– Apartamento à venda com gato incluído, – declararam os herdeiros e abaixaram o preçoO gato, ao ouvir a campainha, subiu ao balcão e começou a miar como se protestasse contra a negociação.

Querido diário,

Hoje pendurei o telefone e, por alguns segundos, encarei a tela como se fosse ela quem tivesse cometido alguma falta.

Há vintedois anos trabalho como corretora de imóveis aqui em Lisboa. Já vendi apartamentos com dívidas, com parentes registrados nos contratos, com encanamentos antigos e até com vista para o cemitério. Uma vez o comprador trouxe um papagaio que xingava em três línguas. Mas nunca, até agora, incluí um gato como cláusula adicional no contrato.

Vamos recapitular os termos murmurei para mim mesma, folheando o bloco de notas. Dois quartos, Avenida da Liberdade, terceiro andar, sessenta e dois metros quadrados. A proprietária faleceu em janeiro. Os herdeiros filho e filha de Porto querem vender rápido. O gato não vai ser recolhido, nem entregue ao canil; a eutanásia está fora de questão. Gato incluído.

Suspirei e acrescentei ao anúncio a frase que faria qualquer advogado estremecer: «Inclui gato. Negociação permitida».

A primeira visita aconteceu num sábado. Abraquei a porta e deixei entrar a compradora uma mulher alta, de uns cinquentaecinco anos, vestida com um sobretudo cinzento. Ela cruzou o limiar, parou para cheirar o ar da casa, um aroma que lembro bem: sabonete de lavanda, livros velhos e um leve toque de valeriana.

Boa tarde, sou Benedita Pereira disse ela, sem estender a mão. Onde está o seu bónus?

O gato, Marquês, estava recostado no peitoril da janela da sala grande, enorme, pelagem amarelabranca. Olhava fixamente para Benedita, sem piscar, sem medo nem curiosidade, apenas com uma paciência cansada e infinita.

Aqueles olhares são de quem já foi abandonado.

Benedita percorreu o apartamento em silêncio, deslizou o dedo pelos lombos dos livros na estante Chekhov, Paustovsky, Astafiev já bem gastos nas capas. Olhou a cozinha, onde pendia um calendário rasgado na data de 17 de janeiro. No peitoril, três vasos com gerânio seco e uma tigela vazia, colocada exatamente ao lado da perna esquerda do banquito.

Alguém alimenta o gato? perguntou, sem se virar.

A vizinha, respondi. Tamara, número 36, vem duas vezes ao dia. Os herdeiros pagam-lhe um troco por isso. É pouco, mas paga.

Benedita voltou à sala. Marquês não mudou de postura: ainda no peitoril, com as patas dianteiras recolhidas, olhando para o pátio onde balançavam ao vento os telhados de fevereiro e, entre eles, uma mulher com um carrinho de bebé.

Como se chama?

Marquês. Foi assim que os herdeiros o batizaram.

Marquês repetiu Benedita, sem expressão. O gato não girou a cabeça.

Três dias depois, Benedita ligou.

Marina, pensei… O bairro é bom, o metro está próximo. Mas o preço ainda está acima de mercado, mesmo com o bónus. Preciso de um desconto de mais trezentos euros para fechar.

Vou tentar negociar.

Os herdeiros cederam duzentos euros; Benedita aceitou.

A escritura demorou três semanas. Ela voltou ao apartamento duas vezes mais com fita métrica e bloco de notas medindo paredes, anotando, calculando. Marquês observava. Na segunda visita, enquanto ela se agachava à janela para verificar o radiador, o gato saltou do peitoril, aproximouse e sentou a meia passo de distância.

Olá, disse ela ao felino.

Marquês piscou lentamente, uma única vez, e virou o rosto.

No dia da assinatura, Tamara apareceu uma mulher baixinha, de olhos assustados, vestida de sarja. Esperou Benedita na porta.

É a nova dona? perguntou.

Espero que sim.

Deixa eu contar sobre o Marquês. A antiga dona, Nina, como dizia, era quase um anjo. Há dez anos ela o encontrou, encolhido na escadaria, todo sujo, no mês de novembro. Alimentouo, cuidouo. Desde então ele não se afastou dela nem um passo.

Tamara fez uma pausa, baixou a voz:

Quando Nina desabou, teve um AVC, exatamente na cozinha, e o gato ficou ao lado da cabeça dela. A ambulância arrombou a porta; o gato não saiu do lado dela.

Benedita, ainda no vão da porta, segurava um maço de chaves novas: três delas, duas para as trancas, uma para a caixa de correio, que agora ninguém mais abriria.

Ele não faz mal continuou Tamara. Não arranha, não estraga móveis. Só… não vem ao colo. Eu dou-lhe comida, ele só come quando eu estou fora. Coloco a tigela na porta, mas ele foge assim que volto. Nunca se aproximou de mim.

Será medo?

Não, ele espera. Às seis horas da noite, senta à porta e observa. Nina voltava da caminhada sempre às seis.

Benedita mudouse num sábado. Levei só o essencial; aprendi a viver à míni­mo. Vinte anos como enfermeira de cardiologia, depois chefe de serviço, depois demissão, aluguel numa habitação da zona de Alvalade, joelhos doloridos e alma cansada. Ter um apartamento próprio era um sonho antigo que, com o tempo, virou plano concreto. Poucos euros aqui, poucos ali, nove anos de poupança.

Os carregadores trouxeram o sofá, dois armários, caixas de louça. Marquês sumiu. Encontreio na despensa, enfiado atrás da tábua de passar roupa, imóvel, orelhas apertadas contra o chão.

Eu entendo falei ao gato. Está difícil para nós dois.

Coloquei a tigela ao lado da perna esquerda do banquito, no mesmo lugar onde estava antes, e saí, fechando a porta da cozinha. De manhã, a tigela estava vazia.

Um mês passou. Vivíamos paralelamente sob o mesmo teto, mas em mundos diferentes. Levantome às seis, tomo café na cozinha e vou ao plantão. Consegui um posto numa clínica da Rua da Constituição, não mais em cardiologia, mas ainda cuidando de gente.

Marquês só aparecia na cozinha ao ouvir o trancamento da porta. Eu sabia disso porque deixava, sobre a mesa, um fio de cabelo grisalho, atravessado na tigela. Cada noite o cabelo permanecia no chão; então ele havia comido.

À noite, sentavame na poltrona junto à janela e lia os mesmos livros que Nina deixara nas estantes. O Chekhov estava todo rabiscado nas margens: exclamações, palavras soltas «sim», «exato», «e eu também». Ler aquelas anotações trouxe uma estranha sensação de reconhecimento, como se a mulher que nunca conheci falasse comigo.

Marquês, entretanto, ficava no corredor, junto à porta de entrada, exatamente às seis, esperando.

Em março, adoeci. A gripe me derrubou num dia: febre de 39°C, garganta inflamada, dores em cada articulação. Liguei para o trabalho, tomei paracetamol e fui para a cama. Levantarme para comer era impossível; levantarme para alimentar o gato também.

Marquês chamei, rouca, do quarto. Desculpa, não consigo agora.

Silêncio.

Adormeci num sono pesado e zumbido. Acordei com um peso nas pernas, não tão forte, apenas quente e vivo. Marquês estava enroscado aos meus pés, enrolado como um pão, olhandome sem piscar, sério, atento. Pela primeira vez em um mês não estava no corredor, nem na despensa, nem atrás da tábua de passar; estava ali, ao meu lado.

Não me mexi. Tinha medo de que, se me levantasse, ele fosse embora. Olhamosnos em silêncio, aquele silêncio onde as palavras são desnecessárias porque tudo já foi dito.

Você já sabia, não é? sussurrei.

Marquês abaixou a cabeça sobre as patas e fechou os olhos. Não partiu.

Fiquei doente por três dias; ele ficou aos meus pés o mesmo tempo. Só se aproximava da tigela para comer; eu, ainda fraquinha, conseguia levantar, colocar ração e ele voltava. No terceiro dia, quando a febre cedeu e eu estava enrolada num cobertor na cozinha, com uma tigela de caldo, Marquês saltou no banquinho, sentouse ao meu lado e miou suavemente, como se estivesse reaprendendo a voz.

Coloquei a chávena, tirei os óculos e estendi a mão devagar, palma virada para cima.

Marquês cheirou os dedos, encostou a testa na minha mão e fechou os olhos.

Lágrimas escorreram pelo meu rosto, não de ternura, mas de uma compreensão repentina: eu tinha comprado uma vida alheia, com livros alheios e um gato alheio, porque a minha própria vida estava vazia. Ele, por sua vez, ficou preso numa vida que não era sua, com uma mulher que não era a sua. Dois encargos, dois bónus, duas criaturas extra.

Agora, sentamos juntos na cozinha: ele com seus quinze anos felinos, eu com meus cinquenta e seis anos humanos, e ambos sentimos o calor compartilhado.

Marquês ronronava enquanto eu pressionava a mão na sua cabeça pesada, pensando que talvez, só talvez, aquilo fosse o que chamam de destino: nada se pede, nada se procura, e ainda assim chega.

Em maio, tirei o papel de parede antigo, aquele com florzinhas marrons que escurecia o ambiente, pintei as paredes de um marfim acolhedor. O linóleo ainda está lá ainda não dá para trocar tudo de uma vez mas isso já não importa. O apartamento deixou de ser alheio.

Os livros de Nina permaneceram na estante; acrescentei os meus cerca de uma dezena e meia. O Chekhov, ainda com as anotações, continua no mesmo canto. Às vezes, à noite, abro o volume e leio não a história, mas os marginalia: os sim, exato, e eu também. Assentome e aceno.

A gerânia morta foi descartada logo ao entrar; plantei uma nova, no mesmo peitoril onde Marquês havia observado na primeira visita. Agora ele aparece menos ali, mais na poltrona ao meu lado, ou nos meus joelhos quando a noite se estende e o livro é bom.

Ele já não vai mais à porta às seis.

Em junho, cruzamosnos por acaso no supermercado Continente, na Avenida da Liberdade. Benedita estava na fila, com ração para gato e um pacote de iogurte.

E a casa? perguntei. Valeu a pena?

Não me arrependo respondeu ela, trocando o saco de ração de uma mão para a outra. Sabe, reduziram o preço demais. Deveriam ter subido.

Rimos, eu ri; ela, porém, não. Não era brincadeira.

Em casa, Marquês esperava-me no vestíbulo, ao lado dos meus chinelos. Era o seu novo lugar. Quando o trinco clicou, levantou a cabeça, piscou lentamente assim se cumprimenta quem espera há tanto tempo.

Assim, aprendi que às vezes o que realmente esperamos chega sem avisar, e o que menos esperamos pode ser exatamente o que nos salva.

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