Meu marido disse que sem ele eu estaria perdida. Não discuti — e fiz tudo à minha maneira.

— Cancelei o mestre e a entrega dos canos. Ficas o fim de semana sem água — para aprenderes quem é que manda nesta casa.

Foi o que o Rui me disse, de costas voltadas, com o tom severo de um senhor feudal a privar os escravos do direito à água potável.

— Este fim de semana vou para casa da minha mãe. Preciso de descansar dos teus eternos pedidos. Tenta, pela primeira vez, resolver problemas de homem sozinha. Deixa que a vida te ensine a dar valor a quem carrega esta casa às costas.

Estava no corredor com a mala de viagem pronta, peito estufado como se debaixo do casaco escondesse uma medalha por ter salvo a galáxia.

O Rui, durante anos, transformou cada lâmpada que apertou numa façanha de importância nacional, e cada talão da loja de ferragens numa condecoração de guerra.

Naquele momento, esperava que eu batesse palmas e me pendurasse na perna dele, a suplicar que não me deixasse à mercê de uma canalização avariada na casa de campo.

Olhei em silêncio dos sapatos engraxados dele para a gaiola no canto da sala.

Lá, no poleiro, limpava as penas o Louro — um papagaio-cinzento grande, meu procurador de penas com uma memória fenomenal para as asneiras alheias.

O Louro fitou o Rui com um olho amarelo redondo e grasnou com intenção.

— A estrada é tua, Rui — respondi com calma. — Mudar de actividade é o melhor descanso.

A insubstituibilidade masculina é um produto que se estraga rapidamente: basta uma vez prescindir dela, e transforma-se, aos olhos de todos, em simples incompetência profissional.

Mas o Rui ainda não sabia disso. Fungou alto, bateu com a porta da entrada com tanta força que caiu caliça do tecto, e partiu para o pôr-do-sol, para casa da mãezinha, a Dona Sofia.

Mal os passos se perderam nas escadas, liguei o computador.

A encomenda da reparação estava feita no número dele, mas ia ser paga com o nosso cartão conjunto.

No histórico de pesquisas do computador, que o meu marido, na ânsia da saída dramática, se esquecera de desligar, pendia uma nota de encomenda cancelada para uma bomba nova, canos e acessórios.

E ao lado, uma página de conversa aberta.

Fitei o ecrã, e o meu sorriso leve rapidamente se transformou numa fúria fria.

Na troca de mensagens com um amigo fornecedor, lia-se uma curta mensagem do meu marido: «Deixa a Inês ficar dois dias sem água, depois ela aceita qualquer preço.»

O Rui não queria apenas deixar-me sem água no fim de semana para depois voltar triunfante, salvador montado num cavalo branco.

Ele tinha encomendado os materiais de construção na empresa do amigo de escola, a um preço três vezes superior ao de mercado.

Ou seja, o «chefe de família» planeava não só castigar-me com a impotência, mas também escoar do orçamento familiar quatrocentos e cinquenta euros por aquilo que, no mercado de construção mais próximo, custava no máximo cento e cinquenta.

A pena que sentia pelo meu marido evaporou-se por completo. Começava uma simples aritmética.

Em duas horas, encontrei um fornecedor directo na base grossista. Em três minutos, combinei a entrega para sábado de manhã.

Mais quinze minutos para encontrar, num fórum local, um mestre competente, o senhor António, que aceitou fazer toda a montagem por um preço razoável, e não por aquelas quantias astronómicas que o meu marido costumava debitar como «complexidade do trabalho masculino».

O fim de semana na casa de campo não foi apenas produtivo; foi vivido com um prazer cínico especial.

No sábado, o senhor António trouxe tudo conforme a lista, instalou a nova bomba, soldou as ligações de plástico, substituiu os acessórios e ligou o sistema.

O velho aparelho, supostamente irreparável, ele desmontou ali mesmo, encontrou uma razão de cêntimos para a avaria (um simples contacto solto) e levou-o para peças, pagando-me cinquenta euros.

No domingo, às cinco da tarde, a casa de campo cheirava a erva acabada de cortar.

A nova bomba puxava água com o entusiasmo de um jovem stakhanovista, e eu estava sentada no alpendre, a dispor à minha frente talões, certificados de garantia e facturas.

O quadro estava perfeito. Esperava visitas.

A cancela rangeu às seis em ponto. No caminho surgiram duas pessoas.

À frente, como uma comissão rigorosa numa zona de catástrofe natural, caminhava a minha sogra. Atrás, com ar pesaroso de um Atlas cansado, arrastava-se o Rui.

Esperavam ver destruição, canteiros secos e eu a desesperar com uma chave inglesa na mão.

— Então, Inês? — começou a Dona Sofia, ainda antes de chegar ao alpendre. A voz dela escorria um doce veneno pegajoso. — Já percebeste que um homem em casa é a cabeça? Uma mulher sem marido, como se costuma dizer, perde-se ao primeiro prego! O Rui esteve tão preocupado, tão preocupado, o fim de semana inteiro não sossegou…

Nesse instante, da janela aberta da sala, onde estava a gaiola trazida para o Verão, ouviu-se um grasnar rouco e animado do Louro:

— A cabeça foi! A água chegou! A cabeça foi!

A minha sogra calou-se a meio, como uma cantora que perdeu a base musical.

O Rui esticou o pescoço e ficou a olhar para a torneira nova na parede da casa, de onde, a brilhar ao sol, pingava alegremente água.

A família é um barco onde um rema em silêncio e o outro critica a corrente, convencido de que é o capitão.

— Ora essa, Dona Sofia — nem me levantei da cadeira. — Nada de desespero. Entre, sente-se. Água há, canos trocados, pressão excelente.

— Como… trocados? — o meu marido pestanejou. — Quem fez? Tu não percebes nada disto! Devem ter-te enganado a cem por cento!

O Louro, sentindo uma plateia grata, aproximou-se das grades, abanou a cabeça e largou a tirada seguinte, copiando a entoação do meu marido nos mínimos detalhes de bazófia:

— Ela vem ter! Sem mim não safa! Deixa-a sentir! Deixa-a sentir! Herói do sofá!

O Rui empalideceu. A minha sogra virou-se, confusa, para a janela:

— Rui, o que é que o teu papagaio está a dizer?

— São coisas que ouviu na televisão — tentou justificar-se o Rui, miserável, a recuar para a cancela.

A importância inchada dele desvanecia-se a olhos vistos, dando lugar a um pânico evidente.

Mas o procurador de penas não se deixava calar.

— Diz à mãe! Diz à mãe! A Inês não consegue! — rematou o Louro, soltando uma gargalhada borbulhante e nojenta, onde se reconhecia sem erro o riso do Rui depois de umas cervejas.

No alpendre fez-se um silêncio tão absoluto que se ouvia o zumbido de um abelhão sobre o canteiro.

O rosto da Dona Sofia encheu-se de um vermelho vivo. Finalmente, percebeu todo o esquema do filho: ele não tinha «andado preocupado»; tinha montado uma sabotagem de propósito para depois se afirmar à minha custa, na presença dela.

— Agora vamos falar de quem enganou quem — peguei nos papéis da mesa e, com um movimento calmo, empurrei-os para a beira, perto do meu marido encolhido.

— Aqui está o teu orçamento cancelado. Quatrocentos e cinquenta euros por materiais do teu amigo. E aqui estão as minhas facturas. Cento e cinquenta euros por tudo com entrega. Mais cinquenta euros do senhor António pela tua bomba «morta».

Fiz uma pausa, a olhar para ele que desviava os olhos.

— Resumindo, Rui: a tua preciosa ajuda teria custado ao nosso orçamento trezentos euros de prejuízo limpo.

O Rui fitava os números com olhos vidrados. Mexia os lábios sem conseguir formar palavra.

— Rui… então tu querias tirar à Inês, através do teu amigo, o triplo? — perguntou a Dona Sofia em voz baixa.

Ela, que tanto gostava da palavra «homem», pela primeira vez naquela tarde não encontrou onde a aplicar.

Sem o seu trunfo principal — o filho genial — a minha sogra franziu os lábios até parecerem um cu de galinha e desviou o olhar. Defender um homem que se tinha deixado apanhar tão estupidamente em bazófia e desvio de dinheiro não cabia na sua visão do mundo.

Levantei-me, apoiei as mãos na mesa e olhei o meu marido direito nos olhos.

Depois juntei os papéis da mesa e guardei as minhas facturas numa pasta de plástico transparente, juntamente com o orçamento cancelado.

— Isto vai ficar guardado na pasta «decisões masculinas». Para a história. Para da próxima vez que quiseres ensinar-me a vida, termos logo o manual.

O meu marido abriu a boca, mas eu parei-o com um gesto.

— O orçamento familiar deixou de alimentar os teus amigos. Nem um orçamento, nem um mestre, nem uma decisão masculina sem o meu consentimento. Queres ser o chefe em casa? Começa por ser útil, não prejudicial. Enquanto só produzires palavras sonantes e défice de dinheiro, vais fazer o que eu disser.

Virei costas e entrei em casa. Atrás de mim, não se ouviram protestos nem as habituais palestras sobre o papel da mulher. Apenas um respirar pesado e humilhado.

Quando já ia a pegar no puxador da porta, da janela veio novamente o grito alegre do Louro, a pôr um ponto final gordo e definitivo na história:

— Herói do sofá! Mostra o recibo! Mostra o recibo!

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