Tiago carregava em si a dor de ter se apressado a divorciar. Homens sábios transformam amantes em celebrações, e ele – em esposa.

Olha, deixei o carro na rua de Alfama, estacionei e fui direto para o prédio. Quando entrei, a rotina já me esperava: os chinelos à beira da porta, o cheirinho de jantar a invadir o corredor, a casa limpa, um vaso com flores frescas na mesa.

Não me surpreendeu nada: a esposa, a Lurdes, já estava lá, porque, afinal, o que faz uma mulher de sessenta e poucos anos o dia todo? Cozer bolos e tecer meias. Exagerei na parte das meias, claro, mas a ideia principal fica a mesma.

Lurdes apareceu com aquele sorriso que sempre tem, como se soubesse que eu chegava cansado:

Está morto? Fiz uns pastéis de bacalhau e de maçã, do jeito que gostas

E ficou em silêncio, encarando-me com aquele olhar que faz o coração bater mais forte. Ela vestia um macacão de casa, o cabelo preso num lenço sempre assim quando está a cozinhar.

A vida inteira trabalhou como cozinheira num restaurante do Bairro Alto, os olhos levemente delineados, os lábios com aquele brilho sutil. Essa maquiagem que eu, no meu momento de mau humor, achei vulgar. Cosmética para a sua idade, isso não combina, falei, sem pensar.

Lurdes ficou pálida, mas não se mexeu para pôr a mesa. Melhor assim. Os pastéis ficaram debaixo do pano, o chá já estava pronto eu mesmo podia cuidar disso.

Depois do duche e do jantar, a boa vontade voltou a mim, assim como as memórias do dia. Eu, de roupão felpudo, sentei-me na cadeira que parecia feita a minha medida e fingia estar a ler. Lembro-me da nova colega que me apresentou ontem:

Você é muito atrativo, além de interessante disse ela.

Tenho cinquenta e seis anos, sou chefe do departamento jurídico da grande empresa de telecomunicações que tem sede em Lisboa. Na minha equipa há um recémlicenciado e três mulheres acima dos quarenta. Outra colega saiu de licença maternidade e, no seu lugar, entrou a Catarina.

Na altura da contratação, eu estava em viagem de negócios e só a vi pela primeira vez hoje.

Convideia ao meu gabinete para nos conhecermos. Ela entrou com um perfume suave e um ar de juventude. O rosto oval era enquadrado por cachos claros, olhos azuis que transmitiam segurança, lábios carnudos e uma pequenina sardas na bochecha. Será que tem trinta? Eu não lhe daria nem vinte e cinco.

Divorciada, mãe de um menino de oito anos. Não percebi bem o porquê, mas pensei: Vamos lá!

Enquanto falávamos, eu deixei escapar um comentário meio arrogante sobre o fato de ela ter um chefe velho como eu. Catarina respondeu com um bater de cílios que me deixou sem jeito.

A Lurdes apareceu com o seu chá de camomila de sempre, sentouse ao lado da minha cadeira e, ao ver a cena, franziu o sobrolho: Sempre a mesma coisa.

Mesmo assim, bebi o chá com algum prazer. De repente, pergunteime o que uma jovem e bonita como a Catarina poderia estar a fazer aqui. Um ciúme antigo, que eu achava esquecido, voltou a picar.

***

Depois do trabalho, a Catarina foi ao supermercado do Campo de Ourique comprar queijo, pão e kefir para o jantar. Voltou para casa sem sorriso, mas abraçou o filho, o Tiago, que corria ao seu encontro.

O pai, eu, estava na varanda da nossa casa de campo, onde tenho a oficina, enquanto a mãe preparava a refeição. Assim que descarreguei as compras, reclamei de dor de cabeça e pedi que não me incomodassem. Na verdade, sentiame triste.

Catarina, que se separou do pai do Tiago há alguns anos, ainda carregava essa tristeza, tentando ser a mulher ideal para alguém. Todos os homens que considerou eram casados e queriam algo leve.

Acabou por trabalhar comigo, parecia estar apaixonada, dois anos intensos. Até aluguei-lhe um apartamento na realidade, para a minha conveniência. Mas, quando o cheiro de carne frita invadiu a casa, declarei que precisávamos separarnos e que ela deveria deixar o emprego.

Ela acabou por voltar a morar com os pais e o filho. A mãe dela, sempre a chorar, dizia que a filha merecia um futuro melhor, enquanto o pai acreditava que o menino devia crescer com a mãe, não só com avós.

Lurdes, minha esposa, percebeu há tempos que eu estava numa crise de meiaidade. Tudo parecia estar bem, mas faltava algo essencial. Tentei suavizar a situação, preparando tudo o que eu gostava, mantendome bem arrumada, tentando conversar mais, embora sentisse falta de uma conexão mais profunda.

Talvez por isso, o romance entre mim e a Catarina despontou rápido. Duas semanas depois de sua chegada, convideia para almoçar e leveia para casa. Quando toquei a mão dela, virouse para mim com um rubor encantador.

Não quero terminar. Que tal irmos à minha casa de campo? dizia eu, rouco.

Ela concordou e o carro arrancou.

Às sextasfeiras eu saía do escritório uma hora mais cedo, mas só por volta das nove da noite recebia uma mensagem da Lurdes: Amanhã falamos.

Eu nem imaginava o quanto aquela frase carregava peso. Lurdes sabia que, depois de trinta e dois anos de casamento, não era fácil manter a chama acesa. Mas eu era tão familiar a ela que perdera seria perder uma parte de mim mesmo. Mesmo que eu resmungasse, bronzasse ou fosse meio teimoso, permanecia no meu querido sofá, jantava e respirava ao lado dela.

Lurdes, em busca de palavras para salvar o que restava, ficou acordada até de madrugada, folheando o álbum de casamento, lembrandonos jovens, radiantes. Pensou que talvez eu retornasse, que veria os fragmentos da nossa felicidade e perceberia que nem tudo pode ser descartado.

Mas eu só voltei no domingo, e ela percebeu: tudo havia acabado. Na frente dela, um outro eu surgia, cheio de energia, sem vergonha. Enquanto a Lurdes temia mudanças, eu ansiava por elas e as aceitava de prontidão, decidido a não ouvir objeções.

A partir daí, Lurdes sentiuse livre. Irá pedir o divórcio amanhã, sozinha. O filho, com a família, vai mudarse para a casa da Lurdes. Legalmente, o apartamento de dois quartos onde moravam pertence a mim, herdado dos meus pais.

O nosso lar de três quartos, que a mãe do menino já habitava, não vai ser afetado; ele terá alguém para cuidar dele. O carro, claro, ficará comigo. Quanto à casa de campo, deixoa ao meu critério.

Lurdes sabia que parecia triste e sem graça, mas não conseguiu conter as lágrimas. Elas atrapalhavam a fala, fazia-me parecer confuso. Pedi que parasse, que lembrasse da saúde, pelo menos a sua Isso acabou por irritarme. Cheguei perto, sussurrei, como se fosse um grito:

Não me puxe para a tua velhice!

Não é justo dizer que a Catarina se apaixonou por mim e aceitou o meu convite na primeira noite na casa de campo. O fato de eu ser casado a atraía, e a rejeição do meu exmarido só aumentava a curiosidade.

Cansavame viver num apartamento onde o pai impunha regras severas. Queria estabilidade, e o Márcio (eu) oferecia isso. Não era a pior opção, admitia eu.

Mesmo com mais de sessenta, ainda pareço um senhor, mas ainda me sinto jovem. Chefe do departamento, inteligente, simpático, e, no quarto, não tão egoísta. Não preciso de apartamento alugado, nem de dinheiro extra, nem de roubos. Só havia dúvidas sobre a idade.

Um ano depois, a Catarina começou a sentir desilusão. Sentiase ainda menina, queria aventuras, concertos, parques aquáticos, bronzeado na praia com biquíni provocante, sair com as amigas. Com a energia da juventude, combinava tudo isso com o dia a dia e o filho não a atrapalhava.

Já eu, experiente advogado, resolvia mil questões diariamente, mas em casa mostravame cansado, precisando de silêncio e respeito pelos meus hábitos. Recebia visitas, teatro, praia, mas tudo às doses.

Não recusava intimidade, mas logo se deitava, por volta das nove da noite.

Além disso, o meu estômago fraco não suportava frituras, enchidos ou refeições prontas. A exesposa, claro, ainda me provocava.

Às vezes, sentiame nostálgico pelos pratos a vapor que ela fazia. A Catarina cozinhava para o filho, sem entender como um bife de porco podia doer a costa.

Ela não se lembrava das medicações que deveria tomar, achando que eu, como adulto, poderia gerir tudo sozinho. Assim, grande parte da sua vida passou sem mim.

Levar o filho consigo, considerar os interesses dele, reunirse com amigas tudo isso a fazia sentirse mais jovem, embora a minha idade a empurrasse a acelerar a vida.

Já não trabalhávamos juntos, porque a direção achava antiético. A Catarina mudouse para um escritório de notas. Até suspirou aliviada por não ter que ficar o dia inteiro sob o meu olhar, que lhe lembrava o pai.

Respeito era o sentimento que a Catarina nutria por mim. Quem sabe se bastava ou era suficiente para a felicidade?

Chegava ao meu sexagésimo aniversário, e eu queria uma festa grandiosa. Mas eu mesmo reservei mesa num restaurante pequeno e familiar, onde já tinha estado muitas vezes. Acredito que, na minha idade, é normal cansarse.

Os colegas que ainda conversavam comigo, com a Lurdes, eram difíceis de convidar. A família estava longe e não encontrava compreensão ao casarme com alguém tão jovem.

O filho não apareceu mais. Recusouse a aceitar a situação. Mas quem tem direito de decidir a própria vida, senão eu? Quando me casei, pensei que gerir seria outra coisa.

O primeiro ano com a Catarina foi como mel. Eu gostava de estar com ela em público, ria, incentivavaa a gastar (sem exageros), a praticar fitness, a assistir concertos barulhentos e filmes loucos. Fiz dela e do filho coproprietários do meu apartamento. Depois, até compartilhei a parte da casa de campo que tinha com a exesposa.

A Catarina, para me impedir, pediu à Lurdes que lhe entregasse a sua parte da casa. Ameaçou vender a fração da grande casa a ladrões. Quando o dinheiro chegou, eu comprei e transferi a casa de campo ao nome dela, alegando que ali havia rio e bosque, ótimo para a criança. Assim, durante o verão, os pais da Catarina e o neto viveram na casa de campo. Isso funcionou: eu não gostava do filho barulhento da jovem esposa. Casavame por amor, não para criar o filho de outrem.

A antiga família ficou ofendida. Com o dinheiro, venderam o apartamento de três quartos e, por algum motivo, se desfizeram. O filho encontrou um apartamento de dois quartos, e a Lurdes, a exesposa, mudouse para um estúdio. Como eles viviam, eu não me importava.

Chegou o dia do meu sexagésimo aniversário. Tantos amigos desejavamme saúde, felicidade, amor. Mas eu não sentia energia, há muito tempo. Cada ano trazia o mesmo descontentamento conhecido.

A moça jovem, sem dúvida, era amada, mas eu não conseguia acompanhála. Não conseguia dominála. Ela sorria, vivia ao seu jeito, sem me sobrecarregar. Eu sentia, mas isso irritavame.

Ah, se eu pudesse colocar na sua alma a energia da minha antiga esposa! Que ela viesse à cadeira com chá de camomila, cobrisseme com uma manta quando cochilasse. Eu adoraria passear lentamente no parque, sussurrar à noite na cozinha Mas a Catarina não aguentava os meus longos monólogos e, ao que parece, começou a se entediar na cama. O nervosismo dela atrapalhava.

Eu guardo um remorso por ter me precipitado no divórcio. Homens sábios transformam amantes em festa, mas eu transformeia em esposa!

A Catarina, com seu temperamento, ainda seria uma potra de dez anos, mas depois dos quarenta ainda pareceria muito mais jovem. Essa diferença só aprofundava o abismo. Se a sorte estivesse ao meu favor, terminaria a vida num instante; se não

Esses pensamentos não jubileus martelavam nas têmporas, acelerando o coração. Olhei para a Catarina, que dançava, linda, olhos cintilantes. Vera ao meu lado era felicidade, acordar e encontrála ao meu lado.

Saí do restaurante, queria respirar, clarear a mente. Mas colegasconvidados apareceram. Sem saber como lidar com a tensão crescente, peguei um táxi na rua e pedi ao motorista que fosse rápido. Depois decidiria o caminho.

Queria ir a um lugar onde só eu fosse importante, onde me esperassem, onde o tempo fosse valorizado e eu pudesse relaxar sem parecer fraco ou, pior ainda, idoso.

Liguei para o filho e, quase implorando, pedi o novo endereço da exesposa. Ele respondeu com um tom irritado, mas insistiu, dizendo que a questão era de vida.

Ele comentou:

Por que isso, pai?

Eu, surpreso, percebi que sentia falta de todos eles. Respondi sinceramente:

Não sei, filho.

Ele recitou o novo endereço. O motorista parou. Eu saí, sem querer conversar com a Lurdes na frente de testemunhas. Olhei para o relógio quase nove. Mas ela era como uma coruja que juntava a delicadeza do rouxinol.

Disquei a campainha.

Mas quem respondeu não foi a exesposa, e sim uma voz rouca, masculina. Ele disse que a Lurdes estava ocupada.

O que há com ela? Está bem? perguntei, preocupado.

Eu sou o marido, aliás! E tu, deve ser o Sr. Bulkevic respondeu ele.

Ele corrigiume, dizendo que eu era o exmarido, então não tinha direito a incomodar a Lurdes. Não achei necessário explicar que a amiga dela estava a tomar banho.

A velha paixão não oxida? perguntei, com sarcasmo de ciúme.

Não, fica prata respondeu ele brevemente.

As portas nunca se abriramEle hesitou um instante, sentindo o peso da porta que ainda não havia aberto. O corredor estreito cheirava a madeira velha e a fumaça de um cigarro antigo, lembranças de noites em que ele e Lurdes dividiam segredos à luz das lâmpadas amarelas. Quando finalmente empurrou a porta, encontrou a cozinha vazia, mas o som de um relógio de parede marcando o tempo como se fosse o último compasso de uma canção.

Na mesa, um envelope amarrotado esperava por ele. Sem saber quem o tinha deixado ali, pegou-o e, ao abrir, leu as palavras de Lurdes escritas a mão trêmula:

Não há culpa que nos defina, apenas o silêncio que nos consome. Se ainda houver um canto no teu coração onde a memória se recusa a morrer, permiteme ouvira. Eu não voltei para ser vítima do teu medo, mas para que possamos, ao menos uma vez, sentarnos e reconhecer o que nos foi dado.

A voz dela, ainda que distante, fez crescer dentro dele um nó que há muito tempo ele tentava desfazer. A casa, com seus pratos ainda quentes e a janela aberta para o som da rua, parecia um palco onde o passado e o presente se encontravam em um único ato.

Ele segurou o envelope como se fosse a última tábua de salvação. Em vez de fugir, decidiu permanecer. Sentouse ao redor da mesa, à luz branda de um candeeiro que lançava sombras suaves nas paredes, e começou a escrever, não mais para justificar, mas para confessar.

Lurdes, minha vida tem sido um mosaico de escolhas precipitada e de arrependimentos que só agora vejo com clareza. Eu procurei juventude em braços que não eram meus, fui cego ao valor da simplicidade que construímos juntos. O teu chá de camomila ainda tem o sabor de casa, e o teu sorriso ainda tem o brilho que me trouxe de volta ao ponto de partida.

A caneta deslizou, e com cada palavra, o peso em seu peito aliviava-se como se o vento de Alfama soprasse fora tudo o que ainda o prendia. Quando terminou, guardou a carta num envelope de papel reciclado e a deixou na caixa de correio da porta, ao lado da chave que ele não precisaria mais usar.

Naquela mesma noite, enquanto a lua refletia nas águas do Tejo, ele caminhou até a varanda da casa de campo que há anos permanecia vazia. O bosque sussurrava histórias antigas, e o rio cantava uma melodia que ele reconhecia como a própria vida fluindo, contornando pedras, mas nunca parando.

Ali, sob o céu estrelado, ele percebeu que o verdadeiro lar não era a casa que possuía, nem os bens que acumulava, mas o espaço que deixava nos corações das pessoas que amava. Lurdes, embora afastada, ainda habitava aquele canto da sua memória, e Catarina, apesar das feridas, havia lhe ensinado a fragilidade dos desejos não correspondidos.

Com o coração agora leve, ele sentouse na cadeira da varanda, colocou a mão sobre o peito e, pela primeira vez em muito tempo, ouviu o silêncio como um aliado, não como um inimigo. O futuro permanecia incerto, mas ele já não temia o desconhecido; ao contrário, abraçavao como uma nova canção de fado, pronta para ser cantada.

E assim, enquanto o vento acariciava as folhas e o som da cidade se misturava ao murmúrio da água, ele sorriu, sabendo que, finalmente, havia encontrado paz nas fissuras da própria história, e que, mesmo que as páginas já tivessem sido viradas, ainda havia espaço para escrever, com serenidade, o último verso da sua vida.

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