– O mar está cancelado – disse o Rui, sem tirar os olhos do telemóvel. – A minha mãe vem para cá.
Eu estava no meio do quarto com a mala aberta. Na mão, um biquíni novo, ainda com a etiqueta. O primeiro em sete anos.
– Como assim, cancelado? – perguntei, pousando o biquíni na cama. – Os bilhetes estão comprados. Não reembolsáveis. Dois mil e oitocentos euros, Rui.
Ele esfregou a ponte do nariz e sentou-se na borda do sofá. Era o gesto que fazia sempre que a conversa não ia para o lado que ele queria.
– E o que é que eu hei de fazer? Ela já comprou o bilhete de comboio. Chega depois de amanhã. Não lhe vou dizer para se virar.
Sete anos de casados. E nestes sete anos, nunca tinha tirado férias. Nem praia, nem termas, nem um fim de semana noutra cidade. Nada. No primeiro ano, a lua de mel no Algarve – três dias, porque a Dona Amélia ligou a dizer que tinha a tensão alta. Voltámos para casa. A tensão era 13-8, normal para a idade dela. Eu sabia disso porque sou farmacêutica e vejo aqueles números nas receitas todos os dias.
Desde então, nem uma única viagem. Sempre que planeávamos descansar, aparecia a Dona Amélia. Quarta vez em sete anos. Como num relógio.
– Rui – sentei-me ao lado dele, tentando manter a voz calma. – Andámos a poupar para estas férias quatro meses. Fiz turnos extra. Doze horas por dia. Tu viste como eu chegava a casa.
– Vejo – ele continuava a olhar para o telemóvel. – Mas a minha mãe é mais importante.
Ajeitei os óculos. Os dedos escorregaram – tinha as mãos secas, gretadas do antissético. Oito anos na farmácia, a pele como lixa.
– Mais importante do que quê? – perguntei.
– Mais importante do que o mar, Joana – ele por fim olhou para mim. – A minha mãe está sozinha. Tem setenta e quatro anos. Tu não percebes?
Eu percebia. Percebia que a Dona Amélia vivia em Braga, no seu T3, com uma amiga vizinha que lá ia todos os dias. Que ela própria ia ao mercado, carregava os sacos, fazia as conservas de inverno – vinte frascos de cada vez. E que cada «visita» dela começava com a mesma chamada ao Rui: «Filho, tenho saudades, vou aí uma semanita.»
A «semanita» esticava para duas. Depois para três. Uma vez, a Dona Amélia ficou um mês e só foi embora porque a vizinha ligou a dizer que lhe rebentara um cano em casa.
– Eu não vou cancelar – disse eu. – Vai tu. Recebe a tua mãe. Eu vou de avião.
O Rui ergueu a cabeça. Como se eu tivesse dito algo obsceno.
– Vais para onde? Sozinha? Sem o teu marido?
– Com a Mafalda.
– Não – levantou-se. – Não, Joana. Somos uma família. Ou vamos todos, ou não vai ninguém.
E eu cedi. Como nas quatro vezes anteriores. Guardei o biquíni no armário, fechei a mala e pu-la no estrado.
Dois mil e oitocentos euros pelo cano. Não reembolsáveis.
Dois dias depois, a Dona Amélia estava no hall de entrada com um saco de viagem xadrez e um frasco de pickles caseiros.
– Então, mostrem lá como estão as coisas – disse ela, a examinar o corredor. – Este papel de parede já devia ter sido mudado. Rui, tu e a tua esposa não cuidam da casa, pois não?
***
A Dona Amélia ficou três semanas.
Nos primeiros dois dias, reorganizou a cozinha toda. As panelas noutro armário. As especiarias noutra prateleira. As tábuas de corte debaixo do lava-loiça, «porque é mais higiénico». Eu trabalhava doze horas por dia e chegava a uma casa onde não encontrava nada.
– Dona Amélia – disse ao terceiro dia, a abrir um armário à procura da frigideira. – Eu estou habituada a uma certa arrumação. É-me mais prático ter tudo no seu lugar.
Ela olhou para mim por cima dos óculos. Um olhar pesado de cima para baixo – apesar de eu ser meia cabeça mais alta.
– Tu, Joana, estás habituada à desarrumação. Isto não é arrumação, é caos. Quem é que põe uma frigideira ao lado dos cereais?
– É-me mais prático – respondi.
– A mim, não. E ao Rui também não. Não é, Rui?
O Rui estava sentado à mesa com o telemóvel, calado. Os ombros encolhidos, como sempre quando a mãe se dirigia a ele.
– Mãe – disse ele. – Pronto, está bem.
«Pronto, está bem» foi tudo o que ouvi. Nem «a Joana tem razão» nem «mãe, isto é a cozinha dela». «Pronto, está bem.»
Ao quinto dia, a Dona Amélia pegou nas cortinas. Eu tinha-as comprado no ano passado – de linho, cor de mostarda, escolhidas durante duas semanas para combinar com o estofo do sofá e as almofadas. Oitenta euros.
Chego a casa do trabalho – as cortinas estão em cima do sofá, dobradas. Nas janelas, uma renda branca que a Dona Amélia trouxe na mala.
– O que é isto? – perguntei.
– Isto são umas cortinas a sério – disse ela, batendo com o dedo na mesa. – Não esses trapos. Mostarda é cor de hospital, não é para casa.
Fiquei calada três segundos. Depois tirei a renda, dobrei-a e pu-la no banco. Fui buscar as minhas cortinas e comecei a pendurá-las.
As mãos não tremiam. Desta vez, não.
– O que é que estás a fazer? – a voz da Dona Amélia ficou mais baixa.
– Estou a pendurar as minhas cortinas – respondi sem me virar. – Gosto das minhas cortinas. Esta é a minha casa. E a cor das cortinas sou eu que escolho.
Silêncio durou uns cinco segundos. Depois a Dona Amélia levantou-se da mesa e saiu da sala. Ouvi-a marcar um número no hall. A voz baixa, mas dava para perceber: «Rui, a tua mulher está a faltar-me ao respeito. Não estou habituada a este tratamento.»
O Rui chegou do trabalho mais cedo do que o normal. A porta bateu com tanta força que a Mafalda, no quarto dela, deu um pulo.
– O que é que fizeste? – perguntou da entrada.
– Pendurei as minhas cortinas.
– A minha mãe está chateada! Trouxe-as para nós, fez questão, e tu nem agradeceste!
Olhei para ele. Para aqueles ombros largos que agora estavam direitos porque a mãe não estava na sala, mas sim no quarto ao lado. Com ela, ele encolhia-se. Comigo, endireitava-se.
– Rui – disse eu. – Agradeci pelos pickles. Pela compota. Pelas empadas. Mas as cortinas da minha casa escolho-as eu.
– É NOSSA casa!
– Então porque é que as decisões são tomadas pela tua mãe?
Ele não respondeu. Esfregou a ponte do nariz, virou-se e foi ter com a mãe.
Ao serão, a Mafalda veio ter comigo à cozinha. Caladinha, com um livro na mão, como se viesse buscar água.
– Mãe – disse ela. – Ele liga-lhe sempre. Antes de cada viagem. Eu ouvi.
– O que é que ouviste?
– Ele diz: «Mãe, estamos a planear ir para tal sítio nessa data.» E ela aparece. Sempre.
Pousei o bule no fogão e fiquei a ouvir a água a ferver. Então não era coincidência. Nem acaso. Quatro vezes seguidas – era um sistema.
A Mafalda estava ali ao lado, a mexer-se de um pé para o outro.
– Mãe, estás bem?
– Estou – respondi. – Vai fazer os trabalhos de casa.
Mas não estava nada bem. Peguei no telemóvel, abri as notas e comecei a somar. Primeira vez – lua de mel no Algarve, pacote para três, mil e duzentos euros. Segunda – Madeira, há dois anos, mil e novecentos. Terceira – Porto, na primavera passada, bilhetes e hotel, quinhentos euros. Quarta – estes dois mil e oitocentos.
Seis mil e quatrocentos euros. Em sete anos. Todos perdidos.
E o Rui, entretanto, levara a mãe duas vezes a Caldas da Rainha. Pacotes termais. Ambas as vezes pagas do dinheiro do casal.
Fechei as notas, guardei o telemóvel e servi-me de chá. As mãos estavam calmas. A decisão ainda não estava tomada, mas qualquer coisa já se tinha mexido lá dentro.
Um mês depois da partida da Dona Amélia, convidei uma amiga para jantar. A Carla trabalhava comigo na farmácia, conhecíamo-nos há nove anos.
O Rui tinha ido ver futebol a casa de um amigo. A Mafalda estava no quarto. A Carla e eu abrimos um vinho, cortámos queijo, sentámo-nos na cozinha. A primeira noite descansada em muito tempo.
–Então, como estás? – perguntou a Carla. – Para onde vais este verão?
– Para lado nenhum – respondi, a sorrir. Já estava habituada à pergunta.
– Outra vez?
– Outra vez.
A Carla abanou a cabeça. Ela sabia. Toda a gente sabia.
E nesse instante tocou a campainha. Fui abrir – a Dona Amélia estava à porta. Com um saco de viagem e um frasco.
– O Rui disse que viesse, que estavas sozinha – disse ela. – Resolvi fazer-te uma visitinha. Há tanto tempo que não nos vemos.
Um mês. Tinha passado um mês. E aquele «há tanto tempo».
Ela entrou, viu a Carla, sentou-se à mesa. Servi-lhe chá porque a Dona Amélia não bebia vinho nem aprovava quem o fazia.
Uns dez minutos, a conversa foi normal. Depois a Carla perguntou:
– Dona Amélia, a senhora costuma viajar?
E começou.
– Pois claro! – a Dona Amélia endireitou-se na cadeira. – O Rui levou-me a Caldas da Rainha. Duas vezes. Banhos termais, massagens, serra. Uma maravilha!
Virou-se para mim.
– E tu, Joana, onde é que andaste ultimamente? Não vejo nenhuma foto tua. Em lado nenhum, pois não?
Ajeitei os óculos.
– Não – respondi. – Em lado nenhum.
– Está a ver? – a Dona Amélia dirigiu-se à Carla, como se estivesse a explicar o óbvio. – Nova, com saúde, e não vai a lado nenhum. O Rui convida-a, ela recusa. A culpa é dela. Na idade dela, eu já tinha percorrido o Algarve inteiro.
A Carla olhou para mim. Reparei que apertou os lábios.
– Dona Amélia – disse a Carla. – A Joana não viaja porque não quer.
– Então porquê?
A Carla calou-se. Olhou para mim a pedir autorização.
E fui eu que respondi.
– Porque, sempre que compramos bilhetes, a senhora aparece – disse eu. A voz firme. Não gritei. Apenas enumerei. – Quatro vezes em sete anos. Lua de mel – ligou e voltámos. Madeira – chegou um dia antes do voo. Porto – a mesma coisa. Este ano, o mar. Dois mil e oitocentos euros não reembolsáveis. Ao todo, seis mil e quatrocentos. Eu somei.
A Dona Amélia parou de bater com o dedo na mesa. A mão ficou a meio caminho do chávena.
– O que é que estás a dizer?
– Estou a dizer números – respondi. – Não acusações. Números. Se precisar, digo-lhe as datas.
Silêncio.
A Carla levantou-se, disse que tinha de ir. Acompanhei-a à porta. Quando voltei à cozinha, a Dona Amélia já estava a ligar ao Rui.
Vinte minutos depois, ele entrou em casa como um furacão.
– Porque é que envergonhaste a minha mãe à frente de estranhos? – estava no hall, ainda com os sapatos calçados.
– Não a envergonhei. Disse-lhe as quantias.
– Que quantias? Do que é que estás a falar?
– Dos seis mil e quatrocentos euros que perdemos em viagens canceladas. Durante todo o nosso casamento.
O Rui olhou para a mãe. A Dona Amélia estava à porta da cozinha, de braços cruzados.
– Filho – disse ela. – Ou eu, ou ela.
– Mãe – o Rui esfregou a ponte do nariz.
– Ela tem de pedir desculpa – cortou a Dona Amélia.
O Rui virou-se para mim.
– Joana. Pede desculpa à minha mãe.
Tirei os óculos, limpei-os à bata. Sem eles, tudo ficava desfocado – o Rui, a mãe dele, o hall com os sapatos deles.
– Não – respondi. – Não peço.
– Então vou para casa da minha mãe – disse ele. – Até tu voltares a ti.
– Está bem – respondi.
Ele esperava outra resposta. Percebi pelo queixo que tremeu. Mas eu calei-me, e ele também. Depois pegou no casaco e saiu. A Dona Amélia foi atrás. O frasco de pickles ficou no hall.
Sentei-me no banco da cozinha vazia. As pernas doíam do turno. Doze horas ao balcão, e depois aquilo. Mas por dentro estava claro – como o céu depois de uma trovoada.
Ele voltou três dias depois. Sem pedidos de desculpa. Sem conversa. Simplesmente entrou, pendurou o casaco e sentou-se para jantar. A Dona Amélia tinha voltado para Braga.
Mas uma semana depois, o Rui começou a falar comigo em frases curtas. «O jantar está pronto?», «Onde está a minha camisa?», «Vai buscar a Mafalda.» E percebi que ele me estava a castigar com o silêncio. Por não me ter desculpado.
E uma semana depois, comecei a pôr dinheiro de parte. Numa conta separada. Da qual ele não sabia.
O ano passou depressa. A Mafalda fez dezasseis anos e tratei eu do passaporte dela. O Rui assinou a autorização sem sequer perguntar para quê. Ele estava-se nas tintas, desde que a mãe não ligasse.
Em Maio, comprei os bilhetes. Dois – eu e a Mafalda. Madeira, hotel três estrelas, nove noites. Paguei da minha conta – aquela de que o Rui não sabia. Quarenta e sete euros do ordenado todos os meses. Ao fim de um ano, deu.
Comprei bilhetes reembolsáveis. Desta vez, aprendi com a experiência.
E disse ao Rui:
– Vamos todos juntos. Em Junho. Encontrei uma boa opção.
Ele olhou para mim como se eu falasse outra língua. Depois acenou.
– Está bem. Vamos tentar.
Duas semanas esperei. Fiz as malas. Comprei umas sandálias novas e um chapéu de pala para a Mafalda. Para mim, um protetor solar que na farmácia custava vinte por cento menos por causa do desconto de funcionária.
Quatro dias antes do voo, o Rui chegou do trabalho mais tarde. Sentou-se à mesa, pôs o telemóvel virado para baixo. Eu já conhecia aquele gesto. Telemóvel virado para baixo – queria dizer que tinha ligado à mãe. Ou ela a ele.
– Joana – começou ele.
E senti os dedos a apertarem-se. As unhas cravaram-se nas palmas. Não de raiva – de espera. Porque já sabia o que ele ia dizer. Sabia com quatro dias de antecedência.
– A minha mãe vem para cá. Tenho de a ir receber.
– Quando? – perguntei, embora já soubesse a resposta.
– Depois de amanhã.
Depois de amanhã. Dois dias antes do voo.
– Rui – disse eu. – Ligaste-lhe?
– O quê?
– Ligaste-lhe e contaste que íamos para a Madeira?
Ele desviou o olhar. Esfregou a ponte do nariz. E percebi – sim. Ligou. Como nas quatro vezes anteriores. Disse a data, disse o destino, e a Dona Amélia comprou logo o bilhete de comboio. Como um relógio.
– Ela tem saudades – disse o Rui. – Este ano faz setenta e cinco.
– Setenta e quatro – corrigi. – Faz setenta e cinco em Novembro.
Ele fez um gesto com a mão.
– Que diferença faz. A minha mãe está sozinha. Só tem a nós. O mar não vai fugir.
E foi então que me lembrei. Sete anos inteiros. Cada «o mar não vai fugir». Cada biquíni com etiqueta. Cada mala que tirava e voltava a guardar. Seis mil e quatrocentos euros. Quatro viagens canceladas. Turnos de doze horas que me deixavam as mãos gretadas.
– Está bem – disse eu.
O Rui suspirou. Relaxou. Pensou que eu tinha cedido outra vez.
– Boa miúda – disse ele. – Vou ligar à minha mãe a dizer para trazer os lençóis dela, que nós temos poucos de reserva.
Assenti. Saí da cozinha. Entrei no quarto da Mafalda.
– Faz a mala – disse-lhe. – Nós vamos depois de amanhã.
A Mafalda ergueu os olhos do telemóvel.
– Mãe, ele disse que…
– Sei o que ele disse. Faz a mala. Biquíni, livros, carregador. O passaporte está comigo.
A Mafalda olhou para mim uns três segundos. Depois sorriu – pela primeira vez num mês – e foi buscar a mochila.
Voltei à cozinha. O Rui estava à mesa com o telemóvel, já a combinar com a Dona Amélia que lençóis ela devia trazer.
– Rui – disse eu. – Eu não vou cancelar os bilhetes.
Ele levantou a cabeça.
– Como?
– Como ouviu. Eu e a Mafalda vamos. Tu ficas. Recebe a tua mãe.
O telemóvel emudeceu. A Dona Amélia, do outro lado, também deve ter calado.
– Estás a falar a sério? – perguntou ele.
– Sete anos, Rui. Sete anos sem férias. Quatro vezes deitámos dinheiro ao lixo. Eu trabalho seis dias por semana, doze horas por dia, e tenho as mãos todas gretadas do antissético. Tenho quarenta e oito anos. E quero ver o mar.
– E a minha mãe? O que é que lhe digo?
– Diz que a tua mulher foi de férias. Pela primeira vez em sete anos.
Ele levantou-se. A cadeira arrastou no chão.
– Joana, se fores – hesitou. – Isto é uma falta de respeito. À minha mãe. A mim.
– E quatro férias canceladas foram respeito por mim?
Ele não respondeu. Ficou ali, a apertar o telemóvel. Do altifalante ouviu-se a voz da Dona Amélia: «Rui! O que se passa? O que é que ela está a dizer?»
Virei costas e saí da cozinha.
Não dormi essa noite. Fiquei no quarto da Mafalda a verificar os documentos. Dois passaportes – o meu e o da minha filha. Reserva do hotel. Seguro. Transfer. Tudo pago.
De manhã, escrevi um bilhete. Curto, num pedaço de papel do bloco:
«Rui, eu e a Mafalda fomos. Voltamos daqui a dez dias. Recebe a tua mãe. Precisávamos destas férias. Joana.»
Pousei o bilhete na mesa da cozinha, ao lado do caneco dele. Peguei nas duas malas, acordei a Mafalda, chamei um táxi.
À porta, olhei para trás. A casa estava silenciosa. O Rui dormia.
– Vamos – disse eu à Mafalda.
No táxi, ela esteva calada uns cinco minutos. Depois perguntou:
– Mãe, ele vai ficar zangado?
– Vai – respondi.
– E depois?
Olhei pela janela. A cidade matinal passava – cinzenta, habitual. Dali a quatro horas, ia ver o mar. Pela primeira vez em sete anos.
– E depois, nada – respondi.
No aeroporto, desliguei o telemóvel. Liguei-o só no avião, quando já estávamos a ganhar altitude. Doze chamadas não atendidas do Rui. Três mensagens da Dona Amélia: «Joana, o que é que estás a fazer?», «Devolve a miúda!», «Isto não vai ficar assim!».
Guardei o telemóvel na mala. A Mafalda, ao lado, lia um livro. Lá fora, pela janela, havia nuvens.
O mar estava quente.
Passaram três semanas. Eu e a Mafalda voltámos morenas. No frigorífico, os frascos de pickles – a Dona Amélia tinha trazido. Na mesa, o meu bilhete, o mesmo. O Rui não o tinha tirado.
Ele estava na sala quando entrámos. Olhou para nós e não disse nada. Depois levantou-se e foi para o quarto. A porta fechou-se.
Desde então, dorme no sofá da sala. Fala comigo através da Mafalda: «Diz à tua mãe que estou no trabalho», «Pergunta à tua mãe onde está o talão». A Dona Amélia telefona todas as noites. A Mafalda diz que ouve pela parede: «Filho, ela não te respeita. Isto não é uma esposa, é um castigo.»
E eu durmo descansada. Pela primeira vez em sete anos. Na mesinha de cabeceira, uma concha que a Mafalda encontrou na praia.
O meu marido diz que eu traí a família. A minha sogra diz que abandonei o marido por umas férias. E eu penso que, depois de sete anos sem um único dia de descanso, se pode uma vez decidir por si própria.
Exagerei com o bilhete e a fuga? Ou, ao fim de sete anos sem férias, tinha o direito de ir sem a permissão dele?







