla!

Sem remorso, entregueia ao médico. O parto foi normal, sem complicações. Depois que a ambulância partiu, limpei a casa, tomei um banho e fui para a cama.

Ninguém dos meus filhos sabe que entreguei a menina. Todos os dias vou à igreja e rezo para que a filha cresça saudável, que encontre a sua família. Sei que não consigo suportar novamente o peso da maternidade. Quero apenas que Vasco volte para casa. Mas ele partiu novamente para a Alemanha, comunicandose só com os filhos.

Podem dizer que sou uma mulher insana. Mas eu escolho o marido, não a criança. E Deus será o meu juiz.

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